Music

KT Tunstall

Oito motivos para não perder a passagem da cantora KT Tunstall pela Ópera de Arame, neste final de semana

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Texto por Leandro Delmonico

Foto: Divulgação

Em meados da década passada, a escocesa de ascendência chinesa KT Tunstall apareceu para o mundo com o hit “Suddenly I See”, lançado em 2004, no álbum Eye To The Telescope. A música acabou impulsionada ao ser incluída na trilha sonora do filme O Diabo Veste Prada e até hoje faz a artista viajar o mundo com sua mala e violão. Agora ela passa novamente pelo Brasil, para duas apresentações da nova turnê, referente ao seu disco mais recente, Wax. O Mondo Bacana te dá oito motivos para não perder o show dela, nesta quinta em São Paulo (7 de novembro, no Teatro Liberdade) e no domingo em Curitiba (10, na Ópera de Arame). Mais informações sobre estes concertos você tem, respectivamente, aqui e aqui.

Sucessos radiofônicos

Além de “Suddenly I See”, a cantora também emplacou outros sucessos em programações radiofônicas como “Other Side of the World”, “Black Horse & The Cherry Tree” e “If Only”. Três singles de Wax já foram lançados: “The River”, “Human Being”e “Little Red Thread”.

Apenas uma vez no Brasil

KT viaja o mundo. No entanto, esta é apenas sua segunda vez no país e a primeira em Curitiba. Também faz um bom tempo que ela não passa pelo Brasil. Mais precisamente onze anos.

Quem sabe faz ao vivo

A cantora tem como principal característica o espirito folk das ruas, um dos motivos pelo qual se surpreendeu quando sua música atingiu sucesso mundial. Ocasionalmente toca em lugares minúsculos, como em pubs e estações de metrô. Mas nada de playback!

One girl band

Outra peculiaridade de KT Tunstall, muito apreciada em Curitiba por sinal, é o fato dela se apresentar muitas vezes sozinha no palco, contando só com o auxílio de pedais e algumas programações. Isso a torna uma espécie de one girl band.

Discografia de qualidade

Apesar de não obter o mesmo sucesso do começo da carreira, ela continua lançando bons álbuns. Seu último trabalho é o disco Wax, do ano passado. São seis títulos no total de sua discografia.

Ligações com outros artistas

KT agrega peso à sua carreira cantando e tocando ao lado de artistas importantes da música pop como Daryl Hall e o grupo Simple Minds, além de interpretar versões de vários nomes bacanas como Prince, Jackson Five e Soundgarden

Integração com o local

Seu show combina perfeitamente com a Ópera de Arame, o clima intimista e o vozeirão rouco da cantora devem proporcionar uma ótima noite de domingo.

Ingressos ainda disponíveis

A pista vip da Ópera de Arame já está esgotada, mas ainda dá tempo de garantir seu ingresso. Os preços são bem interessantes para um show internacional. Partem de R$ 90.

 

Movies

Projeto Gemini

Will Smith precisa assassinar seu clone em trama dirigida por Ang Lee e que aposta na inovação da tecnologia de captação

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

Tendo a me preocupar quando um filme faz de sua tecnologia de captação o carro-chefe de sua estratégia de propaganda (milionária, é claro). Não quero dizer com isso que pouco importa a forma com que a produção foi efetuada, muito menos que a inovação de métodos e meios para tal deva ser ignorada, ou até mesmo não continuada. Pelo contrário. Acho interessantíssimo como uma obra busca na alteração de quadros/segundo um determinado efeito em sua mise-en-scène– o que não significa que esta deva ser a maior qualidade deste filme.

É o que ocorre em Projeto Gemini (Gemini Man, EUA/China/Taiwan, 2019) novo filme de Ang Lee, rodado em 120fps (quadros/segundo) a fim de garantir a nitidez em uma projeção de 60fps. Além disso, o filme conta com um Will Smith completamente clonado pelo CGI, com uma aparência extremamente jovial. Tudo isso funcionando para a narrativa de David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, que gira em torno de um superassassino, Henry Brogan (Will Smith), que é clonado pelo governo americano em busca da replicação de suas habilidades. Este clone, então, recebe a missão de caçar e assassinar Brogan, sem saber que ambos são, na verdade, “a mesma pessoa”. Premissa esta que, a princípio, é capaz de desenrolar-se numa trama competente, ao mínimo.

