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A Vida Invisível

Com extrema sensibilidade, Karim Aïnouz emociona ao retratar a invisibilidade feminina na sociedade brasileira de algumas décadas atrás

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Textos por Janaina Monteiro e Leonardo Andreiko

Fotos: Sony/Divulgação

Quando A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) termina e surgem os letreiros, a sensação é de que acabamos de vivenciar uma profunda imersão na vida secreta de nossas avós, principalmente para os espectadores – como eu – cujo sangue português corre nas veias. É bem possível que você fique atônito, perplexo, abalado, devastado ou se renda a qualquer outro sentimento que talvez provoque lágrimas, como ocorreu à plateia de críticos do último festival de Cannes, onde o filme do diretor Karim Aïnouz ganhou o prêmio da mostra paralela Um Certo Olhar. Em agosto, o título também foi escolhido pelo país como o seu candidato a uma possível vaga ao Oscar de filme em língua não inglesa em 2020, superando o também premiado, badalado e cultuado Bacurau.

Martha Batalha, autora do livro que inspirou o filme e cuja história retrata a vida de duas irmãs separadas primeiro pela paixão, depois pelo pai e então pelo destino, já adverte na introdução: as personagens Eurídice e Guida foram, sim, baseadas “na vida das minhas e das suas avós”. Eurídice, Guida e todo o núcleo feminino são retratos da mulher que teve de abandonar – ou pelo menos adiar – os sonhos para se dedicar à família, aos próprios filhos ou aos filhos dos outros. Elas são o espelho da mãe solteira e da mulher que era chamada de biscate caso ferisse os bons costumes. É sinônimo da mulher invisível, que tinha como dever obedecer às regras sociais, ser refém do marido. Sua frustração era combatida com esperança, convertida em forma de netos em vez de diplomas pós-doc.

O melodrama tropical (como fora rotulado o filme) nos remete à tradicional família de imigrantes portugueses na época pré-pílula anticoncepcional, quando a mulher era feita para ser mãe e ainda precisava, sim, trabalhar fora. Para adaptar a história às telas, o diretor Aïnouz e os roteiristas Inês Bortagaray e Murilo Hauser (este, um curitibano da gema) trabalharam por três anos a fim de extrair a essência da obra de Martha e conseguiram retratar a sociedade patriarcal daquele tempo com uma verossimilhança impressionante.

O cenário é a cidade do Rio de Janeiro, a Floresta da Tijuca, o bairro de Santa Tereza. Eurídice (Carol Duarte) mora com os pais e a irmã mais velha Guida (Julia Stockler) numa casa em São Conrado. A jovem, de 18 anos, é um talento nato no piano, sonha em ser concertista e sempre dá cobertura à Guida, interpretada no final do filme pela magnífica Fernanda Montenegro. Dona de um temperamento extrovertido, Guida se apaixona e decide fugir com o namorado grego sem ao menos saber dizer uma palavra do idioma. De mala e cuia, ela deixa a casa, rumo ao porto, onde embarca de navio para sua aventura amorosa.

Com o sumiço da irmã, Eurídice fica à deriva e se apega ao brinco perdido por Guida. Carol exterioriza essa condição de desorientação de forma surpreendente, com seu olhar sempre perdido, tentando encontrar alguma resposta no horizonte. Quando Guida volta ao Brasil, pouco tempo depois de terminado o romance, ela é expulsa de casa e as duas se separam. O restante do filme é sobre a busca de Eurídice em rever a irmã, que para seu marido Antenor Campelo, funcionário dos Correios e amigo da família, já está morta. Gregorio Duvivier, ator dedicado à comédia e que até surpreende no teatro, tenta convencer ao interpretar o estereotipo do marido dos anos 1950, porém se perde no meio do caminho. Fica caricato, ora exagerando na veia cômica, ora se esforçando no drama.

Guida consegue sobreviver sozinha na capital do país. Toma um rumo que nunca sonhou e paga o preço por ter fugido de casa. Enquanto vive à procura de Guida, Eurídice também toca a vida: engravida e adia o sonho de ser musicista.

