Movies

O Grito

Novo remake americano de conhecida franquia nipônica de horror fica na superficialidade e nada traz de inovador ou assustador

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Sony Pictures/Divulgação

O mais novo remake da franquia nipônica Ju-On (2002), O Grito (The Grudge, EUA/Canadá, 2020 – Sony Pictures), não só falha na tentativa de inovar a velha história da casa mal-assombrada e do fantasma vingativo, como apenas evidencia que a ultrapassada maldição do grito está fadada ao fracasso. O enredo da nova produção, dirigida por Nicolas Pesce, já é a segunda versão americana da obra original de Takashi Shimizu. Como os iniciados na franquia bem sabem, o grito é uma maldição que surge quando alguém é assassinado em um momento de ódio extremo. A entidade passa a atormentar a vida de qualquer um que colocar os pés no local do crime. Ao que tudo indica, isso nunca tem fim, assim como os filmes que habita. Baseado no script de Shimizu, o roteiro do novo longa ainda é sobre uma casa japonesa amaldiçoada – o que muda são as vítimas e o lugar. Desta vez, a trama é levada para uma pequena cidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Este filme acompanha a vida da policial Muldoon (Andrea Riseborough), viúva e mãe solteira, que está determinada a solucionar o caso de um cadáver encontrado na floresta. A investigação é a linha norteadora da película. Assim como o remake de 2004, o novo filme dispõe de histórias cruzadas por meio de múltiplas linhas de tempo para apresentar os destinos de vários personagens, entre eles, um casal de corretores de imóveis (John Cho e Betty Gilpin) que enfrentam uma difícil escolha na gravidez, um casal de idosos (Lin Shaye e Frankie Faison) que procuram a ajuda de uma assistente de suicídio assistido (Jacki Weaver), o detetive Goodman (Demian Bichir) e seu antigo parceiro Wilson (William Sadler).

Apostando nos clichês de todo filme de terror, Pesce parece não conseguir fazer o longa se destacar em quase nenhum quesito. Além dos excessivos e costumeiros jumpscares, que acabam sendo fracos e previsíveis, a película se baseia no pretexto mais básico e óbvio de qualquer franquia de horror (como os famosos “você nunca irá escapar” e “a maldição nunca te deixará em paz”). É decepcionante o fato não ser construída uma atmosfera de tensão, ficando tudo preso na segurança de entidades que aparecem desfocadas atrás das pessoas e que desaparecem e reaparecem à medida que um personagem apaga e acende as luzes. Estes clichês se tornaram clichês por um simples motivo: eles funcionam. Entretanto, no caso da franquia de O Grito, eles já foram exaustivamente usados. Talvez fosse a hora de tentar algo novo.

Mesmo que por vezes se apoie no óbvio, este novo longa tem suas passagens favoráveis. Para aqueles que são familiarizados com a franquia de remakes do J-Horror, nesta nova versão ainda existem os famigerados sustos no chuveiro, na pia e na banheira, trazendo um sentimento de nostalgia ao espectador, ao recordar cenas do auge do filme original. As histórias são todas permeadas pela dor e pela perda, numa válida tentativa do diretor de fazer com que a audiência se sinta próxima e acredite em uma realidade muito plausível, mostrando como as pessoas são frágeis e vulneráveis, e que a maldição não perdoa ninguém. Mesmo que o desenvolvimento dos personagens deixe a desejar e acabe sendo um tanto superficial, Pesce investe no sofrimento de cada um. Não apenas o causado pela maldição, mas também aquele que qualquer pessoa poderia ter – o que muitas vezes não é abordado em outras produções do gênero.

Para além da falta de criatividade e originalidade de sustos, o filme não se diferencia daqueles que vieram antes, muito menos justifica sua própria criação. Para os amantes do terror, infelizmente essa é só mais uma maçante e saturada história sobre a já esgotada casa mal-assombrada e que desperdiça um elenco talentoso e não traz nada de novo ou assustador para a realidade atual. O Grito, mesmo que tenha seus momentos arrepiantes, prova ser apenas mais um remake de uma história batida, que continua amaldiçoado por um conceito fatalmente clichê.

