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Joias Brutas

Trama caótica, montagem tensa e Adam Sandler fugindo de suas habituais comédias estereotipadas tornam este filme uma divertida surpresa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

É relativamente fácil vermos um filme que cria tensão. Essa ferramenta de linguagem está tão incrustrada no cinema contemporâneo que a tomamos por dada. Difícil, no entanto, é um longa que o faça a todo momento – das mais variadas formas possíveis.

Joias Brutas (Uncut Gems, EUA, 2019 – Netflix) é dirigido pelos irmãos Josh e Benny Safdie, escrito por eles junto a Ronald Bronstein e montado pelos dois últimos. Essa autoralidade, que passa da cadeira da direção para inundar as diferentes etapas da produção cinematográfica, é típica da obra dos Safdie. E se paga completamente neste longa.

A trama acompanha a turbulenta vida de Howard Ratner, um joalheiro nova-iorquino que, ao mesmo tempo que deve muito dinheiro, vê a oportunidade de uma venda astronômica. Tal como sua rotina, a história é frenética. O protagonista vai e volta, num entra-e-sai de lugares, negócios e acordos que, embora bastante simples, tornam-se difíceis de acompanhar. No entanto, a história não seria a mesma – e, por consequência, não seria tão boa – caso não houvesse dois pilares: a direção e a montagem por um lado, Adam Sandler no outro.

Comecemos por aqueles. A constante câmera na mão, perdida no meio de um mar de ações do elenco, é efusiva e sinaliza bem a correria em que Joias Brutas se estabelece. Os Safdie dão bastante espaço para seus atores, porém quase nenhum para sua câmera – sempre claustrofóbica, fechada e cambaleando de quadro a quadro. A fotografia de Darius Khondji é indissociável desse estilo. Granulada, lavada e por muitas vezes fora de foco, ela constrói não somente a cidade em que Howard vive, mas suas incertezas e planos mirabolantes.

Enquanto isso, cabe aos montadores a criação de um ritmo onipresente à obra. O cinema acelerado dos Safdie, a megalomania de Howard e as constantes discussões polifônicas que montam a trama são sempre extrapolados pela constante troca de câmeras, ângulos e pontos de vista. Contudo, a preocupação em construir o ritmo não permite que se perca a coesão narrativa e a sensação de unidade do longa. É bagunçado, mas é um só. Quis ser bagunçado.

E não seria estranho, portanto, que o protagonista fosse a bagunça personificada. Howard fala demais, é canastrão e vivaz, mas autêntico e de uma certeza inabalável. Seu adultério, vício por apostas e a interminável construção de plano atrás de plano para ganhar dinheiro não são somente características externas ao personagem, dadas pela trama porém introjetadas nele mesmo por seu ator. Sandler vive Howard, numa interpretação que resgata a constante “interpretação de si mesmo”, joga-a contra a parede e propõe uma persona que não foge dos maneirismos mas é muito além disso. Vale comentar, num adendo, que não há a infame voz exagerada que o humorista faz quando tenta ser engraçado . O que é um alívio para o espectador.

A trilha sonora de Daniel Lopatin ainda é certeira. Seus sintetizadores por ora dissonantes e deixam a trama respirar (mesmo que em sua respiração ansiosa) e somente a calçam, sem perder a melodia.

Tudo isso faz de Joias Brutas um filme ansioso, que jamais perde tempo, confuso em si mesmo e capaz de desenvolver sua tensão do início ao fim. Construído em volta da melhor atuação de Adam Sandler até o momento e amparado por ótimas interpretações de Julia Fox e Lakeith Stanfield, o longa abraça o caos de sua trama e permite acompanhar Howard por uma história divertida, na qual a tensão irrompe mais num jogo de basquete que numa confusão com a máfia. Uma boa surpresa para algum desavisado que espera de Sandler um Gente Grande atrás do outro. Volta e meia ele faz um filme bom.

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História de um Casamento

Scarlett Johansson comanda um time de grandes atuações em filme que mostra como um divórcio pode fazer mal sobretudo aos filhos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Netflix/Divulgação

Existe um ditado que diz mais ou menos assim: você só conhece uma pessoa de fato quando se separa dela. Ou seja, uma gatinha pode se tornar uma leoa da noite para o dia quando se trata de proteger a cria.

Enfrentar um divórcio é como entrar numa guerra. Raros são aqueles que chegam a um acordo de paz sem antes lutar contra justamente a pessoa que, um dia, entrou na sua vida para compartilhar o tempo, o espaço e a genética. Aquele que ontem era seu amigo e emprestava os ombros pra você chorar hoje dá de ombros e te faz chorar, transformando-se num rival. Durante o doloroso processo, muitas vezes é preciso cavar até o fundo do poço para, enfim, desmembrar aquele território edificado a dois com enorme dispêndio de energia, afeto, carinho, amor e, claro, dinheiro.

