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Destacamento Blood

Com humor e críticas sociais afiadas, Spike Lee conta a história de quatro veteranos da Guerra do Vietnam em tempos de Donald Trump

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Antes de começar o texto propriamente dito aqui vai um aviso. Se você estiver lendo este texto antes de assistir ao filme, prepare-se para cenas de violência não-ficcional. Grande violência. São poucas, mas não deixam de ser impactantes.

Spike Lee é, possivelmente, um dos diretores de maior autoralidade em atividade. Um “Spike Lee joint” é reconhecível sem muito esforço, e o discurso de suas obras, além de coeso entre as partes, é sempre imerso em realismo e crítica social. Não é diferente com Destacamento Blood (Da 5 Blood, EUA, 2020 – Netflix), que retrata uma viagem de quatro veteranos da Guerra do Vietnam ao país, em busca do cadáver de seu comandante (interpretado pelo recém-falecido Chadwick Boseman) e do ouro escondido pela tropa. Essa premissa acaba por dividir o filme em dois, sendo uma fração responsável por introduzir os protagonistas e o enredo enquanto a outra é seu desenrolar, inteiramente na selva vietnamita. Tal distinção é não somente temática, mas principalmente fotográfica, visto que a direção de Spike Lee opta por uma simplificação da mise-en-scène nos primeiros minutos, enquanto a direção de fotografia traz uma iluminação constante, amena e desinteressante.

Ao adentrar a selva, no entanto, o longa toma sua forma mais densa, bela e carregada de subtexto, fatores amplificados pela construção dos personagens. Em primeiro lugar, temos os Bloods, cada um interpretado por seu próprio colosso do cinema americano – Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis), Melvin (Isiah Whitlock Jr) e Paul (Delroy Lindo), que se destaca pelo contraste. Sem delongas, ele é o eleitor de Donald Trump, um espelho da realidade estadunidense de hoje – um assunto a se tratar mais à frente. O filho deste, David, também os acompanha, em uma ótima atuação de Jonathan Majors. 

Cada qual com sua particularidade, os cinco demonstram uma química invejável, calcada no trauma da guerra mas munida do respiro dos anos que seguiram. Tanto quanto a jornada militar, os anos subsequentes pautam os diálogos e interações, tornando seus personagens reais, inseridos num mundo tão real(ista), cuja mimese dos problemas que definem as sociedades estadunidense e vietnamita escancara a realidade que retrata. Não à toa, Lee e seu montador, Adam Gough, insistem em fortes imagens reais dos eventos e personalidades retratadas. É empurrando a factualidade do contexto que permeia Destacamento Blood que o diretor e roteirista potencializa sua mensagem, extrapolando as vidas de seus personagens, e até mesmo seu discurso, que passa a ecoar – quase que literalmente – um momento crítico na História. 

Este é um filme completamente imerso em sua temporalidade, com completa consciência disso e, portanto, capaz de abusar dela.  Um espelho, como dito anteriormente, mas também um comentário – um tanto otimista – da situação politicorracial dos Estados Unidos e (por que não?) do mundo. Se não pela história envolvente, a química do elenco ou a capacidade de Spike Lee de pincelar humor num assunto tão sóbrio e sério, Destacamento Blood é um filme que deve ser assistido por sua capacidade de manipular o contexto histórico em que se insere e, com um belo uso da linguagem cinematográfica, criar uma reflexão propositiva desse mesmo contexto.

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