Music

Talk Talk

Morte de Mark Hollis revela a importância da banda que abandonou o sucesso nos anos 1980 para trilhar o caminho da arte na música pop

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Texto por Carlos Eduardo Lima (texto cedido por Célula Pop)

Foto: Divulgação

No último dia 25 de fevereiro foi noticiado o falecimento do cantor e compositor inglês Mark Hollis, líder da banda inglesa Talk Talk. Mas, sem o infame trocadilho, de quem estamos falando? Uma visão realista das paradas de sucesso e das vendas – parâmetros usuais para aferição de êxito de um artista – nos dirá que o Talk Talk praticamente não existiu. Fora o hit “It’s My Life”, que ficou no topo das paradas anglo-americanas no distante ano de 1984, Talk Talk era mais uma dessas formações obscuras dos anos 1980. Ledo engano…

Hollis, 64 anos, era o cérebro pensante da banda. Podemos dizer, inclusive, que houve dois Talk Talk. O primeiro, até 1986, era um grupo voltado para a cartilha Roxy Music/tecnopop/new romantic, com muitos teclados, sintetizadores e noção de melodia e bom senso pop. Era o que se conhecia como sophistipop. A própria “It’s My Life” não nos deixa mentir: exuberante, cheia de efeitos especiais de pássaros, clipe marcante – com Hollis em meio a paisagens animais selvagens com algo a dizer, sem conseguir – era uma promessa de competidora pela efeméride pop oitentista. Mas Mark e seus parceiros de banda – o baixista Paul Webb, o baterista Lee Harris e o tecladista Simon Brenner – largaram mão desta perseguição pela música mais convencional e entraram numa jornada em busca de uma musicalidade que tangenciava o pop e arremetia para ares muito mais auspiciosos e complexos. Esta mudança foi marcada pela chegada do terceiro álbum, The Colour Of Spring.

Saía de cena o Talk Talk acessível e chegava aos ouvidos dos poucos interessados em músicas complexas naquele ano de 1986 uma banda arrojada e cheia de sutilezas. Hollis se dizia influenciado por gente que não estava no mapa dos artistas daquele tempo. De Otis Redding a Debussy. De Burt Bacharach a John Coltrane. O sujeito era um cara fora de seu tempo. The Colour Of Spring, com oito faixas, chocou quem esperava por outra “It’s My Life”. Canções antipop, com longas passagens instrumentais, corais infantis, muitos pianos e teclados, uso de orquestra e valorização do binômio silêncio/som assumiram o protagonismo. Em comum com o passado, apenas o ótimo registro vocal de Hollis, um dos mais marcantes daquela década. Das novas faixas, apenas “Chameleon Day” tinha pouco mais de três minutos, deixando o restante com duração variando entre cinco e seis, simplesmente deixando parâmetros radiofônicos de lado. Mesmo assim, longas e com instrumental ousado, todas as canções ainda guardam algum potencial pop implícito.

O abraço ao experimentalismo veio com o disco seguinte, Spirit Of Eden, lançado em 1988, com apenas seis faixas. A canção que abre o ciclo é a impressionista (e impressionante) “The Rainbow”, com mais de nove minutos de duração. A banda simplesmente deixava de lado a maioria de seu arsenal eletrônico de synths e baterias robotizadas de antanho para embarcar numa onda acústica ousadíssima, nada parecida com o que as pessoas entendem por unplugged ou banquinho e violão. O pop, enfim, ficava para trás em favor de algo novo, tangente do jazz – no sentido experimental – mas que nunca feria os ouvidos ou irritava por alguma complexidade vazia, na base do exercício de estilo. Era uma banda em evolução e em busca de novos rumos para sua arte. E partindo nesta direção. “Eden” e “Desire” são provas desta nova estética. Lentas, cheias de sons, silêncios, quase uma new age/ambient musicadolescente e curiosa. Dizem (dizem!) que o Radiohead ouviu muito este disco para gestar seu álbum OK Computer.

