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O Cavaleiro Verde

Aclamado diretor David Lowery volta a brilhar imprimindo ritmo contemplativo em história inspirada em conto medieval

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Diamond Films/Divulgação

Muitos associam o nome de David Lowery a A Ghost Story (de 2017, que recebeu em português o título de Sombras da Vida), um dos mais aclamados filmes da produtora A24. Se, na época, o drama com uma pegada slow cinema alçou o diretor ao sucesso, não se pode esperar dele um estilo repetitivo. Lowery e a produtora retomam sua parceria em O Cavaleiro Verde (The Green Knight, Irlanda/Canadá/EUA/Reino Unido, 2021 – Diamond Films), inspirado no conto arturiano sobre o encontro de Sir Gawain e aquele que dá nome à história e que chega apenas em VOD no Brasil.

No roteiro escrito pelo próprio diretor, o conto não é seguido à risca, com um amplo espaço para que o fantástico tome conta e paute toda a trama. Gawain (Dev Patel), ainda não titulado cavaleiro, aceita participar do jogo de um misterioso cavaleiro fantástico que irrompe na távola redonda em meio ao Natal. A regra: golpeá-lo de qualquer modo, embora esse mesmo golpe tenha de ser repetido no Natal seguinte, desferido, dessa vez, pelo próprio Cavaleiro Verde. Gawain corta-lhe a cabeça, descrente de que teria a sua cortada em um ano, mas deve arcar com as consequências e concluir o jogo – ou seja, ter a sua própria cabeça cortada por seu oponente.

A estrutura de sua história é capitular e, embora toscamente delineada por textos em tela a cada novo capítulo (cada um destes vagamente conectado pela trama principal, como a ida do protagonista à capela verde), permite que haja espaço individual, livre das pressas de uma jornada do herói puramente convencional. Nesse longa, Lowery conta uma história, mas com especial atenção a cada uma de suas etapas, cada qual imersa em simbolismos.

São esses, inclusive, o fator especial de O Cavaleiro Verde. Se a ambientação medievalesca e fantástica já nos é comum e quase formulaica, a fantasia desse mundo (e, de certo modo todo, o universo em que se insere) respira e vive independentemente de seu protagonista. Não somos tutelados para entender as regras desse universo, sua metafísica e seus limites: apenas assistimos a uma fração dessa realidade se desvelar. Dessa forma, somos apresentados a uma magia muito mais mística, com símbolos bem articulados em cena, em vez de introduzidos e explorados somente em diálogos, de maneira preguiçosa.

Justamente por isso, o discurso do filme é imerso em subjetividade, dependendo da interpretação de quem o assiste. Enquanto eu entendo o conto de Gawain como uma jornada psicológica, um embate do eu comigo mesmo, esta não é a única leitura possível. Cada cena é capaz de despertar conexões e conjurar significados inteiramente diferentes para cada espectador – por si só um convite à experiência fílmica. Sendo assim, O Cavaleiro Verde é um longa-metragem de duas horas que passam rápido enquanto se assiste a elas, mas capaz de manter-se aceso na memória de quem o vê. As dúvidas que levanta são muito maiores que as poucas certezas que carrega.

Ainda, toda a atmosfera que o filme constrói é fruto de uma fotografia inventiva, com planos e sequências de muita beleza mas principalmente muito significado, e uma montagem que nos prega uma peça. O ritmo da história inicia elevado, com promessa de ação em cortes rápidos e planos diversos. Conforme o tempo passa, o diretor e roteirista (que também assina a montagem) nos conduz a um estado mais contemplativo, de calma linguagem. Dessa forma, justamente, que o diretor aproxima a linguagem deste daquela de seu mais aclamado longa, o já citado A Ghost Story.

