Movies

Ema

Perfeita introspecção mostrada no início da história não se sustenta no decorrer do novo filme dirigido pelo chileno Pablo Larraín 

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: MUBI/Divulgação

A MUBI, que já é uma plataforma pioneira em streaming, tornou-se precursora de uma alternativa atraente para a distribuição de filmes em meio à pandemia da covid-19. Ema (Chile, 2019), premiado novo longa de Pablo Larraín, teve sua estreia pela plataforma, que, mediante inscrição, disponibilizou o filme por 24 horas para assinantes e não-assinantes.

A trama de Ema, roteirizada por Guillermo Calderón e Alejandro Moreno, é o segundo crédito da dupla na área. Retrata a confusão da vida de sua protagonista (Mariana Di Girólamo), bem como daqueles a seu redor, enquanto lida com as consequências da devolução de seu filho adotivo, Polo. No roteiro, há uma clara tentativa de constituir uma narrativa cuja temporalidade é única, porém a inexperiência de seus escritores se destaca, tornando-a confusa e pouco envolvente. O ritmo da história (mas não da montagem) é vagaroso, atando sequências desconexas e criando outras que pouco adicionam à trama. Isso ocorre, também, pelo esforço do longa em ser multitemático; isto é, explorar uma pluralidade de temas em vez de focar seu discurso em um ou poucos. 

No entanto, tal esforço não provém somente do roteiro, como é possível enxergá-lo na maneira em que Larraín conduz a trama por sua direção. Munido da fotografia impressionante de Sergio Armstrong, o diretor cria uma série de signos cuja interpretação não escapa do óbvio. São cenas belíssimas, como as de Ema ateando fogo a praças públicas e a estonteante dança do início do filme, mas que falham em ser mais que isso. Durante grande parte de sua duração, Ema é um longa-metragem de encantadora embalagem, mas pouquíssima substância.

Devo dizer que não creio ser demérito do elenco, que parece, acima de tudo, dirigido para um caminho paradoxal. Enquanto Gael García Bernal está brilhante em uma aparente zona de conforto, retratando o diretor da companhia de dança de Ema e suas amigas ao mesmo tempo que o (ex-)esposo de pavio curto da protagonista, Mariana, que carrega o filme, está bastante contida – e é possível ter um vislumbre de seu potencial nas cenas em que lhe é permitida maior liberdade. Larraín parece buscar um caminho introspectivo para a personagem, enquanto Di Girolamo se destaca quando permite a Ema mostrar-se mais.

A introspecção de Ema é vital para os primeiros minutos do filme, em que Larraín parece conduzir-nos a uma história bastante diferente da que acabamos por assistir. Parte do sucesso dessa – como também de outras sequências ao redor do longa – é a sensacional trilha sonora de Nicolas Jaar, uma perfeita demonstração de como áudio e fotografia se entrelaçam para desenvolver a emoção e o significado da projeção fílmica. É uma pena que, ao desenvolver um discurso antielitista em favor do reggaeton, aliando sua dança à expressão livre do corpo sensual, o cineasta chileno opte por (paradoxalmente) utilizar a música experimental de Jaar bem nos momentos em que tal expressão tem seu maior significado. Após iniciar de maneira perfeita, com o equilíbrio perfeito entre substância e embalagem, Ema acaba se perdendo à medida que tenta alcançar mais do que consegue. Se os créditos viessem aos 16 minutos, o filme seria muito melhor do que se torna com sua uma hora e quarenta e sete minutos de duração.

Music

How To Dress Well – ao vivo

Sozinho no palco, Tom Krell arrasta os espectadores do Balaclava Fest para sua dimensão íntima de abstrações e sentimentos

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Texto por Daniel González Xavier

Foto: Fabricio Vianna/Balaclava/Divulgação

O norte-americano Tom Krell, nome por trás do projeto solo How To Dress Well, iniciou sua apresentação para as poucas pessoas que acabavam de adentrar o espaço Club da Audio (SP), após o encerramento do show do Wild Nothing no Balaclava Fest do último 27 de abril. Logo de cara, estabeleceu um pacto de intimidade e cumplicidade com o público presente através de sua emocional mescla de electronica, R&B e pop experimental que irradiava, junto às cores e texturas, provenientes das projeções visuais generativas no fundo do palco.

