Music

Racionais MCs

Oito motivos para você não perder a passagem por Curitiba da turnê que celebra a trajetória de três décadas do grupo

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Texto por Rodrigo Juste Duarte

Foto: Kalus Mitteldorf/Divulgação

Maior nome do hip hop no Brasil, o Racionais MCs completa trinta anos e comemora a data com a turnê Racionais 3 Décadas (ou 3D), que passa pela capital paranaense neste sábado, 17 de agosto, com show na Live Curitiba (mais informações aqui).

Formado em 1988 no bairro Capão Redondo, na periferia de São Paulo, o grupo foi ganhando destaque no cenário nacional a cada álbum lançado, sempre emplacando músicas que se tornaram clássicos. A estreia foi na coletânea Consciência Black Vol. 1, de 1989, da qual participaram com a faixa “Pânico na Zona Sul”. O mesmo disco também contava com “Tempos Difíceis”, assinada como sendo de Edi Rock e KL Jay, mas na real uma música dos Racionais (até se tornou o primeiro videoclipe do grupo!). Depois vieram os álbuns Holocausto Urbano (1990) e Raio-X do Brasil (1993). No finalzinho de 1997 foi lançado Sobrevivendo no Inferno, um marco não só no mundo do rap mas na música popular brasileira como um todo, por tirar o estilo da “quebrada” e o colocar nos maiores patamares da cultura nacional. Na sequência, vieram apenas dois discos de estúdio, Nada Como Um Dia Após O Outro Dia (2002) e Cores e Valores (2014), além de canções fora de álbuns como “Mil Faces de um Homem Leal (Marighella)” e “Mente do Vilão”, ambas em 2012.

O Mondo Bacana apresenta agora oito motivos pelos quais você não pode perder este show histórico.

Set list de clássicos

No final do ano passado, uma notícia bastante comentada foi o show de retorno dos Racionais MCs, realizado no Credicard Hall (São Paulo) após um anunciado período de pausa nas atividades que não durou nem um ano. A apresentação reuniu um set list surpreendente, que apresentava em ordem cronológica boa parte dos clássicos do grupo desde o início da carreira (como “Pânico na Zona Sul”, “Tempos Difíceis”, “Voz Ativa”, “Beco sem Saída” e “Mano na Porta do Bar”), até chegar a músicas mais recentes. Esse show serviu de base para compor o repertório desta turnê 3 Décadas.

Sobrevivendo no Inferno

Pelo que já foi conferido nos shows anteriores da turnê, o álbum Sobrevivendo no Infernoé o que mais tem músicas incluídas no set list. Chamou bastante atenção a nova introdução de “Capítulo 4, Versículo 3”, que traz uma narração com estatísticas sobre violência contra negros no Brasil. Para a atual turnê, estas informações foram atualizadas e ampliadas com novos indicadores, que lamentavelmente mostram que o panorama ainda não é dos mais favoráveis, apesar dos avanços sociais nos anos passados desde o lançamento do disco. Ainda sobre este que é o mais icônico álbum do grupo: ele foi selecionado como leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp, virou um livro pela editora Cia. das Letras; e foi dado de presente ao Papa Francisco pelo então prefeito de São Paulo Fernado Haddad quando este participou de um seminário no Vaticano, em 2015.

Banda de apoio

Além da dobradinha entre MCs e DJs, formato clássico das apresentações de rap, nesta turnê os Racionais são acompanhados por uma numerosa banda, composta por doze músicos. Tem naipe de metais, teclados, percussão, bateria, baixo e duas guitarras! Isto até então era algo inédito nos shows do grupo. Mano Brown já havia se apresentado com banda, mas nas apresentações de seu álbum solo de black musicBoogie Naipe, lançado em 2016. Agora é a vez de experimentar o formato com o rap dos Racionais MCs.

Megaestrutura 

Ficou impressionado com o show de lançamento do último álbum Cores e Valores, que tinha no palco o cenário de uma fortaleza? Em Curitiba, o concerto foi apresentado no Spazio Van, em 2015. Independentemente de ter uma cenografia ou não, as apresentações dos Racionais contam com uma infraestrutura gigantesca no palco, com projeções em um enorme telão em sincronia com as músicas (em certos momentos, com imagens servido de apoio ou introdução para as próprias canções), iluminação poderosa e uma grande quantidade de músicos sobre o palco. O resultado é uma apresentação que não deixa nada a dever para qualquer artista da música brasileira.

Oportunidade rara

Nos últimos anos, o Racionais tem feito shows bem espaçados. Quando eles aparecem para tocar na sua cidade é melhor aproveitar, pois eles podem demorar para voltar. Essa turnê de três décadas começou em 8 de junho e vai até 12 de outubro, passando por apenas oito capitais brasileiras. O grupo já se apresentou em Brasília, Florianópolis, Recife e Salvador. Depois de Curitiba (no próximo sábado), os quatro seguirão para Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo.