Esse é um filme que se mostra divisivo por sua ambiguidade, mas munido de espacialidade orgânica, com abordagem fantástica muito distinta das tradicionais de Hollywood. Dev Patel brilha no arco de crescimento de Gawain, a jornada que pauta todo o longa embora não o reduza à fórmula heroica que já nos cansa há anos. O Cavaleiro Verde mostra-se, portanto, um bom capítulo da carreira ainda muito jovem e promissora de David Lowery.

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Um Lugar SIlencioso: Parte II

Segundo capítulo da trilogia parte do fim do filme anterior para um misto de cenas de tensão com roteiro repleto de conveniências

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

Um Lugar Silencioso atraiu o olhar do público com uma proposta refrescante no cenário do horror. Como todo o movimento que muitos entendem como pós-horror, o primeiro capítulo dessa trilogia anunciada é tematicamente adensado e entrega sequências agoniantes. A expectativa para Um Lugar Silencioso: Parte II (A Quiet Place Part II, EUA, 2020 – Paramount), portanto, não poderia ser maior.

O ponto de partida do longa, dirigido e roteirizado por John Krasinski, é exatamente após o fechamento de seu antecessor, quando parte para um thriller com sequências pontualmente enervantes enquanto a família Abbott se refugia após os eventos anteriores. Eles encontram abrigo em uma fábrica onde se esconde Emmett (Cillian Murphy), que passa a acompanhá-los.

Aqui, Krasinski passa a integrar a fala com mais recorrência, valendo-se de diversos artifícios narrativos ao longo do filme para validar decisões, conveniências e ações de seus personagens. Embora não haja qualquer novidade surpreendente no andamento e na trama desta segunda parte, a decisão de separar os acontecimentos em duas linhas narrativas oferece um dinamismo extremamente necessário ao ritmo do longa.

Isso porque ele enfrenta um desafio complicado, pois, ao revelar a fraqueza de seus alienígenas, é forçado a abandonar o medo que ofereceriam aos personagens. Há claras indicações e possibilidades de matá-los, o que os torna, quando muito, conflitos genéricos numa trama que pretenderia abordar outros temas. Contudo, por já explorar a dinâmica familiar e suas implicações no primeiro longa, Krasinski não tem material suficiente, em última análise, para oferecer uma perspectiva engajante em algum conflito de ordem psicológica. Se começamos esperando um suspense conectado às tendências do horror contemporâneo, encontramos uma trama de ação com a interessante e eletrizante abordagem sonora da mise-en-scène.

O quadro de um filme outrora esquecível expande-se, aqui, para além da tela, uma construção tridimensional do espaço ao redor que efetivamente constrói a tensão e o drama. Justamente por isso, os ocasionais jumpscares são uma das melhores utilizações da técnica no horror moderno. Há, de fato, uma quebra de ritmo e não a construção de tensão que os torna previsíveis em muitos filmes. E, claro, nossa atenção à esfera sonora do longa nos torna propensos ao susto da crescente sonora.

Embora seja uma experiência engajante de início, com sequências de tensão primorosamente conduzidas, o roteiro repleto de conveniências faz de Um Lugar Silencioso: Parte II um longa morno. Ele não chega a ser ruim, mas também não é memorável.

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Viúva Negra

Depois de alguns adiamentos por conta da pandemia, a heroína vingadora ganha seu primeiro filme solo tanto nos cinemas quanto no streaming

Textos por Andrizy Bento e Leonardo Andreiko

Fotos: Marvel/Disney/Divulgação

Previsto para estrear originalmente em abril de 2020, Viúva Negra (Black Widow, EUA, 2020 – Marvel/Disney) sofreu adiamentos devido à pandemia de covid-19, que obrigou as salas de cinema e vários outros estabelecimentos a fecharem as portas temporariamente a fim de evitar aglomerações e, portanto, preservar a saúde e segurança da população. A ansiedade resultante dos constantes reagendamentos da estreia fez com que as expectativas dos fãs com relação ao longa se tornassem cada vez mais altas, já que eles mal podiam esperar para conferir uma das integrantes originais dos Vingadores ganhar o tão merecido protagonismo. Todas essas situações de adiamento e espera poderiam ser fatores prejudiciais para seu desempenho nas telas (o filme poderia não corresponder às expectativas projetadas pelos fãs), mas ainda havia outro complicador: o timing de lançamento dentro da cronologia do MCU, independente de pandemia, parecia inadequado após o desfecho trágico de Natasha Romanoff em Vingadores: Ultimato.

