Books, Comics

José Aguiar

Autor curitibano proporciona uma rara e peculiar experiência de ler uma HQ em livro no qual faz bela declaração de amor pela sua CWB

Texto e entrevista por Abonico Smith

Fotos: Divulgação (capas e páginas) e acervo pessoal (José Aguiar)

Fazer declaração de amor a uma determinada cidade é algo comum em versos da música pop desde os primórdios do século 20. No cinema também é uma temática frequente nas últimas décadas, sobretudo na obra de realizadores mais autorais. Nos quadrinhos, a cidade pode também aparecer bastante aqui e ali, mas também entra mais como um cenário do que propriamente como um personagem de destaque nas histórias.

É justamente esse o grande diferencial de CWB, o mais recente título de José Aguiar pelo seu selo Quadrinhofilia. Lançado no final do ano passado, o livro é fruto de um projeto aprovado pela lei municipal de incentivo à cultura de Curitiba. Em suas páginas correm não só uma mas duas histórias que revelam todo o amor e o envolvimento do ilustrador e roteirista com a capital paranaense. Sob as três letrinhas do título – que compõem a sigla aérea utilizada para Curitiba – estão percepções individuais, experiências pessoais e fantasia, como ele mesmo faz questão de ressaltar no prefácio. Só que o protagonismo está exercido justamente pela cidade.

No total são duas histórias que correm em paralelo, uma lida de trás para a frente e a outra de frente para trás. Ambas com sua respectiva capa, ambas envolvendo uma maleta misteriosa. Naquela que corre em sentido tradicional ocidental, acompanhamos a aventura de um homem que sai de casa para enfrentar intempéries de todos os jeitos e tipos, sempre tendo como base a paleta de cores que vai do vermelho para o amarelo (o que passa a impressão de ser algo mais quente). No sentido inverso, como um mangá, uma mulher faz quase a mesma coisa, só que indo do vermelho ao azul (algo mais frio). Seriam um casal? O que há guardado dentro dessa mala? Estas histórias acabam por cruzar as narrativas no decorrer das páginas? E sem estabelecer aquela divisão tradicional dos quadrinhos em uma página, Aguiar troca o tradicional traço preto pelas nuances das tintas da aquarela para ressaltar um espaço povoado por lugares, ícones, símbolos, história, arte e arquitetura curitibana. Sempre de modo inusitado, inovador e, o principal, tão empolgante que põe o leitor no lugar de quem está de posse da mala. Todos estes ingredientes acabam fazendo deste caldeirão chamado CWB uma experiência única para quem é fã e admirador da arte sequencial.

O detalhe mais curioso, porém, é o fato de José Aguiar, apesar de toda a sua relação com sua cidade natal, dentro e fora da área dos quadrinhos, sofreu um golpe do destino e do acaso e não pode concluir nela esta sua obra. Pouco tempo depois de viajar para Leipzig com a família, para passar um tempo de aprimoramento como artista e educador, veio a pandemia da covid-19, o que impossibilitou qualquer chance de retorno para casa e o fez ter de terminar as artes todas em aquarela na cidade situada ao leste da Alemanha. Sequer conseguiu também estar presente no dia do lançamento de CWB em Curitiba (mais precisamente da Itiban Comic Shop, para onde foram destinados os exemplares à venda – aqui estão mais informações sobre como adquirir o livro). Até o último mês de fevereiro, aliás, ele permaneceu em território germânico diante de tantas incertezas e lockdowns promovidos de março de 2020 para cá.

Aguiar conversou com o Mondo Bacana sobre o novo trabalho, a sua Curitiba, a pandemia da covid-19 e o seu exílio involuntário ocorrido até o começo deste ano.

As duas capas/contracapas de CWB

Como surgiu a ideia de contar duas histórias diferentes e possibilitam duas leituras paralelas, nos sentidos de uma HQ tradicional e dos mangás?

Foi durante o processo de roteiro. Eu estava pensando sobre formas de narrar capazes de valorizar graficamente o espaço da cidade. Durante minha pesquisa consultei livros de imagens infantis, quadrinhos mudos, coisas que saíssem do lugar-comum em termos de narrativa. Quando percebi que o objeto livro era a cidade nas mãos do leitor, decidi situar cada protagonista num lugar diferente desse “mapa”. Assim seria possível que cada sentido de leitura marcasse um possível ponto de partida, o que permite que o livro possa ser lido tanto no sentido ocidental como oriental. Uma experiência que me desafiou muito.

