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Cazuza

Um olhar com o distanciamento do tempo sobre o cantor e compositor que morria há trinta anos e deixava marcas profundas na música brasileira

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Texto por Henrique Crespo

Fotos: Reprodução

E completam-se 30 anos sem Cazuza. Foi em 1990, numa manhã de sábado, no dia 7 de julho, que Agenor de Miranda Araújo Neto foi atropelado pelo trem da morte. O trem que cantou com voz falhando, em “Cobaias de Deus”, faixa de Burguesia, o álbum-despedida.  Lucinha Araújo, sua mãe, conta no livro Cazuza – Só as Mães São Felizes(escrito em parceria com a jornalista Regina Echeverria e publicado pela Editora Globo), que, na véspera, o filho a chamou com um fiapo de voz: “Mamãe, estou morrendo…”. Ela reagiu, indignada, dizendo para ele que não devia falar essas coisas. “Porra, mãe, eu tô morrendo é de fome. O que tem para rangar?”, o filho retrucou. Uma cena com a cara dele.

Caso a gente embarque nos exercícios especulativos sobre a possível vida presente de um artista que já morreu, como imaginar Cazuza nos dias de hoje? Difícil cravar o que diria ou como se posicionaria. Afinal, era um cara completamente imprevisível. Mas dá para apostar que aquela figura inquieta não caberia no Brasil atual.

O jovem tipicamente carioca, nascido e criado na zona sul, parte privilegiada da cidade partida, encontrou e se encontrou na música. A essa altura, todo mundo conhece a história que conta que Léo Jaime apresentou o amigo como candidato a vocalista da vaga que antes lhe fora oferecida, no recém-formado Barão Vermelho. Iniciava ali uma trajetória artística curta (de 1981 a 1990), mas impossível de ignorar. Algo como um fenômeno da natureza que passa causando efeito e deixando memória.

Cantor de voz rascante e bluesy, performer de formação teatral – e, no meio disso, o que se impunha, era sua verve letrista. Gravadas com o Barão, na carreira solo e por outros artistas. Deixou pouco mais de uma centena de registros, sem contar os vários poemas que ainda estão no baú e, quem sabe, ainda se transformarão em novas canções. Essas criações, na grande maioria em parceria com outros compositores, estão todas publicadas no livro compilação Preciso Dizer que te Amo (tamém assinado por Lucinha e Regina Echeverria, também editado pela Globo). Uma obra nem tão numerosa e nem tão pouca, porém de tamanho imensurável.

Um jogo divertido ao se embrenhar nela é pescar alguns versos e isolá-los. Funcionam como frases de impacto. É possível imaginá-las em camisetas, em postagens de rede sociais, até em cartazes de manifestações. Alguns deles parecem conter um livro inteiro de significados e reflexões. Tudo sem nunca deixar de soar como algo possivelmente dito numa mesa de bar. “Eu quero a sorte de um amor tranquilo/ Com sabor de fruta mordida/ Nós na batida no embalo da rede/ Matando a sede na saliva” (“Todo Amor que Houver Nessa Vida”, de Cazuza e Frejat); “Mais uma dose?/ É claro que eu estou a fim/ A noite nunca tem fim/ Por quê que a gente é assim?” (“Por que a Gente é Assim?”, de Cazuza, Frejat e Ezequiel Neves); “Nadando contra a corrente/ Só pra exercitar/ Todo o músculo que sente” (“Por Dia Nascer Feliz”, de Cazuza e Frejat); e “Raspas e restos/ Me interessam/ Pequenas poções de ilusão/ Mentiras sinceras me interessam” (“Maior Abandonado”, de Cazuza e Frejat), algumas entre tantas da época do Barão Vermelho, ilustram isso. Também da fase solo dá para pinçar trechos quase que aleatoriamente. “Não escondam suas crianças/ Nem chamem o síndico/ Nem chamem a polícia/ Nem chamem o hospício, não/ Eu não posso causar mal nenhum/ A não ser a mim mesmo” (“Mal Nenhum”, de Cazuza e Lobão); “As possibilidades de felicidade/ São egoístas, meu amor/ Viver a liberdade, amar de verdade/ Só se for a dois” (“Só se For a Dois”, de Cazuza e Rogério Meanda); “Meus heróis morreram de overdose/ Meus inimigos estão no poder/ Ideologia/ Eu quero uma pra viver” (“Ideologia”, de Cazuza e Frejat); “Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade!/ Pra essa gente careta e covarde/ Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade!/ Lhes dê grandeza e um pouco de coragem” (“Blues da Piedade”, de Cazuza e Frejat); e “Brasil mostra tua cara/ Quero ver quem paga pra agente ficar assim/ Brasil, qual o teu negócio?/ O nome do teu sócio?/ Confia em mim” (“Brasil”, de Cazuza, George Israel e Nilo Romero) são outros. E paramos por aqui porque a lista é grande.

