Music

Charlie Watts

Conhecido por suas batidas precisas e a paixão paralela pelo jazz, integrante original dos Rolling Stones morreu hoje aos 80 anos

Textos por Marden Machado (Cinemarden) e Fábio Soares

Foto: Reprodução

Começo a escrever ao som de “Emotional Rescue”, minha canção favorita dos Rolling Stones, para falar sobre Charlie Watts, meu rolling stone favorito e baterista da banda de rock mais antiga do mundo ainda em atividade. A abertura dessa música, a oitava do álbum de mesmo nome, com o baixo de Bill Wyman e a batida precisa de Watts, sempre produziram em mim um efeito hipnótico.

Sei que a maioria das pessoas tem no vocalista ou no guitarrista a figura favorita de um grupo musical. Nada errado nisso. Talvez eu esteja errado. Afinal, meu beatle favorito é George Harrison. No Who é John Entwistle. No Yes, o Chris Squire. No Led Zeppelin, o John Paul Jones. A exceção que não foge à regra talvez seja Robert Fripp, guitarrista do King Crimson.

Charlie começou sua carreira tocando na Blues Incorporated, que sempre tocava no Ealing Club de Londres, que era frequentado por Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones. O trio que viria a formar os Stones convidou o baterista para integrar a banda e o resto é história.

De 1963, sua entrada oficial no grupo, até o dia de sua morte foram 58 anos de excepcionais serviços prestados ao rock’n roll. Paralelo a esse trabalho, que ele considerava o melhor do mundo, tinha uma outra banda, Charlie Watts Quintet, de jazz. O álbum Long Ago and Far Away, lançado em 1996, traz ele na capa, de terno e sobretudo, do jeito que gostaria de tocar nos Stones.

Watts foi diagnosticado com um câncer na garganta em 2004. Chegou a fazer um tratamento rádio e quimioterápico e, segundo anunciado na época, ficou curado. Recentemente, prestes a iniciar os ensaios para uma megaturnê mundial pós pandemia dos Rolling Stones, sua família anunciou que o baterista não participaria por razões médicas. O anúncio de sua morte – provavelmente ligado a esta questão de saúde – ocorreu nesta terça-feira, 24 de agosto, aos 80 anos de idade.

Vá em paz, Charlie Watts. E obrigado pelas inesquecíveis batidas, sempre rítmicas e precisas, de sua bateria. John Entwistle, George Harrison e Johnny Cash te aguardam para fazer parte de uma nova banda. (MM)

***

Rolling Stones ao vivo é sempre a mesma coisa? Sim, claro! Mas visitar a Mona Lisa no Louvre, o Guernica no Reina Sofia e o Cristo Redentor também são e ninguém questiona. Minha primeira aventura stoneana foi também o début de muitos brasileiros. A banda mais icônica da história, na praia mais icônica do planeta e de graça? Tô dentro! E lá rumei de São Paulo para o Rio em 18 de fevereiro de 2006 para aquele que seria o maior público da história desta instituição do rock. Um milhão de pessoas esperadas, um milhão de pessoas comparecidas, praia abarrotada, tudo para uma noite incrível, exceto por um detalhe.

Após o show de abertura dos Titãs, uma série de arrastões aconteceu na areia com vários espectadores lesados (eu, incluso). Mas não havia tempo para lamentações. Os Stones subiriam ao palco pontualmente às 21h30 e teríamos que assistir. Assistir? Bem, isso é um modo de dizer porque uma famigerada área VIP lotada de famosos que sequer sabiam dizer o título de três canções da banda separaram a realeza dos plebeus. Restava aos reles mortais contemplar a apresentação através de diversos telões instalados ao longo da orla. Fiquei tão longe do palco que devo ter visto o show lá no bairro de Madureira. Mas, tudo bem, eram os Stones, enfim!

Poderia discorrer agora sobre a performance de Jagger, Richards e Wood mas é sobre Charlie Watts que devemos falar tendo em vista que o lendário baterista faleceu na último dia 24 de agosto em Londres, aos 80 anos de idade. Vestindo calça clara e camiseta verde-limão, a lenda viva iniciou os trabalhos conduzindo a cozinha em “Jumpin’ Jack Flash”, “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like It)” e “You Got Me Rocking”. Nas parcas vezes em que as câmeras o focalizaram, sua frieza era de assustar. Nem parecia que exercia seu ofício diante de dois milhões de olhos. Sua postura deveria ser a mesma num esfumaçado clube em Londres.

Aceleração? Iniciou-se na então recém-lançada “Oh, No, Not You Again” com Watts mais preciso que um relógio. Sua discrição era assombrosa e ditava o ritmo de jogo. Mais parecia um piloto de automóveis sabendo exatamente o momento de acelerar e praticar o contrário.

Em “The Place Is Empty”, sob os vocais de Keith Richards, sua minimalista “cama” foi fundamental para o momento “isqueiros acesos”, fato que repetiu-se em “Happy”, ainda sob a voz do guitarrista. Mas foi em “Rough Justice” que a monstruosidade entrou em campo. Suas batidas marciais adquiriram ares de rolo compressor, que se seguiria em “Get Off Of My Cloud”, antes da catarse catapultada pela trinca “Start Me Up”, “Brown Sugar” e “(I Can’t Get No) Satisfaction”.