Qual o significado do predomínio das cores em ambas as histórias? Uma é mais “quente”, com amarelos, laranjas e vermelhos. Outra é mais “fria”, com azuis, roxos e rosas.

As cores que ditam a paleta do livro vêm das folhas das árvores ipês que desabrocham no outono: rosa e amarelo. Por isso essas folhas estão sempre presentes. Como o projeto é algo que rompe com convenções, foi natural associar o rosa ao protagonista masculino e o amarelo a protagonista feminina. Fugir de estereótipos de gênero assim como a representação dos curitibanos brancos sem o clichê do descendente europeu sempre foram preocupações minhas. Também não queria fazer um livro de cartões-postais. Queria uma história que fosse viva de muitas formas.

O fato de ter utilizado a aquarela como técnica de desenho e colorização também influiu na questão das cores citada acima? Por que decidiu usar a aquarela?

Nos últimos anos tenho andado cansado da cor digital. É uma ferramenta incrível, porém perde na espontaneidade. A aquarela tem muito ruído e texturas que fogem ao controle e acrescentam espontaneidade no resultado final. Como CWB se trata de um trabalho mais subjetivo, acredito que não ficaria bom se fosse finalizado em outra técnica. A cada livro eu busco soluções adequadas ao conceito. Não gosto de ficar numa zona de conforto. Seja no tema, seja na forma com que executo minhas obras.

Em muitos momentos, quando postas lado a lado nas respectivas páginas de leituras, as duas histórias se cruzam em desenhos e referências. Foi fácil arquitetar isso? Houve alguma dificuldade?

Foi difícil no todo, prazeroso em cada parte. Eu precisei ilustrar já em formato livro para visualizar as viradas de página, espelhamentos, paralelos e invasões que a história proporcionava. Depois passei tudo a limpo e colori. Em resumo, fiz o livro duas vezes.

Aproveitando a pergunta anterior como foi o processo de desenho de ambas as histórias? Elas foram sendo feitas simultaneamente ou você construiu uma para depois realizar a outra?

As narrativas surgiram juntas. Minha ideia sempre foi que elas se somassem numa trama maior. O desenho veio de muita pesquisa de campo e bibliográfica. Durante mais de um ano fotografei locais que faziam parte da minha vivência na cidade. Depois fui ler a respeito deles e procurar outros ângulos para ilustrar. Quando chegou a hora de desenhar, eu já tinha um percurso mais ou menos bem traçado de quais lugares precisavam ser representados. Mas muito da trama se fechou nesse processo final.

Além da não linearidade na narrativa espacial do livro, muitas de suas páginas possuem uma não linearidade na forma de disposição dos quadrinhos, com muitas das ações de um deles interferindo no desenho de outro. Há inclusive o sumiço do espaço em branco tradicional que os separa e serve como apoio ao leitor para fazer pequenas elipses temporais no seu cérebro durante a leitura…

Sim, busquei quebrar com o máximo de convenções de leitura na busca de construções de páginas inusitadas. É um trabalho experimental. Uma oportunidade única de fazer algo que somente como autor independente seria possível. Até porque não consigo me ver convencendo um editor a investir num livro assim sem ver a obra pronta. Agora ela está aí para provocar e mostrar como são ilimitados os potenciais dos quadrinhos como linguagem e arte.

Na história do protagonista masculino há diversas referências sobre as histórias em quadrinhos de Curitiba de várias décadas. Qual foi o critério de escolha dos personagens e qual sua relação pessoal com eles?