Formação sólida

Em 30 anos de trajetória, o Racionais mantem a mesma formação, o que é admirável. Foi na antessala de uma corretora de valores onde o ainda jovem Mano Brown chegou em KL Jay (ambos office boys da empresa) com a ideia de montar o grupo de rap. Brown também convocou para a empreitada seu primo Ice Blue e o amigo Edi Rock, que na época trabalhava como servente de pedreiro. Não é qualquer formação que consegue manter os mesmos integrantes em tanto tempo. Muitos dizem que fazer parte de um grupo musical é como estar em um casamento, com seus altos e baixos e a dificuldade para gerenciar tantas situações adversas com o objetivo de manter uma união. De tempos em tempos o Racionais costuma dar uma pausa nas atividades, além de vir fazendo shows mais esporádicos. Isto é bom para que retorne com fôlego renovado e brinde os fãs com performances grandiosas.

Público variado

Das três décadas, nas duas últimas pôde-se observar uma plateia que vai além dos fãs de rap vindos de classes sociais desfavorecidas (em sua maioria, afrodescendentes), que se veem representados nas canções do grupo. O público é bastante diverso. Um fã do Racionais pode ter as mais variadas origens, independentemente da cor da pele ou da classe social a que pertence. E o melhor é que nesta diversidade há muita gente com inclinação para se engajar socialmente, o que é bastante positivo, além de condizente com o discurso das músicas.

O lado social

A influência do quarteto não se reflete apenas na música, mas na sociedade brasileira. Mais do que artistas, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay são ativistas sociais. Temas como desigualdade social, racismo, violência (da polícia, do Estado e do crime organizado) são constantes. Suas letras, por mais incômodas e até chocantes que sejam, são acima de tudo reflexivas.

Movies

Banquete Coutinho

Documentário inverte posições e desvenda o diretor que se confortava em extrair o imaginário de seus entrevistados

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Texto por Isabella Shiota

Foto: Divulgação

“Eu me vejo como um lugar onde alguma coisa está acontecendo, mas não existe um eu”, cita o diretor Josafá Veloso ao próprio autor da frase, Eduardo Coutinho, que responde com uma confirmação. Assim se inicia o documentário Banquete Coutinho (Brasil, 2019), filme exibido na abertura do 8º Olhar de Cinema de Curitiba, no qual o diretor Eduardo Coutinho está agora na posição de entrevistado, respondendo questões sobre seu fazer artístico e relembrando sua trajetória como jornalista e documentarista.

O filme resgata cenas do premiado Cabra Marcado pra Morrer (1984), além de Santo Forte (1999), Edifício Master (2002) e o póstumo Últimas Conversas (2015) intercalando com uma entrevista feita por Josafá em 2012, dois anos antes da morte de Coutinho. Há lembranças também da época em que ele fazia parte da equipe do Globo Repórter e um filme da década de 1950, de quando estudou direção e montagem em Paris.

Ao considerar que a presença da câmera transforma a reação do entrevistado, eram desses minutos de confissão que Coutinho conseguia o extraordinário, a essência. “O concentrado do filme é sempre superior. Aqueles cinco ou minutos minutos de fala individual, para mim, são a pessoa. Porque o real, é rotina”, afirmava. Por isso, o conceito de Eduardo sobre seus documentários serem “quase ficção”. Coutinho chamava seus entrevistados de personagens. Para ele, nos minutos de fala, as pessoas assumiam personagens para contar suas vidas.

Com o cigarro sempre entre os dedos, Coutinho fala de si e afirma que as pessoas são contraditórias, incluindo-se.  Em alguns momentos, ranzinza porque realista. Mas seu olhar é sempre de compreensão pela incompletude e respeito pela condição humana. Cita também algumas influências de seu trabalho: Pierre Bordieu, Walter Benjamin e Lacan.

Josafá também entrega momentos de descontração do entrevistado, quando retira uma confissão sobre o cigarro. “Peguei o vício há 54 anos, gosto do gesto e de ver a fumaça saindo. Não tem graça fumar no escuro. Tenho enfisema, faço exames todo ano. Mas deixar de fumar, não.”

E nem de filmar. Para Coutinho, os filmes eram o seu propósito de vida. Certa vez disse que não vivia a vida dos seus entrevistados, mas saber que suas histórias existiam o confortava. Em outro momento, ele sorri discretamente, quando Josafá o denomina materialista mágico. No livro Eduardo Coutinho (Edições Sesc SP, 2013, organização de Milton Ohata), o diretor relatou não estar à procura da verdade, mas do imaginário das pessoas. Para ele, não existir um eu é se permitir ser preenchido pela fala do outro, estar aberto para compreender mundos, crenças e memórias, como já afirmara em uma entrevista a Eric Nepomuceno, feita em 2012.

