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Abe

Longa com diretor de Quebrando o Tabu e ator de Stranger Things mostra o poder de unir culturas e apaziguar conflitos pela gastronomia

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Downtown/Divulgação

Família é tudo igual, só muda de endereço, de país, de religião. Quantas ceias de Natal ou festas de aniversário já não terminaram em desavença regada a lágrimas de sour cream? Uma bela refeição temperada por temas como política e religião só pode se transformar numa terrível indigestão. Por isso, Abe (EUA/Brasil, 2019 – Downtown), longa dirigido por Fernando Grostein de Andrade (também conhecido como o irmão postiço de Luciano Huck e produtor do documentário Coração Vagabundo, sobre Caetano Veloso, e da série Quebrando o Tabu), usa o fascínio de um garoto de 12 anos pela culinária como gatilho para discutir antissemitismo, preconceito, tolerância e educação dos filhos enquanto enaltece o poder gastronômico de unir culturas e apaziguar conflitos. 

O longa foi lançado no Festival de Sundance, no ano passado, e, por causa pandemia de 2020, estreou em abril nos Estados Unidos, diretamente nas plataformas de vídeo on demand – no Brasil, chegou a ser exibido no cinema durante a Mostra de SP. Nele, Abe é interpretado pelo simpático Noah Schnapp, o Will da série teen sensação da Netflix Stranger Things. O simples fato de explicar a origem de seu nome já indica o caminho pelo qual a trama seguirá. Cada lado da família, o israelense judeu por parte de mãe e o palestino muçulmano por parte do pai (que, inclusive, é ateu), chama o menino por nomes diferentes que carregam o mesmo significado: Abrahim, Abraham e Avraim. Por isso, o apelido é o jeito mais fácil de encurtar as diferenças. 

O roteiro assinado pelos palestinos Lameece Issaq e Jacob Kader baseia-se numa premissa simples, porém eficaz, como arroz com feijão: a de que fusion cuisine, mais precisamente o falafel, serve para sustentar a união entre as pessoas e consegue levantar a discussão sobre intolerância religiosa de uma forma leve, sobretudo para o público infantojuvenil. Além disso, Grostein, que é radicado em Los Angeles, preocupa-se, nesta conexão Brasil-Estados Unidos, em imprimir dinâmica e agilidade aos seus movimentos de câmera, aproximando-se do universo frenético da internet, com cenas em que aparecem o feed do Instagram de Abe, hashtags e outros símbolos do ambiente virtual. 

O pré-adolescente, aliás, não é do tipo popular nas redes sociais e vive recebendo críticas negativas. Abe, porém, não dá muito valor pra isso. No mundo real, diante de tantas desavenças, o garoto tenta permanecer na Faixa de Gaza domiciliar e agradar aos dois lados da família, fato praticamente impossível – é preciso escolher, ser judeu ou muçulmano. Como seu hobby é cozinhar, ele procura aliviar na comida toda essa tensão que coincide com sua chegada à adolescência. Um dos momentos mais graciosos do filme é quando Abe encontra as receitas antigas da avó materna, um verdadeiro tesouro, transmitido de geração a geração, que na contemporaneidade vem perdendo sentido e valor. 

De tanto insistir em estudar gastronomia, Abe é matriculado pelos pais em um curso para aprimorar sua técnica. Quando percebe que se trata de aulas para crianças, o garoto desiste e corre até o restaurante de Chico Catuaba, o chef de cozinha brasileiro com quem Abe se encontrou pela primeira vez numa feira gastronômica no Brooklyn, bairro miscigenado de Nova York, onde a família do menino mora. 

Seu Jorge, experiente no cinema, oferece uma atuação sem sal, sobretudo quando está comandando sua cozinha formada por brasileiros que mal falam inglês (assim como a vida real), e parece bastante deslocado no papel. Na surdina, Abe começa a trabalhar de ajudante de Chico, primeiro lavando louça e descartando o lixo até colocar a mão na massa de verdade na cozinha “sincrética” de Chico, aos moldes da salada mista que o ator-cantor-compositor fez com algumas das mais clássicas canções de David Bowie para a trilha sonora do filme A Vida Marinha com Steve Zissou

No caso de Abe, porém, a trilha é o suprassumo do filme. Assinada por Gui Amabis e com supervisão de Jacques Morelenbaum, ela traz no repertório faixas de Zeca Veloso (filho do Caetano), Tulipa Ruiz, Sabotage, Carlinhos Brown, o uruguaio Jorge Drexler e clássicos da bossa nova. A ficha técnica, aliás, é um caldeirão multicultural. Além de atores americanos e brasileiros, o elenco conta com nascidos na Polônia e no Irã. Quem assina a direção de fotografia é o experiente italiano Blasco Giurato, de Cinema Paradiso.

