Music, TV

Karol Conka – A Vida Depois do Tombo

Oito motivos para você não deixar de assistir à série documental da Globoplay sobre a participante mais polêmica do BBB21

Texto por Abonico Smith

Foto: Globoplay/Divulgação

Foram necessários apenas dois meses para separar a saída de Karol Conká do Big Brother Brasil 21 e a estreia de A Vida depois do Tombo, série documental em quatro episódios que acaba de estrear nas opções de streaming da Globoplay. O foco aqui é justamente mostrar o que o título já adianta: como ficou a vida – pessoal e profissional – da rapper curitibana depois de sua passagem polêmica pelo reality show mais visto e comentado dos últimos anos na televisão brasileira.

Lá dentro da casa sitiada nos estúdios do Projac, no Rio de Janeiro, ela aprontou quase que diariamente por quatro semanas. Tretou diretamente com alguns participantes, chegando a demonstrar seguidas vezes um comportamento agressivo em toda a sua verborragia, o que assustou, irritou e desagradou quase toda a audiência. Não por acaso, a cantora conquistou a maior porcentagem de votos em toda a história do programa, não só no Brasil como também no mundo. Karol obteve quase todos os votos computados, deixando para seus então dois concorrentes na ocasião a divisão de menos de 1% da escolha para a eliminação daquela rodada – vale lembrar ainda que era apenas o quarto paredão da edição deste ano. Na manhã seguinte, ao ser entrevistada por Ana Maria Braga em seu programa matinal, ela não perdeu a chance de dar uma alfinetada com seu habitual deboche, dizendo que se sentia uma Carminha ou Nazaré Tedesco lá da casa, fazendo referência a duas supervilãs de novela que até hoje, anos depois, o público ama odiar.

Desde as inacreditáveis atitudes e declarações que Karol disparou na vigésima primeira edição do BBB que a artista vem sendo alvo de uma gigantesca campanha de cancelamento. Nas redes, nas ruas, no dia a dia. De artista com respaldo suficiente para garantir sua entrada no programa no grupo dos famosos (denominado Camarote) a alvo constante de xingamentos, racismo e até mesmo ameaças de violência à família foram pouco mais de dois meses. É justamente isto o que A Vida Depois do Tombo procura mostrar: como a rapper fodona, dona de língua superafiada vem lidando com a fama e a carreira depois de ter caído em desgraça durante a experiência televisiva recente e, sobretudo, suas reações ao se deparar com uma pequena retrospectiva das barbaridades que protagonizara. 

Abaixo, o Mondo Bacana elenca oito motivos para você não deixar de assistir ao documentário seriado. Tenha sido espectador(a) assíduo do BBB ou não. Seja fã de rap ou não. Seja alguém que ama a cultura pop ou não.

Extrema rapidez de realização

Da eliminação de Karol (última semana de fevereiro) à disponibilização do documentário (últimos dias de abril) passaram-se apenas dois meses. E além do prazo bastante curto, pode-se dizer que a produção foi extremamente ágil. Afinal, já a partir do segundo dia da rapper fora da casa as câmeras já a seguiam captando tudo o que acontecia ao redor dela, ainda no calor de todas as quentes reações de rejeição quanto a ela. Do reencontro com o conforto da família ainda no hotel no Rio de Janeiro à viagem rumo à casa em São Paulo e a volta gradativa à normalidade do cotidiano com cachorro, comida caseira e o trabalho de criar e gravar canções em estúdio.  Então tudo ali se passa antes mesmo do fim desta temporada do BBB. Tudo em 25 dias consecutivos. E mais: antes mesmo de Karol ter voltado à casa na noite da final, para cantar justamente a música “Dilúvio”, com parte da letra sobre esta terrível experiência. Mais up to date com os fatos impossível!

Cancelamento que passou dos limites

Karol cometeu erros execráveis lá dentro da casa, tanto que foi eliminada com a maior porcentagem de toda a história em todas as franquias do Big Brother no mundo. Só que toda a reação de cancelamento a ela foi desproporcional, como mostra o documentário. Para começar, antes da votação maciça, ela foi “homenageada” com diversas paródias (sem um pingo de graça, aliás) com vídeos superproduzidos e upados no YouTube. Na noite do paredão, foram registradas comemorações com o estouro de fogos e muitos gritos com xingamentos para ela. Nos dias subsequentes à saída, vem o pior: o sofrimento com contínuas ameaças à família, sobretudo ao filho adolescente, na escola e na internet. Agora ficam as perguntas. Será que o ódio dado a ela não passou de todos os limites também? O que ela fez justificaria o que recebeu, tal qual a expressão “olho por olho, dente por dente”? E mais: isso aconteceria da mesma forma se não fosse ela mulher e preta?