Com o trabalho seguinte, Laughing Stock, a banda chegou ao fim da carreira. Em pleno 1991, frente ao grunge e ao nascente britpop, o mundo não tinha paciência para investir em novas texturas sonoras delicadas, misteriosas e que exigiam atenção total do ouvinte, bem a exemplo do disco anterior. Depois deste lançamento, o grupo se separou. Hollis ainda lançou um obscuro disco solo em 1998 e permanecia discreto, mais dedicado à família, longe dos palcos.

Sua morte precoce talvez sirva para que o Talk Talk passe por uma reavaliação crítica e receba seu reconhecimento. Merecido há tanto tempo.

Music

Courtney Barnett – ao vivo

À frente de seu power trio, australiana dá aos brasileiros duas raras oportunidades de ver um artista tocando no auge da carreira

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Textos por Fábio Soares (São Paulo) e Luiz Espinelly/Josephines (Porto Alegre)

Fotos por Fábio Soares (São Paulo) e Mayra Silva (Porto Alegre)

Como é bom presenciar in loco um artista independente no auge de sua forma!

Foi este presente o que cerca de mil sortudos tiveram na noite da última quinta-feira (21 de fevereiro de 2019) muito chuvosa em São Paulo. Courtney Barnett estava entre nós e um acontecimento desses, havia de ser celebrado. A abertura desta Popload Gig ficou por conta do quarteto goiano BRVNKS. Com o vocal de Bruna Guimarães, o grupo desfilou, por meia hora, seu indie lo-fi agradável aos ouvidos da audiência. Com três anos de carreira, o que se viu foi uma banda muito segura no palco e sem sentir o peso de abrir o show para alguém do quilate de Barnett. Pouco tempo depois, Courtney surgia no palco da Fabrique ladeada apenas do baterista Dave Mudie e do baixista Bones Sloane. E foi com essa formação de power trioque os primeiros acordes de “Hopefulessness” (do aclamado Tell Me How You Feel, álbum de 2018) foram ouvidos. Com andamento marcial do início ao fim, a balada é uma síntese confessional da australiana em sua letra (“Pegue seu coração partido e o transforme em arte/ Eu não quero/ Eu não quero saber”).

Muito tímida ao microfone e, em certos momentos econômica nos movimentos (o cansaço e o jet lag devem ter pesado após apenas 72 horas de sua apresentação em Houston, no Texas), Courtney parecia estar em transe quando pluga sua guitarra. Declaradamente influenciada por Nirvana, tem em Kurt Cobain seu mentor intelectual e o “encarna” sem cerimônia em algumas passagens em cima do palco. Em “Need a Little Time”, por exemplo, fechava os olhos e refletia sobre sua depressão (“Você parece ter o peso do mundo sobre seus ombros ossudos/ Aguente firme”). Em “Are You Looking After Yourself”, a veia folk e o sarcasmo (“Eu deveria arrumar um emprego, ter um cachorro, casar, ter filhos e assistir a todos os telejornais”) eram extravasados num dos momentos mais descontraídos da noite.

Mas é com sua guitarra distorcida que Barnett sente-se mais à vontade. Isso foi presenciado mais uma vez em SP. Ninguém ficou parado durante a execução de “Pedestrian At Best”, com seu refrão matador (“Me coloque em um pedestal e te decepcionarei/ Diga que sou única e irei te explorar”) em volume altíssimo. Neste momento, a plateia já estava entregue antes do triunvirato do bis: a belíssima “Let It Go”, lançada no álbum Lotta Sea Lice (concebido em 2017, parceria com Kurt Vile); “Kim’s Caravan”, na qual Courtney reafirmava que sua guitarra é sua melhor parceira com as microfonias jogando a seu favor; e a derradeira “History Eraser”, de final apoteótico e as seis cordas tocadas no mais alto volume.