Entretanto, esse ainda se tratava de um aspecto contornável – bastava que os produtores e roteiristas tivessem acertado na tônica e abordagem assumidas pela produção. Viúva Negra seria um tributo à heroína abatida, com um provável sabor agridoce de encerramento do arco da vingadora? Ou exploraria sua origem e legado, de modo a dar continuidade com outra personagem assumindo seu posto, considerando que Natasha foi uma das várias meninas treinadas na Sala Vermelha no Programa Operação Viúva Negra? As perguntas são devidamente respondidas no filme que segue, sabiamente, pelos dois caminhos.

Como ainda estamos atravessando um momento pandêmico, a solução para Viúva Negra enfim ganhar as telas, foi lançá-lo simultaneamente nos cinemas e na plataforma Disney+; claro que no streaming ele ainda não está disponível para todo e qualquer assinante, podendo ser conferido por um valor adicional. Dessa forma, aqueles que não podem ir ao cinema e não se rendem aos meios ilegais, têm de desembolsar alguns reais a mais para ter o acesso premium. É o modo que a casa do Mickey encontrou de não sair no prejuízo.

Para quem já conhece um pouco do background da personagem, o filme protagonizado por ela é facilmente entendível e não necessita de muitas exposições, escapando do caráter didático de grande parte das produções solo de origem. Para quem não se lembra do momento em que ela revela brevemente seu passado em Vingadores: Era de Ultron, basta ter em mente que Natasha foi treinada na Sala Vermelha (programa desenvolvido por uma organização da União Soviética), juntamente com outras jovens órfãs para o combate e espionagem. Lá também foi biológica e psicotecnologicamente aprimorada. Bem como as demais garotas, ainda teve de passar por um procedimento invasivo de histerectomia, de modo a evitar distrações e “obstáculos” em seu trabalho como espiã.

Tornando-se o “projeto” mais bem-sucedido desenvolvido pelo Programa Operação Viúva Negra, ela passou a figurar como uma ameaça à segurança global e entrou no radar da S.H.I.E.L.D. Para matá-la, Nick Fury enviou o agente Clint Barton, conhecido pela alcunha de Gavião Arqueiro, mas reconhecendo seu potencial, habilidades e destreza, Clint recuou em sua missão e aconselhou Fury a integrá-la à SHIELD. Trabalhando juntos, Natasha e Barton desenvolveram um vínculo poderoso de cumplicidade e uma ótima dinâmica de equipe, o que os levou a uma missão em Budapeste, citada primeiramente no longa original dos Os Vingadores (2012) e finalmente explicada no filme solo da Viúva Negra. Aliás, no primeiro longa da equipe, pudemos testemunhar a trajetória de Natasha de agente da SHIELD à vingadora.

Nem vou entrar no mérito de que uma personagem tão fascinante e que, para completar, foi intensamente ativa e onipresente em filmes pregressos do MCU, merecia um longa individual muito antes. Pois teria de considerar as perspectivas mercadológicas de bem poucos anos atrás, quando executivos de estúdios eram terminantes em afirmar – sem nem ao menos fazer alguma tentativa – que filmes solo de heroínas (ainda mais uma relativamente desconhecida do público que não consome HQs) não seriam capazes de render altas cifras como as produções protagonizadas por personagens do gênero masculino e já familiares ao público, a exemplo de Homem de Ferro, Thor e Capitão América. Antes tarde do que nunca, pelo menos.