Black Mirror mode on

A Vida Depois do Tombo é uma série documental feita já para o streaming. Então o seu público-alvo é aquele que está justamente acostumado com o maior chamariz destas plataformas: as séries. Para mostrar as reflexões de Karol acerca de seus erros mais recentes foi armado todo um circo tecnológico em um estúdio. Ela fica no meio, sentada em uma cadeira, com meia dúzia de telões gigantescos mandando mensagens escritas a ela, da forma mais direta e objetiva possível. Quando não são revividas imagens-chave de seu comportamento inadequado no BBB, aquilo ali fica piscando intermitentemente com os letreiros direcionados a ela. Passa uma sensação de pequenez a quem está no centro das atenções e recebendo um bombardeio de adrenalina. Os (bem) mais velhos podem se lembrar de um programa que a TV Record exibiu entre 1968 e 1971, chamado Quem Tem Medo da Verdade? e que submetia importantes artistas brasileiros daquela época a uma espécie de tribunal inquisidor baseado em polêmicas sensacionalistas. Já os mais jovens… bem, estes vão poder disparar “mas isso aí é bem Black Mirror, hein?”.

Flagrante durante o dilúvio

Um dos grandes acertos do documentário é justamente dar uma de BBB fora do Projac e dentro da casa da cantora. Durante uma reunião, com a câmera afastada da mesa, a assessora de imprensa de Karol é flagrada dando instruções a ela sobre como proceder durante a (temida) entrevista no Domingão do Faustão. “Fala que você surtou lá dentro”, orienta a profissional de comunicação, sem qualquer pudor. Quem também está nesta reunião é o produtor que comanda as redes e a equipe ao redor da rapper.  Ele ganha uma bronca por ter se precipitado em algumas decisões durante o dilúvio do cancelamento descomunal e dispensado gente sem o o conhecimento e o consentimento da “patroa”. Não resta a menor dúvida de que todos ali não se deram conta de que estavam sendo filmados…

Carreira no rap curitibano

Nem só de BBB vive A Vida Depois do Tombo. Outro belo acerto do documentário é deixar o passado recente de lado e mergulhar em toda a trajetória profissional de Karol e mostrar como a jovem Karoline se encontrou com o mundo do ritmo-e-poesia e decidiu focar todas as suas energias nele. Através de depoimentos do ex-marido e pai de seu filho, o rapper e produtor Cadelis, é desvendada a sua breve ascensão no hip hop de Curitiba, uma cidade outrora brindada em outras grandes cidades do país pelas suas guitarras barulhentas. Depois de um breve período de afastamento dos palcos por causa da maternidade, Karol voltou com tudo para lançar (em 2013) um primeiro álbum acachapante, adicionando doces melodias e elementos de música brasileira às batidas quebradas e ao canto falado. Daí em diante o estouro foi meteórico, chegando a fazer turnês pelo exterior e se apresentando na cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro (2016).

Trajetória pessoal x obra profissional

Se existe um gênero musical bastante transparente na história da música pop ele é o rap. Quase sempre a vida pessoal dos artistas influencia diretamente a criação das letras e ilustra a trajetória deles em discos, declarações e atitude. Com Karoline dos Santos Oliveira não foi diferente. E o documentário também vai através de rastros da infância e adolescência que moldaram a persona Karol Conká. Um dos momentos mais fortes é sem dúvida quando ela e a mãe passam a limpo a relação com o vício etílico do falecido pai e os problemas de bullying e racismo enfrentados nos tempos de colégio. A soma destes dois elementos praticamente forjaram uma Karol que sempre se obriga a ser forte emocionalmente e, sobretudo, defender-se com a língua, fazendo da fala e do discurso suas armas mais afiadas – a ponto de ferir gente e gerar um alto índice de rejeição nacional, como bem foi demonstrado em sua passagem pelo BBB.