No fim, sabe-se lá como Me. Watts conseguiu vestir uma JAQUETA debaixo de calor senegalês do verão carioca para cumprimentar o público. Esses ingleses! Cada louco com sua mania…

Corta pra 2016. A quarta-feira de 24 de fevereiro amanheceu e permaneceu carrancuda pela maior parte do tempo. A turnê Olé, que percorreria estádios de futebol pelo mundo todo, desembarcava no Morumbi como uma itinerante atração turística. E chuva torrencial que caiu na zona sul paulistana permaneceu a encharcar o estádio até os indefectíveis acordes de “Jumpin’ Jack Flash”. O arrasa-quarteirão stoneano de abertura de shows jamais perdera seu punch ao longo dos anos servindo como contraponto à elegância de Charlie Watts. Como baterista de jazz, sabiamente conduzia seu carro alegórico de forma discreta, deixando a efusividade do palco a cargo de rebolado dos quadris de Mick Jagger e do desleixado modo da dupla Keith Richards e Ron Wood.

É inexato tentar chegar a um consenso sobre o que se passaria na cabeça de um discreto baterista como Watts em meio ao pandemônio do dia a dia de uma banda de rock. Talvez porque toda casa de baixo meretrício necessita de um porteiro sóbrio. Talvez porque toda “gaiola das loucas” necessita de seu porto seguro.

Ao final daquela apresentação encharcada, voltei para casa feliz. Havia visto os Stones pela segunda vez. Só não sabia que não haveria outra vez de contemplar Charlie Watts em ação. Ficam minha admiração e sua eterna timidez, protegida sob o alicerce de suas baquetas.

Sua elegância foi suprema para mim, num intervalo de uma década (2006-2016). Foram dez anos resumidos em um, aliás. Gracias, Mr. Watts! (FS)

Movies

A Voz Suprema do Blues

Chadwick Boseman e Viola Davis são os destaques de história centrada em estrela do blues americano das primeiras décadas do século 20

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Netflix/Divulgação

Indicado a cinco Oscar e vencedor de diversos prêmios, a maioria por suas atuações, A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom, EUA, 2020 – Netflix) retrata um ícone do blues sob uma ótica tortuosa e enfoque absoluto no elenco. Inspirado na peça de August Wilson, o roteiro de Ruben Santiago-Hudson gira em torno de Ma Rainey, estrela do blues americano dos anos 1920 e 1930 interpretada por Viola Davis. Ela é o centro gravitacional de uma tensão crescente, que faz do estúdio de gravação onde se passa maior parte do filme uma panela de pressão. Ma é uma presença autoritária, envolta por seu sobrinho Sylvester e a amante Dussie Mae e em constante choque com os executivos do estúdio e membros da banda. Entre eles, Levee (Chadwick Boseman, em atuação que deve lhe render a estatueta póstuma dos Academy Awards), um trompetista soberbo e desrespeitoso – e que, além de tudo, constantemente dá em cima de Dussie. 

A direção assinada por George C. Wolfe empresta muito do estilo teatral que inspira o roteiro. As cenas seguem uma progressão verborrágica com grandes monólogos, atos muito bem definidos e desenvolvimento em pouquíssimas locações – características que indicam constantemente que, antes de um filme, o que vemos é uma adaptação do teatro. Essa sensação permeia toda a narrativa mas não se torna um incômodo de grandes proporções.

Manter a base teatral do roteiro cria um ritmo dinâmico de exposição e presenteia o filme com seus momentos mais genuínos. A banda, brilhantemente interpretada por Colman Domingo, Glynn Turman e Michael Potts (além de Boseman), estrela as cenas mais espirituosas e divertidas do longa, que balanceiam perfeitamente a sombriedade dos arcos de Ma e Levee. Ambos têm a chance de explicar, por assim dizer, seus temperamentos egocêntricos e mesquinhos, por meio de pesados solilóquios típicos dos palcos.

Contudo, a similaridade dos personagens se dá mais no campo dos defeitos que das qualidades. Seus conflitos não imprimem fragilidades ou benesses tanto quanto deveriam, o que os torna, no fim, personagens maus. Santiago-Hudson e Wolfe não redimem seus protagonistas de suas más ações e, muito pelo contrário, acabam por sacramentar sua indigestão. 

Este é, portanto, um filme (ou peça gravada, por falta de uma adaptação inventiva que aproveite o máximo da linguagem fílmica) que apresenta seus personagens como humanos defeituosos, mas soa interessado mais no adjetivo que na humanidade. Dotado de um blues interessante, embora não o suficiente para carregá-lo, o longa é, sim, uma panela de pressão. O problema é que o prato a ser preparado demora para ficar pronto e, quando se revela, é muito aquém das expectativas geradas. Pior que um filme sempre morno é um que ora borbulha mas acaba frio.