Viúva Negra agrada e empolga quem curte a fórmula da Marvel Studios e surpreende quem assiste de maneira descompromissada. O longa protagonizado por Scarlett Johansson consegue ir um pouco além de apenas um bom entretenimento de fim de semana, com uma trama sólida, ritmo fluido, resultando em uma eficiente tradução da heroína dos quadrinhos para as telas.

A narrativa começa em 1995, quando Natasha e sua “irmã” Yelena têm suas infâncias interrompidas, ingressando forçosamente em uma iniciação cruel que visa transformá-las em assassinas perfeitas. O prólogo se concentra na falsa família infiltrada em Ohio, composta pela jovem Natasha Romanoff, a irmã caçula Yelena Belova, o pai Alexei Shostakov (conhecido como o Guardião Vermelho) e a ex-viúva negra Melina Vostokoff, que assume o papel de mãe das garotas. Esses minutos iniciais já deixam aparente que Natasha tem conhecimento de que aquele núcleo familiar no qual está inserida é fake. Mas Yelena, de apenas seis anos, não faz a menor ideia. Posteriormente, durante os créditos iniciais, temos lampejos do treinamento e da rotina brutal aos quais Natasha, Yelena e outras órfãs são submetidas, destacando que a missão das jovens mais aptas é converterem-se em espiãs e assassinas, enquanto as demais são friamente executadas. O começo sombrio é embalado por um cover inusitado de “Smells Like Teen Spirit”, clássico do Nirvana, interpretado por Malia J em uma toada bastante melancólica que corresponde perfeitamente às imagens mostradas na tela.

Vinte e um anos depois, vemos Natasha escapando dos homens do General Ross, que a acusa de violar o Tratado de Sokovia e ferir o rei de Wakanda. A vingadora é bem-sucedida em sua fuga e retira-se para um lugar isolado a fim de permanecer reclusa por um tempo. No entanto, seus planos não saem exatamente como ela desejava e seu caminho se cruza novamente com o de Yelena e de seus pais adotivos, aos quais ela deve se unir a fim de executar uma nova missão: ir atrás de uma figura aterrorizante de seu passado do qual ela acreditava já ter se livrado há anos. Ninguém menos do que Dreykov, o chefe da Sala Vermelha que, para surpresa de Nat, continua ativa. O filme narra o que houve com Natasha durante esse período em que permaneceu afastada dos Vingadores e foi para Budapeste confrontar seus fantasmas – situando-se entre os eventos de Capitão América: Guerra Civil e Vingadores: Guerra Infinita. Sem muitos spoilers: a localização da Sala Vermelha é um achado e todo o plano para derrotar o responsável pelo programa é bem orquestrado na tela.

A produção é recheada de sequências de explosões, tiros, perseguições por terra e ar e muita pancadaria para deleite dos fãs do gênero. As cenas de ação são bem conduzidas e, apesar de toda a pirotecnia e situações surreais e inverossímeis, não apenas funcionam como conseguem soar bastante plausíveis dado o acuro da direção de fotografia, do desenho de produção e do preciso emprego dos efeitos especiais. Se há algum demérito no departamento visual, está no fato de a Marvel Studios insistir em apresentar cenas de luta com demasiados cortes, o que tira um pouco da “magia” desse tipo de sequência. O espectador tem a ciência de que os embates corporais ilustrados na tela tratam-se de pura coreografia e são resultantes de um árduo trabalho de montagem, não transmitindo a sensação de legitimidade esperada. Todavia, o clímax ágil e eletrizante mais do que compensam essa deficiência.

Além de contar com bons acréscimos ao elenco, cuja presença que mais se destaca é a de Florence Pugh que interpreta Yelena, além de nomes como Rachel Weisz e David Harbour, a inserção do personagem Taskmaster (traduzido como Treinador nas HQs em português), agrada aos fãs de quadrinhos, ainda que apareça no longa com identidade e background bem distintos das de sua contraparte na mídia original. E, obviamente, há numerosas referências aos Vingadores.