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Foi no final de julho de 1985, na porta da gravadora Som Livre, pouco antes do Barão assinar o contrato para o quarto disco, que Cazuza comunicou sua saída. O filho único de João e Lucinha Araújo não parecia mais disposto a dividir atenção com uma banda e caiu fora, justamente quando o quinteto tinha virado um grande sucesso nacional. Maior Abandonado, o terceiro álbum deles, já estava com 100 mil cópias vendidas, quando o vocalista anunciou que estava fora. Mais uma cena com a cara dele.

Começava, então, o que podemos identificar como segunda fase da carreira de Caju (apelido que ganhara dos amigos). No mesmo ano da separação, lançou Exagerado, álbum que registrou três composições que – segundo o livro BRock – O Rock Brasileiro dos Anos 80, de Arthur Dapieve (Editora 34) – seriam gravadas no novo do Barão, caso tivessem seguindo o plano original. São elas “Boa Vida”, “Só as Mães São Felizes” e “Rock da Descerebração”, todas assinadas ao lado de Frejat – parceria esta que, desde o início, rendeu vários hits e clássicos e ainda iria se estender por toda a carreira do Cazuza. O álbum que lançou em 1987, Só se For a Dois, é uma espécie de continuação do primeiro solo. Ou seja, discos que ainda não definem com precisão o lugar do cantor e compositor no cenário da música brasileira. Claro que já deixavam explícito que o cara, mesmo solo – nunca sozinho, pois estabeleceu parcerias criativamente produtivas – estava acima da média. Os dois trabalhos renderam sucessos nacionais, momentos brilhantes e um repertório que ganhou versões e regravações de outros artistas. Por outro lado, ficam no meio do caminho entre deixar ou não o rock’n’roll pra trás.

Com Ideologia, Caju achou seu lugar, ou melhor, criou o seu lugar. O álbum de 1988 fincava a obra de Cazuza no cenário artístico brasileiro. É discoteca básica, é o clássico, o disco que achou o som do artista. Aquele que usa o rock com a conveniência maquiavélica, mas em essência é totalmente desprendido dessa fronteira. Não se faz nele um rock que se mistura à música brasileira, movimento que se anunciava nesse fim dos 80, mas sim uma MPB com linguagem pop que sabe fazer uso estratégico do rock. Sem falar no discurso, que é oportuno e afinado com o tempo. Gerou mais hits e clássicos.

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O disco ao vivo, lançado em 1989, é, provavelmente, a necessidade dele de sublinhar esse lugar. De brinde luxuoso, uma inédita. “O Tempo Não Pára”, canção que dá nome ao álbum e parceria de Cazuza com Arnaldo Brandão, é um torpedo certeiro, que pega a ideia de que a História se repete e manda um recado contundente, com reflexão nada leve sobre a vida. Uma música cheia de versos de forte impacto. O álbum é um registro da turnê do álbum anterior. Tour esta que foi um sucesso, mas rendeu muitas situações de tensão. Caju estava em tratamento, fazia algum tempo que  tinha sido diagnosticado com o HIV. E isso somado ao álcool e drogas, o deixava mais incontrolável ainda, como conta a mãe, no já antes citado livro Só as Mães são Felizes. Lucinha também diz que o filho declarou que, por não acreditar em vida depois da morte, queria viver todo o possível, chegar às últimas consequências. Nesse clima, Cazuza cuspiu – como protesto contextualizado – numa bandeira brasileira que foi jogada no palco. A repercussão na imprensa foi grande e nada boa. O mesmo livro lembra um fato curioso, mas que diz muito sobre o momento: a cuspida de Caju fez com que O Estado de São Paulo proibisse o nome do artista em suas páginas. Impossível não conectar isso com o fato de que neste show (e nesta turnê) Cazuza cantou “Brasil”, o sucesso que traz os seguintes versos: “Grande pátria desimportante/ Em nenhum instante eu vou te trair”.