Tretas em série

Batuk Freak, o primeiro álbum, foi um grande sucesso. Entretanto, revelou-se uma obra envolta em polêmicas durante e depois da sua concepção e gravação. No documentário, Karol revela ter se mudado para a casa do produtor artístico DJ Nave e sua esposa, a produtora executiva Drica Lara e vivido dias de extrema instabilidade emocional por lá. Depois de uma série de apresentações para a divulgação do disco, rompeu laços com a dupla, chegando às vias judiciais. Na sequência, Karol se aliou ao DJ Zegon, ex-Planet Hemp. Para seu selo gravou alguns singles com um som mais pesado, contundente e rápido. O maior hit da carreira dela, “Tombei”, foi uma destas gravações feitas para o selo eletrônico de Zegon na efêmera gravadora digital Skol Music e criadas ao lado da dupla Tropkillaz (isto é, Zegon e o beatmaker curitibano Laudz). Só que o tão esperado segundo álbum não saiu, ficou emperrado por anos – até Karol se associar ao terceiro produtor, o DJ Hadji, e assinar, enfim com a Sony Music para lançar Ambulante, em 2018, já tirando o pé do acelerador e se voltando mais a atmosferas pop. Pelo documentário, descobre-se que também houve altas tretas nos bastidores entre os dois. Tanto de Zegon, assim como Nave, proibiram o uso de sete de dez gravações no documentário, por também serem registrados como autores (à revelia de Karol, que, furiosa ao saber disso, questiona com um “mas fui eu quem escreveu as músicas”). As três composições restantes e ouvidas em A Vida Depois do Tombo, são parcerias de Karol com outros produtores. E se não bastasse serem destrinchados os desafetos com os ex-parceiros, ainda há uma boa parte dedicada à briga com outra grande rapper brasileira, a brasiliense Flora Matos. Flora se negou a gravar um depoimento. Sobre as confusões envolvendo Karol, Nave e Zegon, os três estão proibidos, por determinação da justiça, de se pronunciar sobre isso.

Operação Passa-Pano?

Assim que foi anunciado o seu lançamento, a série documental foi vista por muita gente como uma tremenda operação “passa-pano” da Globo para minimizar os danos provocados à carreira de Conka e a ela própria. Depois das quase duas horas divididas em quatro episódios, não é mesmo a impressão que ela passa. Com extrema coragem e ousadia, Karol se expõe ainda mais aqui. Muito de sua vida, carreira e suas atitudes acaba sendo escancarado e até explicado, porém não justificado. A tentativa de reconciliação com os concorrentes afetados diretamente por ela no BBB também acaba fracassando de certa forma, embora ela diga estar arrependida do que fizera e conseguir reconhecer os erros pelos quais pede perdão logo em seguida. Em uma entrevista exibida no Fantástico, a diretora Patricia Carvalho, entretanto, é muito incisiva na resposta à pergunta se a rapper iria gostar do que está mostrado na série. “Não, porque esta é a Karol diante do espelho. Durante o documentário a gente ficou em dúvida muitas vezes. Isso é falso ou é verdadeiro? Ela está sentindo isso mesmo ou está me manipulando?”, disparou.

>> Veja abaixo o clipe de “Dilúvio”, a nova música de Karol Conká, gravada logo após a saída do BBB21 e que tem parte da letra que fala sobre sua experiência no programa

Music

O Som do Silêncio

Drama fora do comum mostra como o baterista de uma banda rock tenta recriar sua vida após perder a capacidade auditiva

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Amazon Prime/Divulgação

O que fazer quando tudo que se ouve é o silêncio? Em O Som do Silêncio (Sound of Metal, EUA, 2020 – Amazon Prime) esse é o súbito destino de Ruben (Riz Ahmed), um músico e ex-adicto. Sentindo-se traído por seu corpo e incompreendido por quem ama procura ajuda de um grupo de surdos para aprender a viver sua nova vida. A direção perfeccionista de Darius Marder e a excelente atuação de Ahmed não deixam dúvidas de que esse é um dos melhores filmes da temporada.

Sound of Metal é um filme feito de sons e da ausência deles. A edição e mixagem de som são exemplares. É uma imersão em um mundo desconhecido. As mudanças de tonalidade e volume são esquisitos no começo, mas essenciais para o entendimento e o desenvolvimento da trama. Ruben é baterista de uma banda de punk metal, formada também pela sua namorada vocalista e guitarrista Lou (Olivia Cooke). A música e a sonoridade fazem parte de seu cotidiano, mas após a perda auditiva ele conta com a ajuda de novos amigos e o mentor Joe (Paul Raci) para se adaptar à nova vida. 

O longa subverte a lógica ao colocar o espectador para escutar sem entender boa parte dos diálogos no primeiro ato do filme. Quando Ruben chega à sua nova casa, ainda não sabe se comunicar por meio de libras, assim como a esmagadora maioria do público. Pela primeira vez, a minoria surda é a única que sabe o que se passa na tela. Essa é uma grande sacada do diretor para mostrar a grande deficiência de comunicação que a sociedade tem com aqueles que não escutam. Libras não são ensinadas nas escolas regulares. Como, então, socializar uma pessoa que não escuta? 

Riz Ahmed encarna o personagem de forma magistral. O ator (que também atua profissionalmente como rapper) consegue capturar a negação, a raiva e a aceitação da nova condição de Ruben de um jeito emocionante. Suas cenas com Joe são as melhores do filme. Nelas, além de acompanhar mais sobre a jornada do personagem principal, também é possível compreender mais a respeito da comunidade surda. “Surdez é uma cultura e não uma deficiência” afirmou Ahmed em uma entrevista promocional do longa.