Embora seja um espetáculo visual e sonoro, o que realmente se sobressai em Viúva Negra é o fato de o filme humanizar a protagonista. O roteiro explora muito mais do que seu lado vingadora, propondo um mergulho em sua psique e deixando bem aparente os esforços descomunais que ela faz em ordem de manter seu emocional estável, ainda que este esteja comprometido. Contudo, não deixa de manter alguns de seus sentimentos nebulosos, considerando que o mistério é parte essencial do charme da personagem. Ao introduzir o plot da família de Natasha, mesmo que esta se trate de uma família fake, temos acesso à intimidade da heroína de um modo que ainda não havíamos tido a oportunidade em longas que o precederam na cronologia do MCU. E, felizmente, é um plot que não soa artificial.

De forma bastante sutil, pontual e orgânica, a produção ainda lança luz sobre questões pertinentes e atuais, como o papel da mulher na sociedade, o insistente controle sobre nossos corpos, comportamentos e os questionamentos diante de nossas condutas, o quão valiosa é nossa autonomia e poder de escolha, bem como a representação das super-heroínas na cultura pop. O longa até se permite um momento de autossátira, como quando Yelena zomba da pose de Natasha para lutar – o modo característico de jogar o cabelo para trás em câmera lenta, que se trata de pura estética, mas tornou-se algo emblemático da personagem, visto pela primeira vez no hoje longínquo Homem de Ferro 2, lançado em 2010. O melhor? Aborda pautas fundamentais com relação ao espaço e representação da mulher, mas passando bem longe do discurso panfletário.

O resultado é um bom thriller de espionagem e ação, que coloca em evidência temas de hoje e bem relevantes, e retrata na tela tanto o que faz de Natasha Romanoff uma lutadora poderosa e perspicaz, quanto uma pessoa sensível e, por vezes, vulnerável. Dirigido, roteirizado e protagonizado por mulheres, o longa de Cate Shortland, escrito por Jac Schaeffer é um filme feito especialmente para os fãs da heroína, mas não se reduzindo a uma “carta de amor” destinada a eles.

Há um anacronismo na origem da espiã – aspectos de sua história que conflitam com o que já foi apresentado sobre ela em filmes predecessores da estrutura MCU – para o qual é difícil fazer vista grossa. E o longa também tem aquele jeito de “meio do caminho” como a maioria esmagadora das produções da Marvel Studios – a aventura isolada que não faz tanta diferença no todo. Assim são também os outros filmes solo dos heróis da Marvel, como os do Thor, Homem-Aranha e mesmo os longas protagonizados pelo Homem de Ferro. No entanto, Viúva Negra tem um enredo muito mais consistente do que os filmes do Homem-Formiga ou da Capitã Marvel, para citar alguns exemplos. De qualquer forma, apesar das falhas, o conjunto da obra é bastante agradável.

Para completar, a trilha sonora é outro de seus atrativos. Inclui, além da citada cover do Nirvana, a versão original de “American Pie”, de Don McLean, que garante alguns momentos de leveza em meio ao caos que se desenrola ao redor de Natasha e sua família.

Lançado tardiamente, Viúva Negra não só cumpre o esperado, como supera expectativas e não desaponta os fãs. É o filme ideal para inaugurar a Fase 4 do MCU nas telonas. (AB)

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Um Universo Cinematográfico, em especial de proporções tão grandiosas quanto o da Marvel, impõe uma série de limitações a seus filmes e em especial às aventuras solo, em virtude de seus épicos crossover e de uma narrativa geral que se estende por anos. Nesse caso, as constrições narrativas são muitas: a protagonista cuja morte já está anunciada; a necessidade de uma trama simples o suficiente para passar despercebida no tempo em que se insere (entre Guerra Civil e Guerra do Infinito), mas espalhafatosa o bastante para caber na fórmula Marvel; a introdução de uma nova protagonista, sua história e o anúncio de sua próxima participação. Justamente por isso, esse não é tanto um filme da Viúva Negra, Natasha (Scarlett Johansson), como é de Yelena (Florence Pugh).