Enfim, A Vida Invisível é uma obra que retrata estereótipos e costumes da metade do século passado, revirando a memória afetiva do espectador. Mostra o pai português severo, a mãe que vive na cozinha trabalhando e cuidando da casa, a família que se reúne ao redor da bacalhoada e da rabanada na ceia de Natal. O realismo e a naturalidade como o diretor trabalha essas figuras são surpreendentes. Nada fica de fora, seja o suor de seus corpos, o sangue pós-parto, as relações sexuais não consentidas. Aliás, as cenas de sexo, sem cortes e explícitas, nos remetem a muitos títulos dos anos 1970 e 1980 que hoje são exibidos de madrugada no Canal Brasil. Assim como a textura e proporção de tela escolhidos por Aïnouz que costuma ser comparado a Pedro Almodóvar. Isso porque ele consegue imprimir uma visão feminina da história, ao dar corpo a personagens com atitude feminista, no limiar da segunda onda do feminismo. Os saltos temporais também são executados com maestria. Apenas os erros de continuidade prejudicam a perfeição do filme.

Depois de A Vida Invisível certamente vamos olhar para essas senhoras de cabelos brancos com mais curiosidade e atenção. Mulheres podem, agora, ter o canudo que quiser, escolher o parceiro ou parceira, decidir pela maternidade. Somos fruto de cada Eurídice e cada Guida, as irmãs que resistiram ao fardo de pertencer a uma sociedade conservadora. Sociedade que, ainda hoje, guarda o ranço do machismo. (JM)

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***

Karim Aïnouz é um autor. Seu forte estilo de direção, bastante focado em seus personagens, como ele próprio definiu, angariou fãs dentro e fora do Brasil, além de diversos prêmios. No entanto, ele confidenciou ao espectador curitibano durante a pré-estreia do filme, na noite de 24 de outubro no Cine Passeio, que A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) surgiu da vontade de alçar voos mais próximos do público, distanciando-se do estigma do cinema arte de salas vazias e lançamentos modestos, antes mesmo da crescente – e absurda – desvalorização da indústria audiovisual brasileira.

Seu melodrama ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950, corroteirizado por Murilo Hauser e Inés Bortagaray, revolve em torno da relação de duas irmãs, Eurídice e Guida Gusmão, cada uma de espírito fortemente distinto da outra, separadas pelas circunstâncias da vida e desejando o reencontro. Tanto o roteiro quanto a direção de Aïnouz propõem um rumo diferente da tomada por Martha Batalha no romance que inspirou a obra – portanto, comparações se tornam ainda menos necessárias que de costume.

O título anterior da obra (quando venceu a mostra Um Certo Olhar do último Festival de Cannes, em maio, o filme se chamava A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, assim como o livro) trazia, a princípio, um foco maior nesta, interpretada por Carol Duarte. O longa, porém, trata Guida e sua irmã como protagonistas, ambas seguindo suas histórias, enormemente distantes e distintas. Este, talvez, seja um forte trunfo da obra. Pois tanto Duarte quanto Julia Stockler têm seu respectivo espaço para construir suas personagens, cujos contrastes dão tom à trama, ao mesmo tempo que são muito aproveitados metaforicamente. Enquanto Guida é altiva e senhora de si, Eurídice é contida e, embora tão forte e sonhadora quanto sua irmã, acaba envolvida na opressora máquina da família tradicional, cujo vigor era ainda maior na época. Assim, a audiência é capaz de torcer para que ambas se reencontrem, ainda que torça para que suas tramas individuais deem certo.

A cumplicidade de A Vida Invisível com suas personagens é outro amplificador à imersão da obra. A câmera de Aïnouz e da diretora de fotografia Hélène Louvart as acompanha e, numa instância mais poética, torna-se parte delas. Sentimos o que elas sentem, desde as emoções transpassadas pela maravilhosa atuação até as emoções mais abstratas, como o constante desfoque que sequestra os quadros de Eurídice. Ampliada pela belíssima direção de arte e ambientação, a fotografia é capaz de evocar naturalismo fotográfico e, num plano subsequente, flertar com o imaginário e figurar os fortes vermelhos característicos da filmografia de seu diretor.

No entanto, o longa-metragem sofre de um problema, no mínimo impactante. Ao retratar algumas cenas com intensidade maior que a necessária, Aïnouz passa do ponto, o que pode causar fortes desconfortos a audiências com gatilhos envolvendo abusos sexuais. A sensibilidade que permeia os momentos introspectivos da obra se perde na noite de núpcias de Eurídice com Antenor, interpretado muito bem por Gregório Duvivier – que não perde seu jeito característico no humor e, mesmo assim, desenvolve um personagem distante de sua figura porta-dos-fundesca, por assim dizer. Fica aqui o alerta de gatilho, portanto.