Minha relação pessoal com a maioria deles é a de um descendente distante quando descobre um parente famoso até então desconhecido. Todos aqueles personagens antigos são, de certa forma, antepassados dos meus. Eu sou fruto de um momento histórico particular, quando o único espaço para veicular quadrinhos na cidade eram as tiras de jornal. Eles são parte de outras histórias que tornaram a minha e a de muitos outros artistas também possível. São todos personagens que representam não só suas épocas, mas a “alma” local, seja por meio de estereótipos, questionamentos ao status quo ou pelo espírito de entretenimento puro e simples presente em revistas, livros e jornais dos mais variados formatos. Esses personagens refletem um aspecto negligenciado de nossa memória cultural que é a importância da história gráfica e da imprensa local, que vem desde o século 19. Num dos textos que complementam CWB eu pincelo um pouco a respeito do contexto de cada personagem. Essas participações especiais são em grande parte fruto da pesquisa que realizei para o livro Narrativas Gráficas Curitiba – 210 Anos de Charges, Cartuns e Quadrinhos. O livro já foi impresso pela Biblioteca Pública do Paraná, mas que até o momento desta entrevista, ainda não teve lançamento por causa das limitações impostas pela pandemia da covid-19.

Como você se sentiu revistando vários de personagens seus mais de tiras e produções mais antigas, inclusive voltando a desenhar o Gralha?

Trazer o Boi, meu primeiro personagem publicado, para contracenar com a Malu, minha mais antiga ainda em atividade (o último livro dela saiu ano passado!) foi muito divertido. O Gralha é um projeto importante na minha formação pessoal. Mas ele é uma criação coletiva e que meus colegas mantêm viva. Não desenho uma HQ dele desde 2001. Então foi gratificante colocá-lo e também o Capitão Gralha na Gibiteca. Cena onde pude homenagear outros personagens locais criados dos anos 1980 até o presente.

O uso de certos personagens fantásticos, que você explica em um dos textos como sendo uma grande influência do animador Ray Harryhausen, caíram como uma luva para deixar a sua Curitiba deste livro com uma cara um tanto mais esquisita e estranha?

É uma história afetiva. Então convoquei meus afetos mais primais. Minhas fantasias mais queridas. Entre elas está o trabalho de Harryhausen, Jack Kirby, Moebius, Luis Gê, Juarez Machado… Quanto mais penso no assunto mais nomes que não citei no livro me ocorrem. É um trabalho sobre o qual ainda tenho muito o que pensar.

Páginas internas de CWB

As diversas referências gráficas de Curitiba foram desenhadas de cabeça através de memórias e lembranças ou você usou fotografias para procurar recriar tudo com o máximo de realismo possível?

Realismo é uma palavra forte. Eu diria verossimilhança, a ponto de conseguirmos reconhecer os monumentos e locais. Infelizmente não tenho memória fotográfica. Tudo que lembro e imagino é simplificado, cartunizado. Acho que é problema de pouco espaço no HD.

Em uma época como esta, quando desde o ano passado a capital paranaense sofre com a falta de chuvas e meses com rodízio de água nas residências, não teria sido mesmo uma ótima ideia ter provocado um tsunami pelas ruas do centro e do centro cívico?

Foi uma coincidência, como outras que podem trazer leituras diferentes para a obra. A escultura Maria Lata D´águaé a figura de alguém que provém a água para quem é carente desse item básico. Esculpida pro Erbo Stenzel, seu nome original é Água pro Morro. Para mim, ao deflagrar a enxurrada (ou tsunami) ela liberta os oprimidos e lava da cidade de quem a oprime. Quem leu o livro e conhece a cidade sabe contra quem a onda gigante se choca.

Em um dos dois textos que você assina no livro você fala de certas peculiaridades de comportamento e atitudes em relação a outras grandes cidades brasileiras…

Minha visão de Curitiba não é ufanista. Eu amo minha cidade mesmo sabendo de todos os seus defeitos. Reconheço nela um potencial de ser verdadeiramente mais justa, limpa e cosmopolita. Os elementos que uso na minha CWBnão deixam de ser críticas a nossa memória construída na omissão, por exemplo, do reconhecimento do papel da população negra e feminina. Creio que a metáfora adequada para CWB é a de que Curitiba deveria acreditar menos em sonhos formatados e ser ela mesma o sonho que sua população precisa.

Você também optou por não fazer histórias fechadas, com aquele final mais explícito concluindo as narrativas. Isso seria uma brecha para um possível segundo livro da “série”? Alguma vez você pensou em fazer mais livros enquanto estava produzindo este, seja com a sequência destas duas histórias ou até mesmo outras diferentes?

