Music

Depeche Mode – ao vivo (parte 1)

Aos pés da cordilheira chilena, uma festa privê no primeiro show sul-americano da Global Spirit Tour

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Texto por Fábio Soares

Foto: HumoNegro.com/Reprodução

Nem parecia que o Depeche Mode estava na capital chilena. Dois dias antes da apresentação, nenhum cartaz ou anúncio de rua anunciava o concerto. O mesmo acontecia com as rádios e canais de TV abertos. Nenhuma menção, nenhum comentário, nada. Eu e três amigos depecheiros nos hospedamos no bairro da Bella Vista, tradicional ponto boêmio de Santiago, esperando por uma legião de devotos locais assim como outros egressos de países vizinhos. Somente no final da tarde de terça-feira, véspera do show, encontramos no alto do Cerro San Cristóbal (tradicional mirante da cidade) oito “gatos pingados” devidamente uniformizados com camisetas da banda e eles eram… argentinos. Sim, como previsto, hermanos sairam de Buenos Aires e cercanias para o show em Santiago e a expectativa era grande. “Estávamos no show de Buenos Aires em 2009. Nove anos de espera, é muito tempo”, disse um deles. Informei-o que, no meu caso, são vinte e quatro anos de espera, tendo em vista que em 2009 (mesma turnê que passou por BsAs) a banda cancelou o show marcado para o Anhembi. Entre nós, porém, um consenso: a certeza de que a Global Spirit Tour será o último giro mundial do Depeche Mode. Quem vir agora viu.

Chegou a quarta-feira (21 de março) e, com ela, um calor e ar seco quase que insuportáveis em Santiago, como esperado. O Estádio Nacional, localizado aos pés da Cordilheira dos Andes num bairro estritamente comercial, é grande, antigo e com alguns problemas estruturais. Nada, porém, que comprometesse. Ponto negativo para a retirada dos ingressos comprados pela internet: era necessário caminhar quase dois quilômetros até a bilheteria do velódromo (parte integrante do complexo poliesportivo da “cancha”) para pegá-los. Falhas à parte, a logística do staff local funcionou muito bem. Nada de filas nos banheiros ou lanchonetes. Bebi apenas água, porque, em experiência anterior há três anos, comprovei que as cervejas chilenas são horríveis. Da arquibancada lateral, onde ficamos, era possível se ter boa visão do palco. Pouquíssima movimentação até às 20h, quando começou o show de abertura: Matias Aguayo, desagradou metade do estádio mas agradou, em muito, a mim. Sua mistura de drum’n’bass com bases obscuras e com clara referência ao gótico dos anos 80 fez com que eu passasse a acompanhá-lo nas plataformas digitais.

Às 21h, os acordes de “Revolution”, dos Beatles, entoaram no alto-falante. Pano de fundo para a introdução de “Going Backwards”, fez com que o estádio quase viesse abaixo assim que Dave Gahan pisou no palco. Às vésperas de completar 56 anos de vida, o vocalista está mais em forma que nunca, não parando um segundo sequer, com uma performance que impressiona. Já Martin Gore ratifica o rótulo de gênio por trás da máquina: é impecável na execução dos arranjos e somente sua presença no palco já vale o ingresso. Andrew Fletcher, entretanto, reforça o coro de ser o boneco de Olinda da banda. Segundo meus amigos Ricardo e Priscila, que me acompanharam nesta empreitada, seus teclados devem estar desligados em todos os shows, tamanha sua inoperância e falta de atitude em cena.

Voltando ao show: o álbum Ultra, de 1997, é o mais privilegiado do set list com cinco canções: “It’s No Good”, “Barrel Of A Gun”, “Insight”, “Home” e “Useless”. “Cover Me”, “Precious” e “A Pain That I’m Used To” foram escolhas mais que adequadas, mesmo eu sentindo falta de “Policy Of Truth”. Não há variação na lista das execuções nos shows da perna latino-americana da turnê, o que não chega a ser um demérito.

O repertório do Depeche Mode propicia um leque de opções quase que infinito à banda para montagem do set. Em certo momento da apresentação, Dave Gahan convidou: “Santiago, você está pronta para o passado?”. Era a deixa para uma viagem no tempo para ninguém botar defeito: “World In My Eyes”, “Everything Counts”, “Stripped” e “Enjoy The Silence” são os vagões de um trem emocional que leva os fãs mais antigos às lágrimas (eu, inclusive) e prepara o terreno para, a cada vez, antológica execução de “Never Let Me Down Again”. A hipnose e histeria coletiva que esta canção causa é impressionante. Maravilhosa foi a visão de 30 mil pessoas chacoalhando seus braços da direita à esquerda num momento inesquecível.

Dos vídeos da turnê que estão no YouTube, não havia gostado da execução de “Strangelove” com piano e voz. Minha opinião, porém, foi mudada ao presenciá-la ao vivo: Martin Gore, pai da criança, a executa como ninguém. Muita emoção em sua voz ao entoá-la. Emoção esta, que o estádio inteiro sentiu (eu, inclusive, novamente). “Personal Jesus” veio para encerrar os trabalhos. À esta altura, uma mistura de êxtase e respeito permeava a atmosfera do Estádio Nacional. É um “final de balada de véio” cantada em uníssono. Duas horas de devoção a este expoente gigantesco de um estilo musical criado por eles mesmos. Assisti-los ao vivo é, acima de tudo, presenciar um fato histórico.

Set List: “Going Backwards”, “It’s No Good”, “Barrel Of A Gun”, “A Pain That I’m Used To”, “Useless”, “Precious”, “World In My Eyes”, “Cover Me”, “Insight”, “Home”, “In Your Room”, “Where’s The Revolution”, “Everything Counts”, “Stripped”, “Enjoy The Silence”, “Never Let Me Down Again”. Bis: “Strangelove”, “Walking In My Shoes”, “A Question Of Time” e “Personal Jesus”.

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