Ainda assim, a obra é repleta de acertos, que se aglomeram e transformam A Vida Invisível numa história emocionante e envolvente. Quando imaginamos que tudo já poderia acabar, é claro que estamos enganados. Fernanda Montenegro tem a sensacional – ou terrível, caso precise escrever sobre sua atuação – mania de transcender, em seu ofício, quaisquer elogios, adjetivos ou análise que possa ser feita. Em poucas palavras e muitos olhares, a nonagenária atriz amplifica a já belíssima personagem de Carol Duarte. A Eurídice Gusmão de Fernanda, já calejada de uma vida inteira, emociona do primeiro ao último olhar. Aïnouz soube dirigi-la com maestria e, assim, amarrar com finesse a trama que constrói em seu filme.

Capaz de argumentar sobre a invisibilidade das mulheres na sociedade, o machismo estrutural e suas vítimas em ambos gêneros e a perda da esperança, o longa não se esforça em desenvolver quaisquer destes temas. Antes do tema, vêm as personagens. Essa é a história de Eurídice e Guida, mas poderia e deveria ser a história de muitas mulheres. Nossas bisavós, avós e mães. (LA)

Music

Garotos Podres + Sick Sick Sinners – ao vivo

Noite do Psycho Carnival também contou com as bandas João Cascaio, Wood Surfers, Red Lights Gang e a húngara Tom White and The Mad Circus

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Sick Sick Sinners

Texto por Guilherme Motta

Fotos: Priscilla Oliveira/CWB Live

Curitiba têm o carnaval mais rock’n’roll da América Latina. Graças ao Psycho Carnival, festival que reúne bandas de psychobilly, rockabilly, punk e outros estilos ligados à contracultura contemporânea do rock. O evento é realizado sempre no feriadão do carnaval. Geralmente são quatro ou cinco dias de muita música extrema. Confesso que não sou o maior dos fãs do gênero musical predominante do evento, o psychobilly, porém meu primeiro contato com o festival e o gênero musical foi há cerca de 16 anos, graças a minha mãe, que estava fazendo a cobertura do evento. Como eu era muito jovem, não pude acompanhá-la. No dia seguinte, ao acordar, ela imediatamente me deu o CD Rock’n’Roll is a Devil’s Music, autografado da banda alemã Chibuku, uma das principais atrações daquela edição do Psycho Carnival. Ali eu descobri o que era o psychobilly e às vezes escuto esse álbum. Até hoje. Inclusive agora, escrevendo esse texto.

Mas agora voltemos aos tempos atuais. Em 2019, na vigésima edição, foram quatro noites de puro barulho dançante no Jokers, estabelecimento que recebe o evento desde suas primeiras edições. E vamos falar especificamente da noite do dia 3 de março, quando se apresentaram as bandas João Cascaio, Wood Surfers, Tom White and The Mad Circus, Red Lights Gang, Sick Sick Sinners e Garotos Podres.

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Wood Surfers

A abertura da noite ficou por conta dos caras da banda João Cascaio e seu country folk à moda tradicional. Para quem curte um country music “de raiz” vale muito a pena ir atrás do trampo dos caras. O destaque é a utilização de diversos instrumentos não muito convencionais nas bandas do festival, como o lap steel e o banjo, que inclusive são tocados simultaneamente pelo guitarrista. Logo na sequência o palco foi do trio londrinense de surf music instrumental Wood Surfers. Na minha humilde opinião, foi a surpresa da noite. Lembrou muito uma banda curitibana chamada Maremotos, que costumava ouvir quando mais jovem. A banda faz um trabalho excelente mantendo a linha tênue entre a surf music clássica e o psicodelismo.

Depois chegou a vez de uma das atrações mais esperadas do festival, Tom White and The Mad Circus. Banda de origem húngara, que conta com um brasileiro no contrabaixo. O som é o clássico rockabilly. Muito enérgico. Realmente não dá pra assistir parado. Logo no início da apresentação já se formou uma imensa roda de dança no centro do salão. As músicas são executadas com extrema maestria por parte dos integrantes, o que resulta em uma experiência satisfatória vê-los ao vivo. A The Red Lights Gang subiu ao palco com a mesma energia. Com som influenciado por country, western swing e rockabilly, não deixou ninguém parado. No set list rolaram versões de clássicos de Siouxsie & The Banshees e Sonics. A banda desempenha um papel importante na cena paulistana. Vale conferir o álbum 13 desses caras.