O disco seguinte nasceu com o cantor e compositor já bastante debilitado de saúde. Burguesia é um legítimo e comovente registro do momento. Entre vinte canções, apenas quatro delas não traziam a assinatura dele. Foi lançado como álbum duplo. Irregular, com imperfeições, mas muito sincero e com alguns momentos arrepiantes, como a citada “Cobaia de Deus” (de Cazuza e Ângela Ro Rô) e “Quando Eu Estiver Cantando” (de Cazuza e João Rebouças). Um disco de despedida, carregado de honestidade.

Teve ainda Por Aí…, lançado em 1991. Como todo disco póstumo, é retalhado. São sobras de gravações de outros álbuns. A música que dá título ao álbum é uma nova versão da faixa do primeiro lançamento do Barão Vermelho. Aqui tem também o Cazuza em sua onda intérprete, no standard “Summertime” (Heyward e Gershwin), “Camila, Camila” (hit da banda gaúcha Nenhum de Nós) e “Cavalos Calados” (Raul Seixas).  De resto, são mais sete faixas com parceiros diversos. Cá entre nós, é um item só para colecionadores.

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Do que fez com os amigos do Barão Vermelho até as várias outras parcerias com tanta gente diferente, dá para encontrar alguns pontos em comum. Um deles é a capacidade de criar um ambiente, um cenário, cena que está intimamente ligada ao universo que ele circulava, o Rio de Janeiro da virada dos 1970 para os 1980 e por toda essa década. Além disso, nele estava o rock como espírito de época, mas as composições podiam ser vistas, em geral, como dor de cotovelo, samba-canção, música de fossa, o mundo da boemia. Algumas de suas criações poderiam ser ouvidas na voz de uma Maysa, por exemplo, sem causar estranheza. Duvida? Olhe isso: “Amor escravo de nenhuma palavra/ Não era isso que você procurava” (“Baby Suporte”, de Cazuza, Maurício Barros, Pequinho e Ezequiel Neves); “Se todo alguém que ama/ Ama pra ser correspondido/ Se todo alguém que eu amo/ É como amar a lua inacessível” (“Não Amo Ninguém”, de Cazuza, Frejat e Ezequiel) e “O teu amor é uma mentira/ Que a minha vaidade quer/ E o meu, poesia de cego/ Você não pode ver” (“O Nosso Amor a Gente Inventa”, de Cazuza, João Rebouças e Rogério Meanda).

Para o jornalista Zeca Camargo, no início de 1989, assumiu publicamente que estava com AIDS. Notícia que virou capa da Folha de S.Paulo de 13 de fevereiro. A coragem em assumir (lembrem-se era o ano de Mil Novecentos e Oitenta e Nove, ainda meses antes da queda do Muro de Berlim!) e a forma como lidou com as consequências dessa exposição são quase que continuações ou sintomas da própria obra do artista. Ou seja, cenas com a cara dele.

O compositor Cazuza já foi e ainda é muito gravado e regravado. A grande lista de intérpretes de sua obra tem a característica de ser heterogênea. De Ney Matogrosso – o primeiro – passando por Cássia Eller – uma das mais próximas ao espírito da obra – e seguindo por, entre outros, Marina Lima, Gal Costa, Ângela Maria, Simone, Sandra de Sá, Joanna, Supla, Bebel Gilberto e Léo Jaime, a lista revela que suas músicas não se fecham em um pequeno universo.

Caju, que morreu com 32 anos de idade, já foi tema de filme, peça e livro. Cazuza – O Tempo Não Pára, longa-metragem dirigido por Sandra Werneck, foi lançado em 2004. Antes, em 2000, com sucesso de público, sua obra inspirou uma história original que deu origem ao musical Cazas de Cazuza, escrito e dirigido por Rodrigo Pitta, e que há pouco tempo ganhou nova montagem. Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”, é um sucesso teatral escrito por Aloisio de Abreu e dirigido por João Fonseca, que estreou em 2013. Lucinha Araújo junto com a jornalista Regina Echeverria publicaram dois livros, os dois citados anteriormente aqui no texto: uma biografia pelo olhar da mãe e uma compilação com todas as letras dele.

Longe de esgotar o assunto, todo esse material gerado pela vida e música dele, ajudam a entendê-lo. Tem ainda uma lacuna aí, porém para o documentário. Quem se habilita?