>> A Voz Suprema do Blues concorre no dia 25 de abril ao Oscar 2021 em cinco categorias: ator, atriz, direção de arte, figurino e cabelo & maquiagem

Music

Phil Spector – Parte 2

Oito canções essenciais do genial e controverso produtor que criou o wall of sound e revolucionou a música pop do século 20

Ronettes com Phil Spector

Texto por Abonico Smith

Foto: Avery/Redferns/Reprodução

Phil Spector morreu aos 81 anos de idade no último dia 16 de janeiro em um hospital de Los Angeles de complicações ligadas à covid-19. Ele cumpria, desde 2009, pena prisional pelo assassinato da atriz Lana Clarkson, cometido seis anos antes no interior de sua mansão nos arredores da cidade de Los Angeles.  O ato de feminicídio tornu-se o ápice uma carreira polêmica envolvendo confusões pessoais e genialidade profissional.

Ele fi considerado um dos principais produtores de toda a história da música popular do século 20. Começou na atividade ainda jovem, aos 18 anos de idade, enquanto dividia seu tempo como um dos músicos e vocalistas e trio Teddy Bears. Aos 20 tornou-se o mais jovem produtor de estúdio norte-americano e proprietário de um selo fonográfico. Com menos de 25, já enfileirava sucessos radiofônicos e vários compactos no número um das paradas semanais nacionais., tornando-se uma das grande sensações do pop dos anos 1960 e um dos grandes milionários do mercado fonográfico mundial.

Sua fama maior ficou em relação à criação de uma técnica revolucionária de gravação chamada wall of sound.  Consistia na tessitura de uma rede sonora composta por diversos instrumentos executados ao mesmo tempo. Não bastasse os tradicionais do pop – como guitarra, baixo, piano, bateria – havia ainda o acréscimo de muitas opções de cordas (violinos, violas, violoncelos), sopros (trompetes, trombones, saxofones) e percussões (bongôs, marimbas, tímpanos). Isto é, ele emparelhava um acompanhamento de rock a arranjos preparados para grandes orquestras. Para dar ainda mais densidade, empilhava o número dos mesmos instrumentos harmônicos. Não era raro vê-lo chamando muitos músicos para tocar o mesmo instrumento simultaneamente, como guitarristas, pianistas, violoncelistas, violinistas, saxofonistas. Toda esta massa, até então nunca utilizada em discos, provoca um impacto no ouvido. Surpreende, instiga, chacoalha e acostumava as pessoas mais desatentas a estabelecer novos parâmetros ao levar os limites sonoros a alguns passos bem a frente do usual.

Entretanto, ao mesmo tempo que via seu sucesso multiplicar fama e patrimônio, Spector também começava a se envolver em polêmicas pessoais ligadas a um comportamento excêntrico e errático. Gostava de comprar e portar armas e andava sempre com pelo menos uma a tiracolo. Também ficou notório pelo comportamento violento diante das mulheres, neuras pessoais (a ponto de chegar a sumir por dias enquanto desenvolvia algum trabalho com algum artista) e, claro, uso pesado de drogas.

Mondo Bacana condena a violência contra a mulher e também o comportamento agressivo e de ameaças. Entretanto, há que se lembrar sempre da genialidade musical do produtor Phil Spector. Esta, sim, é a sua faceta que sempre ser sempre reverenciada e lembrada. Por conta de seu falecimento, listamos aqui oito trabalhos fonográficos essenciais do cara que deixou para a  História um grande traço revolucionário na música pop.

BEN E KING – SPANISH HARLEM (1960)

Assim que saiu dos Drifters, King confiou a uma experiente dupla de compositores e produtores que já havia trabalhado com ele nos discos do grupo vocal a estreia de sua carreira solo. Depois de escreverem dezenas de hits da década inicial do rock’n’roll (como “Hound Dog”, “Searchin’”, “Jailhouse Rock”, “Poison Ivy” e “Yakety Yak”), o letrista Jerry Leiber e o músico Mike Stoller passaram a produzir alguns discos para o selo Atco. Um ainda adolescente Phil Spector, que havia se iniciado recentemente no mundo da produção sonora e direção de um selo fonográfico, pediu para o amigo Leiber para participar de sessões de gravação como guitarrista para adquirir experiência no dia a dia dos estúdios. Não só participou de diversos álbuns (Drifters incluído) como ainda ganhou cancha suficiente para assumir pré-produções. No caso desta nova fase de Ben E King aconteceu isso. Aos vinte anos de idade, Spector compôs a canção “Spanish Harlem” e ainda pilotou as demos que viriam a dar forma aos registros oficiais do novo vocalista solo. Na criação da canção, já mostrava habilidade na métrica melódica, encaixando charmosos versos ternários (isto é, valsa) no tradicional compasso quatro por quatro da música pop. No arranjo mais cru, moldou os passos iniciais da deliciosa rumba e o irresistível riff delineado pela marimba. No disco – tanto no compacto (de dezembro de 1960) quanto no álbum (lançado no ano seguinte) – os créditos de arranjo e regência saíram para o maestro Stan Applebaum (também havia cordas e um proeminente saxofone) e a autoria da canção para Phil e Jerry (que escreveu a letra). Mas ali já dava para sentir o passo inicial do que viria a ser uma gloriosa e criativa carreira musical de Spector nas produções daquela década. Para quem gosta de curiosidades e coincidências, o trio vocal feminino Ronettes – que anos depois daria a ele o megahit “Be My Baby” e sua futura esposa, Ronnie – era oriundo da área nova-iorquina chamada de Spanish Harlem.

