Movies

Medo Profundo: O Segundo Ataque

Sequência de história de dois anos atrás chega aos cinemas com elenco desconhecido mas cheio de sobrenomes famosos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Esqueça as leis da física. Esqueça a lógica. A sequência do terror survival Medo Profundo: O Segundo Ataque (47 Meters Down: Uncaged, Reino Unido/EUA, 2019 – Paris Filmes) menospreza a capacidade intelectual do espectador mas nem por isso deixa de proporcionar alguns sustos. Rasos, por sinal. De profundo mesmo só o mar da Península de Yucatán, no México, onde se passa a aventura de quatro garotas (duas irmãs, como no primeiro filme) que decidem mergulhar para conhecer um recém-descoberto santuário maia.

O filme traz sobrenomes famosos entre as atrizes novatas. A modelo Sistine Rose Stallone faz sua estreia no cinema. E adivinha quem é o pai dela? Essa é fácil: Sisitine é a segunda filha de Sylvester, o Rambo, o Cobra, com a também modelo americana Jennifer Flavin (para ver que ela seguiu mesmo a profissão dos pais). Corinne Foxx é filha do ator e cantor Jamie Foxx. Há também a novata Brec Bassinger que, apesar do sobrenome, não é filha de Kim. No elenco também há um ator jovem chamado Khylin Rhambo, que, obviamente, não é filho do Sly. Para fechar, integram o cast John Corbett, Nia Long, Sophie Nelisse, Brianne Tju e o carioca radicado nos Estados Unidos Davi Santos.
O primeiro Medo Profundo, de 2017, também dirigido pelo inglês Johannes Roberts, entrou para a lista de mais um daqueles filmes sobre tubarão que surgiram na esteira do clássico de Steven Spielberg. O longa virou hit, apesar da premissa um tanto absurda: duas irmãs vão passar as férias num praia paradisíaca mexicana e decidem entrar numa daquelas gaiolas de mergulho usadas por turistas para ver os tubarões-brancos mais de pertinho, mas a gaiola arrebenta do barco que a sustenta e as garotas afundam em alto-mar a exatos 47 metros da superfície.

follow-up do ataque de tubarões surge dentro do mesmo contexto com as irmãs Mia (Sophie Nélisse) e Sasha (Corinne Foxx) que moram na península paradisíaca no México. O pai delas é interpretado por Corbett, o mergulhador que descobre o tal santuário do povo maia submerso. Certo final de semana, ele propõe que as filhas façam um passeio típico de turista, até como estratégia para aproximá-las (já que as duas não se bicam!) e observar os tubarões num daqueles aquários submersos. Na fila da atração, Mia acaba encontrando suas rivais da escola. Sasha e mais duas amigas convidam-na para uma aventura mais empolgante: mergulhar no cemitério subaquático.

Por um momento, o suspense nas primeiras cenas debaixo d’água gera a expectativa de que o filme trará surpresas. Porém, as decepções são grandes e várias situações não tardam a incomodar, como a voz límpida das garotas mesmo usando máscaras de mergulho e o fato de o mar parecer um piscinão já que nenhum peixe surge nos primeiros minutos. Quando você começa a se perguntar sobre onde estariam os peixes, surge a resposta através de um único exemplar de nadadeiras cego. A explicação é que o peixe evoluiu para se adaptar às profundezas, como os abissais. As garotas, porém, muito ingênuas desconheciam que ali também era habitat de tubarões, que também são cegos, mas não bobos como elas. As garotas viram iscas numa armadilha e precisam lutar contra os peixões e a falta de oxigênio.

A primeira cena de ataque, por mais previsível que seja, ainda é capaz de provocar certo susto. Como praticamente toda a trama se passa debaixo d’água, o diretor não tem para onde fugir e até consegue ser criativo em algumas sequências – como na cena em que um mergulhador é abocanhado com Roxette ao fundo. Os demais jump-scares se tornam ineficientes. Aliás, alguns chegam a provocar risos de indignação. Afinal, como ser mordido por um tubarão-branco sem ao menos ter a perna amputada?