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Tom White and The Mad Circus

A próxima atração era figurinha carimbada do festival, inclusive com a formação trazendo os organizadores do mesmo. O trio curitibano Sick Sick Sinners é sempre um dos nomes mais esperados de todos os anos. E com razão. Os caras chegam arregaçando tudo o que está pela frente. Já no primeiro instante em que Vlad Urban soa o primeiro acorde da guitarra começa um sinistro, violento e amoroso moshpit em todo o salão. No Jokers ninguém ficou de fora, nem mesmo nos camarotes. É realmente muito impressionante a energia que os caras passam ao vivo. Se você nunca viu os caras tocarem, vai por mim: tenta não perder a próxima oportunidade.

Fechando a terceira noite tivemos uma lenda viva do punk rock nacional. Depois de uma longa briga judicial, os Garotos Podres voltaram à ativa com o seu vocalista, único remanescente da formação original, Mao. Assim que as cortinas se abriram, um coro de absolutamente todas as pessoas que estão ali presentes ecoou pela casa. A música “Garoto Podre” Foi extasiante. O salão se dividia entre pogos, empurrões e muitos abraços. Difícil descrever o sentimento na hora. Entre hinos do punk e aulas de História, a madrugada foi seguindo com a extrema empolgação dos integrantes. A felicidade de voltar a fazer o que a banda sempre pregou era visível.  O set list da banda foi composto por todos os clássicos lançados nesses quase 40 anos fazendo punk. Ninguém deixou de cantar nada em nenhum momento, o que, à parte, foi um espetáculo e tanto.

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Garotos Podres

Obrigado, Garotos Podres, por proporcionarem uma das melhores noites de punk rock da minha vida. Obrigado, Vlad e toda a organização do Psycho Carnival, por nos dar a oportunidade de vermos algumas das bandas das quais gostamos tanto.

Music

Silva – ao vivo

De volta à capital paranaense depois de quatro anos, o tímido capixaba mostrou uma fase menos pop e mais próxima à música brasileira

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Texto por Kevin Grenzel

Foto de Jocastha Conceição

Com um notável amadurecimento lírico, Silva voltou à capital paranaense após quatro anos. Era a turnê de seu novo álbum, Brasileiro, no qual abraça a musicalidade de nosso país e oferece conforto ao ouvinte que se perde nos sentimentos íntimos do compositor. E conforto pode ser muito bem a palavra que define o novo trabalho do cantor capixaba. Diferentemente de seu último trabalho autoral, Júpiter, Silva traz um refresco com faixas mais coesas e maior renovação, distanciando-se da essência pop e comercial do álbum de 2015.

A abertura foi realizada pelo Cidrais. O grupo curitibano é formado por três irmãos, possui letras sentimentais e aquela musicalidade minimalista nos recebia de braços abertos e fazia esquecer da imensidão da Ópera de Arame, trazendo uma tranquilidade singular e aquecendo os corações para a apresentação a seguir. Ao fim de cada uma das três musicas tocadas pelo trio, uma mensagem de amor e esperança, um recado necessário em um momento de polarização e insatisfação política. “Amar em tempos de ódio é um ato revolucionário”: foi com esse recado que o Cidrais abandona o palco, em um clima levemente melancólico mas de aconchego. Serviu para distrair de toda agitação que habita fora os portões do teatro.

Dando continuidade a essa mensagem de amor e empatia, Silva subiu ao palco com “Nada Será Mais Como era Antes”, primeira música de seu novo álbum. O ambiente se transformou. A melancolia se esvaiu e a euforia tomou conta do público, que cantava os versos com paixão. O primeiro ato foi conduzido com calma, sem grandes variações de ritmo, para que o publico degustasse cada nuance dos acordes e fosse criada uma atmosfera tranquila para a agitação que viria a seguir. A mudança veio com “Ela Voa”, que combinou o efeito oscilante da música a uma variação da iluminação que remetia ao efeito ondulatório do mar. No fim desta música ele se aproximou do publico com uma breve conversa, relembrando a ultima vinda a Curitiba, em 2014.