Casamento, enfim, é como qualquer sociedade. Pode ou não dar certo. Tentativa e erro. Para serem bem-sucedidos, os sócios devem estar muito bem alinhados. Caso contrário, o relacionamento chega ao fim, não se sustenta, desmorona, como tudo na vida que é efêmero. A única diferença é que, sem filhos, o adeus pode ser definitivo. Como é impossível dividir um filho, o desfecho pode tomar outro rumo. Nesse caso, o desgaste é maior e o poder de negociação atinge limites impensáveis, com trocas de acusações na frente do juiz, que revelam segredos e deixam feridas expostas. E todo o amor que um dia talvez tenha existido dá lugar à raiva, à amargura, como nos mostra o tocante longa História de um Casamento (Marriage Story, EUA/Reino Unido, 2019 – Netflix), do diretor e roteirista Noah Baumbach, hoje casado com a atriz, diretora e roteirista Greta Gerwig.

Separação, aliás, é um tema recorrente da filmografia de Baumbach. Em sua primeira obra, a autobiográfica A Lula e a Baleia, o diretor se inspirou na separação dos pais e conduziu a história sob o ponto de vista dele e do irmão. Já em seu mais recente e cultuado História de um Casamento, um dos nove indicados ao Oscar de melhor longa em 2020, ele se debruça em seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh, com quem tem um filho de 9 anos, praticamente a mesma idade do filho dos protagonistas vividos por Scarlett Johansson, exuberante no papel da atriz Nicole, e Adam Driver, que interpreta Charlie, um respeitado diretor de teatro.

A história do título (que lembra Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman) começa pelo fim do relacionamento entre Nicole e Charlie. Para quem não vivenciou a traumática experiência de uma separação, é bem possível que História de um Casamento seja percebido como uma obra mediana, com uma direção correta e um roteiro bem-feito. Talvez se fosse distribuído para o cinema e não exibido diretamente via streaming, a recepção fosse outra. Eu, no entanto, tive de pausá-lo algumas vezes por causa de tamanha identificação com a personagem de Scarlett, que também se inspirou na experiência pessoal para transmitir com um realismo pungente toda a angústia, frustração e tristeza do fim de um longo relacionamento.

O drama começa numa sessão de terapia de casal, uma tentativa vã de recuperar algo daquela faísca do amor primordial. Charlie escreve sobre as qualidades de Nicole e as lê em voz alta. Ela, por sua vez, não consegue fazer o mesmo. Para Nicole, não há mais salvação. A relação terminou e por motivos comuns a vários casais, como traição e desencanto pelo parceiro. Quando se casou, Nicole abriu mão de uma carreira promissora de atriz de cinema em Los Angeles para morar em Nova York, onde Charlie dirige uma companhia de teatro. Ao longo dos anos, ela passou a se sentir ofuscada pelo marido.

Com a união em colapso, Nicole aceita a proposta para estrelar o piloto de uma série de televisão e se muda para a casa da mãe em Los Angeles, levando com ela o filho Henry (Azhy Robertson). Charlie continua do outro lado do país. Perdido com toda a situação, parece não se dar conta de que Nicole não voltará mais. Os dois, então, permanecem separados física e emocionalmente e ele se desdobra para viajar até a Costa Oeste para visitar Henry.

O ressentimento, aliado ao fator filho, leva Nicole a procurar a advogada Nora, interpretada pela sensacional Laura Dern (que levou os principais prêmios de coadjuvante da temporada por este papel). Quando os advogados entram em cena, o drama toma o rumo bem ao estilo de Kramer vs Kramer, vencedor do Oscar de melhor filme em 1979, com Dustin Hoffman e Meryl Streep. O dilema que poderia se encerrar num acordo – e que seria mais benéfico para Henry – transforma-se em disputa judicial pela guarda da criança. As economias, até então reservadas para pagar a futura faculdade do filho, agora vão direto para o bolso dos advogados, que cobram honorários astronômicos, dignos de estrelas de Hollywood. Durante o litígio, a vida do casal é totalmente esmiuçada; cada detalhe, cada deslize, por mínimo que seja, pode ser usado perante o juiz, desde tomar uma mísera taça de vinho na frente do filho ou esquecer de acomodar o assento no carro.

Conforme a narrativa se desenvolve, Scarlett cresce no papel e nos envolve com sua personagem, como na cena de sua primeira reunião com Nora, quando subitamente começa a chorar ao contar a história. A advogada desce do salto e consola a atriz, num discurso que expõe toda a pressão sobre a figura materna rodeado pelo mito da irgem Maria: a sociedade tolera que o homem seja um pai ausente, mas à mãe jamais é permitido sair da linha.

Sem dúvida, a sequência mais visceral e desconcertante é a cena em que Charlie e Nicole discutem sozinhos e lavam toda a roupa suja. Não sobra nada, nem um par de meias. Nesse ponto, a direção de Baumbach insere o espectador lá dentro do apartamento, como se testemunhássemos a discussão.

Histórias de um Casamento pode não ter levado o Oscar, mas é um filme sensível e honesto, com foco no roteiro e atuação do elenco (tirando a mãe de Nicole, cujo papel é exagerado). E o belíssimo desfecho nos mostra que, para proteger a saúde mental do filho, a mágoa, a raiva e a culpa devem dar espaço à dignidade, à civilidade e ao respeito mútuo.