CRYSTALS – HE HIT ME (AND IT FELT LIKE A KISS) (1962)

Canção bastante polêmica. Para muita gente, pode soar uma glorificação da violência contra a mulher em um relacionamento sexual. Outros, no entanto, consideram um cru e cruel retrato da realidade que pode levar a música ao status de instrumento transformador da sociedade ao alertar para que casos semelhantes não ocorram mais daqui para a frente. A letra é brutal e mostra como a protagonista acaba tolerando as inadmissíveis atitudes do companheiro ciumento por se sentir emocionalmente vinculada a ele, apesar de tudo. Criada por uma dos mais badaladas duplas de compositores do conglomerado Brill Building, Gerry Goffin e Carole King, a música teve inspiração em uma história real, mais precisamente na babá do casal, que era frequentemente agredida pelo namorado. Nas mãos de Spector, o arranjo feito para a gravação do grupo vocal feminino Crystals, tudo ficou ainda mais intenso. De cara, a introdução com baixo e percussão com notas em stacatto deixa um ar de suspense até a explosão chegar no clímax do crescendo musical, com direito a destaque à orquestração e até mesmo um pequeno ensaio de solo, algo incomum em se tratando de burilações de estúdio com a marca do produtor. Por causa de seus versos, já naquela época o single enfrentou sérios problemas de divulgação em rádios e vendas em lojas. De qualquer forma, nas décadas seguintes a canção caiu no gosto de bandas alternativas que a regravaram, como Motels, Hole e Grizzly Bear.

RONETTES – BE MY BABY (1963)

Para muitos, apesar de bastante simpoes tanto nos versos quanto na progressão harmônica, esta é a canção mais perfeita de todos os tempos da música pop. Começa com uma batida simples, básica, minimalista, que foi copiada pelas décadas seguintes por gente como Jesus and Mary Chain, Manic Street Preachers, Bat For Lashes, Billy Joel, Four Seasons, Meatloaf, Camila Cabello e Taylor Swift. Spector utilizou em estúdio músicos profissionais com quem costumava realizar suas sessões em Los Angeles, entre eles poderosos backing vocals como Darlene Love, Sonny Bono e uma então desconhecida Cher. Do trio nova-iorquino Ronettes, recém-contratado pelo produtor para o elenco de sua própria gravadora Philles, apenas Ronnie, com apenas 19 anos de idade, participou, cantando os versos de puro amor juvenil (sua irmã mais velha Estelle Bennett e a prima Nedra Talley sequer pegaram o avião para cruzar o país). O wall of sound construído neste arranjo inclui castanholas e orquestração, até então algo inédito nas faixas registradas por Spector. Quem criou a música foi o casal formado por Jeff Barry e Ellie Greenwich, uma das mais famosas duplas do Brill Building (são deles outros grandes hits daquele mesmo ano, como “Da Doo Ron Ron”, “Leader Of The Pack”, “Do Wah Diddy” e “Hanky Panky”). Phil abiscoitou um quinhão desta parceria por ter sido o grande amálgama da grandiosa sonoridade no estúdio (e também o dono da bola e do campinho!).

RIGHTEOUS BROTHERS – YOU’VE LOST THAT LOVIN’ FEELIN’ (1964)

Mais um exemplo de canção pop eficiente, agora com o tema clássico da dor-de-cotovelo e a parceria “dividida” entre Spector e outro casal clássico de compositores da Brill Building, Jeff Barry e Cynthia Weil. Com a letra trazendo a clássica estrutura de revezamento entre estrofe e refrão mais uma curta ponte instrumental perto do fim (e inspirada pela sequência de acordes de “Hang On Sloopy”), a gravação comandada por Spector é mais um exemplo da grandiloquência do produtor: aqui o wall of sound traz pianos, várias guitarras, baixo e bateria junto a orquestração de cordas, bongô, xilofone, tímpanos. O destaque aqui fica para a combinação dos timbres graves do baixo-barítono Bill Medley e do tenor Bobby Hatfield, que, incrivelmente, possuem uma grande extensão vocal e chegam a arriscar arrepiantes agudos no clímax do arranjo. Foi exatamente esta capacidade de ambos que causou espanto em Spector, quando este conheceu o duo durante uma ida a San Francisco com as Ronettes e voltou com um contrato assinado com os primeiros vocalistas brancos de sua gravadora Philles. Isto fez os Righteous Brothers serem chamados de blue-eyed soul, subgênero que ganharia mais popularidade a partir dos anos 1970. Lançado em dezembro de 1964, o single alcançou o topo das paradas americanas em fevereiro, permanecendo lá por três semanas. A gravação foi escolhida pela Biblioteca do Congresso Nacional dos EUA como uma das 25 obras fonográficas de maior representatividade histórico-cultural da sociedade estadunidense e que devem ser guardadas, mantidas e preservadas para a eternidade.