Essa história é um looping infinito. Não precisa continuar. É possível? Claro. Entretnto, não vejo necessidade. Se for para ramificar. que seja migrando para outra mídia, como animação, onde ela precisaria ser reimaginada. Seria um desafio mais interessante para todos. Curitiba pode ter infinitas histórias. Minha série da Malu e o livro Coisas de Adornar Paredes são ambientadas nela e completamente diferentes entre si. Outros autores locais também estão usando seu cenário, o que é muito bom. O mais importante é não ter vergonha de explorar nosso sotaque em novas ficções. Feitas sem ufanismo, sem deslumbre, mas com senso crítico e boas histórias.

Como foi concluir um livro com histórias sobre a sua memória afeitva de Curitiba justamente estando longe da cidade por causa da pandemia? Qual a porcentagem dele você produziu estando na Alemanha?

Eu cheguei com minha família na cidade de Leipzig, na região da Saxônia, em outubro de 2019. Na bagagem, as referências e primeiros estudos. Aqui concluí o roteiro e desenho. A ideia era ficarmos uma temporada, mas a covid-19 e cancelamentos de voos nos fez adiar um pouco o retorno. Minha esposa veio lecionar na Universidade de Leipzig e eu vim participar de eventos que foram cancelados pela pandemia. Antes de viajar, a ideia do distanciamento de meu lar parecia uma boa ideia para fazer CWB. Mas a pandemia deixou o processo mais doloroso, pois estávamos em isolamento e eu lá, só de corpo presente, com a mente e coração apertado no Brasil.

O que Leipzig tem que Curitiba não tem e vice-versa?

Eu acho ambas as cidades bem próximas, descontando a escala menor da Alemanha. Numa comparação bem superficial, dá para dizer que Berlim está para São Paulo e Leipzig está para Curitiba. Até no clima. Mas Leipzig tem a vantagem de um sistema de transporte muito mais integrado, inclusive com outras cidades. Curitiba tem o defeito de se achar europeia, quando deveria entender que é muito mais mista do que foi ensinada a acreditar. E Curitiba tem pinhão. Pinhão é vida! 

Como foi justamente lançar um livro sobre Curitiba sem poder estar presencialmente na cidade e fazer festas e eventos de lançamento?

Frustrante. Mas todos nós passamos por frustrações neste ano de 2020. 

De que forma você imagina Curitiba inserida no mundo pós-pandemia?Ela precisa se firmar como polo cultural alternativo e competitivo em relação ao eixo Rio-São Paulo. Durante a pandemia, um dos setores que mais sofreram, mas que mais trouxeram alento às pessoas, foi o setor cultural. Também gostaria de uma cidade que valorizasse mais os transportes alternativos e não poluentes, que fosse de fato um modelo de ideias e que não vivesse de nostalgia de realizações passadas que não dialogam com nossas necessidades presentes ou futuras. Mas isso é mais um desejo do que a imagem que projeto para o futuro próximo. Que, para mim, segue nebuloso enquanto o curitibano não aprender que é parte do Brasil.

Página dupla de CWB
Movies

Relatos do Mundo

Tom Hanks e o diretor Paul Greengrass fazem um road movie de faroeste mas não se arriscam a sair da zona de conforto hollywoodiana

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Volta e meia um cineasta decide adotar convenções de gênero historicamente estabelecidas para, em novos tempo e conjuntura, avaliar sua eficiência. Conhecido por Ultimato e Supremacia Bourne (e aquele confuso estilo de ação), Paul Greengrass embarca no trem do faroeste ao desenvolver um road movie em seus moldes em Relatos do Mundo (News Of The World, EUA/China – Netflix).

O roteiro, escrito por seu diretor, Paulette Jiles e Luke Davies (de Lion e Querido Menino), gira em torno do Capitão Kidd, um ex-militar que ganha a vida lendo os jornais de cidade em cidade, trazendo informação e divertimento às comunidades distantes e, muitas vezes, analfabetas do Texas pós-Guerra Civil. Em uma dessas viagens, Kidd (Tom Hanks) encontra uma garota perdida, Johanna (Helena Zengel, de apenas 12 anos), que embora de descendência europeia, viveu desde bebê com uma tribo Kiowa e só entende a língua indígena. Assim, o veterano sente-se moralmente impelido a levá-la de volta a sua família em uma vila alemã e, com isso, o filme se permite tomar seu tema principal: o que é uma família. 