Minutos depois o espaço estava lotado e o How To Dress Well arrastava os expectadores para sua dimensão íntima e pessoal, em um difícil equilíbrio entre sutileza e força através da combinação de cálidas harmonias, vozes em falsete e beats evocados por sintetizadores e sequenciadores de ritmo. O músico se alternava entre dois microfones carregados de efeitos para sobrepor e acoplar a própria voz, que se materializava de diversas formas rumo à construção de atmosferas, ora sombrias ora luminosas.

Impressionou a capacidade de Tom Krell em transpor para o palco seus pensamentos, tristezas e temores como se não houvesse filtro entre seus sentimentos e sua música. As letras fluíam de forma terna, mantendo o peso das palavras através de uma voz reconhecível, mesmo quando sobreposta por capas e efeitos.

Porém o melhor de seu live esteve guardado nas entrelinhas. Eram estalidos, rupturas sonoras, glitches e abstrações que emergiam abruptamente, criando fraturas e dissonâncias para logo se harmonizarem com a sua particular mistura de pop e rhythm and blues.

Set List: “Human Disguised As Animals ŸNonkilling 1”, “Body Fat”, “Nonkilling 3 ŸThe Anteroom ŸFalse Kull 1”, “Nonkilling 13 ŸCeiling For The Sky”, “Love Means Taking Action”, “Vacant Boat”, “Suicide Dream 1 (Orchestral Version)”, “Nothing”, “Words I Don’t Remember” e “Nonkilling 6 ŸHunger”.

Music

Hurtmold

Depois de show intimista em Curitiba, banda fala ao Mondo Bacana sobre os 20 anos de carreira e os planos para um novo disco

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Texto e entrevista por Guilherme Motta

Fotos: André Calvente/Divulgação (banda) e Guilherme Motta (show)

Na véspera do feriadão de carnaval, Curitiba recebeu uma das bandas referência da música contemporânea brasileira. O Hurtmold, que está completando 20 anos de sua existência, apresentou-se na noite quente de quinta-feira (28 de fevereiro) no jardim do Veg Veg – Empório Vegano, que há algum tempo vêm nos trazendo algumas bandas do cenário independente. Quem conhece os proprietários sabe que eles sempre foram envolvidos com o cenário do punk e desde então vêm trazendo bandas para se apresentar na cidade.

O showcontou com pouco mais de 150 pessoas. Os ingressos eram limitados e isso tornou ainda mais especial, intimista e animador. O cuidado com o preparo do palco, equipamentos, luz e ambiente fez com que essa apresentação fosse uma das coisas mais bonitas que eu já presenciei na cena independente local. E palavras do próprio Fernando Cappi, guitarrista da banda, “Tocar aqui desta forma, para essas pessoas, foi uma das experiências mais bonitas e intensas que já tive”.

A apresentação durou em torno de uma hora. Tinha de acabar cedo, pois o espaço é aberto e há residências vizinhas ao entorno. Os caras executaram seus mais diversos temas instrumentais. O set list foi bem diversificado, com músicas dos trabalhos mais antigos até os mais recentes.

O público estava visivelmente muito empolgado em ver o sexteto paulistano ali, tocando num espaço pequeno. Como não pode faltar em apresentações como estas, entoaram um coro que deu orgulho quando a banda começou a tocar a música que é uma das minhas preferidas, “Chuva Negra”, emendando logo depois “Desisto”. Realmente muito emocionante.

Logo após o show, depois da adrenalina baixar, fumar alguns cigarros, trocar ideias com os integrantes pela calçada em frente ao local do show, sentamos tranquilos em uma mesas perto do palco. Ali os caras me concederam uma entrevista, que foi mais como uma conversa normal entre uns amigos falando sobre as bandas que gostam, rolês, amigos, discos, livros, etc. O texto que segue é um resumo sobre tudo o que conversamos. Afinal, foram algumas horas de conversa gravada e transcrever tudo isso seria impossível. Detalhe: não apenas um só integrante falou, mas todas as respostas estão creditadas à banda como um todo.

Hurtmold

São 20 anos de banda já… Vocês são amigos há quanto tempo? Como começou todo esse rolê de querer tocar e formar o Hurtmold?

Cara, são alguns núcleos na banda, alguns de nós nos conhecemos em 1995, estudando juntos, no primeiro colegial, o Marcão (Marcos Gerez) entrou no mesmo colégio no ano seguinte. O Fernando e o Mário são irmãos e o Maurício Takara a gente conheceu por volta de dois anos depois, ali em 1996/1997 porque fomos ensaiar no estúdio da família dele. E também a gente já meio que sabia quem era porque íamos em shows das bandas dele, do rolê hardcore/punk, bandas como o Againe, e o Small Talks. A gente estava procurando um estúdio pra ensaiar e achamos esse aí. Tinha uma galera que curtia Descendents. Tinha uns argentinos bem loucos. E quando chegamos lá eram os caras. Nisso começou nossa amizade.