Apesar de ter se cercado de ótimos profissionais, Abe se aproxima de um filme feito para a TV, principalmente por conta das locações reduzidas. A narrativa se desgasta ao se aproximar da metade da história. Afinal, do restaurante para casa e da casa para o restaurante não há mais nada para acontecer até o conflito do último ato, quando a família lava a roupa suja enquanto o peru está assando.

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O Dilema das Redes

Docudrama perturba ao revelar que grandes empresas de tecnologia da internet sempre manipularam o comportamento dos usuários

Texto de Maria Cecilia Zarpelon

Foto: Netflix/Divulgação

Em uma época marcada pela liberdade de opinião e em que todos acreditam ser donos de seus próprios pensamentos e ações, O Dilema das Redes (The Social Dilemma, EUA, 2020 – Netflix) vem para escancarar o quão erradas as pessoas estavam sobre isso. Dirigido por Jeff Orlowski, o documentário não é uma obra extraordinária, porém torna-se indispensável em uma era que todos passaram a acreditar apenas naquilo que lhes convém.

Não é nenhuma novidade que as redes sociais e a tecnologia impactam o modo de vida de pessoas do mundo inteiro e põem valores universais – como a democracia – em xeque. Este tema já foi tão exaustivamente debatido em reportagens e filmes que não consegue mais chocar os espectadores da forma que se esperava. Mas não é isso o que acontece em O Dilema das Redes. O que difere o longa de Orlowski de tantas outras produções é justamente o tapa na cara do espectador quando ele se depara com o fato de que todos os usuários das redes sociais – isto é, boa parte da população mundial – são apenas cobaias de um grande experimento de marketing. São apenas ratos de laboratório fazendo a grande roda do capitalismo girar.

A ideia romantizada de que as redes sociais só trouxeram benefícios e conectaram famílias distantes é, para se dizer o mínimo, um tanto ingênua. No docudrama de pouco mais de uma hora e meia, o público é apresentado aos depoimentos de grandes ex-executivos e ex-designers das maiores empresas de tecnologia do planeta como Google, YouTube, Facebook, Instagram e Pinterest e descobre que o trabalho desses homens era basicamente criar os melhores mecanismos para prever as futuras ações de cada usuário e, assim, ter assertividade quando as plataformas lançassem um anúncio publicitário. Ou seja, todas as pessoas que acreditam estarem apenas se conectando com amigos e familiares e compartilhando vídeos bacanas são, na verdade, o produto vendido em um mercado que negocia essencialmente o comportamento humano. Não parecemos tão donos de nossos próprios hábitos agora, não é mesmo? 

Se você acha que os proprietários de big tech são bonzinhos e por isso as redes sociais são espaços grátis, está redondamente enganado. Essas redes são pagas por anunciantes e por um único motivo: conhecer precisamente o comportamento de cada um. As plataformas oferecem basicamente a mudança gradual dos hábitos dos usuários, de suas crenças e até de quem são. Visivelmente, essas empresas deixaram de apenas prever as vontades dos usuários, mas passaram a ter a capacidade de criá-los. Depois dessa visão íntima e crua dos bastidores das redes, parece que não somos tão responsáveis por nossas próprias ações quanto acreditávamos. 

Alternando com os testemunhos dos ex-funcionários, o longa apresenta uma família norte-americana ficcional – bastante clichê, diga-se de passagem – que é afetada pelo uso das redes sociais. Embora a dramatização sirva para explicar para os leigos como funciona a manipulação por meio dos algoritmos, algo geralmente muito abstrato, ela é tão embaraçosa e cafona que em alguns momentos chega a ser cômica.

