Movies

O Escândalo

História sobre os assédios sexuais que derrubaram recentemente o CEO da Fox News chega aos cinemas de forma confusa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

O escândalo Bombshell estourou em 2016, em pleno período eleitoral (quando Donald Trump chegou à presidência norte-americana), e envolveu estrelas do maior canal de TV conservador dos Estados Unidos. Nele, âncoras da Fox News, bem como diversas outras mulheres, acusaram o diretor e CEO Roger Ailes de abuso sexual. Entre elas, Gretchen Carlson e Megyn Kelly, duas das maiores apresentadoras da emissora.

Em O Escândalo (Bombshell, EUA/Canadá, 2019 – Paris Filmes), filme dirigido por Jay Roach e escrito por Charles Randolph, acompanhamos a trajetória dessas mulheres, desde o momento em que Gretchen (Nicole Kidman) entra em litígio com Ailes (John Lithgow) até o momento em que aceita o acordo judicial, que conta com um pedido de desculpas oficial da Fox. No entanto, não é Gretchen a protagonista – a história foca no conflito interno da jornalista Megyn Kelly, que demorou a se pronunciar a respeito do escândalo, mostrando também a pressão produzida dentro do quadro de funcionários da Fox News, condenando seu inicial silêncio. Ainda, há Kayla (Margot Robbie), uma jovem evangélica que acredita nos ideais do canal mas torna-se a mais recente vítima do CEO. As três “protagonistas” têm pouco tempo de tela compartilhado, suas tramas são solitárias e pouco se entrelaçam.

Este é um filme fortemente necessário, que traz luz a um caso seríssimo de assédio sexual no ambiente de trabalho, demonstrando com crueza a dinâmica opressora entre patrão e empregadas. Mais obras com a mensagem de O Escândalo devem surgir, visibilizando o comportamento deplorável de homens em posição de poder. No entanto, é uma pena que uma história tão rica e impactante tenha sido conduzida de uma maneira tão confusa como esta.

A direção de Roach, que está em seu terceiro drama, com um passado de comédias pastelão como Austin Powers, Entrando Numa Fria e Os Candidatos, é confusa e bastante inquieta. Com exposição despejada num rompante nas cenas iniciais, com quebras inconstantes da quarta parede e câmeras na mão, com muito zoom e montadas em uma justaposição estranha, O Escândalo começa num conflito de estilos radicalmente divergentes, buscando sua estética num emaranhado de ideias que, a partir do segundo ato, são abandonadas em prol de uma abordagem mais comercial. Há cenas em que a quebra da quarta parede chega a ser incômoda, por ser súbita, breve e um caso isolado – uma das personagens o faz uma única vez; outra, duas ou três; e a última não chega a tanto.

No entanto, Roach busca um hiperrealismo que, apenas na trama de Kayla, é eficaz. Grande parte do mérito é de Margot Robbie, que interpreta muito bem uma millennial de extrema direita com certas nuances – incluindo sua sexualidade. Seu texto não é dos melhores, o que cria uma personagem por vezes estereotipada, mas que se redime quando Robbie rouba a cena.

A montagem, assinada por Jon Poll, é, no máximo, eficiente. Contudo, erra a mão em momentos que quebram o ritmo do longa, com uma sensação de estranhamento terrível. A maquiagem é ótima em Charlize Theron, que também atua muito bem, porém causa um leve desconforto em Nicole Kidman, que parece um pouco imobilizada pelas próteses.

Por mais necessário que seja, o longa afasta o espectador com sua indecisão, que cria momentos desnecessários e desconfortantes, em especial o início de sua trama. Sinto que, nas mãos de outro diretor e com melhor cuidado de desenvolvimento de personagens, a fim de evitar unidimensionalidade das protagonistas e coadjuvantes, O Escândalo poderia alcançar resultados muito mais impactantes que com a equipe escalada. Uma história tão importante não deveria, de forma alguma, se tornar esquecível – e é isso que ocorre aqui.

Music

Michael Jackson

Dez curiosidades a respeito deste grande ídolo que há uma década deixa saudades entre os fãs de música pop

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Reprodução

Uma década sem Michael Jackson são dez anos privados de um dos artistas mais criativos e excêntricos da história da música pop. Não há – e dificilmente haverá – quem chegue aos pés do autor de “Billie Jean”, “Man In The Mirror”, “Beat It”, “Black Or White”, “Thriller” e tantos outros megahits.