IKE & TINA TURNER – RIVER DEEP – MOUNTAIN HIGH (1966)

Assim como Phil Spector, Ike Turner também era uma criatura intragável em seus relacionamentos. Quando, nos anos 1960, foi casado com a então alguns anos mais jovem Tina, mantinha a cantora em um relacionamento abusivo, inclusive com o uso de violência física e moral, impedindo-a de assinar seus trabalhos profissionais apenas com seu próprio nome, garantindo a ele não apenas royalties como poder de decisão sobre tudo referente a ela. Este single feito para a Philles foi um bom exemplo disso, no qual Ike não contribui em absolutamente nada com a gravação, cantando ou tocando. Aqui, ao lado de um time preciso de músicos da Wrecking Crew, uma jovem Tina solta seu vozeirão, já prenunciando o furacão que viria a ser pelos palcos e estúdios, sobretudo quando fosse largar de vez o escroto cafetão musical que a controlava com rédeas curtas. O arranjo cresce junto com o gogó dela. A base de fraseado jazzy e o explosivo naipe de sopros tornam tudo irresistível. Para fazer a canção, cujo titulo utiliza metáforas geográficas para demarcar a intensidade de um amor, Spector recorreu de novo a Weil e Barry, com quem – de novo também – dividiu a parceria. Só que, apesar de toda a grandiosidade da faixa, ela não cumpriu o objetivo de emplacar nas paradas. Isto não apenas afetou o contrato dos artistas com o selo – que entregou a outra gravadora não apenas o passe da dupla como ainda os próprios direitos sobre o fonograma – como ainda provocou um impacto devastador no ânimo do produtor. Arrasado pelo fracasso, ele decidiu se retirar de suas atividades e iniciar um autoexílio do mundo artístico, que viria a durar até 1969 quando entraram em cena dois integrantes da então maior banda de rock do planeta.

PLASTIC ONO BAND – INSTANT KARMA! (1970)

A relação entre os Beatles já havia azedado completamente em 1969. Paul optou por se isolar em sua fazenda no interior da Escócia e escalou o sogro para ir a seu lugar nas reuniões sobre finanças e negócios com os demais membros e o empresário Allen Klein, que representava a trinca na Apple Records. George entregava cada vez mais elas canções para o repertório dos discos e mostrava publicamente sua insatisfação por ainda continuar com o espaço reduzido no número de composições escolhidas para cada obra. John , por sua vez, tinha mais interesse em passar mais tempo com o Yoko Ono do que com McCartney, Harrison e Starr : quando não a carregava para não fazer nada no estúdio durante as gravações (contrariando uma regra interna estabelecida previamente) largava tudo e partia para pequenas aventuras solo, como ficar nu dias e dias na cama (com ela ao lado), conversando com a imprensa de vários países, em campanha pela paz mundial. Se o ano havia sido turbulento, o ápice veio em setembro, quando comunicara, em off,  aos outros três seu desejo de não fazer mais parte do grupo. Isso resultou no inicio de carreira solo, com o lançamento de três singles no segundo semestre sob a assinatura da fictícia Plastic Ono Band (isto é, um time composto por Harrson nas guitarras e direção vocal, o alugo dos tempos de Hamburgo Klaus Voorman no baixo, Billy Preston no piano e Alan White na bateria), já que cláusulas contratuais o impediam de oficializar seu adeus e fazer qualquer outro lançamento musical que carregasse seu próprio nome. Para o último destes compactos, realizou um antigo desejo: contratou Phil Spector para produzi-lo, fazendo o excêntrico genial criador do wall of sound voltar três anos depois ao que sabia fazer de melhor, pilotado uma gravação em um estúdio. Para “Instant Karma!”, Lennon deu uma orientação simples a Spector: fazer a faia soar como se tivesse sido gravada nos anos 1950 para um disco da Sun Records (gravadora americana que revelou pioneiros do rock’n’roll como Elvis Presley, Carl Perkins, Johnny Cash e Jerry Lee Lewis). Perito nos botões da mesa, Phil apostou alto nos reverbs e meteu todo mundo dentro do aquário ao mesmo tempo para tocar junto. Por isso “Instant Karma!” soou tão visceral. Cansado das pirotecnias de gravação dos Beatles, John soltou o gogó com toda a força naquele acompanhamento cru e básico dos amigos. Combinava a letra furiosa e sarcástica, que seguia o discurso give peace a chance que ele vinha fazendo ao lado de Yoko. Lennon não se sentia mais um superstar, mas alguém com a vontade de que a humanidade evoluísse valorizando o brilho de cada pessoa comum que somos todos nós. O refrão direto e poderoso (“Well we all shine on/ Like the moon and the stars and the sun”) incentivou aquele soco no estômago para o despertar de consciência. Tudo muito cru e muito rápido – tanto que o disco estava à venda nas lojas em 6 de fevereiro de 1970, apenas dez dias após a música ter sido registrada em Abbey Road. E não por acaso este single preparou o terreno que viria a ter seu êxtase no primeiro álbum solo do já ex-Beatle, produzido por Spector e lançado em 1970, no qual o inglês mergulhou fundo nos efeitos da terapia do grito primal e libertou-se, de modo ainda mais arrebatador e explosivo, dos traumas do passado, incluindo as relações com o pai e a mãe, a fé e a religião e, claro, seu recente passado com os Fab Four.