O tema, lugar-comum na história cinematográfica, é costura eficiente para o percurso desse road movie – isto é, um filme que gira em torno de uma viagem, com a ilustração simbólica do trajeto emocional das personagens ao longo da trama. Em termos mais práticos, evitando os spoilersRelatos do Mundo utiliza o deslocamento para estreitar o relacionamento entre Kidd e Johanna. Nesse sentido, privilegiando a abordagem emocional, Greengrass opera com a paciência e a cautela necessárias, conduzindo Hanks e Zengel em sua química e respeitando o espaço de suas atuações. Contudo, ainda nessa leitura fílmica, a moralidade que permeia a premissa trabalhada é muito simplista.

Explico: os antagonistas enfrentados são muito maus, enquanto ambos os protagonistas são muito bons. Esse preto no branco, que a princípio não seria problemático, torna-se tal à medida que, no subtexto da obra, anteriormente até mesmo à questão familiar, há uma exposição antropológica complicada, que abordarei sem spoilers a seguir.

Johanna é, num primeiro momento, uma garota “selvagem”. Alheia aos costumes e a linguagem de suas contrapartes texanas, ela é animalesca e acuada. Em sua primeira aparição, os indígenas vistos à distância são sobre-humanos, quase espectros vislumbrados em meio à névoa. No entanto, assim como a visão de Kidd se desvencilha dos preconceitos da época com a população originária da região, Johanna vai sendo humanizada em comparação com seus trejeitos anteriores. 

Existe, ainda, uma rejeição natural à ideia de que a garota preferisse voltar à tribo Kiowa, em vez de ser levada a uma família cuja cultura há muito tempo perdeu. O que, a princípio, é um artifício de identificação gradual do espectador com a igualdade indígena, toma caminhos perigosos de assimilação deste povo a um outro não-humano. Contudo, Greengrass corrige o problema eminente na cena mais bonita do filme, quando subverte as relações que havia estabelecido.

Dotado de fotografia, montagem e trilha sonora perfeitamente competentes, não obstante, este é um longa-metragem que não se destaca pelo uso da linguagem como meio de amplificar o discurso. Ele é efetivo, de fato, mas não há nada particularmente bom. Dessa forma, Relatos do Mundo se coloca em uma zona de conforto hollywoodiana, em uma aparente forma de visibilizar seu elenco e angariar alguns prêmios sem se arriscar demais – tal é a tônica de muitos filmes lançados nessa época do ano.

Movies, TV

Bom Dia, Verônica

Série brasileira da Netflix prende o espectador com trama misteriosa e envolvente sobre a violência contra as mulheres

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Netflix/Divulgação

Produções que tratam de violência contra a mulher tendem a perder a mão e exagerar no conteúdo gráfico, como se o tema já não fosse pesado e chocante o bastante. Bom Dia, Verônica (Brasil, 2020 – Netflix) entra nesse mundo com muita responsabilidade e sob a muitas vezes injusta lupa colocada em produções nacionais. A série é uma adaptação do livro de mesmo nome de Ilana Casoy e Raphael Montes e conta com grandes nomes globais no elenco. 

Verônica (Tainá Müller) é uma escrivã da polícia civil com sede de justiça e empatia que a diferenciam da maioria de seus colegas. A princípio, Verô (seu apelido na série) está no encalço de um golpista em série que ataca mulheres, mas após uma aparição na TV a policial se vê em meio a uma trama misteriosa envolvendo um tenente-coronel da polícia militar, Brandão (Eduardo Moscovis), e sua esposa, Janete (Camila Morgado).

O enredo é envolvente, cheio de revelações chocantes e tensão, elementos que fazem uma boa série policial. O roteiro consegue balancear bem problemas burocráticos reais e a liberdade criativa para dar ritmo à história. Verônica é apenas uma escrivã. Seu trabalho é interno, mas sua vontade de fazer diferença a leva a quebrar algumas regras. Online é possível achar reclamações de espectadores que se incomodaram com as atitudes da policial, considerando “impossível” ela conseguir fazer tais coisas exercendo o cargo que exerce. Injusto. Séries internacionais estão a todo o momento quebrando convenções, mas ninguém reclama, por exemplo, de médicos em hospitais de ponta fazendo trabalho de enfermeiros.

