Movies

Projeto Gemini

Will Smith precisa assassinar seu clone em trama dirigida por Ang Lee e que aposta na inovação da tecnologia de captação

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

Tendo a me preocupar quando um filme faz de sua tecnologia de captação o carro-chefe de sua estratégia de propaganda (milionária, é claro). Não quero dizer com isso que pouco importa a forma com que a produção foi efetuada, muito menos que a inovação de métodos e meios para tal deva ser ignorada, ou até mesmo não continuada. Pelo contrário. Acho interessantíssimo como uma obra busca na alteração de quadros/segundo um determinado efeito em sua mise-en-scène– o que não significa que esta deva ser a maior qualidade deste filme.

É o que ocorre em Projeto Gemini (Gemini Man, EUA/China/Taiwan, 2019) novo filme de Ang Lee, rodado em 120fps (quadros/segundo) a fim de garantir a nitidez em uma projeção de 60fps. Além disso, o filme conta com um Will Smith completamente clonado pelo CGI, com uma aparência extremamente jovial. Tudo isso funcionando para a narrativa de David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, que gira em torno de um superassassino, Henry Brogan (Will Smith), que é clonado pelo governo americano em busca da replicação de suas habilidades. Este clone, então, recebe a missão de caçar e assassinar Brogan, sem saber que ambos são, na verdade, “a mesma pessoa”. Premissa esta que, a princípio, é capaz de desenrolar-se numa trama competente, ao mínimo.

No entanto, Lee propõe algo avesso à própria narrativa, interessado apenas em seu espetáculo mirabolante em alta definição e nitidez. O efeito disso, além de um inicial estranhamento visual por conta da maior intensidade de quadros/segundo (que é sentida até em uma projeção nos tradicionais 24fps), é um filme completamente esquecível, incapaz de desenvolver novidades em seu arco. Ignorando completamente as barreiras espaço-temporais, Projeto Gemini parece pinçar elementos funcionais de outros blockbusters para fundi-los numa gororoba convencional de história de ação.

Isto se amplifica por uma interpretação muito aquém do elenco principal do filme. Will Smith não parece ter se empolgado com as nuances propostas pelo roteiro, soando à vontade apenas nos momentos herói fodão de seu personagem, enquanto Mary Elizabeth Winstead recebe pouco material para desenvolver-se em tela – no fim, não ajuda nem atrapalha. Clive Owen tampouco tem chão para criar um forte personagem, mas parece tão desinteressado quanto Smith. Resta a Benedict Wong, que opera como alívio cômico no filme, a maior consistência de atuação. O personagem pouco faz além de levar Brogan do ponto A ao B, mas ao menos Wong salta de cabeça nele, por mais raso que seja.

Quanto à música e o desenho de som, estes são completamente operantes. O mesmo pode ser dito da montagem, competente durante os diálogos e refinadíssima nas cenas de ação. É difícil entender o ritmo de um filme cujo efeito nos olhos do espectador é completamente diferente dos demais, e Tim Squyres, habitual editor de Lee, parece ter compreendido a missão e a executado com esmero.

Projeto Gemini é mais um filme esquecível com atuações esquecíveis, mas que, para quem não liga tanto para a história, pode até ser divertido. A tecnologia de construção de Smith jovem, por mais que falhe em uma ou outra cena, é muito bem utilizada. Mais um lançamento incapaz de empolgar, no qual nem o próprio elenco parece investido nisso.

Music

Plebe Rude + Relespública – ao vivo

Uma noite entre mods e punks com carreiras longevas, repertórios matadores e muita fúria em forma de rock’n’roll

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Plebe Rude

Texto por Getulio Guerra
Fotos: Murilo Ribeiro

Jokers Pub, noite de sábado, 8 de junho de 2019. Casa cheia pra ver dois dinossauros da cena roqueira nacional no bar mais tradicional do rock curitibano. DJ Ronypek era um dos fanzineiros responsáveis pelo Ordem & Protesto – o fanzine mais foda da cidade, distribuído mundo afora nos anos 1980. Entre um IPA e um APA, a discotecagem já antevia a vibe da noite com “Festa Punk”, dos Replicantes (“Quero uma festa com os Kennedys / Eles é que sabem o que é hardcore / Depois pra resfriar, pra afastar os junkies/ Poguear um monte ouvindo Circle Jerks”)