O filme, enfim, mostra que ser filho de peixe grande não é suficiente e que as atrizes carecem de mais aulas de interpretação. Numa das sequências finais, é nítido quando Mia dá risada enquanto a irmã se esforça pra sobreviver (vamos entender que foi um riso de desespero…). Um ponto positivo é para o make à prova d’água das garotas (queria saber a marca!) e os ferimentos, que pareciam reais.

Apesar de ter no elenco herdeiras de astros de Hollywood, essa seqüência não merece mais do que três estrelas. Nem o tubarão, coitado, é tão assustador assim. Talvez se fosse em 3D escaparia de ir água abaixo.

Music

Brujeria

Letras altamente politizadas, humor negro e zoações com Trump: oito motivos para não perder o show da banda em Curitiba

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Texto por Rodrigo Juste Duarte

Foto: Divulgação

A banda Brujeria está em turnê pelo Brasil e vai se apresentar em Curitiba nesta sexta-feira de feriado (15 de novembro) no Jokers Pub (mais informações sobre o concerto estão aqui). Conhecido até por quem não costuma apreciar música extrema, o Brujeria – que está celebrando trinta anos de existência – tornou-se uma das mais conhecidas formações do grindcore mundial.

Para quem ainda não conhece, aqui vão oito motivos para não perder uma apresentação da banda, em especial a desta noite na capital passagem, onde o Brujeria toca pela segunda vez.

Humor negro

Tudo começou como uma piada, reunindo músicos amigos de várias bandas conhecidas como Napalm Death, Faith No More e Fear Factory. A brincadeira unia vocais guturais em espanhol (por conta de Juan Brujo, um dos poucos membros que restaram da formação original), instrumental brutal e letras que faziam referência a cultura mexicana subversiva, narcotráfico e até satanismo – além do mistério em torno das identidades dos músicos, que usam pseudônimos. Imagine agora tudo isso potencializado em seu álbum de estreia Matando Gueros, de 1993, que teve capa censurada em vários países por ter uma foto tirada de um jornal sensacionalista com a imagem de uma cabeça decepada em um suposto ritual (até hoje há controvérsia sobre a tal notícia, mas a cabeça se tornou um personagem apelidado de Coco Loco, que é referenciado em várias artes da banda). A intenção era chocar e ela foi cumprida. A fama da banda ganhou o mundo.

Virada sócio-política

A partir de 1995, com o lançamento do segundo álbum Raza Odiada, a banda adquiriu um tom mais denunciativo, partindo para uma pegada sociopolítica, abordando a partir de então seguintes questões sobre preconceito sofrido pelos latinos. Nisso sobrou para políticos americanos dos mais estúpidos, que não tinham a menor vergonha de latir suas ideias retrógadas. Exemplos? Pete Wilson, ex-governador da Califórnia, e o hoje presidente estadunidense Donald Trump.

Trolando Gueros 

Quando aparece alguém fazendo ou falando baboseiras dignas de receber o selo “inimigo dos mexicanos”, pode esperar que, mais cedo ou mais tarde, o Brujeria vai compor algo a respeito para zoar o sujeito. E esta vai ser com um senso de humor negro peculiar da banda. O ex-governador da Califórnia Pete Wilson ganhou duas músicas (“Raza Odiada” e “California Uber Aztlan”). Donald Trump, ainda quando estava em campanha para eleição presidencial, foi homenageado em “Viva Presidente Trump”. Neste ano, já em campanha extraoficial para a reeleição, voltou a ser fonte de inspiração para a banda na letra e na capa do single “Amaricon Czar”. Em tempo: no último álbum, Pocho Aztlan (2016), uma das imagens presentes é do vergonhoso muro mexicano erguido na fronteira entre os Estados Unidos e México, onde está pichado o sobrenome do republicano que hoje ocupa a Casa Branca.