BEATLES – THE LONG AND WINDING ROAD (1970)

Oito violinos. Quatro violas. Quatro violoncelos. Três trompetes. Três trombones. Duas guitarras. Catorze vozes femininas no coro. Somando tudo chega-se a 38 músicos. Todos sob a condução do maestro londrino Richard Hewson. Estes foram os recursos utilizados por Phil Spector nos overdubs desta faixa. A sessão foi realizada um ano depois da gravação feita em janeiro de 1969 por John, Paul, George e Ringo (e mais o convidado especial Billy Preston nas teclas do piano Rhodes) para o álbum Let It Be. À esta altura, os quatro já não se entendiam mais entre eles e o ponto final era iminente. De um lado, Lennon defendia os trabalhos solo feitos ao lado de Phil, que seria convidado para produzir também aquele que viria a ser o último disco lançado pela banda (John e George acabariam por estender aparceria com ele nas gravações de seus respectivos álbuns de estreia na carreira solo). Do outro, McCartney, o autor desta canção, não hesitava em demonstrar publicamente sua desaprovação pelo uso do wall of sound. Para o baixista, o mosaico sonoro desfigurou a beleza pop dos versos compostos ao piano em sua fazenda na Escócia. Ele só sossegou quando lançou em 2009 uma segunda versão do álbum, batizada Let It Be… Naked, apagando tudo o que fora feito por Spector para a Apple Records. Alguns fãs aprovaram a versão “crua”. Outros, no entanto, não abrem mão de ouvir o trabalho original com a mão do produtor americano. 

RAMONES – DO YOU REMEMBER ROCK’N’ROLL RADIO? (1980)

Depois de passar os anos 1970 se dividindo entre uma sólida parceria com John Lennon em seus discos solo e um comportamento errático com outros artistas com quem trabalhou (entre eles o também exbeatle George Harrison em seu primeiro voo solo, o álbum triplo All Things Must pass), Phil Spector achou nos Ramones o artista ideal para se reinventar. Fã de carteirinha do grupo punk de Nova York desde os primeiro disco, Spector foi chamado pelo quarteto para comandar End Of The Century, o quarto álbum da carreira e então a obra para qual havia mais orçamento destinado às gravações. Isso permitiu a Joey, Johnny, Dee Dee e Marky mergulharem fundo no louco universo de precisão absoluta e expansão sonora do produtor. A obrigação de repetir exaustivamente tomadas e mais tomadas até obter o registro perfeito abalou as estruturas emocionais do baixista e sobretudo do guitarrista, mais adepto à brutalidade sonora dos discos anteriores e que nunca hesitou em demonstrar publicamente sua irritação, a ponto de inventar histórias de que a banda teria sido mantida como refém por Spector com suas armas até conseguir acertar o ponto exato desejado por ele. No segundo single extraído desse disco, Phil consegue a proeza de levar o punk rock ao encontro do wall of sound, a ponto de conseguir desacelerar o BPM habitual dos Ramones e adicionar instrumentos completamente estranhos ao gênero, como órgão e saxofone. Na letra da música, o autor Dee Dee faz uma lista de artistas favorito e programas de rádio de TV que costumava acompanhar durante a infância e adolescência, vividas parte nos Estados Unidos e parte na Alemanha.

>> Clique aqui para ler o texto com um breve resumo sobre a suprema importância do trabalho de Phil Spector para a história da música pop

Music

Phil Spector – Parte 1

Produtor musical que revolucionou o rock e o pop morre aos 81 anos enquanto cumpria pena de prisão por feminicídio

Texto por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop)

Foto: Michael Ochs Archives/Redferns/Reprodução

Morreu ontem, dia 16 de janeiro de 2021, o produtor musical e gênio Phil Spector. As fontes do Departamento de Correções e Reabilitação da Califórnia deram conta do falecimento pela manhã de domingo e disseram que a causa será determinada pela necropsia a ser realizada pelas autoridades do estado, mas sites como o TMZ já apontam complicações advindas da covid-19. Spector estava preso, acusado do assassinato da atriz Lana Clarkson, que foi alvejada por ele em sua mansão na madrugada de 3 de fevereiro de 2003. A condenação saiu apenas em abril de 2009.

Spector iniciou a carreira ainda quando estava no high school – o equivalente americano do nosso ensino médio – e produziu e gravou o primeiro sucesso com o grupo Teddy Bears, “To Know Him is To Love Him”. A partir daí, ele iniciou uma carreira brilhante como produtor de estúdio, criando e inventando vários efeitos e técnicas para obter novas sonoridades no estúdio, entre elas, aquela batizada de wall of sound. Isto consistia num arranjo específico de microfones e ênfase em instrumentos de harmonia, privilegiando a força de todos eles ao mesmo tempo, dando a sensação de arremessá-los nos ouvidos do público, criando a tal sensação de “emparedamento” sonoro.