Além dos magnatas do Vale do Silício (a maioria de homens brancos até cerca de 35 anos), também são apresentadas as opiniões de especialistas como Soshana Zuboff, professora emérita de Harvard – que é, inclusive, uma das únicas mulheres entrevistadas. O problema é que a grande ênfase está nos milionários arrependidos que retornam do lado sombrio da força (leia-se big techs) para trazer a grande solução e salvar o mundo de um problema que eles mesmos criaram. Me poupe! No entanto, o recado do documentário é tão relevante e assustador que felizmente os defeitos e as fatídicas encenações são quase esquecíveis. 

Trazendo para os dias atuais a clássica alegoria do terror do cientista que foi longe demais com sua criatura, O Dilema das Redes consegue uma façanha difícil de ser alcançada ultimamente: assustar. Ouvir da boca dos homens que estavam por trás de toda essa tecnologia que os efeitos nefastos das redes sociais – como as notificações e o movimento de deslizar o dedo para cima – nunca foram acidentais é algo poderoso. O vício, a insegurança e a ansiedade que as redes geram não foram meros imprevistos na programação. Pelo contrário, foram metas predefinidas, arquitetadas e pensadas para conseguir o que toda e qualquer rede deseja: manipular quem somos. 

Ao se aproximar do final da narrativa, a sensação asfixiante torna-se cada vez maior. Foi criada uma realidade da qual é quase impossível sair. Porém, para além desta visão apocalíptica, o longa tenta dar alguma pontinha de esperança aos espectadores, dizendo que talvez (e só talvez) ainda seja possível mudar a realidade. Se não podemos simplesmente fingir que as redes sociais nunca existiram, então é preciso reformá-las. O Dilema das Redes é um grito em alto e bom som que emerge da cacofonia de produções sobre a nocividade tecnológica. Talvez este longa perturbador seja um despertar da consciência de que essa realidade está em toda parte e é preciso questioná-la. Caso contrário, vamos continuar vivendo dentro de uma grande ilusão na qual não somos o mágico, mas o público fascinado e cego. 

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Pulsão

Documentário procura evidenciar a influência e o poder das redes sociais na política brasileira dos últimos anos

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Reprodução

Quando Guy Debord escreveu A Sociedade do Espetáculo, que serviu de base para os acontecimentos de maio de 1968, não poderia imaginar que a internet, seus algoritmos e o mar de fake news divulgados via WhatsApp potencializariam, algumas décadas depois, sua teoria sobre a submissão alienante proporcionada pela mídia. O livro é leitura fundamental para tentar compreender o mundo moderno do pós-guerra, quando a sociedade se viu dominada pela mercantilização das relações, sejam elas sociais, políticas e econômicas. 

Seguindo ideias marxistas que flertavam com o pensamento freudiano, Debord acreditava que o espetáculo é uma forma de dominação da burguesia sobre o proletariado. Alguns desses conceitos podem ser claramente percebidos no documentário Pulsão, dirigido, produzido e escrito por Diego “Di” Florentino em parceria com Sabrina Demozzi. A missão, aqui, é traçar uma retrospectiva que permite evidenciar a influência e o poder das redes sociais nos acontecimentos políticos dos últimos anos, desde as passeatas promovidas pelo Movimento Passe Livre em 2013 (e que eram organizadas via Facebook), passando pela operação Lava-Jato, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o desfecho com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

O título do documentário, lançado diretamente no YouTube no último dia 4 de setembro, evoca a teoria freudiana das pulsões: a pulsão da morte, o thanatos, é o movimento em direção à morte, à destruição. Ou seja, entende-se pelo desenrolar da narrativa que, há sete anos, o Brasil vem sendo empurrado ladeira abaixo, depois dos casos de corrupção que provocaram o impeachment de um nome eleito pelo povo até culminar na eleição, também democrática, de um representante da extrema-direita, que desde o início de sua campanha eleitoral não escondeu sua paixão por armas de fogo e sua aversão às minorias. A eleição de Bolsonaro teria sido um tiro no pé disparado pelos brasileiros num comportamento do tipo “efeito manada”, estimulado pelas redes sociais e criação de perfis falsos e, claro, pela verdadeira elite formada por grandes grupos econômicos e midiáticos. Agora, os marqueteiros de plantão, experts em SEO, somam-se à Rede Globo no que coube até hoje, na história do país, tornar o povo massa de manobra. A mensagem é simples: não acredite em nada daquilo que você vê. Não acredite em Bonners nem em Kataguiris. 

