Music

Sofar Sounds #33 – ao vivo

O piano-voz de Kübler, o intimismo de Rosie Mankato e o inclassificável Itaercio Rocha foram as atrações da mais recente edição em Curitiba

Itaercio

Texto por André Mantra (Cena Low-Fi)

Fotos de Eve Ramos

Não dá para falar do Sofar Sound(s) sem explicar o que se trata. Mesmo que neste formato seja a edição #33 em Curitiba e no seu quarto ano nesta capital, mesmo sendo a nossa primeira resenha a respeito – por isso, a nossa mea culpa assumida junto à contextualização. O projeto foi criado em 2009, em Londres, através do trio Rafe Offer, Rocky Start e Dave Alexander e então, quase dez anos depois, está presente em 418 cidades pelo mundo, apesar do seu formato clássico ainda permanecer ativo: um local secreto, com público secreto (inscritos e selecionados) para apreciar artistas e principalmente a sua música. Uma experiência aparentemente surreal a cada dia que vivemos, levando-se em conta os tempos atuais de reclusão, intolerância, aplicativos e redes sociais.

Na capital paranaense, as edições locais tem apresentação, curadoria, assinatura de produção e realização das parcerias ficam por conta de Aline Valente Lobo (sendo a Cactus Raius Arte & Rock’n’Roll a produtora). As apresentações são curtas, em formato pocket show, em média de 30 minutos durando de 4 a 6 canções de duração. Por isso, é fundamental um set list bem elaborado para que o artista possa mostrar o seu melhor naquele momento. Outra característica é que normalmente são convidados nomes novos, sem um grande público formado, o que combina com a quantidade de expectadores – um número inferior a 200 pessoas. Há também a ambientação e uma referência do que é capaz de promover a tal da economia criativa. Acredite(m), há mais detalhes a serem observados, contudo, ficaremos por aqui.

A última edição de Curitiba foi realizada em 23 de de setembro de 2018, no Rause Café & Vinho. Foram convidados para apresentarem-se nesta noite Kübler, Rosie Mankato e o classudo Itaercio Rocha.

kubler

A primeira atração surpresa adentrou o palco com lábios (intensamente) e olhos (ligeiramente) vermelhos. Ao microfone, a capella, começou a cantar “Botox” antes de sentar ao piano e finalmente mostrar a que veio. Aliás, esta é uma canção premiada em concurso musical, pois Kübler é um cantautor participante de vários deles; um artista muito refinado que usa seu talento aliando o lírico e o popular através do canto técnico e uma musicalidade bem elaborada mas sem excessos, com letras irônicas, críticas e autocríticas – e também amores (conquistados e perdidos). Os ouvintes mais antigos e desavisados poderão compará-lo a Eduardo Dussek. Prestes a lançar seu primeiro trabalho e se dedicar mais ao ofício musical, realizou uma boa apresentação. O melhor momento ficou por conta da canção “Cante Comigo Esse Refrão Clichê de Pop Farofa”, quando toda a platéia cantou… o refrão. Por ter sido uma apresentação basicamente de voz e piano, era possível ouvir, pasmem!, o funcionamento do bar do local.

Ao lado da baterista Carolina Pisco (da banda Mulamba) e do baixista e produtor Fabrício Rossini, Rosanne Machado voltou a virar Rosie Mankato e realizou um pocket show consistente. Também a contou com a participação de Klüber que, ao piano e de improviso, participou da primeira e da última músicas. Foram momentos muito bons. Rosie soltou a voz enquanto cantava e sussurrava enquanto falava com a plateia – embora nada disso tenha tirado o seu brilho e da apresentação em si. Já é possível notar a boa aceitação das canções novas e que não há amnésia em relação ao legado de sua ex-banda Rosie & Me. No final, ainda houve tempo de inserir um cover da cantora Kesha (“Die Young”). Naquela altura, o evento estava efervescendo.

Rosie Mankato

Depois de duas apresentações com a cara do Paraná – bilíngue, com raízes da MPB e do mundo (indie, pop e coisas dissonantes), pessoas que falam mais pela música que no discurso – lá veio a inclassificável entidade que atende por Itaércio Rocha (teatro de bonecos; o maior bloco de carnaval do estado, Garibaldis e Sacis; a banda Mundaréu e muito mais) veio defender o seu segundo álbum solo, após um longo período da sua estreia. Cabloco, este mais recente trabalho, reforça a musicalidade brasileiríssima e rica além do carisma e domínio da ação no palco, o seu habitat mais que natural. As novas músicas encantam, mas não mais que a figuraça que ele representa. Como resultado, uma quebra, definitiva, de gelo no Rause Café. O público presente, cuja média de idade ficava em torno dos 30 anos, estava em total descontração. A canção “Ele Me Ama”, que tem uma pegada bem dançante e o refrão “ele me ama, ele me ama, eu sei, ele me ama, mas não quer ser gay”, ecoava nos quatro cantos. Tanto que acabou repetida no bis.

A experiência da 33ª edição do Sofar Sounds Curitiba foi concluída com sucesso. Um evento que começa e termina cedo, mesmo aos domingos, em locais descolados, atrações que dialogam com o seu público, mesmo que ambos não sejam avisados, um clima de (re)encontro com @ crush. As surpresas proporcionadas por essa proposta de audição e participação dos envolvidos combinam perfeitamente com a vida de artistas, profissionais do meio fonográfico, sonorização, produtores culturais e os demais envolvidos.

Set list Kübler: “Detox”, “Valsa da Persuasão”, “Ismó Latra”, “Cante Comigo Esse Refrão Clichê de Pop Farofa” e “Parede Simplório (Quartevisão)”.

Set list Rosie Mankato: “Chino”, “The Big Fight”, “Shotgun To The Heart”, “Holler”, “Come Back” e “Die Young”.

Set list Itaercio Rocha: “Alvoradinha de Amor”, “Calunga”, “Ele Me Ama”, “Atotô + Olubajé”, “Cabloco” e “Igapó”. Bis: “Ele Me Ama”.

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