Series, TV

O Gambito da Rainha

Minissérie  faz jus ao hype com dinamismo e uma cativante adolescente órfa que ganha o mundo através do tabuleiro do xadrez

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação 

À primeira vista, O Gambito da Rainha (The Queen’s Gambit, EUA, 2020 – Netflix) pode não parecer ter o potencial de um hit. O trailer, mais focado em uma frase dita ao longo da série sobre machismo do que no enredo em si, engana. A produção da Netflix é uma surpresa positiva e se tornou a série limitada a mais assistida da história do streaming. O hype é justificável. O xadrez ganha vida nos sete episódios baseados no livro de mesmo nome de Walter Tevis. 

Beth Harmon (Anya Taylor-Joy) é levada para um orfanato após um grave acidente. Lá ela desenvolve a paixão pelo xadrez e um vício em calmantes. Ambos serão formativos para os próximos anos da jovem. Após ser adotada, Beth passa a ter como maior exemplo uma mãe amorosa, porém alcoólatra. Tomando seu primeiro drinque antes mesmo da maioridade, a menina não consegue escapar do abuso de substâncias. 

Ambientada na década de 1960, a série já ganhou pontos pelos acertos no setor de cabelo e maquiagem e pelo design de produção. O xadrez, obviamente, é o principal, mas é surpreendente como temas como identificação, família, saúde mental e solidão percorrem a história. A relação entre Beth e sua mãe adotiva (Marielle Heller, com quem Anya já havia trabalhado no longa-metragem Emma) é construída aos poucos, com a ajuda do xadrez e torna-se um dos elementos mais interessantes de assistir. A dinâmica, as conversas, as trocas de experiência são fascinantes. São duas mulheres que compartilham o amor e o vício. 

Para quem não é praticante, o xadrez pode ser um jogo chato, parado. A série encontra recursos de filmagem e montagem satisfatórios para quebrar a monotonia das partidas. Em alguns jogos, os diálogos quebram ou aumentam ainda mais a tensão. Ao longo da série, Beth enfrenta apenas uma jogadora mulher e todos os seus outros oponentes são homens. A atmosfera de “Clube do Bolinha” do esporte perdura até os dias de hoje. Enxadristas mulheres se manifestaram após a série estrear, afirmando que ainda são minoria e os desafios que Beth Harmon passou para ser aceita continuam atuais.

Anya Taylor-Joy é uma das melhores atrizes a surgir nos últimos anos. Ela, que já mostrou talento no horror em longas como Fragmentado e A Bruxa, em O Gambito da Rainha dá vida a uma complexa personagem que em muitos momentos fala mais pelo olhar. O tema do vício é delicado e a minissérie mostra responsabilidade ao retratá-lo, especialmente nos momentos mais críticos. 

O Gambito da Rainha tornou-se um fenômeno nessess últimos meses. É bem construído e não precisa forçar para engajar. O sucesso também é resultado de uma série de tentativas. Antes do contrato com a Netflix, já tentaram adaptar a história nove vezes – em 2008, o produtor Allan Scott queria que Heath Ledger fosse o diretor do então filme baseado no livro.

Em um ano tão atípico como 2020, uma série que dá destaque ao xadrez ganhou os holofotes e a produção fez jus ao seu hype. Logo de cara, afinal, é impossível largar da história de Beth Harmon, uma cativante menina órfã que encontra o vício, uma mãe e a redenção pelo esporte. 

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