Set list de clássicos

O cartaz da turnê brasileira informa que o show contará com os clássicos dos quatro álbuns. Se repetirem o mesmo repertório que já tocaram nas primeiras cidades da turnê brasileira, o público será contemplado com diversas faixas dos álbuns Raza Odiada e Brujerismo (2000), somadas a algumas poucas do trabalho de estreia (“Matando Gueros” e “Desperado”) e do mais recente Pocho Aztlan (“Satongo” e “No Aceptan Immitaciones”), além de músicas de duas músicas novas (“Amaricon Czar” e “Lord Nazi Ruso”). Só é uma pena que não haja espaço para muitas do último disco, talvez por ele não ter sido muito marcante na carreira do grupo. Mas ainda assim lá estão suas pérolas. Se o público pedir a plenos pulmões, quem sabe eles não tocam o hino “Mexico Campeon” (feito para a última Copa do Mundo) ou a releitura “California Uber Aztlan”?

Juan Brujo

Todos os integrantes têm outras bandas. Menos o vocalista, que integra o Brujeria com exclusividade. Vários músicos são americanos de origem hispânica. Mas Juan Brujo é mexicano de fato. Ele sempre se apresenta com o rosto coberto por um lenço com a bandeira do México, mantendo sua identidade em sigilo por décadas. Boa parte do universo do Brujeria é escrito por Brujo nas letras da banda. É uma figura icônica.

Choke

A noite de 15 de novembro no Jokers não se resume apenas ao show do Brujeria em Curitiba. A produção caprichou na escalação de bandas de abertura, trazendo ao palco um verdadeiro trio de ferro da música extrema de Curitiba. Isso inclui o Choke, que conta com vocais e letras do também escritor e filósofo Ottavio Lourenço (se você já esteve na Biblioteca Pública do Paraná e foi atendido por um bibliotecário que vinha trabalhar todo dia com uma camiseta do Brujeria, pode ter certeza que era ele). A banda teve início em 1998 e de lá para cá já fez nada menos do que quinze turnês levando seu metal crossover para países da América do Sul. A discografia conta com seis álbuns lançados, além de um split.

Jailor

Há quem diga que esta é a reserva moral do thrash metal de Curitiba. Aliás, um thrash devastador, diga-se de passagem. Assim como o Choke, também iniciou atividades em 1998, chegando em 2005 ao primeiro álbum Evil Corrupts. Dez anos depois, o grupo lançou o segundo, intitulado Stats Of Tragedy. Ambos possuem produções dignas das bandas do primeiro escalão do gênero no Brasil, com um cuidado precioso tanto nas músicas quanto nas gravações. O Jailor já abriu shows de grandes nomes do metal mundial, como Destruction, Exciter, Exodus, além de tantas outras estrangeiras e nacionais.

Necrotério

Provavelmente o maior representante do metal extremo paranaense. Sua temática é splattergore. No ano passado completou 25 anos, acumulando no currículo três álbuns, um DVD e duas turnês europeias (tendo tocado na Alemanha, Bélgica, França, República Tcheca, Croácia, Eslovênia, Áustria, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Itália). Ainda nos primórdios, seu nome repercutiu pelo Brasil quando o grupo gravou um videoclipe comandado pelo diretor de filmes trash Peter Baiestorf.

Music

Weezer – ao vivo

Quarteto volta ao Brasil após quase uma década e meia com repertório de clássicos misturados a covers especiais

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Texto por Bruno Castro

Foto: Weezer/Reprodução

O Weezer se apresentou na quinta feira 26 de setembro em São Paulo, no Ginásio do Ibirapuera. Para alguém que como eu cresceu e vivenciou os anos 1990 na infância e adolescência, um flash de coisas passou pela cabeça.