Vamos lá, deixa eu ver se estou certo: nestes 20 anos já são seis álbuns, um split e dois demos?

Vish, cara! Você sabe melhor do que nós. Se você diz… é isso aí!

Está aqui, anotado! Vocês são uma das bandas mais influentes do cenário experimental.  E como é vocês olharem pra trás e verem tudo isso que fizeram, toda essa bagagem nas costas?

É meio natural, na real, porque a gente começou, continuou e estamos aí!. A gente tem a banda porque é amigo e não ao contrário. E isso é bem determinante no fator banda. É o bagulho mais legal do mundo, saca? Toda vez que a gente sai tocar junto e viajar é muito foda! Estamoa lá tocando e sempre pensamos “pô, que massa, está funcionando e é do caralho!”. Inclusive quanto mais velho a gente vai ficando e tocando, mais emocionado a gente fica com o rolê.

O intuito é sempre esse, né? Continuar fazendo um som com os amigos. fator mais importante pra mim também. Agora, passando para o ano de 2016… O disco Curado, com o Paulo Santos, ex-Uakti. O cara é a referência da música contemporânea no Brasil. Como foi esse processo? Vocês já tinham algo pronto e só chamaram ele ou entraram em estúdio e fizeram tudo do zero?

A gente já tinha feito alguns shows com o Paulinho uns anos antes. O contato começou quando alguém sugeriu uma participação e a gente topou. Então, ficamos nos comunicando por e-mail. Rolavam umas idéias e decidimos fazer a parada. E, porra!, no primeiro show que a gente fez juntos a gente não conhecia o cara pessoalmente e quando ele chegou a gente pensou: “nossa, mano, esse cara é tipo um truta nosso, facilmente andaria com a nossa galera se fosse do mesmo rolê!” (risos)E depois dali a gente já sabia que ia longe a parada. Foram uns anos tocando juntos quando resolvemos registrar a parceria. Aí saiu esse álbum. Foi bem natural o processo.

Legal, e o cara é punk, tiozinho punk. Essa é a real, não tem como dar errado na minha opinião… E não deu. Já se passaram três anos desse lançamento, vocês tocaram aqui em Curitiba hoje, na sequência no Psicodália. Então aí vai a famosa pergunta: vem coisa nova aí, vão gravar, estão compondo? Como que estão os projetos futuros?

Pô, vai sim, uma hora tem que sair! A gente conversou sobre isso, mas também não vai ser muito em breve. A gente tem o nosso processo, é devagar. Não tem nenhuma cobrança em cima disso. Dentro do nosso ritmo está acontecendo. Sempre que rola uma reunião criamos algo juntos. Então, é natural uma hora nós tenhamos material pra lançar.”

Isso que é massa: não ter obrigação de fazer uma parada e, se rolar, rolou. Agora, para finalizar, essa última pergunta é uma piração minha que eu curto saber da galera por aí. Quero que vocês de dêem o nome de três discos que fez tudo isso acontecer, desde a amizade de vocês até trazer influências para a banda.

Calma aí. A gente tem que decidir entre todo mundo aqui. Três discos? Beleza! Cara, tem um que é crucial, porque eu lembro até de ter comentado com o Farofa, o vocalista do Garage Fuzz, que na escola a primeira coisa que a gente trocou idéia de som foi sobre o Garage Fuzz. Por que a gente sempre ouvia os caras, a gente vivia nos shows e tal. Outra coisa é que a gente teve a chance de ver o Fugazi, conversar com os caras depois do show. E isso foi um divisor de águas para a gente. O Fugazi é uma banda muito importante. Isso ajudou a formar o núcleo do começo do Hurtmold. Então, acho que Repeater, do Fugazi, entra nessa lista. E outro disco que pode entrar também é o clássico A Love Supreme, do John Coltrane. Não é o mais importante pra todo mundo, mas a energia e a idéia do disco é a mesma.

Então é isso mesmo? Esses três?

Isso mesmo: 1) Garage Fuzz, Relax In Your Favorite Chair; 2) Fugazi, Repeater (mas pode colocar todos os discos deles aí também); e 3) John Coltrane, A Love Supreme.