Music

Pato Fu – ao vivo

Música de Brinquedo 2 chega aos palcos com hits “nada infantis” nas vozes de Genival Lacerda, Maria Alcina, Jane & Herondy e Eduardo Dussek

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Texto por Abonico R, Smith

Foto de Priscila Oliveira (CWB Live)

Se existe uma expressão que norteou o rock nas suas duas primeiras décadas de vida ela era “se permitir”. Sem regras para serem seguidas (pelo contrário até, o que valia era quebrar tabus e questionar dogmas) e provocando a sensação de liberdade até então não vivida diante da sociedade rígida e controladora, os artistas metiam sem medo o pé na porta do preconceito. Procuravam viver tudo que havia para viver. Até que, em meados dos anos 1970, veio a explosão do superascendente mercado fonográfico e sua consequente derrocada para o corporativismo representado pelo executivo de marketing e sua obsessão em equiparar melodias a cifrões. E assim, amarrado e sufocado, viveu o meio musical até recentemente, quando a internet chegou com tudo para bagunçar o coreto.

E onde se encaixa o Pato Fu no meio disto tudo? O que ele tem a ver com toda essa aparente viagem sintetizada pela trajetória do mercado fonográfico na segunda metade do século passado? Simples. O grupo mineiro sempre teve a sábia noção de que o “se permitir” é a mola-mestra para a sobrevivência a longo prazo. Ritmos e estilos vêm e vão. O crescimento quase sempre induz a certos diálogos para a adaptação ao sistema. Portanto procurar fugir das normas, dos padrões, das convenções e do estabilishment é a grande receita para perdurar sem o risco de cair em armadilhas do tempo e do espaço. Fechar olhos e ouvidos para as interferências do meio e focar a mente para percorrer um caminho próprio, independente de tudo e todos. Foi isso que o Radiohead fez neste mesmo período: transformou-se no gigante que caminha muito bem obrigado sem a ajuda de ninguém (a ponto de dar o xeque-mate na indústria perguntando na internet “quanto vale pagar pelo meu disco?”). Foi isso o que o Pato Fu, de uma maneira semelhante, também fez aqui no Brasil.

Os Fus sempre traçaram o seu próprio caminho, indepentemente das ações da gravadora a que pertenciam até a virada deste século. Nunca se fixaram a fórmulas recentes de sucesso no mercado do rock nacional (mistura com música regional brasileira, letras metidas a engraçadas, guitarras hardcore e vocais berrados). Também estabeleceram desde o início uma bela proposta autoral, a de nunca se repetir – leia-se fazer um disco com sonoridades próximas aos anteriores. E, o que é melhor, nunca sequer manifestaram o interesse de deixar sua Belo Horizonte natal para “tentar a vida” no tal do superestimado eixo Rio-São Paulo. Por tudo isso angariaram um amplo contingente de fãs de ultrapassa qualquer barreira de tribos urbanas e não segue qualquer linha de códigos visuais e comportamentais. Por tudo isso se deram ao luxo de já há alguns anos lançar os últimos trabalhos por conta própria, pelo selo autogerido Rotomusic, sempre tendo o auxílio poderoso de ações realizadas no universo online.

Eis que em 2010 a banda chegou ao seu passo mais ousado em Música de Brinquedo. O Pato Fu criou no estúdio montado na residência da vocalista FernandaTakai e do guitarrista-produtor John Ulhoa um álbum todo especial. Por conta de todo o clima familiar motivado desde o nascimento da filha Nina, em 2004, uma ideia veio junto com todo o envolvimento de Nina com a paixão e a profissão dos pais. “E se…? O Pato Fu sempre levou a sério essa pergunta e sempre pagou pra ver. Dessa vez a pergunta foi: e se gravássemos um disco inteiro só usando instrumentos de brinquedo? Não um disco de música infantil, mas um disco de música ‘normal’ filtrada por essa sonoridade”, escreveu John no site da banda, na época, para justificar de onde veio a ideia. “No entanto, desde o Daqui Pro Futuro (álbum de 2007) começamos a flertar com sons de caixinhas de música, realejos, pianos de brinquedo… Em algumas de minhas produções recentes usei muitos desses instrumentos, muitos comprados como presente à nossa filha, mas que acabavam invariavelmente na frente de um microfone na sala de gravação do estúdio que temos em casa”. Então, miniaturas (como os micro baixo e bateria, tocados de verdade pelo então baterista Xande Tamietti e Ricardo Koctus), tecladinhos casio e bugigangas que produzem os mais diversos tipos de som e barulho acabaram reunidas para dar forma a Música de Brinquedo.