No entanto, Lee propõe algo avesso à própria narrativa, interessado apenas em seu espetáculo mirabolante em alta definição e nitidez. O efeito disso, além de um inicial estranhamento visual por conta da maior intensidade de quadros/segundo (que é sentida até em uma projeção nos tradicionais 24fps), é um filme completamente esquecível, incapaz de desenvolver novidades em seu arco. Ignorando completamente as barreiras espaço-temporais, Projeto Gemini parece pinçar elementos funcionais de outros blockbusters para fundi-los numa gororoba convencional de história de ação.

Isto se amplifica por uma interpretação muito aquém do elenco principal do filme. Will Smith não parece ter se empolgado com as nuances propostas pelo roteiro, soando à vontade apenas nos momentos herói fodão de seu personagem, enquanto Mary Elizabeth Winstead recebe pouco material para desenvolver-se em tela – no fim, não ajuda nem atrapalha. Clive Owen tampouco tem chão para criar um forte personagem, mas parece tão desinteressado quanto Smith. Resta a Benedict Wong, que opera como alívio cômico no filme, a maior consistência de atuação. O personagem pouco faz além de levar Brogan do ponto A ao B, mas ao menos Wong salta de cabeça nele, por mais raso que seja.

Quanto à música e o desenho de som, estes são completamente operantes. O mesmo pode ser dito da montagem, competente durante os diálogos e refinadíssima nas cenas de ação. É difícil entender o ritmo de um filme cujo efeito nos olhos do espectador é completamente diferente dos demais, e Tim Squyres, habitual editor de Lee, parece ter compreendido a missão e a executado com esmero.

Projeto Gemini é mais um filme esquecível com atuações esquecíveis, mas que, para quem não liga tanto para a história, pode até ser divertido. A tecnologia de construção de Smith jovem, por mais que falhe em uma ou outra cena, é muito bem utilizada. Mais um lançamento incapaz de empolgar, no qual nem o próprio elenco parece investido nisso.

Movies

Coringa

Joaquin Phoenix encarna com maestria o clássico vilão de Gotham em contundente história que metaforiza a psicopatia da sociedade atual

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Texto por Janaina Monteiro

Fotos: Warner/Divulgação

Sorria, mesmo que seu coração esteja dolorido. Sorria, mesmo que ele esteja partido. Charles Chaplin, que deu vida ao palhaço Carlitos, escreveu esses versos em “Smile”, música composta nos anos 1930 para o filme Tempos Modernos.

Mas como sorrir quando se é miserável de alma e conta bancária? Quando se é vítima de toda a sujeira mais imunda que o ser humano pode produzir? Quando o bullying e o abandono se arrastam pela vida adulta? Quando você perde emprego, vive sozinho, deprimido, e, pra piorar, sofre de transtorno psicótico? Esse é o dilema de Coringa (Joker, EUA, 2019 – Warner). No filme que leva o nome em português do personagem, o vilão se transforma em herói retratado de forma humanizada pelo diretor Todd Phillips (mais conhecido pela trilogia Se Beber Não Case). O aguardado e aclamado longa sobre um dos antagonistas de Batman, vencedor do último Leão de Ouro em Veneza, estreia nesta quinta-feira no Brasil cercado de polêmicas e protagonizado por Joaquin Phoenix, um ator com estrutura física e psicológica para viver o papel que já foi interpretado por Heath Ledger (morto por overdose acidental de medicamentos logo após terminar as filmagens de Batman: O Cavaleiro das Trevas), Jared Leto e Jack Nicholson.

O Coringa de Phoenix sorri por conta de sua psicose acompanhada de um distúrbio neurológico (ele ri incontrolavelmente a ponto de quase sufocar) e do seu trabalho como palhaço de rua. Arthur, na verdade, chora através de suas risadas histéricas. Ele é o freak, o weirdo, em busca de sentido de pertencimento no mundo cada vez mais apático e egocêntrico. Faz parte da escória da humanidade, que de tanto sofrer assume a personalidade de Joker e se transforma num monstro guiado pela violência nua e crua, similar à praticada por jovens armados em escolas e cujos massacres são exibidos e reexibidos pelos telejornais. Por isso a preocupação com a censura: no Brasil, o filme não é recomendado para menores de 16 anos.

A introdução mostra o drama de Arthur em seu ambiente hostil. Gotham City está infestada por ratos reais, numa analogia à Nova York do início dos anos 1980 quando o número de habitantes roedores quase ultrapassou a população. Arthur mora com a mãe num prédio decadente do Bronx e sonha em ser comediante de stand-up. O tempo todo ele é esculhambado, ridicularizado por colegas, agredido por gangue de adolescentes, refém de sua doença, dos remédios e da pilhéria da sociedade em que vive.