Polêmicas à parte, o fato é que Michael cresceu artista, forçado desde muito cedo pelo pai a entrar no showbiz – o que explica boa parte de seu comportamento como adulto e perante suas doenças, como o vitiligo. Michael sempre foi um garoto com sua síndrome de Peter Pan; tanto é que batizou seu rancho de Neverland (Terra do Nunca, em português).

Nunca teve sossego esse Rei do Pop, sempre perseguido pelos olhares da mídia. Em contrapartida, era amado por milhões de fãs ao redor da Terra. O artista superlativo vendeu milhões e rendeu centenas de curiosidades. Que ele ganhou treze prêmios Grammy ou que Thriller é o álbum mais vendido do mundo até hoje todos já sabem, certo? Mas você fazia ideia que Michael não compôs “Thriller” (na verdade, o autor é o produtor Rod Temperton, o mesmo que fez outro hit seu, “Rock With You”)? Ou que seu super-herói favorito era Morfo, do X-Men?

Em busca de peculiaridades, o Mondo Bacana fez uma pesquisa a respeito do ídolo, que morreu no dia 25 de junho de 2009, de overdose acidental de medicamentos, aos 50 anos de idade. Veja só o que encontramos de muito curioso.

>> Como Michael era testemunha de Jeová, quando ele estava em turnê nunca comemorava seu aniversário. “Todo ano seu assistente tinha de lembrar todo mundo: okay, o aniversário de Michael está chegando, mas ele não celebra”, contou a chef Mani Nail em entrevista à revista People, que conheceu o astro em 1982.

>> Michael era bastante rígido com sua alimentação. Sempre magrinho porque comia pouco e dava preferência à dieta veggie. No site da revista People, uma das chef que trabalhava para ele conta que o astro ficava horas sem comer e que gostava de pizza, mas não tolerava macarrão. MJ também era guloso e adorava doces, mas detestava chocolate. O cantor era fã mesmo de comida mexicana, como enchiladas bem picantes. Também gostava de kebab de tofu grelhado com cuscuz e molho marroquino. Michael também teve uma cozinheira brasileira, chamada Remi Vale Real. Ele adorava panquecas de vegetais, crepes e arroz com feijão que a mineira fazia. Remi uma vez, disse em entrevista à imprensa, que o ídolo pop adorava melancia.

>> Que Michael foi ferido na cabeça durante uma explosão acidental enquanto participava da gravação do comercial da Pepsi, em 1984, todo mundo sabe. Mas você poderia desconfiar que, apesar de ser o garoto-propaganda da marca, ele não gostava do refrigerante?

>> Meias brancas com mocassim preto, chapéu tipo Fedora ou Borsalino e luva de lantejoulas eram a marca registrada do astro. MJ começou a usar a luva na mão direita provavelmente para esconder o vitiligo. Ele vestiu o acessório pela primeira vez no clipe de “Billie Jean”, lançado na MTV no dia 10 de março de 1983.

>> Aliás, existem N teorias sobre a identidade de Billie Jean. Todos sabem que ela era apenas uma garota, como diz a letra da canção. Mas você fazia ideia de que Michael compôs “Billie Jean” enquanto dirigia seu Rolls-Royce. Ele ficou tão compenetrado em sua criação, inclusive, que simplesmente não notou que o carro começou a pegar fogo. Esta canção, o primeiro single do álbum Thriller, já recebeu dezenas de versões em vários estilos. Entre os que a regravaram estão Chris Cornell e Caetano Veloso. “Billie Jean” também foi o primeiro videoclipe de um cantor negro a aparecer na MTV.

>> E foi cantando “Billie Jean” que Michael executou o moonwalk pela primeira vez, em rede nacional, durante a comemoração dos 25 anos da gravadora Motown, em 1983. O famoso passo, porém, não foi inventado pelo Rei do Pop, mas pelo sapateador Bill Baily na década de 1950. MJ deu seu toque de mágico e o transformou na dancinha mais imitada mundo afora.