Por conta disso, influenciou, produziu e gravou muitos artistas, de Righteous Brothers, Darlene Love e Ronettes a Beatles, John Lennon, George Harrison, Leonard Cohen, Tina Turner e Ramones. Sempre deixava sua marca característica nas gravações: a sensação de impacto advinda do uso dos instrumentos harmônicos, o que levava a experimentações com várias guitarras e vários pianos sendo gravados ao mesmo tempo, além do uso de orquestras e naipes de metal. Spector assinou, por exemplo, a produção de Let It Be, o último álbum lançado pelos Beatles, e sua presença divide até hoje os fãs. Muitos preferem a versão lançada nos anos 2000 como o título de Let It Be … Naked, que tira a presença dos naipes de orquestra e outros efeitos. Outros – eu incluído – preferem o original.

Brian Wilson, líder e mente brilhante dos Beach Boys, sempre se declarou fã do trabalho de Spector no estúdio, especialmente da técnica do wall of sound. Tal visão influenciou diretamente a produção de um disco-chave para a história do rock, Pet Sounds, lançado em 1966. Além disso, Wilson sempre declarou que “Be My Baby”, sucesso de 1963/1964 das Ronettes, trio vocal produzido por Spector, é a sua música preferida de todos os tempos.

Apesar de todo o sucesso e reconhecimento, Phil Spector era um homem de comportamento violento, fato notório mesmo antes das complicações penais por conta do assassinato do qual foi acusado em 2009. Ronnie Spector, ex-integrante das Ronettes e ex-esposa do produtor, sempre declarou os problemas que viveu enquanto esteve casada com ele.

Neste início de 2021 vai-se um gênio. Louco, controverso, violento. Mas um gênio.

>> Clique aqui para ler o texto sobre oito canções essenciais produzidas por Phil Spector

Music

História do Rock: Synth Pop 81 – Parte 2

Há quarenta anos começava a temporada mágica que tornou os sintetizadores tão populares quanto as guitarras na música pop britânica

Depeche Mode

Texto por Abonico Smith

Fotos: Divulgação/Reprodução

Mal havia começado e o ano de 1981 já estava predestinado a entrar para a História como a temporada em que sintetizadores e percussões eletrônicas substituiriam as guitarras e baterias no gosto dos britânicos apaixonados por música pop. E mais: a nova onda não apenas alcançariam mais altas posições das paradas da ilha, como também seriam exportadas para o mundo inteiro, em especial o sempre cobiçado mercado fonográfico norte-americano. Tudo graças à estreia, no primeiro dia de agosto, da Music Television, a emissora que transformaria os antes promocionais videoclipes em estrela principal de uma programação que viria a impactar profundamente, ao redor do mundo, os playlists das rádios e as vendagens de álbuns e singles em vinil de todas as gravadoras, das poderosas e gigantescas multinacionais ao mais despretensioso microsselo independente regional. Por causa da MTV o synth pop ganhou status de febre mundial. Marcou geração por geração desde aquela que viveu infância, adolescência e juventude e, por isso mesmo, tornando mítica a década de 1980.

Nem uma dezena de dias havia se passado naquele ano e chegou o primeiro sinal de que a temporada seria primorosa para o synth pop. Tudo porque a faixa “Vienna”, que dava título ao quarto álbum da carreira ainda não muito longa do Ultravox (e até hoje considerada por muitos fãs como a maior composição lançada pelo grupo), chegava às lojas como um single em 9 de janeiro. O pulo do gato, porém, viria no mês seguinte. “Dreaming Of Me”, primeiro compacto do Depeche Mode, apresentava o nome certo na hora certa. Descoberto pelo produtor e músico eletrônico Daniel Miller e logo contratado para a sua Mute Records, o quarteto da cidade planejada de Basildon (construída em 1948, já no Pós-Guerra, para abrigar, como uma espécie de subúrbio industrial de Londres para abrigar uma certa população flutuante da capital), o grupo caiu no gosto e nas graças do público, especialmente o adolescente, com uma canção de veia bubblegum para grudar instantaneamente e ser cantarolada ad infinitum na sequência. Formado por quatro esbeltos garotos entre 19 e 21 anos e por isso erroneamente considerado no início por boa parte da imprensa britânica como uma boy band dos sintetizadores, o DM logo emplacou outros dois hitsnas paradas no mesmo ano (“New Life” e “Just Can’t Get Enough”). Então, o álbum de estreia Speak & Spell logo pavimentou o caminho até chegar a conquista da plateia norte-americana e a banda se transformar em uma atração para grandes arenas mundiais.

Heaven 17

Entretanto, o Depeche Mode não foi a única grande revelação do synth pop no decorrer da temporada. Por causa de um belo e cinematográfico videoclipe em alta rotação na MTV, “Don’t You Want Me” levou o Human League, de Sheffield, à fama em Dare, seu terceiro álbum, gravado logo após de um racha na formação. Se o grupo ficou centrado no seu trio de vocalistas e sob o comando de Phil Oakley, que queria um direcionamento mais pop, os ex-integrantes Martyn Ware e Ian Craig Marsh, que eram os cabeças instrumentais e pilotavam os sintetizadores, formaram naquele mesmo ano o Heaven 17 para dar vazão a versos de alto teor politíco. “(We Don’t Need This) Fascist Groove Thang”, o primeiro single do projeto da dupla com um novo vocalista, bradava contra o neoliberalismo dos recentes governos da primeira-ministra Margaret Thatcher e do presidente Ronald Reagan, respectivamente no Reino Unido e nos Estados Unidos. A BBC não entendeu toda a ironia e o deboche e acabou banindo a canção de sua principal emissora de rádio para evitar problemas jurídicos. A imprensa, entretanto, adorou e colocou a faixa entre os principais lançamentos do ano, garantindo, assim, mais um clássico para a safra 1981.