O núcleo de Brandão e Janete é responsável pelos melhores momentos da série. Moscovis está impecável na pele de um misógino violento e Camila dá show como a esposa presa em um casamento extremamente tóxico. A cada episódio mais uma pequena camada da mente doentia do serial killer é revelada. Porém, não é o suficiente. Muitas perguntas ficam em aberto. Qual a relação da mãe de Brandão com suas atitudes violentas? O que é o ritual performado por sua avó? Qual a importância de pegar as meninas na rodoviária? São questões que instigam a curiosidade do público mas não são respondidas. 

Como já dito, a violência contra a mulher é um terreno perigoso em produções audiovisuais. O revenge porn é um exemplo do que não fazer. Esse subgênero do terror utiliza-se do abuso contra o corpo feminino para chocar. Isso não acontece em Bom Dia, Verônica. Existem, sim, cenas de violência, mas elas se encaixam na trama e não são exageradas ou sensacionalistas. Os diretores souberam tratar do tema de maneira respeitosa, não recorrendo à exploração da dor feminina. 

Verônica é uma personagem complexa, que carrega traumas do passado e não aceita as coisas continuarem da forma como são. Essa é uma combinação explosiva que a leva a romper protocolos e buscar meios fora do convencional para conseguir justiça. Tainá Müller é uma boa atriz e se joga de cabeça no papel. Na mesma medida que vê seu lado de investigadora cada vez mais aflorado, a protagonista vê a evolução e deterioração das relações que mantém com o marido, filhos, chefe e colegas de trabalho. O lado humano da escrivã não some em nenhum momento, justificando a série levar seu nome.

Esta é uma boa série nacional, que pode ter defeitos, mas merece reconhecimento. O nível de produção é cinematográfico, contém boas atuações e uma trama que prende o espectador. E, o melhor, Bom Dia, Verônica termina com abertura para uma segunda temporada, já confirmada pela Netflix.

Music

Kamasi Washington

Trabalhando com conceitos musicais de hoje, saxofonista segue viva a tradição de improvisos de subversão de John Coltrane e Pharoah Sanders

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Texto por Carlos Eduardo Lima (gentilmente cedido por Célula Pop)

Foto: Durimel/Divulgação

Vocês sabem, há o jazz. Sim, o estilo, das glórias do passado, de tantos mestres e tradições. De Miles Davis, John Coltrane, Cannonball Aderley, Bill Evans, gente que entrou para a História do Século 20 – e da música popular – como exploradores, esticadores de limites, fazedores de obras de arte, latu sensu. E, bem, há o jazz enquanto ideia, enquanto forma de pensar a música popular. E é neste segmento de sentido que está Kamasi Washington. Até porque, meus amigos e amigas, não dá pra reproduzir hoje, pleno Século 21, as mesmas condições que proporcionaram o surgimento do jazzdo início do parágrafo, lá por meados do século passado. E Kamasi sabe disso.

É muito fácil vermos músicos que se aplicam em reproduzir as texturas e belezuras do passado, para o deleite de um monte de pessoas que não conhecem o significado do termo “jazz”. Tudo bem, a gente não vai esperar erudição e noção de todos, ainda mais quando é preciso atenção para compreender plenamente que jazz é ir contra convenções e improvisar diante de uma estrutura opressora. Se os músicos mencionados como mestres do estilo enfrentaram todo tipo de discriminação para oferecer uma janela de expressão e liberdade para negros e pobres americanos em outros tempos, tal missão ainda está em validade e a visão de Kamasi entra exatamente aí. Seu sucesso e genialidade estão presos a estas duas interpretações – do jazz como tradição e do jazz como subversão.

Ele traz em si a herança de dois saxofonistas supremos: John Coltrane e Pharoah Sanders, não só em técnica, mas na perspectiva de soltar amarras e buscar expressões ideais. Ambos, especialmente Coltrane, abriram sua visão para atingir uma forma de comunicação com o “divino”. Algumas pessoas hão de lembrar de A Love Supreme, disco que Coltrane lançou no início de 1965, que subvertia estruturas, conceitos e abraçava novos formatos em busca de contato com … algo. É como procurar alguma coisa que não vemos, apenas sentimos e que SABEMOS que está lá. Tal movimento por parte de Coltrane, num tempo – segunda metade dos anos 1960 – em que o jazz buscava modernizar-se em face ao furacão do rock, abriu caminho para novas e geniais criações. Nesta esteira veio Pharoah Sanders, discípulo e gênio ao mesmo tempo. Discos como Elevation (1973) e Karma (1969), este último trazendo o seu maior sucesso, Creator Has A Master Plan, uma espécie de Dez Mandamentos de jazz espiritual para as gerações futuras.

