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Star Wars: A Ascensão Skywalker

Com direção de JJ Abrams, nono filme encerra a saga criada há mais de quatro décadas por George Lucas

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Textos por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop) e Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Fotos: Disney/Divulgação

O último longa de Star Wars, o derradeiro capítulo, o fecho, o encerramento, aquele filme que chega com todas as respostas, soluções e explicações é … mais ou menos. Triste dizer isso, mas qualquer admirador da história criada por George Lucas precisa fazer uma ginástica cognitiva para poder embarcar na proposta de “Ascensão”. Do contrário, ficará buscando explicações e entendimentos ao longo das mais de duas horas de projeção e então será pior. Vai constatar o raso de alguns personagens, o ritmo frenético da narrativa. Enfim, vai sair do cinema com gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

Com JJ Abrams de volta à direção, o filme tem a árdua missão de explicar as pontas soltas dos seus dois antecessores (O Despertar da Força e Os Últimos Jedi) tendo em vista que, assim como eles, precisa ter alguma semelhança com os longas da primeira trilogia (A Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi). Até aí, no quesito “livre interpretação da dinâmica e detalhes” destes primeiros longas, Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise Of Skywalker, EUA, 2019 – Disney) até cumpre seu propósito. O problema maior e definitivo do roteiro é a proposição feita nos primeiros minutos, que se vale de um detalhe no uso da Força, para ser viável. Se você aceitar “de boas” essa proposta, verá o filme com relativo conforto. Do contrário, viverá um crescente desconforto até o fim.

Outro problema é a quase anulação do que aconteceu no ótimo Os Últimos Jedi, quando a Resistência foi reduzida a um punhado de gente e apenas a Millenium Falcon. Aqui tudo começa com os rebeldes organizados, operantes e capazes de receber informações sobre uma nova armada que estaria se incorporando à Primeira Ordem. A partir daí, tem início um verdadeiro rocambole de eventos em velocidade altíssima, quase sem tempo para que possamos perceber o que está acontecendo. O filme se vale da mesma esquizofrenia de efeitos especiais da segunda trilogia, quase sem tempo para o espectador respirar. São cidades, planetas, personagens, subpersonagens, tramas e subtramas que vão correndo em paralelo, dentro de uma caçada a um artefato que pode revelar a origem da tal armada de naves. É tudo mal explicado e rápido demais.

Fica difícil acreditar em algumas soluções que vão surgindo ao longo do caminho, como, por exemplo, a chegada de Lando Calrissian à trama, um personagem importante e clássico, reduzido aqui a quase nada. Também é irritante a ginástica que é feita nos escalões da Primeira Ordem para que possamos entender um dos fios condutores da narrativa. E o grupo de heróis se mostra duro de engolir. Afinal de contas, algo está errado quando as melhores falas até quase a metade do filme são de C-3PO, transformado numa criatura com humor peculiar e aproveitado como um bom alívio cômico diante da pouca capacidade de Poe Dameron (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega) de renderem cenas mais dramáticas. Os dois heróis são rasos, uma pena.

Mas, e Rey? E Kylo Ren? Bem, eles estão lá. Ela, fortíssima; ele, atormentadíssimo. Vão se comunicar pela Força ao longo da narrativa, vão se enfrentar em bons duelos de sabre de luz em todos os cantos e farão o que muitos esperam que eles façam, lá pro fim das contas, com um triste e desnecessário bônus melodramático. Neste espaço de tempo, aparições banais de Han Solo e Luke Skywalker irão turbinar alguns momentos, sem falar no malabarismo de montagem e inserção das cenas com Leia, uma vez que Carrie Fisher não estava mais presente nas filmagens.

Como filme de ação, A Ascensão Skywalker é ok, no mesmo sentido que um filme de ação em 2019 precisa ser esquizofrênico em sua montagem e roteiro. Como fecho de todas as trilogias, ele é feito para um público específico, criado e gestado nos últimos anos, que frequenta o parque de Star Wars na Disney e que não tem a ideia real da magia grandiosa da primeira trilogia. Aliás, se a série imaginada por George Lucas tem, de fato, algum feito para o cinema, ele está em algum ponto entre o meio de O Império Contra-Ataca e o fim de O Retorno de Jedi. Ali, sim, George Lucas, sem Disney por perto, marcou seu nome na história do Cinema. O resto está abaixo e precisamos conviver com isso. (CEL)

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Faz quatro anos que JJ Abrams trouxe o universo de Star Wars de volta ao mundo dos vivos. Trinta e oito anos depois da estreia do primeiro filme, o diretor provou que, sim, a saga ainda é uma força a ser reconhecida (com o perdão do trocadilho). Agora, em 2019, o mesmo diretor encerra a nova trilogia e uma saga que durou mais de quatro décadas e teve nove filmes e mais dois spin-offs. Abrams consegue, ao mesmo tempo, manter tudo que o público ama em Star Wars e modernizar as histórias e seus personagens. E A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise Of Skywalker, EUA, 2019 – Disney) comprova isso de forma magistral.