O resultado foi um sucesso. O disco foi bastante comentado e rendeu um show com sete músicos no palco mais a presença de bonecos manipulados pelo grupo Giramundo. A turnê, extensa, parecia não acabar mais. Até que veio Música de Brinquedo 2, mais um disco, mais um show nos mesmos moldes do anterior e, previsto para 2019, mais um projeto audiovisual. Novas onze músicas, sucessos pop do passado e do presente, acabaram vertidas para o formato de instrumentos mirins ou inusitados (como apitos inseridos em frangos e pintos de borracha ou tubos de PVC “afinados” em diversas notas). E mais um repertório estrambólico foi montado, com resgates de pérolas de Eduardo Dussek (“Rock da Cachorra”), Maria Alcina (“Kid Cavaquinho”), Rita Pavone (“Datemi Un Martello”), Genival Lacerda (“Severina Xique Xique”), Jane & Herondy (“Não Se Vá”) e Raimundos (“I Saw You Saying”). Letras em inglês nada infantis, como “Every Breath You Take”, do Police, ou “Private Idaho”, do B-52’s, também compõem a graça do projeto. Tudo sempre respeitando o arranjo original, apenas transpondo notas, riffs, backings e batidas para a sonoridade “de brinquedo”.

Neste novo show, os bonecos monstrinhos Ziglo e Groco voltaram aos palcos para substituir os vocais infantis do disco e protagonizar novos esquetes de diálogos entre as músicas. Engrossando o set list, destaques do primeiro Música de Brinquedo (“Live And Let Die”, “Sonífera Ilha”, “Ovelha Negra”), hits cheios de fofura do próprio grupo (“Depois”, “Uh Uh Uh La La La Ié Ié”) e ainda um dos temas instrumentais mais populares do mundo dos games (da franquia Super Marios Bros). As crianças – como o que se viu no início da noite do último sábado, 20 de novembro, no Teatro Guaíra, em Curitiba – aprovaram e já saíram dançando e cantando tudo junto com a banda. Pais e parentes que as acompanham, fãs do Pato Fu desde os primeiros álbuns lançados pela banda nos anos 1990, também seguiram os pequenos na cantoria. E todo mundo se diverte. Até na hora em que o improviso toma conta na hora dos diálogos entre a banda quando um erro acidental acontece.

O projeto Música de Brinquedo pode não ser de músicas autorais de John Ulhoa (guitarra e vocais), Ricardo Koctus (baixo e vocais) e Fernanda Takai (violão e vocais), o mesmo trio que começou a banda lá no já longínquo ano de 1992. Mas não deixa de ser uma bela mostra como a criatividade e os desafios pessoais podem andar de braços dados para quem quiser enxergar um pouquinho mais à frente da zona de conforto, do óbvio, do estabelecido. Basta não ter medo de si próprio e, sobretudo, “se permitir”.

Set list: “Palco”, “Livin’ La Vida Loca”, “Kid Cavaquinho”, “I Saw You Saying (That You Say That You Saw)”, “Rock da Cachorra”, “Datemi Un Maretllo”, “Private Idaho”, “Severina Xique Xique”, “Depois”, “Ovelha Negra”, “Uh Uh Uh La La La Ié Ié”, “Every Breath You Take” e “Sonífera Ilha”. Bis: “Super Mario Bros Theme”, “Não Se Vá (Tu T’en Vas)” e “Live And Let Die”.

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