O conceito de comunidade é um dos guias de Sound of Metal. Em sua nova casa, Ruben encontra conforto, amigos e experimenta um inédito senso de identidade e pertencimento. É justamente pautado nessa nova identidade que o músico deverá escolher como será seu futuro. Voltar ao passado ou seguir em frente?

Este acaba sendo um drama fora do comum. É o nascimento de um novo homem através de seus ouvidos. O som ao redor pouco importa: o xis da questão é o que Ruben sente. E, apesar das insistências de Joe em dizer que não há nada para consertar, será que ele ainda sente-se quebrado? Ou aprendeu a beleza da adversidade?  

>> O Som do Silêncio concorreu no dia 25 de abril ao Oscar 2021 em seis categorias: filme, ator, ator coadjuvante, roteiro original, montagem e som

Movies

A Voz Suprema do Blues

Chadwick Boseman e Viola Davis são os destaques de história centrada em estrela do blues americano das primeiras décadas do século 20

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Indicado a cinco Oscar e vencedor de diversos prêmios, a maioria por suas atuações, A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom, EUA, 2020 – Netflix) retrata um ícone do blues sob uma ótica tortuosa e enfoque absoluto no elenco. Inspirado na peça de August Wilson, o roteiro de Ruben Santiago-Hudson gira em torno de Ma Rainey, estrela do blues americano dos anos 1920 e 1930 interpretada por Viola Davis. Ela é o centro gravitacional de uma tensão crescente, que faz do estúdio de gravação onde se passa maior parte do filme uma panela de pressão. Ma é uma presença autoritária, envolta por seu sobrinho Sylvester e a amante Dussie Mae e em constante choque com os executivos do estúdio e membros da banda. Entre eles, Levee (Chadwick Boseman, em atuação que deve lhe render a estatueta póstuma dos Academy Awards), um trompetista soberbo e desrespeitoso – e que, além de tudo, constantemente dá em cima de Dussie. 

A direção assinada por George C. Wolfe empresta muito do estilo teatral que inspira o roteiro. As cenas seguem uma progressão verborrágica com grandes monólogos, atos muito bem definidos e desenvolvimento em pouquíssimas locações – características que indicam constantemente que, antes de um filme, o que vemos é uma adaptação do teatro. Essa sensação permeia toda a narrativa mas não se torna um incômodo de grandes proporções.

Manter a base teatral do roteiro cria um ritmo dinâmico de exposição e presenteia o filme com seus momentos mais genuínos. A banda, brilhantemente interpretada por Colman Domingo, Glynn Turman e Michael Potts (além de Boseman), estrela as cenas mais espirituosas e divertidas do longa, que balanceiam perfeitamente a sombriedade dos arcos de Ma e Levee. Ambos têm a chance de explicar, por assim dizer, seus temperamentos egocêntricos e mesquinhos, por meio de pesados solilóquios típicos dos palcos.

Contudo, a similaridade dos personagens se dá mais no campo dos defeitos que das qualidades. Seus conflitos não imprimem fragilidades ou benesses tanto quanto deveriam, o que os torna, no fim, personagens maus. Santiago-Hudson e Wolfe não redimem seus protagonistas de suas más ações e, muito pelo contrário, acabam por sacramentar sua indigestão. 

Este é, portanto, um filme (ou peça gravada, por falta de uma adaptação inventiva que aproveite o máximo da linguagem fílmica) que apresenta seus personagens como humanos defeituosos, mas soa interessado mais no adjetivo que na humanidade. Dotado de um blues interessante, embora não o suficiente para carregá-lo, o longa é, sim, uma panela de pressão. O problema é que o prato a ser preparado demora para ficar pronto e, quando se revela, é muito aquém das expectativas geradas. Pior que um filme sempre morno é um que ora borbulha mas acaba frio.

>> A Voz Suprema do Blues concorre no dia 25 de abril ao Oscar 2021 em cinco categorias: ator, atriz, direção de arte, figurino e cabelo & maquiagem

Books, Comics

José Aguiar

Autor curitibano proporciona uma rara e peculiar experiência de ler uma HQ em livro no qual faz bela declaração de amor pela sua CWB

Texto e entrevista por Abonico Smith

Fotos: Divulgação (capas e páginas) e acervo pessoal (José Aguiar)

Fazer declaração de amor a uma determinada cidade é algo comum em versos da música pop desde os primórdios do século 20. No cinema também é uma temática frequente nas últimas décadas, sobretudo na obra de realizadores mais autorais. Nos quadrinhos, a cidade pode também aparecer bastante aqui e ali, mas também entra mais como um cenário do que propriamente como um personagem de destaque nas histórias.