>> Michael arrastava uma multidão de fãs enlouquecidos por onde passava. E muitos deles tentavam imitá-lo. Na França, em 1984, um alucinado matou-se porque não havia conseguido realizar uma cirurgia plástica para ficar com a cara do astro. Aliás, estima-se que o cantor tenha feito de dez a doze procedimentos em apenas dois anos. Há quem diga que isso era para ficar com o nariz do Peter Pan.

>> Além de Peter Pan, Michael era fã de Pinocchio (olha só o elemento “nariz” de novo!) e dos Três Patetas. Seus livros preferidos eram O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, e Rip Van Winkle, um conto escrito pelo americano Washington Irving em 1819. A história – baseada na obra dos irmãos Grimm – é sobre um homem que cochilou à sombra de uma árvore e dormiu durante vinte anos. Quando ele acordou, seu país não era mais colônia inglesa: em vez do Rei George III todos celebravam George Washington.

>> O cantor era apaixonado pelo Brasil e pisou pela primeira vez em solo brasileiro antes mesmo de lançar o brilhante álbum solo Off The Wall, em 1979. Cinco anos antes, ele fez cinco concertos nem nosso país (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília) com os irmãos do Jackson 5. Depois voltou em 1996, e para gravar o clipe da faixa “They Don’t Care About Us”, dirigido pelo cineasta Spike Lee. As locações escolhidas foram o Pelourinho, em Salvador, e na favela Dona Marta do Rio de Janeiro. Nessa última vinda, há relatos de que o Rei do Pop cantou durante toda a viagem de tão contente de estar voltando para o Brasil. E também que, no hotel, experimentou várias frutas tropicais.

>> Para o final, uma descoberta e tanto às gerações mais novas de fãs do cantor. A doce balada “Ben” foi lançada em single por Michael em 1972 e se engana quem acha que a letra se refere a um bichinho fofinho. Uma das faixas mais tocadas nas rádios naquele ano, ela foi gravada para os créditos finais do filme que, no Brasil, ganhou o título de Ben, O Rato Assassino. É uma história de terror que retrata a amizade entre um garoto solitário e um ratinho. Mas o camundongo, na verdade, é o líder de um bando de roedores assassinos. A canção foi escrita pelo astro teendos anos 1960, Danny Osmond, que integrava o grupo Osmonds. Ela apenas foi interpretada por Michael, que na época tinha apenas 12 anos de idade, porque Danny não teve tempo de gravá-la para o filme por estar em turnê.

Music

Aurora – ao vivo

Norueguesa leva fãs ao delírio e até celebra casamento durante segunda passagem pela capital paranaense

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Texto e foto por Abonico R. Smith

Aurora Aksnes é uma força da natureza. Já começa pelo prenome com palavra de origem latina, que, de acordo com a mitologia grega, remete à deusa que personificava o amanhecer, filha de dois titãs e irmã das divindades solar e lunar. Com 1,6 m de altura, pele alva nórdica e o cabelo naturalmente platinado com um corte long bobacompanhado de um tufo comprido de cada lado, deixado para fazer tranças casualmente, ela não para um segundo no palco. Movimenta-se de um lado para outro em coreografias que misturam o ritmo de sua música pop com passos de dança resgatados de rituais ancestrais. Tudo isso sem abalar por um segundo sequer o poderio intacto de seu gogó, agraciado com uma voz doce e suave para falar e timbre de soprano com larga extensão para alcançar várias oitavas.

O segredo para isso? Alimentação saudável, sempre com muitas frutas. E água, bastante água. Pelo menos foi o que ela entregou logo depois de começar o show do último dia 22 de maio, em Curitiba. “Só hoje já mijei nove vezes”, emendou de cara, sem qualquer constrangimento a norueguesa que não se depila e também não usa esmaltes nas unhas, ama cantar e dançar descalça e ainda faz de suas letras um belo conjunto de metáforas, sentimentos e sensações que de algum modo se referem à natureza. Composições estas que formam uma poderosa trilogia fonográfica lançada de 2016 para cá – e que montaram o repertório da atual turnê, que teve cinco datas no Brasil.

