Movies, teatro

Querido Evan Hansen

Premiado musical da Broadway sobre ansiedade, depressão e fobia social na adolescência carrega a mão na tristeza em versão para o cinema

Texto por Flavio Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Quando falamos em musical, é difícil imaginar um filme dramático e triste. Até porque é muito mais fácil sair cantando e dançando na rua quando se está feliz, né? Por isso mesmo, esse é o primeiro gosto estranho que Querido Evan Hansen (Dear Evan Hansen, EUA, 2021 – Universal Pictures) traz ao paladar: sua história é triste, suas músicas são dramáticas. Seu tom é de tristeza e tragédia. As canções (e aqui fala alguém apaixonado pelas músicas de La La Land O Rei do Show, dos mesmos compositores) parecem sobras de um disco de uma banda emo dos anos 1990.

A história parte de um ponto bastante interessante: Evan Hansen, um jovem que sofre com ansiedade, fobia social e depressão, é aconselhado por seu terapeuta a escrever cartas de apoio para si mesmo. Um dia, na escola, ele manda imprimir uma destas cartas por engano e o isolado e problemático Connor pega e lê. Pensando que a carta falava dele, Connor a leva consigo. Dias depois, Evan recebe a notícia de que Connor se suicidou e o único bilhete que deixou foi uma carta que começa com “Querido Evan Hansen”. O que ninguém sabe é que não foi Connor quem escreveu a carta, mas o próprio Evan. O mal entendido, então, ganha proporções inimagináveis.

Sim, é um musical sobre ansiedade, depressão e mentiras para aliviar a dor. E, por isso mesmo, as coisas não combinam. Evan (Ben Platt) canta o tempo todo sobre sua dor e os motivos para sustentar sua mentira, que ele mesmo estimula. Pois é: ao mesmo tempo que ele sabe que o que faz não é certo, tenta se convencer de que é bom. Enganando os colegas de escola e os pais de Connor, ele nos deixa em uma posição difícil sobre gostar do personagem. A mentira é justificada pelo fato dele ter encontrado na família de Connor a que nunca teve? Ou nada justifica o fato dele inventar que ele e o rapaz tinham uma amizade que nunca existiu?

É difícil segurar todo um musical fundamentado na tristeza e na “realidade”, ainda mais quando não conseguimos nem saber se gostamos do protagonista. Mesmo os mais dramáticos (citemos Evita e Os Miseráveis) têm um pé na fantasia e no exagero. Mas, ao querer ser realista, Querido Evan Hansen acaba se levando a sério demais e seu exagero fica somente por conta dos agudos mesmo. Não há um respiro, um número musical alegre, um momento de redenção em todas aquelas lágrimas. Isso acaba cansativo.

Outro problema do filme é que, vendo a confusão em que Evan se enfia a cada dia mais, ficamos esperando pelas consequências da mentira. Quando elas chegam, é de forma simplista, apressada e mal resolvida. Era de se esperar que uma história tão dramática tivesse um final poderoso. Só que não. Ele aparece murcho e sem gosto. Pode ser uma falha da direção de Stephen Chobsky em levar uma história que fez tanto sucesso nos palcos para a tela.

No final das contas, Querido Evan Hansen vale por uma ou duas músicas (uma delas original do filme, “Anonymous Ones”, pronta para concorrer ao Oscar) e pelas participações de Amy Adams e Julianne Moore. Se for pra ver um musical recente sobre jovens em high school, opte por Todo Mundo Está Falando Sobre Jamie ou A Festa de Formatura.

P.S.: Muitos críticos reclamaram da escolha de Ben Platt (que tem 28 anos) para interpretar o protagonista, um adolescente de 17. Porém, além do fato dele ter feito o personagem na Broadway por mais de cem apresentações (e ter vencido o Tony Award por isso!), esta diferença de idade nunca foi problema em Hollywood. Basta ver a quantidade de adultos que interpretam adolescentes nas produções. Exemplo: quando Glee começou, Cory Monteith (o Finn) tinha 27 anos e interpretava um teenager no high school.

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