Phillips, que coescreveu o roteiro, conseguiu de forma soberba traduzir essa personagem dos quadrinhos capaz de causar tanto fascínio e terror. E humanizar o vilão, digno de pena. Todo o sofrimento serve como base de seu comportamento no decorrer da trama. Arthur não chega a ser um psicopata, pois consegue sentir compaixão: cuida da mãe tão perturbada quanto ele. E como todo psicótico, encontra fuga numa realidade paralela. Quando assiste, por exemplo, ao seu talk show preferido, chamado Live With Murray Franklin, imagina-se dentro do programa. Delira e encontra no apresentador  (interpretado por Robert De Niro) o pai que nunca teve. O mundo de Arthur está em vias de explodir quando perde o emprego, momento em que seu alterego passa a dominar.

O turning point acontece quando ele descobre a verdade sobre sua mãe, sobre o seu passado, sua doença, sobre o pai que nunca conheceu e que poderia ser o mesmo pai de Bruce Wayne, o Batman, super-herói nascido em berço de ouro. Thomas Wayne, bem ao estilo Donald Trump, é candidato a prefeito de Gotham e se refere aos pobres como sendo palhaços. O filme, aliás, faz um paralelo surpreendente com a história de Batman e confronta as duas personagens, dando uma suposta prévia do novo filme sobre o Homem-Morcego.

Na mente do Joker (o nome original do Coringa, em inglês), Arthur passa do homem ridicularizado, vítima de chacota e agressão, ao palhaço vingativo, terrorista. Sua satisfação vem através da violência. Em vez de estourar seus miolos, Arthur decide eliminar quem o ridicularizou. E poupa aqueles que o trataram bem, na maioria das vezes também minorias.

Cenas chocantes não faltam no filme, que alimentam a polêmica de fomentar atos de violência. Entretanto, o roteiro consegue a proeza de, em algumas delas, nos fazer rir com uma certa culpa por conta da atitude perturbada do protagonista. Phillips e Phoenix transformam em arte cenas de dança em que o Coringa comemora e parece emular Carlitos, incorporando gestos de tai chi. Aliás, o balé do Coringa foi feito de improviso. Joaquin e Todd não gostaram do primeiro resultado e o ator, gênio, começou a dançar, o que rendeu uma cena de beleza poética e transformou em marca registrada desse Joker.

A tensão é mantida do início ao fim, garantida pela riqueza da personagem e o brilhantismo do ator. Como é possível esperar qualquer coisa da mente de um psicótico, há tomadas tão carregadas de suspense que o espectador sente aquele frio na espinha. Somando a isso, a trilha sonora do filme é fundamental na manutenção dessa condição de ansiedade e expectativa. Muitas vezes, por si só, uma canção é capaz de dar sentido à determinada sequência. Como “Send In The Clows” (gravada originalmente por Frank Sinatra e interpelada por uma das vítimas do Coringa) e “Smile”, de Chaplin, sobre quem há faz várias referências durante esta história (o homem por trás de Carlitos era um gênio, filho de mãe doente mental e que acabou tendo fama de pedófilo).

Além de close-ups reveladores e movimentos de câmeras sempre em sintonia com o tom sombrio do filme, Phillips também faz uso de elementos não verbais para mostrar o conflito de personalidade e a angústia de Arthur. Exemplos disto são as cenas em ele aparece numa escadaria, sinônimo de verticalidade, representando os planos do espírito, da mente, a ligação entre o céu e a Terra. A trama, aliás, é tão bem costurada que o espectador não consegue definir quais são momentos de delírio e sanidade da personagem até que, quase na metade do filme, um flashback desnecessário surge como uma explicação para os improváveis desatentos.

Muito mais que a história de um conflito pessoal, Coringa é a metáfora de uma sociedade que caminha para uma psicopatia, na qual seus cidadãos usam da violência, desprezo, abandono para resolver diferenças e exigir seus direitos, num mundo em que a raiva toma conta e os fins justificam os meios. Essa sociedade exclui, ignora, marginaliza e trata essas pessoas como meros clowns.

Quando o protagonista se transforma em vigilante, há referências claras a Guy Fawkes e críticas evidentemente políticas a injustiças sociais, como o fato da extinção do serviço social que garante os remédios de Arthur.