O concerto na capital paranaense foi a quarta desta cinco escalas. Enchendo a plateia da Ópera de Arame, muitos jovens entre a adolescência e os vinte e poucos anos, que preenchiam uma paleta de estilos comungando hipsters, queers, góticos suaves e uma ou outra pessoa meio perdida visualmente. No palco, pela segunda vez na cidade, Aurora agora trazia uma banda mais completa (guitarrista, dois tecladistas e baterista, mais as tradicionais bases pré-gravadas com percussões, orquestrações e mais camadas delineadas por sintetizadores) e até mesmo uns quinze minutos de uma atração de abertura – na verdade, a morena tecladista e backing vocal que a acompanha, Silja Sol, em versão mais cutee solta no palco para tocar guitarra como o único acompanhamento e conversar com a audiência sobre a origem de suas seis canções solo apresentadas de modo simples, básico e compacto.

Depois da impactante abertura com “Churchyard”, que começa a capella e embala para um arranjo bastante percussivo, o que se viu foi um festival de uníssono vindo da plateia. Fãs – maioria feminina – cantavam sem parar verso atrás de verso. Mesmo já tendo feito outros shows no país antes, Aurora parecia não acreditar no estava acontecendo. Comunicava-se firmemente com a plateia, sempre ressaltando ao microfone estar tomada por grande emoção – o que nem precisava, pois via-se de forma escancarada em seus olhos. Chegou até atender ao pedido de um cartaz mostrado por um jovem casal sentado na primeira fila, mais para a lateral do palco, e celebrou o casamento espiritual deles – claro que sob uma chuva de aplausos, urros e gritos que ecoavam por toda a arena.

Natural que os grandes hits proporcionassem maior frenesi na plateia. Como “Warrior”, “I Went To Far” e “Runaway”, do primeiro álbum (All My Demons Greeting As A Friend, de 2016). Ou faixas do EP Infections Of a Different Kind – Step 1, de 2018 e lançado apenas digitalmente, como “All Is Soft Inside”, “Forgotten Love”). Entretanto, houve ainda surpresas. Como “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, cantada em dueto por Aurora e Silja somente ao acompanhamento da guitarra de Fredrik Vogsborg (mais conhecido pelo públicoindiepelo trabalho com a banda Casiokids, formada em 2005 e com três álbuns gravados entre 2007 e 2011), mais usada como um baixo ressaltando a nota tônica. Ou ainda os singles do novo disco, o novo EP A Different Kind Of Human – Step 2, que chegará em junho apenas às plataformas de streaming e download, mas já com os respectivos clipes disponibilizados na internet. “Animal”, “The River”, “In Bottles” e, especialmente, “The Seed” tiveram recepção tão efusiva quanto os outros sucessos um pouco mais antigos.

As duas faixas programadas para o bis, ambas do EP do ano passado, fecharam a noite em grande estilo. Primeiro veio a balada “Infections”, preparando o terreno das emoções para a explosão de “Queendom”, de cunho explicitamente empoderador, que faz questão de celebrar a força feminina e um mundo mais justo diante de uma sociedade machista e patriarcal em ruínas. Ao final dela, Aurora abriu uma bandeira LGBTQIA+ e deixou em delírio a plateia. Após a saída dela, muitos não continham o choro e a excitação por estar diante de sua deusa de quase 23 anos de idade e que ainda tem um excelente futuro musical pela frente. Tudo de forma bem natural e espontânea. Mesmo fazendo música pop.

Set List: “Churchyard”, “Warrior”, “Home”, “All Is Soft Inside”, “Soft Universe”, “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, “Runaway”, “In Bottles”, “The Seed”, “It Happened Quiet”, “Animal”, “I Went Too Far”, “The River”, “Forgotten Love” e “Running With The Wolves”. Bis: “Infections Of A Different Kind” e “Queendom”.

Music

Los Hermanos

Oito motivos para não perder a nova passagem de Camelo, Amarante, Medina e Barba pela capital paranaense

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Caroline Bittencourt/Divulgação

Dez anos foi o tempo de ativa do Los Hermanos, desde a primeira aparição em festivais até o último show, feito em 2007, para a divulgação álbum 4. Foram apenas quatro discos de músicas inéditas, mas o suficiente para transformar o cenário da música popular brasileira e influenciar dezenas de bandas e artistas nacionais, que seguiram com a indisfarçável influência dos barbudos.

Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina formaram o Los Hermanos em 1997, no Rio de Janeiro, partindo de influências diversas, como marchinhas carnavalescas, bandas do underground brasileiro e do rock alternativo em voga no mundo naquela década. De toda essa mistura surgiu um som que flertou com os mais diversos ritmos, do ska (como no primeiro álbum) à bossa nova, da chanson francesa ao hardcore. Sempre com letras de amor caprichadas num português impecável.