Assim, Viúva Negra (Black WIdow, EUA, 2020 – Marvel/Disney) retrata o reencontro das irmãs para enfrentar o abusivo vilão que as transformou em Viúvas, Dreykov (Ray Winstone), superagentes com as mesmas aptidões da heroína. Para isso, precisam recuperar contato com sua família “adotiva”, com quem estiveram por alguns anos como disfarce para uma missão de Melina (Rachel Weisz) e o Guardião Vermelho (David Harbour).

Conduzido como qualquer blockbuster da Marvel, o enredo é fraco e serve somente como cola gasta entre cenas de ação “engajantes”, cuja lógica interna comete inúmeras adaptações convenientes às protagonistas (a já conhecida armadura de enredo ou plot armor). Se havia alguma tentativa de estudo emocional ou psíquico de Natasha, ela não sobrevive ao ritmo constantemente quebrado por piadocas e alívios cômicos fora de hora.

A princípio, o que descrevo pode ser a análise de muitos longas multimilionários de super-heróis e heroínas dos últimos anos. Tal sensação não se distancia de um diagnóstico já esperado: de fato, este é somente um entre tantos lançamentos desprovidos de um discurso profundo. Costuma-se admitir um bom filme do gênero quando há um conflito interessante. Por exemplo, Thanos é um bom vilão porque somos capazes de entender suas motivações.

No entanto, Dreykov, além de não interagir com a trama até seu clímax, é plástico e unidimensional, providenciando ao longa um pretenso embate moral confuso e politicamente complicado. Líder estratégico da União Soviética, ele se refugia numa base espacial após um atentado de Natasha que supostamente o mata. Embora ecoe o estereótipo de crueza moral do regime socialista aos olhos do Ocidente, acompanhado da estética soviética mesmo que tenha se refugiado nos ares após o fim do regime, o patético plano de dominação mundial do antagonista o concede “o poder de manipular o preço de petróleo, água e afins” – um controle absoluto do capital, portanto, mas nunca utilizado ou sequer percebido pelas agências de inteligência do Universo Marvel. Confuso, não?

Ao mirar no repetitivo artifício de entregar riscos astronômicos ao conflito vigente buscando conferir-lhe legitimidade ao público, ou seja, buscando a empatia e atenção dos espectadores, Viúva Negra comete o mesmo erro que diversos filmes de seu gênero, e alcança seu mesmo resultado: o desinteresse. Parece-nos então que, ciente da fraqueza do roteiro que lhe é entregue, a diretora Cate Shortland foca sua atenção – além das longas e repetitivas batalhas e fugas – na interpretação de seu quarteto estelar. Contudo, não há bons personagens sem um bom roteiro. Os diálogos travados e as já comuns interrupções para alívio cômico resultam em quase-personagens dramáticos, com pouquíssimo impacto e traços caricatos, como o sotaque russo forçado das três novas adições ao UCM.

Sendo assim, a personagem mais surpreendente é Alexei, o Guardião Vermelho, a quem é dada a menor expectativa narrativa e o papel mais simples: atenuar o tom pretensamente dramático com uma personalidade deslumbrada e atrapalhada. David Harbour está extremamente confortável no papel, assim como todas as atrizes com quem contracena. É de se supor que, caso o elenco não tivesse nomes de tamanha força, as dobradinhas entre Natasha e Yelena, além de toda a dinâmica familiar frustrada, não teriam sido ruins, mas desprezíveis.