Era possível notar certa timidez no cantor, fosse pelas poucas palavras trocadas com o público ou o fato de recitar suas poesias de olhos fechados. Silva já confessou sua timidez e ansiedade antes dos shows –  ele mesmo disse “não ser muito bom com as palavras”. Mas nem precisava: sua música fala por ele e desvendar a particularidade de seus versos é um exercício gratificante ao espectador.

Após essa conversa, o show se tornou ainda mais minimalista, com arranjos formados apenas por violão e bateria. Destaque para a performance de “Milhões de Vozes”. A composição colaborativa entre Silva e Arnaldo Antunes é um grito de protesto discreto aos acontecimentos recentes. Conforme citado pelo artista, “essa música poderia se chamar “#EleNão” se fosse escrita atualmente”.

Essa parte da apresentação foi destinada principalmente a homenagens a influencias musicais e pessoas próximas ao artista, com elogios a Caetano Veloso, Arnaldo Antunes e Gal Costa. Silva apresentou aos curitibanos os dois músicos de sua banda (Lucas Arruda no baixo e Hugo Coutinho na percussão e programações). O cantor ainda interpretou a canção “Prova dos Nove” de autoria de seu sogro, Dé Santos, e sucintamente contou a relação estreante de Dé com a música, bem como rasgou alguns elogios a ele.

Próximo ao encerramento da performance, tivemos o momento de maior interação do publico durante a apresentação de “Duas da Tarde”, momento em que os fãs do capixaba ligaram as lanternas de seus celulares, transformando o teto do teatro em um céu estrelado.

Ao fim do show, Silva pediu para que todos ficassem em pé e tivessem a liberdade para dançar a última música da noite, “Guerra de Amor”, canção do novo álbum em que pode se notar as maiores influencias do samba e musica brasileira. Com um sorriso tímido, o musico se despediu e rapidamente fugiu dos holofotes.

Após os eufóricos gritos de “mais um”, Silva retornou ao palco, com ânimo e folego renovados. Apresentou aos fãs não apenas uma música, mas mais três canções, para então sim se retirar da Ópera de Arame, com uma despedida não com tanta pressa assim quanto a anterior.

Set list: “Nada Será Mais Como Era Antes”, “Let Me Say”, “Caju”, “Claridão/Janeiro”, “Guerra de Amor”, “Feliz e Ponto”, “Que Maravilha”, “Palavras no Corpo”,  “Ela Voa”, “Mais Cedo”, “Milhões de Vozes”, “(There Is) No Greater Love”, “Júpiter”, “Menino do Rio”, “Eu Sempre Quis”, “Beija Eu”, “Prova dos Nove”, “Duas da Tarde” e“A Cor é Rosa”. Bis: “O Show Tem Que Continuar”, “Fica Tudo Bem” e “Brasil, Brasil”.

Music

Franz Ferdinand – ao vivo

Antes tarde do que nunca, escoceses incendeiam a capital paranaense com performance arrasadora na Ópera de Arame

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos de iaskara

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Catorze anos separam o novo álbum, o sexto da carreira, do trabalho de estreia destes escoceses. De lá para cá muita coisa mudou. O modo de consumir música e o modelo de negócios na indústria fonográfica, a formação da banda e, sobretudo, a fama. Com uma coleção de hits espalhados ao longo do caminho, o grupo escocês com o nome do arquiduque austríaco cujo assassinato foi o estopim para o início da primeira Guerra Mundial é hoje um nome reverenciado. Toca sem parar nas pistas de dança e nas programações das emissoras de rádio mais descoladas. Já visitou o Brasil várias vezes e, nesta semana, esteve por aqui de novo.

O show realizado na Ópera de Arame, na noite de quinta 11 de outubro de 2018, foi o primeiro em Curitiba e a abertura de sequência de três noites seguintes em território verde e amarelo (nos dias seguintes as datas seriam em São Paulo, também dentro da série Popload Gig, e em Natal, no festival Mada). Para uma cidade, marcada pelo conservadorismo em todos os terrenos, inclusive o musical, e há muitos anos jogada à margem do circuito dos shows internacionais mais relevantes que passam pelo país, assistir a um show de uma banda com uma década de meia de carreira poderia ser algo muito duvidoso. Afinal, uma carreira já estabilizada geralmente rende shows mais pragmáticos, corretos mas sem aquele sangue nos olhos de artistas iniciantes, de gente que respeita os fãs ali na frente mas também já não se doa tanto assim durante a performance.