O Los Hermanos não tardou a sentir o gosto especial do sucesso estrondoso. Tudo por causa de uma história de amor não correspondido: a canção “Anna Júlia”,  terceira faixa do álbum de estreia, que leva o nome da banda. O disco foi lançado em 1999, época em que a internet ainda engatinhava no Brasil e que para se projetar no mainstream musical ainda era preciso recorrer às grandes gravadoras e selos. Em 2005, ao atingir o ápice do sucesso, levando à lotação máxima as casas de show pelo país, a banda resolveu parar. Mas sem deixar os fãs órfãos, já que promovem reencontros esporádicos em pequenas turnês nacionais.

Depois de um hiato de quatro anos, Camelo, Amarante, Barba e Medina estão novamente tocando pelo Brasil. Essa volta traz um nuance especial, uma canção nova após 14 anos sem uma composição inédita. “Corre, Corre” segue no estilo e com o frescor de uma banda que, no início do século, peitou os grandes e mostrou que quem manda na vida do artista é ele mesmo, é a sua arte, é a sua vontade. E antes que aconteça o próximo recesso, o Mondo Bacana dá oito motivos para não perder o show desses barbudos grisalhos que já têm mais de duas décadas de história e passam por Curitiba no próximo dia 10 de maio.

O primeiro fenômeno da internet no Brasil

Antes mesmo de existirem redes sociais populares no país e plataformas de divulgação musical, como MySpace (2003), Orkut (2004) e YouTube (2005), a banda (então formada por Camelo e Amarante nas guitarras, Bruno Medina nos teclados, Rodrigo Barba, na bateria e Patrick Laplan no baixo) acompanhou a popularização da webem terras tupiniquins e multiplicou seu público em progressão geométrica. “Ô Anna Júuuuuliaaaaa”… No finalzinho do século passado, não havia um único ser vivo neste país que não conhecesse esse refrão da balada de sonoridade sessentista. Logo depois, o álbum Bloco do Eu Sozinho (2001) tornou-se febre entre os jovens brasileiros sem tocar suas faixas na mesma rotação de “Anna Júlia” e deixou vários clássicos que, até hoje, são exaltados e cantados em uníssono por todos os fãs em todos os shows.

Aversão a “Anna Júlia”

“Anna Julia (incorporada pela atriz Mariana Ximenes no clipe “adolescente” que não saía das paradas da MTV Brasil) deixou uma marca profunda na carreira da banda. A canção passou “de mão em mão”. Todo mundo a cantou ou gravou nos mais diversos estilos populares: axé (foi a música mais tocada no carnaval de 2000), samba, forró… Até que encontrou alguém “à sua altura”. Nada mais, nada menos que um beatle. O guitarrista do quarteto fantástico de Liverpool, George Harrison, pouco antes de morrer de câncer, gravou o hit cuja versão em inglês aparece no disco do músico britânico Jim Capaldi (que era casado com uma brasileira). Além da participação do autor de “Something”, a versão contou com Paul Weller (Jam, Style Council) no backing vocal e Ian Paice (Deep Purple) na bateria. Mas a obsessão nacional por “Anna Júlia” era tamanha que chegou à exaustão. Nos shows, a plateia chegava a implorar para que os barbudos a cantassem, mas eles se mantinham relutantes em eliminar a obra do repertório. As mais pedidas sempre eram “Pierrot” e, claro, “Anna Júlia”. E todo mundo voltava para casa sonhando em ouvir a música de novo através do Los Hermanos.

Little Quail & The Mad Birds

No começo da carreira do Los Hermanos, Camelo nunca escondeu seu fascínio pela primeira banda famosa de Gabriel Thomaz (há duas décadas liderando os Autoramas). Tanto que a famosa Anna Júlia é inspirada no Little Quail & The Mad Birds: uma baladinha power pop com verniz Jovem Guarda e melodia tremendamente grudenta. Camelo era fã de carteirinha do Little Quail e acompanhava os ensaios, shows e camarim antes de chegar à fama. Já o trio brasiliense lançou três álbuns entre 1994 e 1998, tendo sido o primeiro pelo selo Banguela, aquele que descobriu os Raimundos.