Viúva Negra é um filme esquecível que se propõe à difícil tarefa de construir camadas a um personagem falecido e, claro, introduzir uma nova (anti?)heroína ao panteão da Marvel. Sofrendo todos os sintomas do corporativismo exagerado da Disney, não oferece uma história convincente ou qualquer discurso que não se resuma a maniqueísmo barato embrulhado em ação antilógica e explosões aleatórias. (LA)

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Nomadland

Vida nômade levada por muitos americanos é mostrada com sutileza pela diretora Chloe Zhao e coroa a carreira da atriz Frances McDormand 

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Fox/Disney/Divulgação

O burburinho das premiações crescia a cada dia nos últimos meses. Com o anúncio dos indicados ao Oscar 2021, as proporções desse debate tornaram-se astronômicas. Nomadland (EUA/China/Alemanha, 2020 – Fox/Disney/Divulgação) da diretora Chloe Zhao, foi um dos grandes nomes das premiações deste ano, tendo inclusive ganho as categorias de melhor filme e diretora no Globo de Ouro deste ano e três Oscar (filme, direção, atriz).

No roteiro, adaptado por Zhao do livro homônimo de Jessica Bruder, acompanhamos Fern (Frances McDormand), uma senhora que, desde a dissolução da cidade onde morava, viaja os Estados Unidos entre bicos e retiros, em um estilo de vida sem casa, mas não sem lar. A vemos com suas amizades, novas ou de longa data, seus breves conflitos com a família e a aceitação da proximidade da morte em seu entorno.

Por mais que seja centrado em uma longa viagem, Nomadland é bastante flexível e, assim, não se assemelha a um road movie mais emocional. Pelo contrário: é um estudo de personagem carregado de sutileza e, sobretudo, calma. Não há pressa em entender as camadas de Fern, cuja personalidade vai se revelando ao longo de toda a duração. A direção opta por trabalhar com um forte intimismo ao mesmo tempo que sempre significa o amplo horizonte da jornada de seus personagens, refletindo-o na profundidade de campo sem fim de suas cenas externas.

No entanto, há uma inconsistência tonal entre o começo e o restante da obra: enquanto os primeiros minutos soam como uma forte crítica ao capitalismo tardio e à precariedade do serviço social americano, o discurso opta por focar na automarginalização. A não ser Fern, parece que nenhum dos viajantes que moram em seus veículos foi cooptado pelo sistema a tomar essa decisão. Pelo contrário, em uma abordagem mais good vibes. Todas personagens a tomaram para aproveitar o restante da vida.

A partir dessa mudança de direcionamento, a trama volta aos eixos e se mantém coesa. A atuação de Frances McDormand é muito expressiva, de forma que uma verborragia somente viria a atrapalhar a bela jornada interpretada pelos silêncios e expressividade da atriz. Sua face, cada vez com uma expressão diferente, é utilizada até saturar, operando como um estabilishing shot da alma de Fern. (Estes são aqueles planos que introduzem a trama a uma nova locação, como as sequências aéreas da cidade toda vez que a novela da Globo foca em outro núcleo.)

Essa e outras pequenas repetições prejudicam o ritmo da obra, que ainda é muito direto e preciso. O aspecto contemplativo de roteiro e direção se encontram com a montagem – um produto da opção de Chloe Zhao por assinar as três funções. Seu corte dá espaço para a naturalista fotografia de seu comum colaborador, Joshua James Richards, e a ampla trilha sonora do veterano Ludovico Einaudi, que explora poucos temas com precisão milimétrica. 

Bem balanceado, Nomadland chegou ao Oscar com o peso e o prestígio de seis indicações baseadas no frescor na narrativa introspectiva de Fern e suas companhias. Um indicativo certeiro da potência dos futuros trabalhos de Chloe Zhao e mais uma coroa para a carreira de McDormand. 

>> Nomadland concorreu no dia 25 de abril ao Oscar 2021 em seis categorias: filme, direção, atriz, roteiro adaptado, montagem e fotografia