A banda abriu o show com “Buddy Holly”, uma das mais famosas do álbum de estreia. Na sequência, foi mantendo o clima no topo com “Undone – The Sweater Song” (do mesmo debut, de capa azul) e “Hash Pipe” (do terceiro, de capa verde). No set estavam incluídas uma série de canções alheias extraídas do recém-lançado álbum de covers, como “Africa” (Toto), “Take On Me” (a-ha) e “Happy Together” (Turtles). Esta foi uma viagem bem encantadora rumo aos anos 1960 com direito a inclusão de trecho de música do Green Day, mas foram em músicas como “The Good Life” (do segundo álbum) e “Island In The Sun” (do terceiro) é que a banda mostrou toda a sua versatilidade emulada na geração 1990 do rock alternativo, da qual tornou-se um dos principais representantes.

“My Name Is Jonas” (do “Blue Album”), “El Scorcho” (de Pinkerton) e “Porks and Beans” (uma das mais recentes do set, do disco de capa vermelha, de 2008) deram ânimo a varias pessoas vistas cantarolando durante o show. O vocalista Rivers Cuomo, por sua vez, esbanjou simpatia. Disse que SP era o par perfeito, Falou ainda diversas vezes que amava todos nós. Uma espécie de dívida que foi paga com uma apresentação incrível – afinal o quarteto americano só havia tocado antes no Brasil uma única vez, em Curitiba, em 2005.

Os mais saudosistas ainda foram recompensados com duas covers especiais: “Paranoid” (Black Sabbath) e “Lithium” (Nirvana). Mas o encerramento do concerto –  com direito a uma versão a cappella de Buddy Holly e gran finale trazendo a maravilhosa “Say It Ain’t So” (mais um resgate do álbum de estreia e o primeiro das obras batizadas com o nome da banda e que se diferenciam pelas cores de suas respectivas capas) – deu a chave de ouro uma noite que fez passar um filme na mente de todos os que estavam na pista meio vazia do Ibirapuera.

Depois disso, resta esperar que o Weezer não demore mais uma década e meia para voltar a se apresentar no Brasil.

Set list: “Buddy Holly”, “Undone – The Sweater Song”, “Hash Pipe”, “My Name Is Jonas”, “Happy Together/Longview”, “Holiday”, “Island In The Sun”, “Perfect Situation”, “Take On Me”, “The End Of The Game”, “Surf Wax America”, “Africa”, “The Good Life”, “El Scorcho”, “Paranoid”, “Porks And Beans”, “Beverly Hills” e “Lithium”. Bis: “Buddy Holly (a cappella) e “Say It Ain’t So”.

Movies

Divaldo – O Mensageiro da Paz

Cinebiografia do médium baiano fica à altura de sua obra ao tratar de temas como a sua atividade filantrópica, o suicídio e o que há após a morte

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Fox/Divulgação

A ideia de que o ser humano é livre para optar pelo seu futuro e tomar decisões sobre seus atos sempre foi debatida pela filosofia e religião. Há quem diga, porém, que o livre-arbítrio é inverossímil, que nosso destino já está predefinido, escrito, seja por Deus, pelos astros ou pela entidade que for. Os budistas, pelo contrário, acreditam na lei da ação e reação, o “karma”, que diz que para toda decisão há uma consequência, boa ou ruim. A doutrina espírita também segue nesta linha, de que a evolução do ser humano depende de um constante aprendizado, o qual demanda esforço diário, pessoal e interpessoal. Nosso objetivo é alcançar a tal da perfeição, outro termo bastante complexo. Por isso, algumas almas precisam reencarnar tantas vezes quantas forem preciso até que essa transcendência moral e intelectual aconteça, por meio da caridade, da tolerância, do perdão, da fraternidade, do amor ao próximo como pregava os líderes espirituais Jesus Cristo ou Mahatma Gandhi.

Um desses seres que beiram a perfeição teve sua biografia transformada em longa-metragem. Divaldo – O Mensageiro da Paz (Brasil, 2019 – Fox) é um filme que retrata um ser humano exemplar que tem se dedicado de corpo e alma a acolher o próximo. Aos 92 anos, Divaldo Pereira Franco segue em atividade na Mansão do Caminho, a obra social do centro espírita Caminho da Redenção, erguido há 67 anos em Salvador e que presta diversos serviços além de ajuda espiritual a milhares de pessoas independentemente da religião. Hoje são 600 crianças acolhidas pela entidade filantrópica.