Bloco do Eu Sozinho

Como superar um primeiro disco com um poderoso hit que gerou 300 mil cópias vendidas? Invertendo a ordem das coisas. Quebrando tabus. Buscando a voz interior e sendo autêntico. Experimentando. A banda rompeu com “Anna Júlia”, uniu-se ao produtor Chico Neves (Lenine, O Rappa, Paralamas do Sucesso) e se mudou para um sítio na região serrana do Rio de Janeiro. O ar bucólico parece ter trazido o sopro de criatividade de que eles precisavam. Sem pretensão qualquer de criar outro hit, o Los Hermanos começou a compor. Nessa época, o baixista Patrick Laplan se desentendeu com a banda e deu adeus à formação oficial, que estabilizou-se como um quarteto. Com o lançamento de Bloco do Eu Sozinho, a banda mostrou novamente a que veio. O segundo álbum foi lançado em 2001 e trouxe elementos nada óbvios em sonoridade, ritmo, métrica, andamento, letras. Tanto que esse clima “libertário” trouxe certa resistência por parte dos executivos da Abril Music, que não receberam muito bem o disco, já que não havia um hit radiofônico em potencial para seguir a trilha de “Anna Julia”. “Hoje, com esses lances pré-apocalíptcos de qualidade total, há na lógica comercial essa história de atender a um público supostamente sentado em cadeiras, que vai preencher um formulário e definir o que vai ser o produto. Isso é burro, porque o público é formado a partir do que você propõe”, filosofava Amarante em entrevista à Folha de S. Paulo naquele ano. Depois que veio a esse público, Bloco… transformou-se em um marco da música brasileira mesmo não tendo sido um sucesso comercial (vendeu 35 mil cópias apenas). Só que era justamente isso que a banda vislumbrava. Afinal, este era um álbum totalmente diferente do que havia sido feito até então na música nacional, sem deixar de ser eclético e ter mistura de ritmos. O disco abre com “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, que ganhou videoclipe todo filmado em plano sequência, e segue numa sequência de canções com Camelo e Amarante, com sua rouquidão suave e rebelde, fazendo revezamento nos vocais. Entre os destaque do repertório estão “A Flor” e “Sentimental” (composta por Amarante), uma das mais belas canções de amor da MPB. Uma longa turnê conseguiu manter a banda na ativa, gerando um público novo cativo e conferindo um certo ar cult ao grupo que iria perdurar até hoje.

Ventura

Desde o lançamento de Bloco do Eu Sozinho, a idolatria continuou a crescer em progressão geométrica. Basta lembrar os shows em Curitiba. Para lançar o álbum de estreia, Los Hermanos se apresentou no então Coração Melão (mesmo local que depois viria a se chamar Forum, Master Hall e, atualmente, Live Curitiba) e nem “Anna Júlia” conseguiu lotar o salão.  Com Bloco…, faziam shows para menos de mil pessoas, como quando se apresentaram nos também extintos bares Era Só o Que Faltava e Cine. Mas foi com o lançamento de Ventura, em 2003, que a banda explodiu de vez. O terceiro álbum de estúdio, produzido por Kassin, é considerado por muitos o principal de toda a carreira. Impecável do início ao fim, o álbum foi eleito como o melhor de todos os tempos num concurso promovido na internet. Desta vez, a banda, o produtor e o “time” dos metais se reuniram num sítio em Petrópolis, onde passaram os dias trabalhando na pré-produção. O modus operandido grupo foi registrado no documentário Além do Que Se Vê (disponibilizado no YouTube). É curioso ver a delicadeza e a sutileza de Camelo e Amarante durante o processo criativo. Quando os dois conversam sobre a faixa “Deixa o Verão Pra Mais Tarde”: “Você, quem? Verão? Verão não é você”, diz Amarante. Quando Camelo fica em dúvida se usava ou não determinada palavra na letra: “‘Dissabor’, vocês acham muito radical?”, questiona Marcelo, que se revela um dos maiores letristas da sua geração, sendo comparado a Chico Buarque. Ventura começa com “Samba a Dois” e guarda para o miolo os hits “Cara Estranho” e “O Vencedor, tocados massivamente nas rádios mais identificadas com o pop e o rock. O disco tem ainda canções que parecem hinos. Como “Conversa de Botas Batidas” e seu final apoteótico em coro, que é uma verdadeira ode ao amor (“Diz quem é maior que o amor/ Me abraça forte agora/ Que é chegada a nossa hora”).  Esse disco foi só o começo do fim. O quarto álbum de estúdio da banda, lançado em 2005, deixa explícita a diferença entre as composições de Camelo e Amarante. As letras do primeiro são mais melancólicas, mais intimistas. Já Amarante segue na linha oposta, otimista, como em “Paquetá”, “O Vento” e “Condicional”. Depois do estrondoso sucesso de Ventura, tornou-se um disco difícil de absorver, até mesmo para os fãs, que lotaram o Teatro Guaíra em sua capacidade máxima no show da turnê em Curitiba. A última faixa, “É de Lágrima”, encerrava ali a carreira de dez anos.