Barnett se despediu e rapidamente saiu do palco. Para ela, mais um capítulo de sua extensa turnê do mais recente álbum. Para nós, a certeza de que são raros nos momentos em que, aqui no Brasil, podemos ir a shows de artistas no auge da carreira e que oportunidades assim não devem nunca serem desperdiçadas. (FS)

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O rock morreu? Vida longa ao rock!

Apesar do forte calor, o show de Courtney Barnett pela Popload Gig em Porto Alegre (22 de fevereiro de 2019) levou um bom público ao Opinião, tradicional casa noturna da capital gaúcha. A anedota corrente antes do show, na banquinha de merchandising, era que a australiana estava tão bem ambientada em Porto Alegre que estavam vendendo camiseta de “I ❤ CB” – que todos locais leem como “I love Cidade Baixa” (o bairro boêmio de Porto Alegre).

Gauchices à parte, Barnett entrou no palco pontualmente às 21h, sem banda de abertura. O chapéu meio Cachorro Grande do baterista foi o único mau presságio da noite, rapidamente dissipado nos primeiros acordes de “Hopefulessness”, faixa de Tell Me How You Really Feel, um dos melhores álbuns de 2018. A bela canção, de começo suave com andamento marcial, conduziu banda e plateia em um crescente arrebatador, sob luz vermelha como a capa do disco e apresentando as credenciais da banda, com o baterista Dave Mudie e o baixista Bons Sloane fazendo uma cozinha competente para Courtney brilhar na guitarra e no microfone.

Na plateia, a maior parte parecia de jovens saídos da série Sex Education, mas também estavam presentes aquele pessoal com cara de quem vai em loja de disco todo sábado pela manhã. Ou seja, Courtney Barnett jogava em casa e com torcida a favor. No palco, o power trio tocou um pouco mais de uma hora. Com uma estrutura simples, sem telão e apenas com luzinhas tumblrfazendo a decoração, Courtney apresentou suas canções de forma crua, despindo-as dos truques batidos do universo pop e apostando na essência de seu lirismo. Enquanto a banda alternava dinâmicas e dava espaço para longos solos distorcidos, Courtney tocou os principais sucessos do primeiro e do segundo disco – além do bis com uma canção de seu álbum com Kurt Vile. Sem palheta, solando na ponta dos Martens, ela tocou suas Fender (alternou entre vários modelos de Jaguar, uma Strato e uma Tele) como uma guitar heroine, subiu na estrutura da bateria, cantou alto letras confessionais e olhou nos olhos do público, sorrindo com cumplicidade.

Com o mesmo set list do show de São Paulo e sem covers, a australiana apresentou suas músicas de forma menos polida que nos discos. Com um punch extra e alguns momentos de pegada mais forte da banda, Barnett abusou das distorções, evocando microfonias e longos solos, entregando que andou ouvindo Neil Young & Crazy Horse. O que combina bem com sua verve Lou Reediana e deu um sabor diferente aos sucessos indie registrados de forma mais contida nos álbuns.

Pontos altos: o começo com a dobradinha “Hopefulessness” e “City Looks Pretty”; “Nameless, Faceless” e “Depreston”, cantadas em coro pela plateia; e o bis com “Kim’s Caravan”, dos versos “so take what you want for me”, repetido também em coro pelo público enquanto Courtney entregava justamente o que os fãs queriam: uma catarse através do rock’n’roll. (LE)

 Set List de São Paulo e Porto Alegre:  “Hopefulessness”, “City Looks Pretty”, “Avant Gardener”, “Small Talk”, “Need a Little Time”, “Nameless Faceless”, “Small Poppies”, “Depreston”, “Are You Looking After Yourself”, “Sunday Roast”, “Lance Jr”, “Charity”, “Pedestrian At Best”. Bis: “Let It Go”, “Kim’s Caravan” e “History Eraser”.