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Johnny Hooker + Mulamba – ao vivo

Pernambucano encerra turnê em Curitiba fazendo deliciosa sessão de resistência cultural, desbunde e exorcismo de desilusões amorosas

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Johnny Hooker

Texto e fotos por Janaina Monteiro

Vingança, ódio, raiva são sentimentos comuns e completamente compreensíveis entre aqueles que já levaram o famoso pé na bunda. Afinal, quem nunca tomou um fora nessa vida? Comum também é extravasar toda essa revolta ouvindo aquela playlist “Especial Fossa” no último volume. Sair pela sala, como uma pessoa doida, berrando versos de dor de cotovelo que são campeãs do Spotify. Quem canta seus males espanta. Ou quem canta a depressão espanta.

A raiva faz parte do processo de esquecimento desses seres egoístas e covardes que vagam pelo mundo espalhando o desamor. Mas há quem sinta tanto, tanto ódio no coração partido que pensa em fazer macumba para se vingar, como Johnny Hooker. Se você já sofreu uma desilusão amorosa certamente já ouviu esse “hino do rejeitado” escrito pelo cantor pernambucano: “Eu Vou Fazer Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”. Assim mesmo, com ponto de exclamação, é a faixa que dá nome ao primeiro álbum de Hooker, o cantor da vida. O pernambucano, que já fez novelas e programas na Globo, também sofreu na pele a dor de ser abandonado subitamente. E essa foi uma das canções mais aguardadas durante o show de Hooker na Ópera de Arame, no último dia 7 de junho, para celebrar o aniversário da festa curitibana Brasilidades.

Hooker soube, como ninguém, dar uma reviravolta na situação, e lançou o segundo álbum, Coração, em 2017. O trabalho tem a faixa “Touro” que representa o fechamento do ciclo coração partido: “Viver, morrer, renascer/ Firme e forte como um touro”. Foi assim como um touro que Hooker aterrissou no palco da Ópera de Arame imponente – num figurino preto e dourado, com maquiagem impecáveis – e levando a plateia ao delírio ao tascar um beijo na boca do guitarrista de joelhos. Esse primeiro ato já foi o suficiente para o público se aquecer do frio de bater o queixo. De queixo caído fiquei eu, que até então pouco conhecia obra de Hooker, um artista híbrido, plural.

O pernambucano é um misto de Caetano Veloso, Ney Matogrosso e David Bowie. O performer-cantor-ator-compositor consegue transitar pelos mais diferentes estilos musicais sem muito esforço: axé, forró, samba, pop, rock, rumba, ska, bolero, jazz, blues, soul. E seu discurso é atual, potente, que representa as minorias. Com sua voz rasgada e debochada ao extremo, Hooker entoa hinos sobre amor marginal e a falta de amor. Assim como Liniker, como As Bahias e a Cozinha Mineira, como a banda curitibana Mulamba e como outros artistas que são resistência e contrariam o modus operandi brasileiro, Hooker é o desbunde em pessoa. Veio para escandalizar.

E bem ao estilo Bowie camaleônico de ser, o astro continuou o show de encerramento da turnê de Coração, com o público fiel e totalmente derretido pelos seus encantos. Os presentes, aliás, cantavam todas, mas TODAS as canções de cor. De coração. Algumas já foram temas de novela, como “Alma Sebosa”, incluída em Geração Brasil (na qual Johnny interpretou o músico Thales Saltado) e “Amor Marginal”, de Babilônia. O tecnobrega “Corpo Fechado” ( “Se depender do seu ódio, eu não morro mais/ Se depender da sua inveja, eu não morro mais/Se depender do seu veneno, eu não morro mais”), dobradinha com Gaby Amarantos, foi indicado na categoria de featuring do ano no MTV MIAW 2019 .

A apresentação é uma sessão de exorcismo de sensações e gestos. Todos pulam, se confraternizam, gritam contra os opressores. No set list não podem faltar homenagens aos mestres, como a deliciosa “Caetano Veloso”, que reverencia o baiano tropicalista, e “Beija Flor”, aquele axé contagiante da Timbalada (“Eu fui embora/meu amor chorou”). Antes de cantar “Poeira nas Estrelas”, Hooker explica que fez a canção para seu ídolo maior no dia em que ele morreu. Trata-se de “um réquiem sobre a morte de David Bowie e sobre a perda de uma maneira geral. É meu pedido para que aquele homem das estrelas não nos deixe aqui sozinhos sem uma luz para nos guiar”, tuitou o artista um dia sobre a obra.