Lançado na esteira do celebrado e premiado Democracia em Vertigem, de Petra Costa, Pulsão tem um quê de Cambridge Analytica, ao passo que mostra como o brasileiro se vê refém das redes sociais e suas fake news – além de reconstruir, passo a passo, como a sociedade abalada pelas denúncias de corrupção foi capaz de alçar ativistas políticos a políticos ativistas, elevar um juiz de primeira instância ao status de super-herói e eleger um presidente de extrema-direita. Neste ponto, a montagem de Rodrigo Baptista é extremamente eficiente ao confrontar imagens e discursos contraditórios resgatando material de arquivo de canais de tevê aberta (sobretudo Globo e TV Cultura) ou divulgado por outros canais de imprensa, além de conteúdo amador. Há uma sequência, por exemplo, em que uma jornalista elogia o fato de as passeatas serem pacíficas, enquanto a imagem mostra exatamente o oposto: um rapaz “de vermelho” sendo agredido ao atravessar a rua durante uma passeata. 

Também há o momento em que o então juiz Sergio Moro afirmava, durante uma palestra, que não tinha intenção de se envolver com a política. Outras cenas são patéticas, como a então jornalista Joice Hasselmann (ex-aliada de Bolsonaro e atualmente candidata a prefeita de São Paulo pelo PSL) bajulando Moro e, depois, tendo um ataque de histeria ao comemorar sua eleição como a deputada federal mais votada. É constrangedor!

A direção do longa-documental consegue empreender o ritmo ágil, inclusive pelo uso de recursos visuais que lembram o ambiente digital, e ainda linkar os acontecimentos de forma dinâmica durante pouco mais de uma hora. Um dos personagens principais desse doc é o celular, que se transforma em algo muito maior que um mero aparelho: uma arma de guerrilha, de disparos de informações falsas, de memes e discursos demagógicos.  

O tom didático, sobretudo por conta da narração em off de Cesinha Mattos (autor da trilha sonora), é uma das falhas. Com sua voz suave, parece que estamos diante de uma propaganda de maionese. O descuido na edição também incomoda. Ninguém lembrou-se de legendar os nomes das personalidades que aparecem no decorrer do documentário. Todo mundo sabe quem é Lula, mas nem todos são obrigados a saber quem é Marco Antônio Villa discursando com seu sotaque paulistano no microfone da rádio Jovem Pan. Também não há referência quanto à frase citada no desfecho do filme. É preciso recorrer ao “oráculo” Google para descobrir tais informações.

Outra questão é o caráter panfletário da obra, mesmo porque a ideia inicial do projeto era registrar o “Circo da Democracia”, evento ligado a entidades sindicais que reuniu em Curitiba diversas figuras políticas e acadêmicas de esquerda para debater a conjuntura política da época. Além disso, uma repórter do Intercept Brasil, veículo que publicou a série de vazamentos envolvendo Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, foi a responsável pela pesquisa ao lado de Sabrina. Mas ao contrário do que se costuma – ou costumava – aprender nas faculdades de Jornalismo, é impossível ser isento. O simples fato de eleger a sequência das imagens já se trata de um posicionamento.

Talvez se não estivéssemos num ano pandêmico, Pulsão teria outro alcance e engajamento da população. Movimentos populares se traduzem, na circunstância atual, em aglomerações nas praias, numa clara atitude displicente da população, condizente com o perfil do governante-mor brasileiro. De fato, as retóricas se confundem. O mesmo consumidor-cidadão-eleitor que acredita em fake news também parece acreditar que não será vítima de uma simples “gripezinha”. Resta saber se nessa massa sem máscara que invadiu as areias num final de semana de calor invernal estão apenas eleitores da esquerda ou direita. Para usar uma linguagem bem popular, para não dizer “dilmesca”, todos – seja lá qual lado for – são farinha do mesmo saco. Todos pagam o mesmo pato. À milanesa.