É justamente esse o grande diferencial de CWB, o mais recente título de José Aguiar pelo seu selo Quadrinhofilia. Lançado no final do ano passado, o livro é fruto de um projeto aprovado pela lei municipal de incentivo à cultura de Curitiba. Em suas páginas correm não só uma mas duas histórias que revelam todo o amor e o envolvimento do ilustrador e roteirista com a capital paranaense. Sob as três letrinhas do título – que compõem a sigla aérea utilizada para Curitiba – estão percepções individuais, experiências pessoais e fantasia, como ele mesmo faz questão de ressaltar no prefácio. Só que o protagonismo está exercido justamente pela cidade.

No total são duas histórias que correm em paralelo, uma lida de trás para a frente e a outra de frente para trás. Ambas com sua respectiva capa, ambas envolvendo uma maleta misteriosa. Naquela que corre em sentido tradicional ocidental, acompanhamos a aventura de um homem que sai de casa para enfrentar intempéries de todos os jeitos e tipos, sempre tendo como base a paleta de cores que vai do vermelho para o amarelo (o que passa a impressão de ser algo mais quente). No sentido inverso, como um mangá, uma mulher faz quase a mesma coisa, só que indo do vermelho ao azul (algo mais frio). Seriam um casal? O que há guardado dentro dessa mala? Estas histórias acabam por cruzar as narrativas no decorrer das páginas? E sem estabelecer aquela divisão tradicional dos quadrinhos em uma página, Aguiar troca o tradicional traço preto pelas nuances das tintas da aquarela para ressaltar um espaço povoado por lugares, ícones, símbolos, história, arte e arquitetura curitibana. Sempre de modo inusitado, inovador e, o principal, tão empolgante que põe o leitor no lugar de quem está de posse da mala. Todos estes ingredientes acabam fazendo deste caldeirão chamado CWB uma experiência única para quem é fã e admirador da arte sequencial.

O detalhe mais curioso, porém, é o fato de José Aguiar, apesar de toda a sua relação com sua cidade natal, dentro e fora da área dos quadrinhos, sofreu um golpe do destino e do acaso e não pode concluir nela esta sua obra. Pouco tempo depois de viajar para Leipzig com a família, para passar um tempo de aprimoramento como artista e educador, veio a pandemia da covid-19, o que impossibilitou qualquer chance de retorno para casa e o fez ter de terminar as artes todas em aquarela na cidade situada ao leste da Alemanha. Sequer conseguiu também estar presente no dia do lançamento de CWB em Curitiba (mais precisamente da Itiban Comic Shop, para onde foram destinados os exemplares à venda – aqui estão mais informações sobre como adquirir o livro). Até o último mês de fevereiro, aliás, ele permaneceu em território germânico diante de tantas incertezas e lockdowns promovidos de março de 2020 para cá.

Aguiar conversou com o Mondo Bacana sobre o novo trabalho, a sua Curitiba, a pandemia da covid-19 e o seu exílio involuntário ocorrido até o começo deste ano.

As duas capas/contracapas de CWB

Como surgiu a ideia de contar duas histórias diferentes e possibilitam duas leituras paralelas, nos sentidos de uma HQ tradicional e dos mangás?

Foi durante o processo de roteiro. Eu estava pensando sobre formas de narrar capazes de valorizar graficamente o espaço da cidade. Durante minha pesquisa consultei livros de imagens infantis, quadrinhos mudos, coisas que saíssem do lugar-comum em termos de narrativa. Quando percebi que o objeto livro era a cidade nas mãos do leitor, decidi situar cada protagonista num lugar diferente desse “mapa”. Assim seria possível que cada sentido de leitura marcasse um possível ponto de partida, o que permite que o livro possa ser lido tanto no sentido ocidental como oriental. Uma experiência que me desafiou muito.

Qual o significado do predomínio das cores em ambas as histórias? Uma é mais “quente”, com amarelos, laranjas e vermelhos. Outra é mais “fria”, com azuis, roxos e rosas.

As cores que ditam a paleta do livro vêm das folhas das árvores ipês que desabrocham no outono: rosa e amarelo. Por isso essas folhas estão sempre presentes. Como o projeto é algo que rompe com convenções, foi natural associar o rosa ao protagonista masculino e o amarelo a protagonista feminina. Fugir de estereótipos de gênero assim como a representação dos curitibanos brancos sem o clichê do descendente europeu sempre foram preocupações minhas. Também não queria fazer um livro de cartões-postais. Queria uma história que fosse viva de muitas formas.

O fato de ter utilizado a aquarela como técnica de desenho e colorização também influiu na questão das cores citada acima? Por que decidiu usar a aquarela?