Os novos personagens, apresentados em 2015 no Episódio VII (O Despertar da Força), são as peças principais da nova história. Rey, Poe, Finn, BB-8 e Kylo Ren são o centro das atenções e personagens-chave em longas sobre tradição, família e amizade. Aos poucos, vemos relações sendo construídas e destruídas, vamos nos despedindo de personagens conhecidos e amados e conhecendo este novo grupo de amigos.

E chegou a hora de nos despedirmos de todos eles. E QUE DESPEDIDA! JJ Abrams constrói um dos melhores filmes de todos os nove, entregando emoção, comédia e ação na medida certa. Vemos cada um dos personagens tomar o seu lugar naquela saga que amamos há tanto tempo. Vemos a importância dos novos e dos antigos protagonistas. Aprendemos com eles e nos emocionamos a cada adeus.

Abraçando a representatividade, o diretor coloca como maior protagonista desta história uma mulher: Rey, que entrará em conflito e terá seu passado enfim revelado. Mas vai além. Seus protagonistas são negros, latinos. Numa história que mistura diferentes espécies de seres vivos, por que não mostrar toda a diferença dos seres humanos em seus personagens?

A Ascensão Skywalker encerra a saga de Luke, Leia, Rey, Finn, Poe, Ben e Han Solo de forma épica e bem construída, com uma história relativamente simples e repleta de emoções. Um filme incrível para nenhum fã de Star Wars botar defeito. Uma despedida agridoce, que mostra como vamos sentir saudades destes personagens que fazem parte da nossa vida e da nossa cultura. J.J. Abrams se provou mais uma vez um dos melhores contadores de histórias da atualidade e conseguiu reavivar e manter um dos maiores fenômenos da cultura pop, mesmo mais de 40 anos depois de sua criação pela mente de George Lucas.

Ao final do filme, a grande pergunta que fica é se estamos preparados para dar adeus. (FSJ)

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O Juízo

Thriller psicológico brasileiro desperdiça ótimos nomes em seu pequeno elenco com sérias lacunas em sua linguagem

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Nos últimos anos, o terror brasileiro tem ganhado projeção nos circuitos de festivais mundo afora. Junta-se ao coro um já estabelecido diretor, Andrucha Waddington, responsável por alguns documentários sobre artistas da MPB mais diversas colaborações com Fernanda Torres, sua esposa, e Fernanda Montenegro, sua sogra. Em O Juízo (Brasil, 2019 – Paris Filmes), estas parcerias se repetem.

O roteiro, segundo assinado por Torres em sua carreira, gira em torno de uma família que recém se mudou para a Casa Grande herdada por Augusto (Felipe Camargo). Além dele, Tereza (Carol Castro) e seu filho Marinho (Joaquim Torres Waddington) devem adaptar-se à nova casa, sem luz e isolada da cidade mais próxima. No entanto, a família é ameaçada pelos espíritos de um escravo (Criolo) e sua filha (Kênia Bárbara), assassinados por um antepassado de Augusto (por problemas temporais da narrativa não fica claro se é seu avô, constantemente citado ao longo do filme, ou alguma geração anterior). Aqui, Andrucha e Torres desenham um thriller psicológico, claramente inspirados em clássicos de Stephen King, como O Iluminado e Cemitério Maldito, porém sem sucesso.

Este é, sem dúvidas, um filme problemático. Não necessariamente em seu tema, mas em seus aspectos mais técnicos, desde a direção e o roteiro à atuação do pequeno elenco que compõe o longa. A integração desses problemas, no entanto, dificulta uma análise fragmentada destes aspectos.

Explico. O Juízo abre desenhando perguntas que jamais são respondidas. A principal delas, que está presente em todo filme, é “quem são esses personagens?”. A segunda, de igual importância, é “por que estes personagens estão se mudando para esta casa, sem luz e completamente isolada de sua aparente vida anterior?”.  Nenhuma dessas questões é satisfatoriamente solucionada, o que prejudica a imersão do espectador na história. Como vamos nos importar com o que ocorre com personagens que mal conhecemos, muito menos entendemos o porquê de estarem nessa situação? As tentativas, propostas pelo roteiro, são insuficientes, mas a direção parece estar igualmente despreocupada com a imersão do público. Há, aqui, a ausência de elementos fundamentais do cinema, uma fundação para a construção do filme.

Waddington tenta estabelecer suspense, principalmente por meio de imagens estilizadas (estilo não falta nesse filme!), porém nos distancia de seus personagens, já que não há uma conexão primordial ao funcionamento de qualquer filme (a saber: entre personagens e espectador). Ainda, não há uma definição espacial-geográfica. Como exemplo, não conhecemos pontos fundamentais da estrada que liga a cidade à casa ou até mesmo os ambientes internos desta casa. A magnitude opressora da arquitetura do Brasil escravocrata é minimizada pelo não-estabelecimento dessa magnitude. Da mesma forma, pontos importantes ao suspense não são elucidados. Surgem elementos de cena aqui e ali e o arco da loucura gradual de Augusto, o único na trama, é pouco explorado pela direção.