Coringa é um soco na cara. Pisa na ferida e escancara a violência de modo brutal, pura, ácida, nua e crua. É um papel tão forte, poderoso, trágico que só um Phoenix (irmão do ator River, morto por overdose em 1993, aos 23 anos de idade) para encará-lo de forma esplêndida. O ator emagreceu 23 quilos para encarnar o vilão e lembra Christian Bale em O Operário (Bale, aliás, foi Batman nas telas). Nessa nossa sociedade delirante, nem todos são psicóticos, mas pobres mortais são, sim, todos palhaços.

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Represálias

Por evocar a violência e transformar o vilão em herói, embora a Warner negue isso, o filme vem sofrendo represálias e chegou a ser proibido em Aurora, cidade norte-americana onde um rapaz supostamente inspirado no Coringa abriu fogo numa sala de cinema matando doze pessoas em 2012. O medo é que este novo filme inspire novas tragédias. O diretor Todd Phillips, porém, diz que não é justo fazer essa associação. “É um personagem de ficção num mundo fictício que existe há 80 anos”, justificou Phillips numa entrevista.

A Warner divulgou um comunicado respondendo a uma carta escrita por familiares do massacre de Aurora, enfatizando que violência por arma de fogo é um assunto crítico e que o estúdio tem uma longa história de doações a vítimas de violência, incluindo esta cidade do estado do Colorado. “Ao mesmo tempo, a Warner Bros acredita que uma das funções da arte de contar histórias é provocar diálogos difíceis sobre questões complexas. Não se engane: nem o personagem fictício Joker, nem o filme, é um endosso de qualquer tipo de violência no mundo real. Não é esta a intenção do filme, dos cineastas ou do estúdio manter esse personagem como um herói”, declarou a empresa.

Movies

Corgi: Top Dog

Obra assinada por estúdio belga traz humor não muito infantil e diversidade ao mundo dos longas-metragens em animação

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Dominado por Pixar, Dreamworks e Illumination, o mercado dos longas-metragens animados ocidentais precisa de um respiro de seu monopólio, a fim de garantir novidade. Não que estas empresas façam trabalhos ruins apesar de nem sempre vemos bons resultados, mas toda diversidade é benéfica. Corgi: Top Dog (The Queen’s Corgi, Bélgica, 2019 – Imagem Filmes), produção do estúdio belga nWave Pictures, traz uma boa supresa para o cenário da animação neste ano.

A trama, dirigido por Vincent Kesteloot e Bem Stassen, revolve em torno da fuga do corgi Rex, que ocupa o posto de Top Dog da Rainha da Inglaterra, quando este sofre uma tentativa de assassinato de seu melhor amigo, que cobiça seu posto. Rex para num canil, conquista amigos por lá, enfrenta um bravo pitbull e volta para casa a tempo de salvar o dia. Estruturalmente, o roteiro de Rob Sprackling e Johnny Smith não inova o gênero, muito menos se destaca por seu humor. Ao longo do filme, cujo público-alvo é claramente o infantil, o espectador sente-se inclinado a não gostar do protagonista. Afinal, Rex beira a arrogância em seus confrontos iniciais, e, principalmente, sente falta do humor infantil. Embora as sutis indicações de humor adulto sejam mais que bastante para animar os adultos da sala, sua correspondência infantojuvenil é praticamente inexistente. Além disso, os personagens da trama são rasos demais para garantir a empatia do público. Não temos indicações suficientes de quem eles são, a não ser o que nos é contado pelos mesmos. Assim, a camada de apoio da trama fica diminuta perante um Rex responsável por todo o arco do filme.

Tecnicamente, porém, o trabalho é muito promissor. Com exceção de um único personagem, todo o traço de Corgi: Top Dog, bem como sua animação de fato, procuram criar uma estética e fluidez próprias de seu universo. Aqui, a nWave desenvolve um estilo próprio de Rex e seus amigos, sem fiar-se no visual já consolidado de outras empresas. Neste sentido, Kesteloot e Stassen operam com eficiência. As cenas de ação do longa também funcionam bem – este é um filme bem feito, afinal de contas.

A dublagem brasileira, como de costume, é competente. No entanto, acredito ser necessário assistir a quaisquer filmes em sua linguagem original, a fim de obter a visão intentada por seus criadores na totalidade. Sendo assim, não há muito a declarar a respeito da atuação aqui.

Esta é mais uma animação capaz de entreter os adultos (em especial durante a primeira metade, recheada de humor ininteligível pelas crianças da sala), mas que lutará pela atenção de seu público-alvo, ainda que com uma estética fofa o suficiente para instigá-los. Resta saber se Corgi: Top Dog venderá satisfatoriamente, alçando sua produtora ao rol das grandes da animação ocidental.