Com o Franz Ferdinand, felizmente, não existe nada disso. O grupo escocês sobe no palco como se aquele fosse a última apresentação de sua trajetória. E o que se viu na Ópera de Arame, para sorte dos curitibanos, foi exatamente isso. Um vocalista carismático, classudo, se entregando sem parar. Alex Kapranos conversa com plateia, comunica-se com gestos e olhares, vem em direção à plateia para tocar na turma do gargarejo e comanda um show digno de brilho na alma. Músicos aos seu lado idem, sobretudo os dois recém-incorporados. Substitutos do egresso Nick McCarthy, o guitarrista Dino Bardot e o tecladista/guitarrista Julian Corrie nem pareciam ter entrado agora no grupo, de tão integrados que estavam, cantando tudo, entrando na coreografia de palco (que de vez em quando brinda a plateia com aquelas cenas mais icônicas do rock, como a escalada na caixa de retorno, o erguimento do cálice sagrado e o pau para coma com o braço das guitarras). Acrescentam demais aos backings do frontman e ainda ficam dançando e pulando energeticamente a todo instante, como se sempre tivessem feito parte da banda e composto e gravado aquelas mesmas músicas mais antigas.

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Por se tratar de uma turnê do disco novo, claro que boa parte do repertório acabou dedicada a faixas de Always Ascending, lançado no comecinho de fevereiro e aquele é o trabalho mais eletrônico da banda. Contudo, apesar de desconhecidas de boa parte dos fãs, as novas músicas acabam funcionando muito bem ao vivo. Primeiro porque a banda se dedica a tocar integralmente quando sobe aos palcos, sem apelar para qualquer tipo de base pré-gravada. E também porque Corrie comanda os efeitos no mooge se ainda faz presente para preencher harmonicamente a tessitura da banda. “Glimpse Of Love”, “Always Ascending”, “Feel The Love Go” e “Lazy Boy” mostraram-se bons exemplos disso.

A versatilidade de Julian ainda contribui para os momentos matadoras nos quais ele assume a terceira guitarra em cena. Quando ele se junta à fila da frente com Kapranos, Bardot e o baixista Bob Hardy, aí mesmo que não há – sendo fã assumido ou um crítico musical daqueles mais chatos – que resista a se embalar com a dobra de riffse levadas funkynas seis cordas (“Take Me Out”, “Michael”, “Do You Want To”, “No You Girls”). Estrategicamente, esses principais hits da banda são disposto de forma sequencial no começo e no final do show, dando o combustível necessário para a plateia pegar fogo nos momentos certos.

Por fim, vale a pena ressaltar aquele que faz girar todo o meio-campo sem aparecer muito para a torcida. Paul Thompson, o baterista agora de longos cabelo meio platinados meio raiz escura já aparecendo, é a força que move esta majestosa discothéque orgânica e rock’n’roll chamada Franz Ferdinand. Sim, porque está é uma das poucas bandas no universo que tem a ousadia de rimar “party” (o substantivo “festa”) com “arty” (o adjetivo “artístico/a”) e comprovar isso ali, na chincha e não apenas no estúdio, a cada show que faz.

Felizmente, para o sempre relegado público curitibano, uma década e meia de espera acabou nesta noite de 11 de outubro. Antes tarde do que nunca. E, no caso do FF, com uma gig com a mesma energia típica de um artista em início de carreira. Que incendeia, sempre de modo frenético e ao som do incontrolável bordão-refão “this fire is out of control/ We’re gonna burni this city” (“This Fire”, sempre guardada para o gran finale), cada cidade por onde passa. A capital paranaense, para variar, não ficou imune.

Set list: “Feel The Love Go”, “Lazy Boy”, “Do You Want To”, “No You Girls”, “Walk Away”, “Paper Cages”, “The Dark Of The Matinée”, “Love Illumination”, “Glimpse Of Love”, “Stand On The Horizon”, “Slow Don’t Kill Me Slow”, “Michael”, “Take Me Out” e “Ulysses”. Bis: “Finally”, “Always Ascending”, “Come On Home”e “This Fire”.