Sobe ao palco a primeira banda da noite. A Relespública com o trio clássico é matadora! Não consigo pensar em outra formação que não seja Moon-Fábio-Ricardo fazendo aquele som… A banda curitibana tem hits, mesmo que no underground e o anexo todo do Jokers socado, inclusive os camarotes, e cantando junto com Fábio Elias – em sua melhor forma possível, mental-física-espiritualmente. Ele conta que abrir para a Plebe no Jokers já era um sonho antigo, da banda e do Sandro – o dono da porra toda da conceituada casa. Fabio brinca que sua guita não está afinando talvez por causa do frio. Diz que quando foi comprar na loja ela afinava mas ali no palco, não. Oferece a cover “I Cant Explain”, do Who, a Serguei e Andre Matos, ambos falecidos horas antes desse show.

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Relespública

A Plebe Rude é uma banda que tem uma egrégora que é muito foda! Era “só” a predileta do Renato Russo em Brasília. E isso é uma baita responsa, pra vida inteira. O André e o Phillipe se conhecem e tocam juntos há muito tempo, desde a fundação da banda em 1981. E lá se vão quase 40 anos de estrada… A leveza da relação, o respeito que um tem pelo outro (que deu pra ver no recente DVD Primórdios) é bonito. E somados ao Clemente, que tem também uma presença de espírito maravilhosa, e o Capucci, que é de outra geração mas veio com discrição e precisão juntar-se aos dinossauros… Vira um quarteto e tanto.

Eu ouço os caras desde o lançamento do primeiro disco, O Concreto Já Rachou, de 1986! Aquele discurso pertinente daqueles primeiros tiros (“Proteção” e “Até Quando Esperar”) bateu forte no então jovem de 15 anos que já ouvia Inocentes (cujo bandleader é o Clemente, desde a formação da banda, também em 1981), Cólera, Garotos Podres, Replicantes, Camisa de Vênus… Tinha aquela estética e pegada pós-punk, sem tosquices nem exageros, que até hoje se mantém com integridade.

Abonico Smith – editor deste site – entrevistou os punks velhos horas antes do show, descobrindo que logo entram em estúdio pra gravar um novo disco. Será uma ópera punk com quase trinta músicas e que servirá de base para um musical. Neste disco será contada a História da humanidade. De três mil anos pra cá, desde quando o homem se tornou bípede. A ideia iniciou de uma canção inédita já há três décadas, que se chama “Evolução” e foi tirada pela Plebe da gaveta. Em breve este bate-papo estará disponível aqui no canal do Mondo Bacana no YouTube.

Mas voltemos ao show do Jokers. Phillipe fala, depois de “Um Outro Lugar”, que esta canção tem 30 anos e ele não pensava que teria de ficar cantando ela hoje. Não imaginava que teríamos um presidente que ficaria fazendo gracinhas em relação à cor das pessoas, à cultura quilombola e a outras coisas. A base do set list fica nos dois históricos primeiros discos, mas ainda dá espaço a novidades e faixas posteriormente incorporadas ao repertório da banda, como “Medo”, clássico do Cólera (“Redson não está morto!”, avisa alguém da banda).

Cortinões fechados, sem bis de nenhuma das bandas. Esse é o último concerto desta tour referente a Primórdios! Compro um botton da Plebe, carrego um pouco meu celular numa tomada do hall, pago minha ficha e pego o rumo do Xaxim. É… Alguns artistas ainda me tiram de casa.

Set list Relespública: “Boogie”, “Nós Estamos Aqui”, “Mudando os Sentidos”, “Dê Uma Chance Pro Amor”, “Nunca Mais”, “Eu Soul”, “I Can’t Explain”, “Sol em Estocolmo”, “Capaz de Tudo”, “Mod de Viola”, “In The City”, “Garoa e Solidão”, “Boatos de Bar/A Fumaça é Maior Que o Ar”,  “Camburão” e “Minha Menina”.

Set list Plebe Rude: “Voz do Brasil”, “Brasília”, “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)”, “Dança do Semáforo”, “Luzes”, “Censura”, “Um Outro Lugar”, “Anos de Luta”, “O Que Se Faz”, “Sua História”, “A Ida”, “Esse Ano”, “Bravo Mundo Novo”, “Pressão Social”, “Tá Com Nada”, “Códigos”, “Sexo & Karatê”, “Medo”, “Minha Renda”, “Proteção”, “Plebiscito”, “Disco em Moscou” e “Até Quando Esperar.