Movies

O Poço

Produção espanhola suscita debates interessantes porém pouco se arrisca fora das muletas do choque por meio de fortes imagens

elhoyonetflixmb

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

É um grande desafio prender seu filme nas amarras de uma única possibilidade de cenário. O Poço (El Hoyo, Espanha, 2019 – Netflix), que estreou recentemente e é uma das tendências da plataforma de streaming, apresenta pouquíssimas cenas fora das celas predefinidas de sua prisão (ou centro de autogestão), que alternam entre um monótono cinza azulado e um igualmente monótono vermelho onipresente. É de se imaginar que o enredo do thriller espanhol seja bom o suficiente para angariar os fãs que sua fotografia deixa de maravilhar.

Escrito por David Desola e Pedro Rivero, o roteiro acompanha Goreng (Ivan Msasagué), que, por livre arbítrio, entra no Poço por seis meses com a intenção de parar de fumar. A estrutura dessa prisão é simples: centenas de andares, cada um com duas pessoas; uma vez por dia, uma mesa repleta de comida desce do andar anterior. Ou seja, enquanto os primeiros andares têm uma farta mesa, os demais devem satisfazer-se com seus restos. O problema é igualmente simples e até óbvio, como diria Trimagasi (Zorion Eguileor), um dos personagens: em um dado momento, os andares deixam de receber comida – e, assim, devem morrer de fome ou matar uns aos outros. É comer ou ser comido.

Dadas as regras, que são transmitidas por Trimagasi assim que a trama se inicia, nossas simpatia e empatia estão com Goreng, que encara com horror o funcionamento do Poço, bem como as consequências deste. Qualquer outro comentário acerca da trama entra em território perigoso de spoiler. Então, só me resta transmitir que, por mais que a franqueza dos diálogos e a rapidez com que eles passam as informações possam incomodar, tais características diminuem e as conversas se normalizam – na medida do possível.

O filme é dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia (em seu primeiro longa-metragem) e traz consigo uma abertura para o debate de inúmeros temas. É possível explorar religião, leis, o papel estatal e assim em diante. Não muito disto, porém, provém da decupagem de Gaztelu-Urrutia, que não parece empregar muitas marcas estilísticas autorais. Tendo isso em vista, encontra problemas em uma das características mais marcantes da obra, sua utilização do grotesco para chocar a audiência. Há exemplos disto não somente na decupagem fotográfica, como também na dimensão sonora da trama – os sons exagerados ao comer, seja o que for.

Mas, principalmente, há uma arbitrariedade da utilização da capacidade de choque da imagem que só se justifica pela busca gratuita deste, a fim de prender a atenção dos espectadores. Convido ao leitor a se perguntar, a cada cena de grafismo agressor (imagens de violência), se esta é realmente necessária. Ela introduz algo novo à compreensão do filme? Provoca o espectador acerca de um tema? E, continuando, peço que faça o mesmo a cada opção por não revelar a violência em sua dimensão gráfica. Não é possível encontrar um exemplo de cena similar que teve exposta sua violência? Existe uma decisão ordenada de quais cenas têm seu conteúdo violento apresentado?

Sinto dizer que não fui capaz de positivar essa resposta. Sendo assim, a direção de Gaztelu-Urrutia oscila entre o convencional e o fetichista, mas não ofusca a funcionalidade do enredo por mérito da montagem de Elena Ruiz e Haritz Zubillaga, que introduzem um ritmo pulsante à narrativa, seja em seus momentos de diálogo ou nas várias montages que cortam a trama. É ela que, quando não ofuscada pela necessidade de gore de seu diretor, aflora o interesse temático e narrativo que a audiência tem em O Poço.

Portanto, o filme espanhol tem seus méritos e também seus deméritos. É capaz de trazer entretenimento, até mesmo servir de base para discussões sobre a natureza da humanidade. Entratanto, seu fetiche pelo gore pode afastar audiências – e suscita, por si mesmo, um debate negativo ao longa. Vale assistir, mas não há motivo suficiente para, como vi por aí, compará-lo a Parasita ou qualquer “melhor filme” dos anos recentes.

Movies

Um Lindo Dia na Vizinhança

Na pele de um famoso e carismático apresentador de programa infantil da TV americana, Tom Hanks rouba a cena mesmo como coadjuvante

umlindodianavizinhancaMB

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Tom Hanks é conhecido por ser um dos caras mais legais de Hollywood. O papel de Fred Rogers parece ter sido feito sob medida para ele. O apresentador conhecido por seu programa infantil, que deu nome a este filme, não é protagonista da história, mas Hanks e seu carisma criam a sensação de que o filme gira em torno apenas dele.

A história de Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day In The Neighborhood, China/EUA, 2019 – Sony Pictures), acompanha o cético jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) na missão de entrevistar o astro Mr. Rogers. Cheio de conflitos internos, o repórter acaba passando por uma transformação ao conhecer mais a fundo o sempre doce apresentador.

Um Lindo Dia na Vizinhança ganha, (e muito) pela presença de Hanks no elenco. Certeiro, o ator consegue cativar em um personagem de muitas nuances. As conversas entre Lloyd e Rogers são delicadas e humanas, de longe os pontos altos do filme. Destaque especial para quando os dois dividem uma refeição em um restaurante sob olhares curiosos.

O filme apropria-se do cenário do programa infantil para realizar transições e inclusive uma cena de epifania do jornalista. Esse artifício rico traz dinâmica a história, inserindo quem está do outro lado da tela ao mundo colorido e lúdico construído por Mr. Rogers.

Tom Hanks segura o quanto pode, mas a história água com açúcar acaba por perder o embalo por vezes. Quando o ator ganhador do Oscar não está na frente das câmeras, nem sempre dá paral manter o foco. Lloyd não é carismático o suficiente para prender em seus momentos solo. É fácil entender sua raiva e sua dor, mas é mais fácil ainda entendê-la quando Mr. Rogers o auxilia.

Dirigida por Marianne Heller, a história cai em um lugar comum ao render-se a um dramalhão nas partes derradeiras. Claro, é bonito ver o desfecho do protagonista, mas e Mr. Rogers? É possível ver o final feliz de um personagem secundário? O filme, principalmente em sua última cena, atiça a curiosidade de entender mais sobre a vida e os sentimentos de Fred e não de Lloyd. Por isso, Um Lindo Dia na Vizinhança torna-se uma agridoce reflexão sobre a beleza e a complexidade dos sentimentos. Não é culpa do ator escalado para ser o protagonista, mas nesse caso competir com Tom Hanks não foi justo.