Ao contrário do popular Chico Xavier, o nome Divaldo é conhecido apenas entre os seguidores do espiritismo, mesmo tendo proferido dezenas de palestras ao redor do mundo e vendido mais de oito milhões de livros. Por isso, estava mais que na hora da cinebiografia sobre o médium entrar para o rol dos filmes espíritas.

O diretor Clovis Mello, que assina também o roteiro, conseguiu entregar uma obra correta e à altura do médium, tirando alguns tropeços perdoáveis. O longa foi baseado no livro Divaldo Franco: a Trajetória de um dos Maiores Médiuns de Todos os Tempos, de Ana Landi, e, assim como o filme Kardec (sobre o pai do espiritismo, lançado no primeiro semestre deste ano), também deveria ser visto por adeptos de qualquer doutrina ou religião. Primeiro por tratar de temas delicados, como o suicídio (lembrado neste mês pela campanha Setembro Amarelo), e pela visão que católicos e espíritas têm sobre a morte. Outro motivo está explícito no título do longa: a mensagem de Divaldo, que abdicou de uma vida tradicional para dedicar-se à filantropia, para levar um pouco de paz e amor àqueles que sofrem de carência, financeira ou afetiva.

O filme conta a trajetória do menino, nascido em Feira de Santana, Bahia, que desde os quatro anos de idade se comunica com os mortos e, por isso, precisa a aprender a conviver com o preconceito dos incrédulos. Pela mediunidade ter se manifestado cedo, conversar com a avó morta por exemplo era tão natural quanto bater um papo com um familiar de carne e osso.

Três atores interpretam o médium: João Bravo, na infância; na mocidade, Ghilherme Lobo; e pelo recifense Bruno Garcia, na fase adulta. A história é contada de forma linear e Mello mostra a evolução do caráter de Divaldo, com sua teimosia e orgulho presentes na juventude, até a aceitação da sua vocação e a posterior conquista da serenidade.

A escolha do elenco, aliás, foi decisiva para garantir coesão à trama e alcançar a empatia do espectador, principalmente em relação ao sotaque. Os pais de Divaldo, por exemplo, são interpretados por atores de teatro baianos. A mãe, dona Ana, é Laila Garin, que conduz sua personagem com uma doçura irresistível. Caco Monteiro é Seu Francisco, o pai severo, porém capaz de absorver ao longo do tempo as diferenças do filho.

Divaldo pertencia a uma família católica e, logo no início do filme, surgem várias críticas à igreja. Numa das cenas mais cômicas, o médium, na pele de Ghilherme, vê o espírito da mãe do padre com quem está se confessando. Curioso, o religioso pergunta como sua mãe está vestida e a resposta de Divaldo o faz se libertar de suas amarras.

O longa ainda mostra como o espírita recebeu apoio de pessoas queridas, verdadeiros “pontos de luz”: dona Ana é uma delas e representa a verdadeira mãe de sangue nordestino. Do início ao fim da sua vida, concede o apoio incondicional ao filho, quando, por exemplo, ele é convidado pela médium Laura (Ana Cecília Costa) ainda na adolescência a se mudar para Salvador para estudar a doutrina e trabalhar como datilógrafo. Outro que permaneceu ao lado do médium desde jovem foi o amigo Nilson.

Em sua jornada, Divaldo recebe orientações de sua guia espiritual, Joanna de Angelis, reencarnação de Santa Clara de Assis, a quem é atribuída a maior parte das mensagens psicografadas pelo baiano. A entidade é interpretada por Regiane Alves, que logo coloca os pingos nos is a Divaldo, alertando-o sobre as dificuldades, resistência e preconceito que enfrentaria. Por mais que a doutrina espírita evoque o livre-arbítrio, o filme nos leva a entender que Divaldo já estava predestinado e que ter filhos de sangue não estaria incluso na sua missão. Ele teria filhos de coração.

