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Johnny Hooker + Mulamba – ao vivo

Pernambucano encerra turnê em Curitiba fazendo deliciosa sessão de resistência cultural, desbunde e exorcismo de desilusões amorosas

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Johnny Hooker

Texto e fotos por Janaina Monteiro

Vingança, ódio, raiva são sentimentos comuns e completamente compreensíveis entre aqueles que já levaram o famoso pé na bunda. Afinal, quem nunca tomou um fora nessa vida? Comum também é extravasar toda essa revolta ouvindo aquela playlist “Especial Fossa” no último volume. Sair pela sala, como uma pessoa doida, berrando versos de dor de cotovelo que são campeãs do Spotify. Quem canta seus males espanta. Ou quem canta a depressão espanta.

A raiva faz parte do processo de esquecimento desses seres egoístas e covardes que vagam pelo mundo espalhando o desamor. Mas há quem sinta tanto, tanto ódio no coração partido que pensa em fazer macumba para se vingar, como Johnny Hooker. Se você já sofreu uma desilusão amorosa certamente já ouviu esse “hino do rejeitado” escrito pelo cantor pernambucano: “Eu Vou Fazer Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”. Assim mesmo, com ponto de exclamação, é a faixa que dá nome ao primeiro álbum de Hooker, o cantor da vida. O pernambucano, que já fez novelas e programas na Globo, também sofreu na pele a dor de ser abandonado subitamente. E essa foi uma das canções mais aguardadas durante o show de Hooker na Ópera de Arame, no último dia 7 de junho, para celebrar o aniversário da festa curitibana Brasilidades.

Hooker soube, como ninguém, dar uma reviravolta na situação, e lançou o segundo álbum, Coração, em 2017. O trabalho tem a faixa “Touro” que representa o fechamento do ciclo coração partido: “Viver, morrer, renascer/ Firme e forte como um touro”. Foi assim como um touro que Hooker aterrissou no palco da Ópera de Arame imponente – num figurino preto e dourado, com maquiagem impecáveis – e levando a plateia ao delírio ao tascar um beijo na boca do guitarrista de joelhos. Esse primeiro ato já foi o suficiente para o público se aquecer do frio de bater o queixo. De queixo caído fiquei eu, que até então pouco conhecia obra de Hooker, um artista híbrido, plural.

O pernambucano é um misto de Caetano Veloso, Ney Matogrosso e David Bowie. O performer-cantor-ator-compositor consegue transitar pelos mais diferentes estilos musicais sem muito esforço: axé, forró, samba, pop, rock, rumba, ska, bolero, jazz, blues, soul. E seu discurso é atual, potente, que representa as minorias. Com sua voz rasgada e debochada ao extremo, Hooker entoa hinos sobre amor marginal e a falta de amor. Assim como Liniker, como As Bahias e a Cozinha Mineira, como a banda curitibana Mulamba e como outros artistas que são resistência e contrariam o modus operandi brasileiro, Hooker é o desbunde em pessoa. Veio para escandalizar.

E bem ao estilo Bowie camaleônico de ser, o astro continuou o show de encerramento da turnê de Coração, com o público fiel e totalmente derretido pelos seus encantos. Os presentes, aliás, cantavam todas, mas TODAS as canções de cor. De coração. Algumas já foram temas de novela, como “Alma Sebosa”, incluída em Geração Brasil (na qual Johnny interpretou o músico Thales Saltado) e “Amor Marginal”, de Babilônia. O tecnobrega “Corpo Fechado” ( “Se depender do seu ódio, eu não morro mais/ Se depender da sua inveja, eu não morro mais/Se depender do seu veneno, eu não morro mais”), dobradinha com Gaby Amarantos, foi indicado na categoria de featuring do ano no MTV MIAW 2019 .

A apresentação é uma sessão de exorcismo de sensações e gestos. Todos pulam, se confraternizam, gritam contra os opressores. No set list não podem faltar homenagens aos mestres, como a deliciosa “Caetano Veloso”, que reverencia o baiano tropicalista, e “Beija Flor”, aquele axé contagiante da Timbalada (“Eu fui embora/meu amor chorou”). Antes de cantar “Poeira nas Estrelas”, Hooker explica que fez a canção para seu ídolo maior no dia em que ele morreu. Trata-se de “um réquiem sobre a morte de David Bowie e sobre a perda de uma maneira geral. É meu pedido para que aquele homem das estrelas não nos deixe aqui sozinhos sem uma luz para nos guiar”, tuitou o artista um dia sobre a obra.

A tal canção da macumba – que transforma a Ópera num terreiro – chega na metade do show. E todos na plateia se descabelam com ele, soltando o grito que estava preso na garganta. Com direito a fazer stories e mandar para ex. “Te desejo uma vida de desilusão/ Não desejo afago nem o perdão/ E que seja feliz com quem encontrar/ Mas, nunca mais volte aqui/ Profane o meu lar”. É como um Cee-Lo Green cantando “Fuck You”.

