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The Post: A Guerra Secreta

Lembranças de um tempo em que o jornalismo cotidiano era algo difícil de ser feito e chegava até a derrubar chefes de nações poderosas

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Chamar algo ou alguém de oportunista não se deve se configurar uma carga negativa, por incrível. Afinal, uma oportunidade é aquilo que é criado para ser aproveitado. Portanto, no mundo dos negócios e esportes, principalmente, esta é uma questão bastante positiva.

The Post: A Guerra Secreta (The Post, EUA, 2017 – Universal Pictures) é, por isso mesmo, oportunista. Foi feito para vir no vácuo de todos os terremotos causados primeiro pelo Wikileaks e depois pela explosiva combinação de Donald Trump ocupando a Casa Branca e usando e abusando do termo fake news. Denúncias e acusações a rodo rolando pela internet formaram todo o meio-de-campo bastante propício para a chegadas nos cinemas deste longa. Ainda mais ancorado por nomes de peso em Hollywood na direção (Steven Speilberg) e no casal de protagonistas (Meryl Streep e Tom Hanks).

A trama remonta ao final dos anos 1960, quando a política nacional dos Estados Unidos era alvo de constantes investigações jornalísticas dos diários New York Times e Washington Post. Contando com o vazamento de informações top secret feitas por fontes de dentro do Pentágono, eles travavam una guerra sigilosa e particular. Ambos os periódicos embarcavam na vox populi contra a Guerra do Vietnã e queriam publicar primeiro provas cabais de que o discurso governista se baseava em mentiras atrás de mentiras e que já estava previsto por anos o fracasso da investida militar nas terras comandadas pelo líder revolucionário Ho Chi Minh. O Times conseguiu publicar as primeiras provas, mas acabou censurado pela justiça e impedido de continuar a empreitada. O Post peitou a proibição e conseguiu ir além, iniciando o processo de implosão dos líderes republicanos que culminaria, em 1974, com a renúncia do presidente Richard Nixon.

Isto tudo é História, não spoiler. Basta qualquer um perder alguns minutos procurando pelas informações no computador e ter estas informações. Não é preciso assistir The Post: A Guerra Secreta até os créditos finais para saber de certo modo como o filme acaba. Entretanto, o mais importante aqui não está em como a obra termina, mas sim como ela vai desenhando todo o seu percurso.

Apesar de jogarem no mesmo time, as táticas adotadas pelo jornalista Ben Bradlee e a empresária Kay Graham divergem tanto que chegam a se mostrar antagônicas. Ele, imbuído pelo espírito desbravador e investigativo de sua profissão, comanda a redação com a garra necessária para dar antes que todos os concorrentes as notícias que vão abalar toda a confiança de uma nação em seus governantes. Ela, herdeira de uma empresa familiar e com bastante proximidade com os mais altos políticos da capital Washington a ponto de recebê-los em festas em sua casa, não quer prejudicá-los ou começar a perder prestígio e poder perante eles. Afinal, todos nós sabemos, a intimidade entre o poder e o empresariado da comunicação sempre existiu, sempre vai existir e é este o principal fator que mantém em pé as publicações mais tradicionais e populares de qualquer lugar que seja.

Novamente entregando performances irrepreensíveis e que devem garantir mais uma indicação ao Oscar para ambos (será a vigésima primeira de Streep, bem longe de ameaça de perder o posto de recordista da Academia entre os atores e atrizes), os dois enchem a tela de razões e emoções para defenderem seus posicionamentos. Aliás, é o que garante a qualidade do longa, ao lado da direção ágil e com tensão crescente de Spielberg.

Contudo, a nostalgia conta bastante como outra commodity do filme. Inclusive para quem nasceu bem depois e não chegou a pegar o tempo das altas tiragens diárias dos jornais. E também o tempo em que eles eram impressos em gigantescas máquinas rotativas em páginas e mais páginas do grandioso formato standard (cerca de 56 centímetros da altura e 32 de largura). E também o tempo em que matérias eram datilografadas e depois compostas, letra a letra, no chumbo, em linotipos. E também o tempo em que todo o contato com o mundo externo de uma redação era permitido apenas por aparelhos telefônicos eram gigantescos, com longos fios e sistema de disco para você girar o número desejado. E também o tempo em que orelhões na rua eram o sistema mais eficiente para se driblar possíveis grampos instalados para escutas alheias.

Meio século atrás atrás o jornalismo cotidiano era bem mais difícil de ser feito. Requeria habilidade, competência, experiência e artimanhas. Poderia abalar instituições e derrubar chefes de poderosas nações. Hoje isso é apenas algo que fica apenas na lembrança, possível de ser retomado apenas em uma produção hollywoodiana. E esta, deixada nas entrelinhas das questões oportunistas colocadas em primeiro plano, é a principal ideia que fica depois de se ver A Guerra Secreta.

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