Com comovente simplicidade, longa mostra o esforço de uma família de imigrantes coreanos na busca pelo sonho americano de prosperar na vida

Texto por Andrizy Bento
Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação
Minari é uma planta originária do leste do continente asiático, com um forte sabor de ervas, utilizada para temperos na Coréia do Sul e que possui fins medicinais. Por aqui, no Brasil, alguns costumam se referir como agrião coreano. O cultivo dela na nova terra em que seus descendentes têm grande probabilidade de crescer e iniciar o seu legado é o principal elo que se forma entre uma excêntrica avó e seu aparentemente frágil e esperto neto. Assim, Lee Isaac Chung – que acumula as funções de diretor e roteirista – compõe um delicado drama familiar, repleto de camadas e com um toque autobiográfico.
Os Estados Unidos são conhecidos como a terra das oportunidades. É para onde muita gente vai disposta a correr riscos, sair da zona de conforto e, às vezes, até abrir mão do pouco que têm em busca do famigerado sonho americano. O tal sonho americano já serviu de plot para inúmeras narrativas, especialmente no grande ecrã. Já vimos filmes que retratam essa ilusão de variadas formas: românticas, idílicas, líricas, trágicas. Mas poucas vezes o tema foi abordado com tamanha honestidade e pureza como em Minari – Em Busca da Felicidade (Minari, EUA, 2020 – Galeria Distribuidora).
O longa versa sobre imigração, diferenças culturais e religiosas, dificuldades de adaptação e, sobretudo, os tão poderosos quanto tênues laços familiares. A trama é extremamente simples, focando na tocante trajetória do clã Yi, os problemas ocasionados devido à sua não familiaridade com a vida, os costumes e tradições provincianos e os conflitos geracionais emergentes da relação entre as crianças e a exótica avó.
Na trama, que se passa na década de 1980, uma família coreana deixa a cidade da Califórnia em busca de um recomeço na zona rural de Arkansas. É evidente que as coisas não saíram como o planejado no antigo lar, portanto, Jacob toma a iniciativa de mudar-se com a mulher e os filhos e começar a plantar em suas novas e inexploradas terras, dando início a uma fazenda. Sua esposa não vê com bons olhos o empreendimento arriscado de seu marido. Ela já está contrariada com a situação de ter de morar em uma casa móvel com os filhos, em um local afastado de seu novo emprego, em uma granja e, especialmente, do hospital. Isso porque o caçula, David, tem uma doença cardíaca e, segundo o que ela ouviu dos médicos na Califórnia, seu coração pode parar a qualquer momento.
O casal entra em conflito, o que aborrece os pequenos. Para agravar esse quadro de tensão, outra personagem é inserida na trama: a mãe da mãe das crianças, que chega da Coreia do Sul, com hábitos curiosos e por quem David, inicialmente, mostra uma sincera antipatia. “Ela não parece uma avó de verdade”, repete ele constantemente. Segundo o garoto, uma avó deveria saber fazer biscoitos, não deveria praguejar e nem usar roupas íntimas masculinas. Contudo, logo a antipatia se converte em curiosidade e, pouco a pouco, David vai estabelecendo uma bonita relação com a sua avó.
Lançado mundialmente no Festival de Sundance de Cinema em janeiro do ano passado, no qual se sagrou vencedor do Grande Prêmio do Júri, o longa traz ao menos um rosto conhecido do grande público, Steven Yeun (o Glenn de The Walking Dead) no elenco e na produção executiva, além do adorável ator-mirim Alan S. Kim (ganhador do prêmio de melhor ator Jovem no Critics’ Choice Awards) que forma uma deliciosamente improvável dupla com a magnânima Youn Yuh-jung (vencedora do SAG Awards de melhor atriz coadjuvante) – dois atores de faixas etárias diametralmente opostas que mostram uma inegável sintonia na tela. E é essa interação entre o afinado, grandioso e merecidamente premiado elenco que constitui a força-motriz do longa.
Ainda que pareça tentador explorar cenários tão magníficos, o diretor de fotografia, Lachlan Milne, não se rende à perfumaria, planos reverentes e eloquência na construção de imagens. Apostando em uma câmera discreta e elegante e na composição de quadros singelos que garantem naturalidade à trama, Minari apresenta paisagens luminosas, cores saturadas e vibrantes que trazem uma sensação de acalento, calidez e refúgio. Lee Isaac Chung ainda deixa seus atores à vontade em cena, extraindo boas e honestas atuações de todos eles. O realizador se preocupa em capturar a vida acontecendo na tela, filmando com extrema simplicidade. Para completar, a trilha sonora confere tanto tensão quanto melancolia a momentos bem pontuados, corroborando um clima acertadamente trágico em algumas das cenas essenciais.
Até mesmo a mensagem que Minari transmite é de uma simplicidade comovente, mas que não permite que o filme enverede pelo sentimentalismo barato. Tudo o mais pode se dissipar: os sonhos, as conquistas, a própria família, porém, o afeto e os laços perduram. Ainda que seja um momento difícil, os obstáculos enfrentados nos fortalecem. E Minari consegue nos dizer isso de modo objetivo, direto, simples, mas sem lançar mão de recursos manjados, padrões narrativos e atalhos dramáticos.
Quase todo falado em coreano e com pontuais linhas de diálogo em inglês, o filme de Lee Isaac Chung talvez seja o mais americano dos longas a chegar às telas nos últimos anos, expressando bem a aventura pelo tal sonho americano e o apresentando como um sofismo. No fim, o que resta é mesmo o sentimento que, por sua vez, não tem restrições territoriais. É universal.
>> Minari concorre no dia 25 de abril ao Oscar 2021 em seis categorias: filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro original e trilha sonora