A música inédita

Que o Los Hermanos se reúne a cada três anos em média para rodar algumas capitais do país e reativar a marca valiosa, isso todo mundo já sabe. Mas a diferença é que agora há de fato uma música inédita no repertório depois de 14 anos. “Corre, Corre” foi composta por Marcelo Camelo e gravada no final de março. Disponível desde o primeiro dia de abril no YouTube, o áudio da canção já ultrapassou os 600 mil acessos.

Carreiras solo bem-sucedidas

Quando a banda se separou, Amarante dedicou-se à Orquestra Imperial (da qual já fazia parte no tempo do Los Hermanos) e foi passar uma temporada em Los Angeles onde acabou fixando residência. Lá, formou o trio Little Joy com o baterista do Strokes (banda da qual era fã), o brasileiro Fabrizio Moretti, e a multi-instrumentista Binki Shapiro. “Ruivo” e Moretti se tornaram parceiros e depois membros da banda de apoio de Devendra Banhart. O Little Joy lançou apenas um álbum, em 2008, com sonoridade que lembra a surf music vintage. Em 2013, Amarante lançou-se carreira solo com o álbum Cavalo. Em 2018, gravou “Tuyo”, tema da série Narcos (2015), da Netflix. Neste ano, enquanto o Los Hermanos se apresenta em turnê nacional, Amarante aproveita para fazer alguns shows intimistas com canções de sua carreira solo. Já Marcelo Camelo lançou dois álbuns solo, Sou(2008) e Toque Dela (2011) com o cultuado sexteto Hurtmold como banda de apoio. Em 2014, ele se mudou para Portugal, onde formou a Banda do Mar ao lado da cantora, esposa e mãe de sua filha Mallu Magalhães mais o percussionista lusitano Fred Ferreira. O trio produziu baladas como “Dia Clarear” e a pérola dançante “Mais Ninguém”. No ano passado, Camelo decidiu se aventurar pelo erudito e lançou um disco de música clássica com os trinta minutos de sua “Primitiva”, uma sinfonia em quatro atos.

O show no Maracanã

A apresentação em Curitiba vem na sequência da memorável apresentação no Maracanã, onde a banda realizou um sonho e tocou para mais de 42 mil pessoas. Este show do Rio de Janeiro foi transmitido ao vivo para todo o Brasil pelo canal Multishow e vai entrar para a história a banda, que estava um pouco tensa por causa do desafio e enfrentou pequenos imprevistos no decorrer do concerto, como problemas técnicos com a guitarra de Marcelo Camelo. Enquanto isso acontecia, Amarante tentava improvisar ao microfone falando com o público. Mais para o final, ele foi “pra galera”, quando cantou junto aos fãs da fila do gargarejo. O set list irretocável se mantém durante a turnê. Agora, é só esperar pela nova catarse na capital paranaense. O quarteto encerra a turnê no dia 28 de maio, em São Paulo.

Music

Kamasi Washington

Trabalhando com conceitos musicais de hoje, saxofonista segue viva a tradição de improvisos de subversão de John Coltrane e Pharoah Sanders

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Texto por Carlos Eduardo Lima (gentilmente cedido por Célula Pop)

Foto: Durimel/Divulgação

Vocês sabem, há o jazz. Sim, o estilo, das glórias do passado, de tantos mestres e tradições. De Miles Davis, John Coltrane, Cannonball Aderley, Bill Evans, gente que entrou para a História do Século 20 – e da música popular – como exploradores, esticadores de limites, fazedores de obras de arte, latu sensu. E, bem, há o jazz enquanto ideia, enquanto forma de pensar a música popular. E é neste segmento de sentido que está Kamasi Washington. Até porque, meus amigos e amigas, não dá pra reproduzir hoje, pleno Século 21, as mesmas condições que proporcionaram o surgimento do jazzdo início do parágrafo, lá por meados do século passado. E Kamasi sabe disso.