Kamasi Washington entra aí. Ele é um herdeiro desta tradição, mas, como é inteligente e talentoso, sabe que precisa entendê-la no mundo de hoje, 2019. Então, ele insere estas noções na abordagem da música negra via hip hop e eletrônica, atualizando o discurso e as modalidades. Ao mesmo tempo, acrescenta suas próprias impressões, entre as quais estão uma saudável aproximação com a música pop de algumas décadas atrás e de hoje. Também há uma mistura legal de visuais afrofuturistas aqui e ali e a vontade de se inserir em uma linhagem que também comporta o afrobeat e a soul music. Nada em Kamasi parece olhar pra trás e este é um de seus charmes para estar na ordem do dia. Ele parece novo aos olhos e ouvidos de uma maioria de formadores de opinião. Sua abordagem faz remissão direta ao hip hop jazzístico de gente como A Tribe Called Quest, Guru e Digable Planets. Sua música troca os samples pelos sons ao vivo.

Seus dois álbuns são os melhores trabalhos de jazz do Século 21 até agora. The Epic, de 2015, e Heaven And Hell, do ano passado. Tudo ali é tão brilhante e magnífico que fica difícil destacar uma ou outra gravação. Aos ouvidos de gente curiosa e interessada, a experiência de estar diante de uma obra assim deve ser absolutamente transformadora e irresistível.

Agora temos a segunda chance de ver o homem ao vivo por aqui. Depois de passar por Rio e São Paulo divulgando o primeiro disco, Kamasi volta nesta semana para shows no Rio de Janeiro (23), Curitiba (24), Porto Alegre (26) e São Paulo (27) – mais informações sobre os respectivos eventos você tem clicando aqui, aqui, aqui e aqui. E este é um show que não pode ser ignorado. Poucas vezes estivemos diante de um artista em plena forma, criativa e técnica, consolidando seu nome na História. Uma lindeza. Se há um Pantera Negra além do ex-jogador de futebol Donizete, este só pode ser Kamasi Washington.

Music

Arquivo MB: Prodigy – ao vivo (2011)

Liam Howlett, Keith Flinn e Maxim Reality mostraram em Curitiba o quão rock’n’roll pode ser a música eletrônica

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: iaskara

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Inale, inale. Depois exale, exale. Você é vítima, afinal. E o Prodigy mostra que possui o veneno e também o antídoto. É assim uma apresentação ao vivo do grupo inglês que acaba de fazer a sua segunda passagem por terras brasileiras demonstrando que, após duas décadas, eles ainda têm muito o que incendiar.

O primeiro dos dois shows por aqui foi na madrugada de sexta (9 de novembro) para sábado (10), durante o evento que comemorou os dez anos da Vibe, um nightclub de música eletrônica da capital paranaense. Por falta de um local mais adequado para o show (leia-se “a Pedreira Paulo Leminski continua interditada pelo Ministério Público para eventos musicais de grande porte”), o palco para Liam Howlett, Keith Flint e Maxim Reality foi armado sob o galpão do Expotrade, um local para feiras e convenções que de vez em quando também abriga concertos. Apesar da inadequação do local para o tipo de performance (dava para ver as lâmpadas de luz fria no teto acima dos ingleses e o som estava baixo demais para a potência do trio) e do atraso de mais de uma década em relação ao auge do grupo, não teve como não se levar pela empolgação e arrastão sonoro provocado pelo set baseado no mais recente lançamento, o CD e DVD World’s On Fire, gravado ao vivo em uma grande arena londrina.