Nos últimos anos tenho andado cansado da cor digital. É uma ferramenta incrível, porém perde na espontaneidade. A aquarela tem muito ruído e texturas que fogem ao controle e acrescentam espontaneidade no resultado final. Como CWB se trata de um trabalho mais subjetivo, acredito que não ficaria bom se fosse finalizado em outra técnica. A cada livro eu busco soluções adequadas ao conceito. Não gosto de ficar numa zona de conforto. Seja no tema, seja na forma com que executo minhas obras.

Em muitos momentos, quando postas lado a lado nas respectivas páginas de leituras, as duas histórias se cruzam em desenhos e referências. Foi fácil arquitetar isso? Houve alguma dificuldade?

Foi difícil no todo, prazeroso em cada parte. Eu precisei ilustrar já em formato livro para visualizar as viradas de página, espelhamentos, paralelos e invasões que a história proporcionava. Depois passei tudo a limpo e colori. Em resumo, fiz o livro duas vezes.

Aproveitando a pergunta anterior como foi o processo de desenho de ambas as histórias? Elas foram sendo feitas simultaneamente ou você construiu uma para depois realizar a outra?

As narrativas surgiram juntas. Minha ideia sempre foi que elas se somassem numa trama maior. O desenho veio de muita pesquisa de campo e bibliográfica. Durante mais de um ano fotografei locais que faziam parte da minha vivência na cidade. Depois fui ler a respeito deles e procurar outros ângulos para ilustrar. Quando chegou a hora de desenhar, eu já tinha um percurso mais ou menos bem traçado de quais lugares precisavam ser representados. Mas muito da trama se fechou nesse processo final.

Além da não linearidade na narrativa espacial do livro, muitas de suas páginas possuem uma não linearidade na forma de disposição dos quadrinhos, com muitas das ações de um deles interferindo no desenho de outro. Há inclusive o sumiço do espaço em branco tradicional que os separa e serve como apoio ao leitor para fazer pequenas elipses temporais no seu cérebro durante a leitura…

Sim, busquei quebrar com o máximo de convenções de leitura na busca de construções de páginas inusitadas. É um trabalho experimental. Uma oportunidade única de fazer algo que somente como autor independente seria possível. Até porque não consigo me ver convencendo um editor a investir num livro assim sem ver a obra pronta. Agora ela está aí para provocar e mostrar como são ilimitados os potenciais dos quadrinhos como linguagem e arte.

Na história do protagonista masculino há diversas referências sobre as histórias em quadrinhos de Curitiba de várias décadas. Qual foi o critério de escolha dos personagens e qual sua relação pessoal com eles?

Minha relação pessoal com a maioria deles é a de um descendente distante quando descobre um parente famoso até então desconhecido. Todos aqueles personagens antigos são, de certa forma, antepassados dos meus. Eu sou fruto de um momento histórico particular, quando o único espaço para veicular quadrinhos na cidade eram as tiras de jornal. Eles são parte de outras histórias que tornaram a minha e a de muitos outros artistas também possível. São todos personagens que representam não só suas épocas, mas a “alma” local, seja por meio de estereótipos, questionamentos ao status quo ou pelo espírito de entretenimento puro e simples presente em revistas, livros e jornais dos mais variados formatos. Esses personagens refletem um aspecto negligenciado de nossa memória cultural que é a importância da história gráfica e da imprensa local, que vem desde o século 19. Num dos textos que complementam CWB eu pincelo um pouco a respeito do contexto de cada personagem. Essas participações especiais são em grande parte fruto da pesquisa que realizei para o livro Narrativas Gráficas Curitiba – 210 Anos de Charges, Cartuns e Quadrinhos. O livro já foi impresso pela Biblioteca Pública do Paraná, mas que até o momento desta entrevista, ainda não teve lançamento por causa das limitações impostas pela pandemia da covid-19.

Como você se sentiu revistando vários de personagens seus mais de tiras e produções mais antigas, inclusive voltando a desenhar o Gralha?

Trazer o Boi, meu primeiro personagem publicado, para contracenar com a Malu, minha mais antiga ainda em atividade (o último livro dela saiu ano passado!) foi muito divertido. O Gralha é um projeto importante na minha formação pessoal. Mas ele é uma criação coletiva e que meus colegas mantêm viva. Não desenho uma HQ dele desde 2001. Então foi gratificante colocá-lo e também o Capitão Gralha na Gibiteca. Cena onde pude homenagear outros personagens locais criados dos anos 1980 até o presente.

O uso de certos personagens fantásticos, que você explica em um dos textos como sendo uma grande influência do animador Ray Harryhausen, caíram como uma luva para deixar a sua Curitiba deste livro com uma cara um tanto mais esquisita e estranha?

É uma história afetiva. Então convoquei meus afetos mais primais. Minhas fantasias mais queridas. Entre elas está o trabalho de Harryhausen, Jack Kirby, Moebius, Luis Gê, Juarez Machado… Quanto mais penso no assunto mais nomes que não citei no livro me ocorrem. É um trabalho sobre o qual ainda tenho muito o que pensar.