O contraponto de Joanna vem na forma do espírito obsessor incorporado pelo ator Marcos Veras, que soa um tanto caricato, vestido de preto, com maquiagem pesada e fantasmagórica. A alma assombra a mente de Divaldo, sempre atiçando-o para o lado negro. Outro ponto forçado é a trilha sonora, que parece ter sido escolhida a dedo para arrancar lágrimas dos olhos dos espectador mais sensível – como na cena em que Divaldo perde a sua mãe com “Ave Maria” ao fundo.

No geral, Mello preocupou-se em enfatizar a doutrina espírita em sua essência, de uma forma leve, graciosa e com diálogos bem-humorados. Porém, as falas de Regiane Alves, principalmente, fogem desse viés e soam um tanto cansativas, em tom de sermão. Em certas cenas, a atriz chega a perder o fôlego para dar conta do texto extenso.

Entre tantos ensinamentos transmitidos por Joanna a Divaldo, um deles é determinante para acolher em nosso cotidiano tão trivial, quando encarar alguns vivos chega a ser mais aterrorizante do que topar com uma alma penada. A melhor resposta para enfrentar a intolerância é o silêncio.

Movies

Yesterday

O consumo musical de hoje em dia é questionado com história costurada por canções dos Beatles em um mundo onde a banda não existiu

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Universal Pictures

Talvez um mundo sem Rolling Stones seja possível. Sem Beatles, porém, jamais. Pelo menos essa é a visão de Yesterday (Reino Unido, 2019 – Universal Pictures), filme dirigido pelo aclamado Danny Boyle, do cult Trainspotting e do oscarizado Quem Quer Ser um Milionário?, que estreia no Brasil com dois meses de delay.

Em resumo, o longa é uma bela homenagem aos Fab Four, com críticas sutis ao showbiz frente ao mundo volátil de hoje e carregando uma mensagem totalmente John Lennon no final. Quem assina o roteiro é Richard Curtis, o neozelandês naturalizado britânico especialista em comédias românticas água com açúcar como Quatro Casamentos e um Funeral Um Lugar Chamado Nothing Hill. Da dobradinha inglesa, quem se sobressai é o roteirista que imprime sua digital ao filme, abafando a direção de Boyle.

O longa conta a história de Jack Malik (interpretado pelo britânico filho de pais indianos Himesh Patel) que vive em Lowestoft, condado de Suffolk, Inglaterra, com sua vidinha de repositor num supermercado. Em paralelo, ele se apresenta em pubs e festivais, tocando as composições que compõe, às quais ninguém dá muita atenção. Pela decoração do quarto de Malik, dá pra perceber sua paixão por indie rock: há pôsteres da banda escocesa Fratellis; do álbum In Rainbows, dos ingleses do Radiohead; e dos americanos Killers. Além de cantar, Malik é multi-instrumentista (toca piano, violão e guitarra) e guarda uma supercoleção de discos de vinil dentro do armário.

Quem dá suporte à sua carreira são os amigos. Em especial Ellie Appleton (Lily James), parceira desde a infância e que se tornou uma espécie de manager de Malik. Lily é uma garota meiga e romântica, que dá aulas de matemática numa escola e, claro, nutre uma paixão platônica por Malik.  Quando, frustrado, o rapaz pensava seriamente em desistir do sonho de se tornar um cantor famoso, o inesperado acontece. Ao voltar para casa pedalando após um show praticamente às moscas, ele é atropelado por um ônibus durante um apagão planetário, como o bug que todos esperavam na virada do milênio. Jack vai parar no hospital e lá já percebe que há algo mais estranho do que ele ter ficado banguela. O rapaz cantarola trecho de uma canção dos Beatles e Ellie sequer reconhece. Ao receber alta, ganha um violão novo de presente e interpreta a canção que batiza o longa, “Yesterday”, que Paul McCartney compôs logo após lembrar-se de uma melodia vinda durante um sonho.