Por entender que o maior desejo do ser humano é ser legitimado como destino e singularidade através da escuta, assim trabalhou na maior parte de sua trajetória. E se fazer arte é sobre o como se faz, seu maior legado foi o de fazer seu público se ver em seus personagens, tratando todas as memórias com lirismo.

Movies

MIB: Homens de Preto – Internacional

Retomada da franquia aposta em empoderamento feminino mas não passa de um amontoado de piadas sem graça e de cunho sexista

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Você já deve ter visto este filme: agentes de preto tentando proteger o planeta de ameaças alienígenas. O primeiro longa da franquia Men In Black, com a dupla carismática Will Smith (Agente J) e Tommy Lee Jones (Agente K) nos papéis de salvadores da pátria (ou melhor, do planeta) estreou em 1997 e foi um sucesso de bilheteria. Depois vieram mais duas sequências que fecharam então a trilogia baseada nos quadrinhos de Lowell Cunningham, lançados em 1990, sobre agentes do serviço secreto que usam o neutralizador para apagar a presença alienígena da memória dos humanos

E como no mundo cinematográfico parece que a criatividade anda em falta, eis que surge MIB: Homens de Preto – Internacional (Men In Black: Internacional, EUA/Reino Unido, 2019 – Sony Pictures), com estreia hoje em todo o Brasil. A culpa talvez seja de Steven Spielberg, que mantém sua fissura por ETs e aqui é responsável pela produção executiva. Já a direção dessa vez fica por conta do americano F. Gary Gray (que recentemente fez Velozes e Furiosos 8 e Straight Outta Compton – A História do N.W.A.).

A fórmula só tem uma diferença: no papel de um dos agentes tem uma mulher, a Agent M (Tessa Thompson). Em tempos de empoderamento feminino, esse talvez tenha sido o argumento principal para a continuação da franquia. Oops, perdão: “Men and Women in Black”, como frisa Agent H, interpretado por Chris Hemsworth, num personagem paspalhão e abobado. É bom frisar que o casal de agentes repete a parceria de Thor: Ragnarok.

O longa é marcado por clichês intermináveis, mas algumas boas referências a ícones do cinema, como Matrix, o diretor Quentin Tarantino (existem os ETs “tarantianos”!) e, obviamente, 007. Aliás, o filme parece uma homenagem à franquia 007. Há alusões a James Bond do início ao fim. Começa no carro usado pelos agentes de preto, que esconde toda a sorte de armas para aniquilar alienígenas em vez de russos. Outra referência óbvia é que a personagem de M é transferida da agência de Nova York para Londres, onde os agentes atuam numa espécie de MI-6.

A chefe dos agentes de preto também é uma mulher: Agent O, vivida por Emma Thompson. De cabelos brancos e curtos, ela lembra quem? M. Ou Judi Dench, que assumiu o posto de chefona do agente britânico em sete filmes (entre Goldeneye, de 1995, e Skyfall, de 2012) até a personagem morrer. Emma faz a dobradinha com Liam Neeson, que é o superior direto dos agentes M e H. E as indiretas a James Bond não param por aí. Como a cena em que o casal chega de lancha até uma ilha italiana para se encontrar com uma das vilãs, uma espécie de Cleópatra com três braços.

Ah… Matrix é lembrado aqui com a alusão às pílulas vermelha e azul. Neste MIB elas são as cores do botão de uma motocicleta voadora.

A história é totalmente previsível e os extraterrestres já não chocam nem divertem mais. A trama começa recapitulando uma batalha que será lembrada mais para o final. No meio de tudo isso, existe, claro, a certeza de que há um agente traidor (não é difícil de descobrir quem é a pessoa). Esse seria o grande argumento do filme. O roteiro é fraco, cheio de piadinhas ao estilo britânico e totalmente sem graça. Algumas falas são primárias. “O que ela está fazendo?”, pergunta H para M, sobre uma peça misteriosa entregue a ela por um extraterrestre assassinado por supostos aliens inimigos. “Está se movendo”, responde M.

Há ainda sequências que pretendem mostrar que as mulheres estão no comando. Contudo, em uma forma sexista. Como na cena em que uma ET que parece um anfíbio está prestes a matar H e ele diz “eu faço o que você quiser”. Adivinhe o que a ET pediu?

Uma pena que existam tantos astros no filme e nenhum deles seja capaz de segurar a trama. Este MIB Internacional não vale o preço do ingresso. Nem em dólar, libra, euro ou real. É um filme autoneuralizador.