Páginas internas de CWB

As diversas referências gráficas de Curitiba foram desenhadas de cabeça através de memórias e lembranças ou você usou fotografias para procurar recriar tudo com o máximo de realismo possível?

Realismo é uma palavra forte. Eu diria verossimilhança, a ponto de conseguirmos reconhecer os monumentos e locais. Infelizmente não tenho memória fotográfica. Tudo que lembro e imagino é simplificado, cartunizado. Acho que é problema de pouco espaço no HD.

Em uma época como esta, quando desde o ano passado a capital paranaense sofre com a falta de chuvas e meses com rodízio de água nas residências, não teria sido mesmo uma ótima ideia ter provocado um tsunami pelas ruas do centro e do centro cívico?

Foi uma coincidência, como outras que podem trazer leituras diferentes para a obra. A escultura Maria Lata D´águaé a figura de alguém que provém a água para quem é carente desse item básico. Esculpida pro Erbo Stenzel, seu nome original é Água pro Morro. Para mim, ao deflagrar a enxurrada (ou tsunami) ela liberta os oprimidos e lava da cidade de quem a oprime. Quem leu o livro e conhece a cidade sabe contra quem a onda gigante se choca.

Em um dos dois textos que você assina no livro você fala de certas peculiaridades de comportamento e atitudes em relação a outras grandes cidades brasileiras…

Minha visão de Curitiba não é ufanista. Eu amo minha cidade mesmo sabendo de todos os seus defeitos. Reconheço nela um potencial de ser verdadeiramente mais justa, limpa e cosmopolita. Os elementos que uso na minha CWBnão deixam de ser críticas a nossa memória construída na omissão, por exemplo, do reconhecimento do papel da população negra e feminina. Creio que a metáfora adequada para CWB é a de que Curitiba deveria acreditar menos em sonhos formatados e ser ela mesma o sonho que sua população precisa.

Você também optou por não fazer histórias fechadas, com aquele final mais explícito concluindo as narrativas. Isso seria uma brecha para um possível segundo livro da “série”? Alguma vez você pensou em fazer mais livros enquanto estava produzindo este, seja com a sequência destas duas histórias ou até mesmo outras diferentes?

Essa história é um looping infinito. Não precisa continuar. É possível? Claro. Entretnto, não vejo necessidade. Se for para ramificar. que seja migrando para outra mídia, como animação, onde ela precisaria ser reimaginada. Seria um desafio mais interessante para todos. Curitiba pode ter infinitas histórias. Minha série da Malu e o livro Coisas de Adornar Paredes são ambientadas nela e completamente diferentes entre si. Outros autores locais também estão usando seu cenário, o que é muito bom. O mais importante é não ter vergonha de explorar nosso sotaque em novas ficções. Feitas sem ufanismo, sem deslumbre, mas com senso crítico e boas histórias.

Como foi concluir um livro com histórias sobre a sua memória afeitva de Curitiba justamente estando longe da cidade por causa da pandemia? Qual a porcentagem dele você produziu estando na Alemanha?

Eu cheguei com minha família na cidade de Leipzig, na região da Saxônia, em outubro de 2019. Na bagagem, as referências e primeiros estudos. Aqui concluí o roteiro e desenho. A ideia era ficarmos uma temporada, mas a covid-19 e cancelamentos de voos nos fez adiar um pouco o retorno. Minha esposa veio lecionar na Universidade de Leipzig e eu vim participar de eventos que foram cancelados pela pandemia. Antes de viajar, a ideia do distanciamento de meu lar parecia uma boa ideia para fazer CWB. Mas a pandemia deixou o processo mais doloroso, pois estávamos em isolamento e eu lá, só de corpo presente, com a mente e coração apertado no Brasil.

O que Leipzig tem que Curitiba não tem e vice-versa?

Eu acho ambas as cidades bem próximas, descontando a escala menor da Alemanha. Numa comparação bem superficial, dá para dizer que Berlim está para São Paulo e Leipzig está para Curitiba. Até no clima. Mas Leipzig tem a vantagem de um sistema de transporte muito mais integrado, inclusive com outras cidades. Curitiba tem o defeito de se achar europeia, quando deveria entender que é muito mais mista do que foi ensinada a acreditar. E Curitiba tem pinhão. Pinhão é vida! 

Como foi justamente lançar um livro sobre Curitiba sem poder estar presencialmente na cidade e fazer festas e eventos de lançamento?

Frustrante. Mas todos nós passamos por frustrações neste ano de 2020. 