A tal canção da macumba – que transforma a Ópera num terreiro – chega na metade do show. E todos na plateia se descabelam com ele, soltando o grito que estava preso na garganta. Com direito a fazer stories e mandar para ex. “Te desejo uma vida de desilusão/ Não desejo afago nem o perdão/ E que seja feliz com quem encontrar/ Mas, nunca mais volte aqui/ Profane o meu lar”. É como um Cee-Lo Green cantando “Fuck You”.

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Mulamba

O discurso que levanta a bandeira do protesto contra a homofobia também se fez presente no show de abertura, com a banda curitibana Mulamba, formada por seis mulheres de atitude rock’n’roll numa clara homenagem a Cássia Eller. Assistir ao show das “mulambentas” dá um certo orgulho de ser curitibana (eu nasci na Bahia, mas vivo aqui há muito tempo!). A sonoridade é potente. Os vocais, vigorosos. E a mensagem, crítica, atual. Como em “P.U.T.A”, que fala sobre violência e feminicídio: “Por ser só mais uma guria/ Quando a noite virar dia/ Nem vai dar manchete/ Amanhã a covardia vai ser só mais uma que mede, mete e insulta/ Vai, filho da puta”.

O convidado principal da noite também usa o intervalo entre as canções para discursar. “Equidade de diferenças é o que importa”. “Ser artista no Brasil  é um ato de resistência”. “Podem matar uma rosa ou duas, mas não podem deter a chegada da primavera”. Foram algumas das frases proferidas pelo pernambucano. E para arrematar o show-protesto, Hooker canta “Flutua” que gravou com Liniker. Com as mãos para o alto, todos entoam o refrão: “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”. Assim ocorre a transformação de toda a ira, ódio, sentimento de vingança em um ato de liberdade.

Set list Johnny Hooker: “Touro”, “Alma Sebosa”, “Corpo Fechado”, “Chega de Lágrimas”, “Caetano Veloso”, “Volta”, “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”, “Você Ainda Pensa?”, “Amor Marginal”, “Poeira de Estrelas”, “Coração de Manteiga de Garrafa”, “Boato”, “Beija-Flor”, “Escadalizar/Desbunde Geral” e “Flutua”.

Set list Mulamba: “Provável Canção de Amor Para Estimada Natália”, “Interestelar”, “Tereshkova”, “P.U.T.A”, “Mulamba” e “Espia, Escuta”.

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Morrissey – ao vivo

Ídolo britânico presenteia os fãs com repertório multifacetado e performance inspirada em São Paulo

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Texto por Abonico R. Smith e Silvia Macedo

Foto: Fernando Pires/Ultimate Music/Divulgação

Qual Morrissey é o que você quer ver? A maioria de quem já passou dos 40 anos de idade certamente prefere manter na memória aquele jovem topetudo do tempo dos Smiths, que cantava palavras de dor e sofrimento emolduradas pela luxuosa combinação entre batida e dedilhado das cordas da guitarra de Johnny Marr? Tem também aquele horroroso monstro, desprovido de escrúpulos e forrado de preconceitos, que volta e meia veículos corporativos sobre música pop (incluindo aqueles que outrora era independentes e hoje pertencem a grandes grupos de comunicação) andam pintando por aí, como se frases de impacto negativo corressem soltas em sua boca. Tem ainda um impávido senhor quase sexagenário, sagaz, perspicaz e muito bem-humorado, que não perde a chance de brincar com quem está na sua frente e fazer declarações pelas quais escorrem ironia e sarcasmo. Tem também o ídolo decadente, para quem ele parou de fazer algum álbum de boa qualidade faz tempo – as mesmas pessoas, aliás, que procuram sempre ouvir os mesmos discos mais antigos e esperam que os recentes sejam um ctrl C + ctrl Vdas mesmas coisas de sempre. Tem os que se deliciam a cada boa novidade que chega, ao notar que a atual banda está cada vez mais afiada e o acréscimo de parceiros musicais (quatro dos cinco músicos que o acompanham) só resultou em um genial painel de diversidade na sua literatura sonora.