Veia politizada também era a temática de Red Mecca, terceiro álbum do Cabaret Voltaire, outra formação de Sheffield. Além do neoliberalismo dos novos governos do eixo anglo-americano, também fazia parte do discurso o crescimento do teleevangelismo norte-americano e suas consequências junto à garantia domínio sociocultural dos fieis. Mesmo sem usar o formato tradicional de canções e letras dispostas em versos e estrofes, o jeito mais percussivo e ininteligível de usar a voz de Stephen Mallinder provocou ainda mais impacto junto à atordoante colagem de sons e ruídos. Mesmo distante de qualquer possibilidade de entrar nas paradas ou ganhar alta rotação na MTV e nas rádios, este disco foi muito bem recebido pela imprensa e tornou-se um grande clássico do gênero no ano.

New Order

Já a dupla Soft Cell, formada em Leeds, recorreu às lembranças de adolescente do tecladista Dave Ball, frequentador assíduo dos bailes regados a soul rhythm’n’blues que eram realizados no norte inglês, para resgatar uma obscura canção originalmente gravada em 1964 pela cantora americana Gloria Jones (que acabou decolando sua carreira do outro lado do Atlântico, chegando até a namorar o astro glam Marc Bolan, do T-Rex, no começo dos 1970). “Tainted Love”, abrilhantado pelos vocais performáticos e com verve interpretativa de Marc Almond. provou ser um tiro certeiro após o fiasco do primeiro compacto. Virou hit do verão britânico no meio do ano e ganhou ainda uma segunda versão, estendida, com o acréscimo de “Where Did Your Love Go?”, hit das Supremes que também costumava rolar nas noitadas de northern soul.

Enquanto isso, o guitarrista Bernard Sumner, cada vez mais fascinado por sintetizadores (ele chegou a construir um em casa, manualmente, para usar na gravação de algumas faixas do Joy Division) pegava o que restou da antiga banda após a morte do vocalista Ian Curtis e, sob a alcunha de New Order, mergulhava ainda mais fundo em direção à música eletrônica. Não por acaso, também em janeiro, o single inicial do novo grupo, também lançado em janeiro, resgatava “Ceremony”, canção do repertório do JD, aproximando-a da sonoridade desejada. Além deste, outros dois compactos (“Procession” e “Everything’s Gone Green”) e o primeiro álbum (Movement) foram bancados pelo selo Factory em 1981, formatando a banda para hits maiores nos dois anos seguintes, como “Temptation” e “Blue Monday” (que até hoje ostenta a condição de single 12 polegadas mais vendido de todos os tempos).

OMD

Até as suas últimas semanas aquele provava ser mesmo um ano abençoado para o synth pop. Outro “veterano” da cena, o Orchestral Manoeuvres In The Dark, da região do rio Mersey (que passava por várias cidades do Norte até chegar ao mar na região de Liverpool), consolidava sua formação centrada na dupla de fundadores Andy McCluskey e Paul Humphrey com seu terceiro álbum, Architecture + Morality, com três singles que se tornaram hits de chegar ao topo das paradas de vários países europeus (“Souvenir”, “Joan Of Arc” e “Maid Of Orleans”) e chuvas de elogios e altas cotações nas resenhas críticas da imprensa musical. Em muito ajudou também o impacto provocado pelo clipe de “Maid Of Orleans”. Apesar da aparente dificuldade da sofisticação da canção (composta em compasso 6/8, cheia de barulhos distorcidos e com reverberações mais versos que rendem homenagem à vida de Joana D’Arc, padroeira francesa, cuja morte completava 550 anos em 1981).

Se a temporada áurea abriu caminho para a grande popularidade e o êxito comercial de um segmento conceitual e underground para os dois anos seguintes, esta também tornou-se a grande maldição. Até 1983 e graças ao domínio da música visual imposto pela MTV, outros nomes também se consolidaram no gênero, como Yazoo, Eurythmics, Frankie Goes To Hollywood e Pet Shop Boys. Só que a absorção pelo mercado também acaba sendo algo extremamente cruel. A partir de 1984 vieram também artistas de outros países próximos como Suíça (Yello), Alemanha (Alphaville, Peter Schilling, Propaganda), Noruega (A-ha) e, claro, veio uma enxurrada de (boas) bandas pop com revestimento synth pop, como Thompson Twins, Talk Talk, Bronski Beat e Tears For Fears. Fórmulas e ideias bem-sucedidas passaram a ser repetidas, provocando exaustão nos ouvintes com o mais do mesmo e o desaparecimento das provocações e experimentações musicais dos anos iniciais.

Human League

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