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Mulamba

O discurso que levanta a bandeira do protesto contra a homofobia também se fez presente no show de abertura, com a banda curitibana Mulamba, formada por seis mulheres de atitude rock’n’roll numa clara homenagem a Cássia Eller. Assistir ao show das “mulambentas” dá um certo orgulho de ser curitibana (eu nasci na Bahia, mas vivo aqui há muito tempo!). A sonoridade é potente. Os vocais, vigorosos. E a mensagem, crítica, atual. Como em “P.U.T.A”, que fala sobre violência e feminicídio: “Por ser só mais uma guria/ Quando a noite virar dia/ Nem vai dar manchete/ Amanhã a covardia vai ser só mais uma que mede, mete e insulta/ Vai, filho da puta”.

O convidado principal da noite também usa o intervalo entre as canções para discursar. “Equidade de diferenças é o que importa”. “Ser artista no Brasil  é um ato de resistência”. “Podem matar uma rosa ou duas, mas não podem deter a chegada da primavera”. Foram algumas das frases proferidas pelo pernambucano. E para arrematar o show-protesto, Hooker canta “Flutua” que gravou com Liniker. Com as mãos para o alto, todos entoam o refrão: “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”. Assim ocorre a transformação de toda a ira, ódio, sentimento de vingança em um ato de liberdade.

Set list Johnny Hooker: “Touro”, “Alma Sebosa”, “Corpo Fechado”, “Chega de Lágrimas”, “Caetano Veloso”, “Volta”, “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”, “Você Ainda Pensa?”, “Amor Marginal”, “Poeira de Estrelas”, “Coração de Manteiga de Garrafa”, “Boato”, “Beija-Flor”, “Escadalizar/Desbunde Geral” e “Flutua”.

Set list Mulamba: “Provável Canção de Amor Para Estimada Natália”, “Interestelar”, “Tereshkova”, “P.U.T.A”, “Mulamba” e “Espia, Escuta”.

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Odair José e Thunderbird – ao vivo

Ao lado do ex-VJ da MTV Brasil, cantor resgata na Virada Cultural de SP disco que ficou marcado como maldito durante a ditadura militar

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Texto e foto por Fábio Soares

Mais uma vez, um dos mais interessantes palcos da Virada Cultural é aquele dedicado à execução, na íntegra, de clássicos álbuns brasileiros. Às nove da noite do último dia 18 de maio, foi a vez de Odair José tocar sua ópera-rock lancada em 1977, O Filho de José e Maria, clássico “maldito” do septuagenário cantor e compositor que tardiamente alcançou o status de cult. Antes tarde do que nunca.

Esqueça a pecha de “brega” que Odair carregou por quase toda a carreira. Seu show é de um bom gosto e elegância acima da média com um excelente quinteto de asseclas – naipe de metais incluso. E para contar a história de O Filho de José e Maria, a apresentação no palco Barão de Limeira teve algo a mais: a participação de Thunderbird, eterno ex-VJ da MTV Brasil com o qual Odair cultiva uma recente e sólida amizade.

A belíssima “O Casamento” abriu os trabalhos com Thunder incorporando a fúria de um pastor-ditador que questiona um casal que carrega a culpa por estar esperando um filho antes da consumação do matrimônio. Qualquer crítica à Bíblia não é mera coincidência e entende-se aí o porquê do disco ter sido execrado pela censura na época. Meter o dedo em feridas religiosas, prostituição, consumo de drogas e pais separados em plena ditadura militar foi, no mínimo, um ato de coragem.

Resignado, discreto mas muito concentrado, Odair conduzia o espetáculo com a calma e parcimônia de um veterano meio-campista que cola a bola em seu pé, aguardando o momento exato em deixar o companheiro na cara do gol. Executou “Não Me Venda Grilos” com o carinho de quem carrega um filho no colo e o trecho da canção “viver já pesa muitos quilos” já não lhe pesa tanto. A letra de “Só Pra Mim, Pra Mais Ninguém” trouxe o medo de levar um chifre, da possessão, do ciúme doentio. Não “aprovável” mas “entendível” na cabeça de um retirante de 35 anos de idade, inexperiente e frequentador de bordeis no Rio 1970.

Polaróide à parte O Filho de José e Maria é um dos discos mais injustiçados da história da MPB. Injustiçado como o seu criador. Injustiçado por uma sociedade preconceituosa do eixo Rio-São Paulo que julgou Odair somente pela sua aparência, rotulando-o pura e simplesmente como brega em detrimento ao seu enorme talento.

“Que loucura” encerrou o espetáculo com uma audiência ensandecida e implorando por um bis que não viria. Leonino e elegante, agradeceu timidamente à plateia. Não foi efusivo na despedida (ainda bem!) e soltou um curto “até o próximo show” aos presentes. A impressão que ficou foi a de que Odair ainda sente muita raiva e tristeza por ter sido escanteado pela mídia há quarenta e tantos anos. Contudo, sabe também que a vida anda para frente. Setenta anos de idade com um público fiel. Setenta anos de idade com uma obra gigantesca. Setenta anos de idade com muita lenha pra queimar (ainda bem!).

Até o próximo show!