Logo de cara, Howlett e seus asseclas (os dois vocalistas mais os dois músicos de apoio – o baterista Leo Crabtree e o guitarrista Rob Holliday, que de vez em quando também segura o contrabaixo) já mostravam que não tinham vindo para dar moleza aos curitibanos. Depois da introdução, atacaram com a premiére mundial de uma música ainda inédita em disco. “A.W.O.L” é uma sigla de significado dúbio: pode ser interpratada tanto como “American Way Of Life” (estilo de vida estadunidense) como “Absent Without Official Leave” (ausente sem permissão oficial, termo criado e ainda bastante utilizado no âmbito militar). Nas mãos do Prodigy virou uma pancadaria punk, com guitarras duelando com os sintetizadores nos barulhos e nas harmonias e a bateria mais reta que um fã do Prodigy poderia ouvir de sua banda preferida. Isto é, nada dos breakbeats acelerados do hip hop, que tornaram a banda um dos estandartes do subgênero eletrônico que ficou conhecidos nos anos 1990 como big beat.

Em “A.W.O.L.”, Maxim e Keith já faziam a sua parte, pulando sem parar, ocupando todos os espaços vazios do palco e inflamando o público com berros e gritos de comando. Logo depois o jogo tornou-se ganho com o megabit “Breathe” vindo na sequência. A trinca de sucessos ainda foi complementada por “Omen” e “Poison” (um technoragga resgatado lá do início de carreira do trio e que não costuma aparecer muito nos sets da atual turnê). Pronto. Receita eficaz de como começar de maneira arrebatadora um show. A plateia estava completamente na mão, dominada por completo e sem muito tempo para respirar como Maxim manda na letra de “Breathe”.

O miolo do set foi dominado por obras mais recentes, lançadas no último álbum de estúdio (Invaders Must Die, de 2009), já lançado selo próprio do grupo. Com pegada rock bem menor e abusando dos timbres de sintetizadores e batidões perfeitos para academias de ginástica, foi o momento que mais agradou à turma do step e do spinning. Por falar nisso, enganou-se quem achou que a vinda do Prodigy a Curitiba levaria ao local o público mais rock’n’roll da cidade. Era incrível a multiplicação de marombados e piriguetes por metro quadrado, talvez a maior já vista na cidade durante este ano. Ficava até divertido ver o deslocamento de muitas destas garotas, sempre montadas na altura dos saltos e com roupas pequenas e justas para realçar seios e outras partes do corpo. O movimento das danças era completamente descoordenado da velocidade das BPMs e muitas mãos jogadas para o alto não sabiam se faziam o chifrinho do heavy metal, os dedos abertos do hang loose, as armas apontadas dos rappers ou tudo ao mesmo tempo. Teria se saído melhor quem preferisse apontar apenas o dedo médio para cima, mas, pensando bem… A atitude ROCK que sobrava no palco faltou em demasia naquela multidão pouco punk e mais sintonizada com o line up de DJs locais e estrangeiros que se estenderia até o dia clarear.

O miolo pode ter sido morno, aquecido apenas com um “Firestarter” aqui e outro “Voodoo People” ali (duas faixas dos anos 1990, a fase mais rocker do Prodigy) e uma boa versão dubsteppara “Thunder”. Contudo, o final deu uma esquentadinha com mais duas faixas extraídas de The Fat Of The Land, a obra-prima lançada pela banda em 1997). “Diesel Power” e “Smack My Bitch Up” são duas faixas com origem nos versos escritos pelo rapper Kool Keith, do grupo eightie Ultramagnetic MCs. Na última, o povo cantou em coro as duas frases que compõem a letra (“Change my pitch up/ Smack my bitch up”).

Na volta para o bis, três das quatro canções normalmente reservadas para este objetivo. Se faltou a melhor delas, “Everybody In The Place”, da época raver dos primeiros anos do Prodigy, a presença de outras duas contemporâneas (“Thier Law” e “Out Of Space” – esta, mais uma boa queda de Howlett e seu MC Reality pros lados do ragga) compensaram a barriga do set list e deram mais um gás em quem ficou até o final da performance dos dois vocalistas hiperpilhados e o cérebro musical quase sempre escondido por trás dos sintetizadores e computadores.

Set List: “Intro”, “A.W.O.L.”, “Breathe”, “Omen”, “Poison”, “Thunder (Dubstep)”, “Warrior’s Dance”, “Firestarter”, “Run With The Wolves”, “Voodoo People”, “Omen (Reprise)”, “Invaders Must Die”, “Diesel Power”, “Smack My Bitch Up”. Bis: “Take Me To The Hospital”, “Their Law”, “Out Of Space”.

>> Leia aqui a notícia sobre a morte de Keith Flint e a trajetória do Prodigy