E então o mote do filme começa. Malik reage ao impacto de saber que é o único que se lembra de Beatles, num misto de indignação e nervosismo. Os amigos do protagonista chegam a comparar “Yesterday” com “Fix You”, do Coldplay – um dos momentos hilários do longa. O mundo, então, torna-se estranho, vazio e sem sentido para o rapaz que, por várias vezes, recorre ao Google para descobrir se algo mais desapareceu no fog. Será que o Oasis sequer existiu também?

Malik se vê na obrigação de mostrar ao mundo o que só ele lembra e, de quebra, consegue impulsionar sua carreira ao se apropriar da obra de Paul, John, George e Ringo, despertando, claro, curiosidade e desconfiança por conta de toda essa explosão criativa que surge da cabeça de quem compunha canções banais.

Conforme ele mergulha na memória para buscar cada palavra e cada acorde do repertório beatle, revela-se a trilha sonora do filme, repleta de “lados A” como “I Wanna Hold Your Hand”, “In My Life”, “Help!”, “Eleanor Rigby”, “I Saw Her Standing There”, “All You Need Is Love”, “Let It Be”, “Hey Jude”, “Here Comes The Sun” e “Ob-La Di Ob-La-Da”. Para relembrar a dificílima letra de “Eleanor Rigby”, precisa ir a Liverpool e visitar alguns lugares, por exemplo. E assim várias canções do quarteto vão dando um contorno ao filme, cada qual situada com um propósito definido.

Os “novos hits” passam a chamar atenção e Malik conhece Ed Sheeran, a grande surpresa do longa. O astro pop interpreta ele mesmo, como uma autocaricatura, um clown, e é responsável por arrancar boa parte das risadas do público (algo me diz que Sheeran teve aulas com Hugh Grant!). As obras-primas despertam também os olhares da manager de Sheeran, Debra Hammer (a comediante Kate McKinnon, que dá um show ao personificar a produtora sem escrúpulos).  De rapaz desconhecido, Malik vira ídolo pop. Alcança e conhece de perto a fama, primeiro abrindo shows do astro ruivo inglês que compôs “Shape Of You”, cujo refrão surge repetidamente no filme. Numa das cenas, os dois chegam a disputar quem faz a melhor música na hora (adivinhe quem ganha!).

A partir do momento que o protagonista começa a fazer sucesso com os hits dos Beatles – e obviamente desbanca Ed Sheeran – é possível perceber críticas implícitas sobre as mudanças sofridas na indústria do entretenimento nestas últimas décadas. Como a tecnologia transformou o processo de criação (quem é capaz de fazer uma letra como Eleanor Rigby hoje?) e facilitou o consumo de música pop requentada (porque a original Coca-Cola também desapareceu do mundo e só existe Pepsi?); e também como o marketing digital revolucionou a divulgação do trabalho dos artistas. A direção de Boyle, com seus efeitos visuais e ritmo dinâmico, nos faz mergulhar na era dos downloads, aplicativos e redes sociais e refletir sobre essas alterações tão impactantes na indústria cultural. Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band perde o colorido e “Help!” se transforma num hardcore meia boca.

O eixo principal do filme, porém, é o relacionamento entre Malik e Ellie, que fica conturbado depois que o rapaz atinge o estrelato. Mas a tensão entre o casal só vem à tona nos minutos finais. Aliás, Yesterday desanda da metade para o fim (se perde assim como a série Lost) e a expectativa de um desfecho criativo é atropelada por um ônibus biarticulado.

Mesmo assim vale assistir a Yesterday pelo tributo, pelos covers bem executados por Patel, para rir de Ed Sheeran e, sobretudo, refletir sobre o modo como consumimos cultura e amor hoje em dia. Como já diziam os Beatles, bem fresquinho na memória: “in the end the love you take is equal to the love you make”.