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Sonic – O Filme

Jim Carrey e novo design do famoso ouriço azul dos games não salvam do convencional a nova adaptação para as grandes telas

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

Quem não cresceu jogando Sonic que atire a primeira pedra. Seja no Sega Master System ou até no computador, por meio de jogos em Flash, todo mundo conhece o ouriço azul. Devido às inúmeras tentativas falhas de adaptações dos games para as telas, é natural que se olhe a Sonic – O Filme (Sonic The Hedgehog, EUA/Jaoão/Canadá, 2020 – Paramount) com um pé atrás, principalmente depois do assombroso design que fora apresentado inicialmente.

Dirigido por Jeff Fowler, um iniciante em longas-metragens, e escrito por Patrick Casey e Josh Miller, Sonic – o Filme é tão convencional quanto se pode ser. A começar pelo longo emaranhado de sequências de narração, nas quais o personagem-título faz questão de contar toda sua história, além de deixar óbvio seu conflito interno – que permeia todo o filme, mas também figura diversos outros títulos. O resto da narrativa não é lá muito boa. Na verdade, é um repeteco de temas e tropos já utilizados, sejam eles de trama ou de conflito de personagem, sem frescor algum, dependendo (e muito) do carisma de seu elenco.

Por mais preguiçosa que seja, essa aposta se paga. Jim Carrey e a animação de Sonic roubam toda cena em que aparecem, divertindo o público-alvo e volta e meia entregando uma boa piada para os adultos. Friso o “volta e meia”, pois a direção de Fowler ainda não foi capaz de encontrar uma consistência de ritmo. Algumas piadas insistem em si mesmas por tempo demais, como uma infame cena que explora o humor corporal de Carrey até torná-lo chato e continua insistindo para muito além desse ponto.

A animação, que foi muito criticada pelo primeiro modelo de Sonic, está irretocável, seja no físico do ouriço ou na interação das gravações com objetos de computação gráfica. A própria construção de Dr. Robotnik depende fortemente de sua relação com os robôs, perfeitamente animados.

Sonic não é exatamente ruim, mas passa longe de ser bom. Uma repetição de tudo que já deu certo, o longa não tem qualquer característica que o torne distinto dos demais lançamentos, em especial os focados ao público infantil. Há as boas atuações de Jim Carrey e Ben Schwartz, mas uma os outros membros do elenco estão bem aquém. Esses elementos tornam este um filme bastante divertido para as crianças, mas maçante para os adultos, até os apaixonados pelo “demônio azul”.

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O Grito

Novo remake americano de conhecida franquia nipônica de horror fica na superficialidade e nada traz de inovador ou assustador

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Texto por Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Sony Pictures/Divulgação

O mais novo remake da franquia nipônica Ju-On (2002), O Grito (The Grudge, EUA/Canadá, 2020 – Sony Pictures), não só falha na tentativa de inovar a velha história da casa mal-assombrada e do fantasma vingativo, como apenas evidencia que a ultrapassada maldição do grito está fadada ao fracasso. O enredo da nova produção, dirigida por Nicolas Pesce, já é a segunda versão americana da obra original de Takashi Shimizu. Como os iniciados na franquia bem sabem, o grito é uma maldição que surge quando alguém é assassinado em um momento de ódio extremo. A entidade passa a atormentar a vida de qualquer um que colocar os pés no local do crime. Ao que tudo indica, isso nunca tem fim, assim como os filmes que habita. Baseado no script de Shimizu, o roteiro do novo longa ainda é sobre uma casa japonesa amaldiçoada – o que muda são as vítimas e o lugar. Desta vez, a trama é levada para uma pequena cidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Este filme acompanha a vida da policial Muldoon (Andrea Riseborough), viúva e mãe solteira, que está determinada a solucionar o caso de um cadáver encontrado na floresta. A investigação é a linha norteadora da película. Assim como o remake de 2004, o novo filme dispõe de histórias cruzadas por meio de múltiplas linhas de tempo para apresentar os destinos de vários personagens, entre eles, um casal de corretores de imóveis (John Cho e Betty Gilpin) que enfrentam uma difícil escolha na gravidez, um casal de idosos (Lin Shaye e Frankie Faison) que procuram a ajuda de uma assistente de suicídio assistido (Jacki Weaver), o detetive Goodman (Demian Bichir) e seu antigo parceiro Wilson (William Sadler).

Apostando nos clichês de todo filme de terror, Pesce parece não conseguir fazer o longa se destacar em quase nenhum quesito. Além dos excessivos e costumeiros jumpscares, que acabam sendo fracos e previsíveis, a película se baseia no pretexto mais básico e óbvio de qualquer franquia de horror (como os famosos “você nunca irá escapar” e “a maldição nunca te deixará em paz”). É decepcionante o fato não ser construída uma atmosfera de tensão, ficando tudo preso na segurança de entidades que aparecem desfocadas atrás das pessoas e que desaparecem e reaparecem à medida que um personagem apaga e acende as luzes. Estes clichês se tornaram clichês por um simples motivo: eles funcionam. Entretanto, no caso da franquia de O Grito, eles já foram exaustivamente usados. Talvez fosse a hora de tentar algo novo.

Mesmo que por vezes se apoie no óbvio, este novo longa tem suas passagens favoráveis. Para aqueles que são familiarizados com a franquia de remakes do J-Horror, nesta nova versão ainda existem os famigerados sustos no chuveiro, na pia e na banheira, trazendo um sentimento de nostalgia ao espectador, ao recordar cenas do auge do filme original. As histórias são todas permeadas pela dor e pela perda, numa válida tentativa do diretor de fazer com que a audiência se sinta próxima e acredite em uma realidade muito plausível, mostrando como as pessoas são frágeis e vulneráveis, e que a maldição não perdoa ninguém. Mesmo que o desenvolvimento dos personagens deixe a desejar e acabe sendo um tanto superficial, Pesce investe no sofrimento de cada um. Não apenas o causado pela maldição, mas também aquele que qualquer pessoa poderia ter – o que muitas vezes não é abordado em outras produções do gênero.

Para além da falta de criatividade e originalidade de sustos, o filme não se diferencia daqueles que vieram antes, muito menos justifica sua própria criação. Para os amantes do terror, infelizmente essa é só mais uma maçante e saturada história sobre a já esgotada casa mal-assombrada e que desperdiça um elenco talentoso e não traz nada de novo ou assustador para a realidade atual. O Grito, mesmo que tenha seus momentos arrepiantes, prova ser apenas mais um remake de uma história batida, que continua amaldiçoado por um conceito fatalmente clichê.