De que forma você imagina Curitiba inserida no mundo pós-pandemia?Ela precisa se firmar como polo cultural alternativo e competitivo em relação ao eixo Rio-São Paulo. Durante a pandemia, um dos setores que mais sofreram, mas que mais trouxeram alento às pessoas, foi o setor cultural. Também gostaria de uma cidade que valorizasse mais os transportes alternativos e não poluentes, que fosse de fato um modelo de ideias e que não vivesse de nostalgia de realizações passadas que não dialogam com nossas necessidades presentes ou futuras. Mas isso é mais um desejo do que a imagem que projeto para o futuro próximo. Que, para mim, segue nebuloso enquanto o curitibano não aprender que é parte do Brasil.

Página dupla de CWB
Movies, Music

Framing Britney Spears

Documentário sobre a ascensão e queda da popstar choca por mostrar o tratamento impiedoso dado pela mídia sensacionalista a ela

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Globoplay/Divulgação

Num passado não muito distante, artistas eram perseguidos por fotógrafos stalkersPaparazzi de revistas de fofoca e tabloides internacionais ganhavam a vida com uma conduta nada ética, fomentando com cifras milionárias o jornalismo de celebridades que não poupava artistas nem princesas, vide o acidente que matou Lady Di e a derrocada da cantora Britney Spears. 

Este, porém, não é o cerne do documentário Framing Britney Spears: A Vida de Uma Estrela (Framing Britney Spears, EUA, 2021 – Globoplay), produzido pelo New York Times, que traz cronologicamente a ascensão e a queda da popstar. A cobertura vai do início em que ela surgiu como uma adolescente a la Lolita, doce, de voz afinada e cantando para um público-alvo adolescente, que basicamente idolatrava boy band, até o seu atestado de insanidade. 

O ponto de partida do doc é a polêmica sobre a tutela do pai, que tem poder sobre os bens de Britney depois dela ser considerada incapaz de gerir seus recursos. Tudo isso culminou na campanha #freebritney, conduzida pelos próprios fãs nas redes sociais, e que pede sua liberdade para fazer o que bem entender da vida. 

No início do filme, Jamie Spears já deixava claro que seu objetivo era ganhar dinheiro com a fama da filha, como outros tantos pais de pequenas celebridades mundo afora. Mas a maior vilã nessa história toda é a forma desumana, desrespeitosa, antiética, agressiva e machista (ou seja, tóxica) como a mídia sensacionalista e seus paparazzi tratavam Britney, a garotinha que nasceu na cidadezinha de Kentwood, em Louisiana, e começou a carreira participando de programas populares de TV, como o Clube do Mickey.

Aos 16 anos, Britney já era catapultada ao estrelato com o álbum Baby One More Time, que trazia o megassucesso que dava título do disco. Era 1999, o mundo estava apreensivo com o bug do milênio e Britney começava a namorar Justin Timberlake, que, pode-se dizer, assume uma grande parcela de responsabilidade na construção do “rótulo” de Britney na época. Quando o romance terminou, Justin fez alusão à cantora no clipe de “Cry Me a River”, no qual uma garota parecida fisicamente com ela surge como “a ex-namorada traidora”. Pressionado por fãs, o cantor chegou a emitir uma nota recentemente, pedindo desculpas pelas falhas e seu comportamento misógino.

O documentário traz relatos de pessoas próximas à Britney e jornalistas, inclusive do paparazzo que a acompanhou de perto e teve o carro parcialmente destruído por ela num ataque de nervos. É chocante ver que este fotógrafo não mostra sinal algum de remorso e ainda diz que Britney – que na época já havia até raspado o cabelo para chamar atenção – não pedia distância. 

A perseguição crescia na medida de sua fama. Até que a artista não suportou ter sua vida privada escancarada, sobretudo depois de ter seus dois filhos. O documentário recupera a entrevista na NBC em que Britney é alvo de duras críticas ao aparecer dirigindo com o bebê no colo. Ela chora e se desculpa. A cena é deprimente. 

A montagem do documentário conduz o espectador no jogo perverso em que Britney era submetida por parte da mídia. Em programas de entrevistas, ela parecia ser torturada por apresentadores num “paredão” no estilo Big Brother. Os jornalistas a faziam chorar em público e se preocupavam mais em saber sobre sua sexualidade do que a carreira em si. Aos poucos, Britney se transformava numa bomba-relógio, prestes a explodir. 

Depois de juntar os cacos, ela conseguiu se reconstruir, fazendo shows em Las Vegas, Entretanto, ainda precisa do consentimento do pai para tudo. Pelo menos até este ano, quando a tutela está prevista para chegar ao fim.

Hoje tudo mudou. São os artistas que publicam o que bem entendem na internet e espalham as fotos que querem por aí. O problema é que o dano de outrora está consumado. Só fica uma pergunta em relação a este passado ainda recente: quem pagou ou ainda vai pagar por isso?