Todos estes Morrisseys eram esperados, de uma forma ou de outra, por quem esteve em 2 de dezembro no Espaço das Américas, em São Paulo. Tinha até aquele fã mais desesperado e obcecado, formando fila na casa desde a manhã daquele domingo com o objetivo de pegar aquele lugar privilegiado à beira do palco, junto à grade da frente da Pista Premium. Tinha também quem não era nem nascido quando o poeta de Manchester irrompeu no cenário musical britânico à frente de sua primeira banda, entre os anos de 1982 e 1987. Mas o Morrissey que subiu ao palco era apenas um: a pessoa inspirada e de bem com a vida, desfrutando de novo período de intensa fertilidade criativa, gravando um disco após o outro, fazendo longas turnês no intervalo entre as sessões de estúdio e sem nenhum grande protesto por ora, interessado apenas em fazer aquilo que faz de melhor, que é cantar.

E como canta! Às vésperas de completar 60 anos, Morrissey canta hoje muito mais e melhor do que já cantava, sem abrir mão de estilo, técnica, doçura e interpretação das palavras. Sua performance também está mais tranquila, sem os arroubos de antes, mas ainda intimamente ligada a seus fãs mais histéricos, como aqueles que levam vinis para o ídolo assinar em plena ação no palco (e ele, bem simpático, fez isso!) ou disputam a tapas pedaços das camisas que ele tira do corpo, rasga e arremessa à plateia.

Antes da subida do sexteto ao palco a já tradicional seleção de repertório em audiovisuais feita a dedo pelo próprio vocalista. Desta vez, começou o punk dos Ramones e culminou com o glam de David Bowie em “Rebel Rebel”. Depois foram cem minutos de intenso bom humor e  boa forma de Morrissey. Quem queria um reencontro com faixas dos Smiths ganhou três delas de presente (“William It Was Really Nothing”, “Is It Really So Strange?” e “How Soon Is Now”). Quem queria novidades ficou com outras três do mais recente trabalho, o álbum Low In High School, lançado no final do ano passado (“Spent The Day In Bed”, “Jacky Is Only Happy When She’s Up On a Stage”, “I Wish You Lonely”). Quem queria o resgate de faixas que havia tempos não apareciam no repertório dos shows também pode saborear preciosidades como “Sunny”, “Jack The Ripper”, “Hold On To Your Freinds”, “Break Up The Family e “Hairdresser On Fire”. Teve o novíssimo single ainda inédito em álbum, a cover de “Back On The Chain Gang”, dos Pretenders (aliás, ele pediu aos fãs que comprasse o trabalho de regravações que lançará no início do ano que vem). Quem procurava por raridades também ganhou “Dial-a-Cliché” (do primeiro pós-Smiths, Viva Hate, de 1988, e até a atual turnê latino-americana nunca cantada em shows) e b sidesde compactos como “If You Don’t Like, Don’t Look At Me” e “Munich Air Disaster 1958”. Também teve hitsda primeira fase solo (“Alma Matters”, “November Spawned a Monster”, “Everyday Is Like Sunday). Por fim, uma breve espanada pelos bons trabalhos mais recentes (“Life Is a Pigsty”, “The Bullfighter Dies” e uma inesperado “First Of The Gang To Die” para encerrar o bis e jogar mais uma camisa na direção dos fãs).

Steven Patrick Morrissey incorpora tantos Morrisseys – tanto em seu dia a dia quanto no imaginário de seus fãs e detratores ou ambos ao mesmo tempo – que ele ainda se dá ao luxo de usar no show uma camiseta estampada com seu próprio nome e rosto (daquelas oficiais à venda foi a que se esgotou mais rapidamente, deixando muita gente a ver navios após o show) e por isso mesmo se torna a cada dia ainda mais fascinante. Desta vez ao menos, todos devem ter saído contentes do show. Sem reclamações.

Set list: “William, It Was Really Nothing”, “Alma Matters”, “I Wish You Lonely”, “Is It Really So Strange?”, “Hairdresser On Fire”, “November Spawned a Monster”, “Break Up The Family”, “Back On The Chain Gang”, “Spent The Day In Bed”, “Sunny”, “If You Don’t Like Me, Don’t Look At Me”, “Munich Air Disaster 1958”, “Dial-a-Cliché”, “The Bullfighter Dies”, “How Soon Is Now?”, “Hold On To Your Friends”, “Life Is a Pigsty”. “Jack The Ripper” e “Jacky’s Only Happy When She’s Up On The Stage”. Bis: “Everyday Is Like Sunday” e “First Of The Gang To Die”.