Outro ponto fraco é a condução do elenco que conta com nomes de peso, como Fernanda Montenegro e Lima Duarte. Ela é restrita a uma dicção novelesca – aquela que preocupa-se em verbalizar cada sílaba com perfeição, distante da língua falada – e esta destitui cada personagem de uma ferramenta importante de sua construção, a fonética particular a cada pessoa. Com exceção dos dois veteraníssimos atores citados acima, que cumprem um bom trabalho, na medida do possível, o elenco do longa sofre mais com esse imobilismo. Destacam-se Criolo e Joaquim Torres Waddington. Ambos ainda têm uma carreira curta dentro do cinema mas fazem personagens unidimensionais e monótonos. Carol Castro, que ganha uma importância cada vez maior com o andar do filme, visivelmente entrega uma Tereza profunda, porém sua atuação é amputada pelo conjunto da obra.

Ainda, como dito anteriormente, O Juízo é bastante estilizado, com planos muito bonitos e, em questão de iluminação, muito inventivos. A fotografia de Azul Serra é, por vezes, escura demais, mas manipula as sombras do longa com competência, flertando, ao mesmo tempo, com o chiaroscuro (forte contraste entre o claro e o escuro, marca registrada do cinema noir) e a iluminação com luz natural.

O Juízo é um filme de suspense que é ineficaz. Dá a impressão de que seus criadores compreendem o material – que pode ser interessante – com clareza e profundidade, porém foram incapazes de transmitir tal densidade ao produto final, que sofre com lacunas seríssimas em sua linguagem. Deixa no espectador a estranha sensação de que a parte mais importante da história está faltando.

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O Pintassilgo

O amadurecimento de um menino que perdeu sua mãe em um atentado no museu e a sua paixão por uma pintura holandesa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

John Crowley propõe, baseado no livro homônimo por Donna Tartt, a derivar seu filme em torno de Theo, um rapaz cuja mãe faleceu num atentado terrorista a um museu e que, como forma de lidar com o luto, rouba a lendária pintura O Pintassilgo, do holandês Carel Fabritius. Acompanhando seu crescimento a partir do evento traumático, o roteiro almeja estabelecer a transição entre as personagens de Oakes Fegley e Ansel Elgort, respectivamente Theo criança e adulto.

Com uma narrativa alinear, o filme oscila seu foco entre a adaptação de seu protagonista quando criança a uma série de eventos, iniciando pelo acolhimento por uma abastada família e o impacto que esta parte de sua vida, que se desenrola com o passar do tempo, teve quando ele entra em sua maturidade. Neste sentido, tanto o roteiro de Peter Straughan quanto a direção de Crowley desenvolvem um paralelo interessante, iniciando o filme num bem-vindo suspense. No entanto, o enfoque de sua história muda drasticamente com a chegada do segundo ato, por assim dizer.

Assim, acompanhamos Theo, já adaptado à primeira grande dificuldade, vivendo sua vida, de forma que o filme abandona sua premissa inicial e, despindo-se de todo mistério, passa a abordar a relação do personagem, interpretado aqui por Fegley, com seus amigos e parentes. O infeliz resultado é uma narrativa empacada, um filme que parece esquecer-se da história que quer contar. As constantes cenas cotidianas de Theo esfriam gradualmente o ritmo de O Pintassilgo – problema que poderia facilmente ser resolvido com a supressão de algumas cenas que adicionam pouco (ou nada) à trama.

No fim, isso não é de todo mal, sobretudo para fãs da fotografia de Roger Deakins, que transforma cada plano do longa-metragem em uma obra de arte à parte. Peca-se um pouco, no entanto, na construção da identidade estética desta fotografia, afinal Crowley decide “reaproveitar” composições que imortalizaram o trabalho de seu diretor de fotografia – uma interessante e válida homenagem, porém, ao mesmo tempo, uma indicação de preguiça da produção, ou até de dedo podre da produtora.

É importante ressaltar a qualidade da atuação de grande parte do elenco, principalmente da dupla de protagonistas. Oakes Fegley tem uma sensibilidade muito bonita ao conduzir Theo por seu coming of age traumático, enquanto Ansel Elgort consegue, sem que o roteiro o obrigue a explicitar tudo, transmitir perfeitamente a ansiedade causada por seu passado. Nicole Kidman, Jeffrey Wright e Luke Wilson também interpretam extremamente bem as figuras paternais que seus personagens representam a Theo, para bem ou para mal. O elo fraco, no entanto, é a atuação de Finn Wolfhard como o melhor amigo de Fegley. Seu adolescente russo é caricato e (mais de uma vez) o ator esquece de seu sotaque e pronuncia uma ou outra palavra com sua fonética canadense. Sua contraparte adulta, Aneurin Barnard, também entrega uma atuação caricata – o que pode indicar que o problema jaz no roteiro ou na direção que Crowley decidiu levar os personagens.

Ainda que tenha pontos bons, principalmente técnicos, O Pintassilgo vence sua plateia por nocaute, cansando-a com seu desenvolvimento, despido do conflito que, a princípio, regeria a trama que constrói. Tecido por boas atuações e uma fotografia completamente dentro do que se espera de um diretor consagrado, o filme é um tropeço de John Crowley muito menor do que, levando em conta seu problema de ritmo, poderia ter sido.