É muito fácil vermos músicos que se aplicam em reproduzir as texturas e belezuras do passado, para o deleite de um monte de pessoas que não conhecem o significado do termo “jazz”. Tudo bem, a gente não vai esperar erudição e noção de todos, ainda mais quando é preciso atenção para compreender plenamente que jazz é ir contra convenções e improvisar diante de uma estrutura opressora. Se os músicos mencionados como mestres do estilo enfrentaram todo tipo de discriminação para oferecer uma janela de expressão e liberdade para negros e pobres americanos em outros tempos, tal missão ainda está em validade e a visão de Kamasi entra exatamente aí. Seu sucesso e genialidade estão presos a estas duas interpretações – do jazz como tradição e do jazz como subversão.

Ele traz em si a herança de dois saxofonistas supremos: John Coltrane e Pharoah Sanders, não só em técnica, mas na perspectiva de soltar amarras e buscar expressões ideais. Ambos, especialmente Coltrane, abriram sua visão para atingir uma forma de comunicação com o “divino”. Algumas pessoas hão de lembrar de A Love Supreme, disco que Coltrane lançou no início de 1965, que subvertia estruturas, conceitos e abraçava novos formatos em busca de contato com … algo. É como procurar alguma coisa que não vemos, apenas sentimos e que SABEMOS que está lá. Tal movimento por parte de Coltrane, num tempo – segunda metade dos anos 1960 – em que o jazz buscava modernizar-se em face ao furacão do rock, abriu caminho para novas e geniais criações. Nesta esteira veio Pharoah Sanders, discípulo e gênio ao mesmo tempo. Discos como Elevation (1973) e Karma (1969), este último trazendo o seu maior sucesso, Creator Has A Master Plan, uma espécie de Dez Mandamentos de jazz espiritual para as gerações futuras.

Kamasi Washington entra aí. Ele é um herdeiro desta tradição, mas, como é inteligente e talentoso, sabe que precisa entendê-la no mundo de hoje, 2019. Então, ele insere estas noções na abordagem da música negra via hip hop e eletrônica, atualizando o discurso e as modalidades. Ao mesmo tempo, acrescenta suas próprias impressões, entre as quais estão uma saudável aproximação com a música pop de algumas décadas atrás e de hoje. Também há uma mistura legal de visuais afrofuturistas aqui e ali e a vontade de se inserir em uma linhagem que também comporta o afrobeat e a soul music. Nada em Kamasi parece olhar pra trás e este é um de seus charmes para estar na ordem do dia. Ele parece novo aos olhos e ouvidos de uma maioria de formadores de opinião. Sua abordagem faz remissão direta ao hip hop jazzístico de gente como A Tribe Called Quest, Guru e Digable Planets. Sua música troca os samples pelos sons ao vivo.

Seus dois álbuns são os melhores trabalhos de jazz do Século 21 até agora. The Epic, de 2015, e Heaven And Hell, do ano passado. Tudo ali é tão brilhante e magnífico que fica difícil destacar uma ou outra gravação. Aos ouvidos de gente curiosa e interessada, a experiência de estar diante de uma obra assim deve ser absolutamente transformadora e irresistível.

Agora temos a segunda chance de ver o homem ao vivo por aqui. Depois de passar por Rio e São Paulo divulgando o primeiro disco, Kamasi volta nesta semana para shows no Rio de Janeiro (23), Curitiba (24), Porto Alegre (26) e São Paulo (27) – mais informações sobre os respectivos eventos você tem clicando aqui, aqui, aqui e aqui. E este é um show que não pode ser ignorado. Poucas vezes estivemos diante de um artista em plena forma, criativa e técnica, consolidando seu nome na História. Uma lindeza. Se há um Pantera Negra além do ex-jogador de futebol Donizete, este só pode ser Kamasi Washington.