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O Preço da Verdade

História de advogado ambientalista que luta pela regulação de produtos químicos ganha adaptação com o também ativista Mark Ruffalo

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Robert Bilott é um advogado ambientalista norte-americano que luta pela regulação de produtos químicos. O Preço da Verdade (Dark Waters, EUA, 2020 – Paris Filmes), acompanha o início a trajetória do ativista neste ramo. O suspense legalista mescla momentos de tensão e enrolação em uma história bem sucedida.

Aqui tudo começa em 1998, quando Billot (Mark Ruffalo) recebe a visita do fazendeiro Wilbur Tennant (Bill Camp) na firma em que trabalha. Desesperado, o homem pede a ajuda do advogado para descobrir de onde vêm os químicos que estão matando suas vacas. No começo hesitante, Robert acaba embarcando na guerra contra uma gigante do ramo químico.

O roteiro é baseado em um artigo do jornal New York Times chamado The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nightmare e percorre um recorte temporal de quase vinte anos. Centralizada na figura de Bilott, a sinopse promete as consequências do processo na vida pessoal do advogado, mas a abordagem é muito rasa. Anne Hathaway, escalada como a esposa de Robert, é tristemente pouco utilizada. Uma atriz já premiada com um Oscar fazer um papel tão pequeno e sem evolução soa esquisito. Em algumas cenas parece que finalmente ela terá seu grande momento, só que tudo acaba rápido, tal como começou.

Mark Ruffalo foi uma boa escolha para viver o ativista, já que fora das telas o ator também abraça a causa do meio ambiente. Sua performance, sólida, convence. Suas interações com Bill Camp rendem alguns dos melhores momentos do filme, ricos em humanidade. Robert Bilott, natural da cidade onde os químicos estão sendo despejados, precisa se reconectar com suas origens para entender a importância do caso e o fazendeiro Tennant é peça-chave nesse processo.

 O Preço da Verdade impressiona ao mostrar as consequências que a indústria química pode causar na sociedade, sem explorar dores ou tragédias. A linha temporal por vezes fica um pouco cansativa, são gastos muitos minutos em fatos repetidos enquanto descobertas novas passam na tela em segundos. Em determinado momento, cria-se a sensação de que o advogado corre risco de vida mas isso deixa de ser explorado – e a cena, então, vira algo solto no meio do filme.

A nova obra dirigida por Todd Haynes deixa qualquer um com um gosto amargo na boca ao final do créditos com a iminência de que grandes indústrias não se importam com regulações na hora de fazerem o que querem. A torcida é para que existam mais Robert Bilotts no mundo.

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Medo Profundo: O Segundo Ataque

Sequência de história de dois anos atrás chega aos cinemas com elenco desconhecido mas cheio de sobrenomes famosos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Esqueça as leis da física. Esqueça a lógica. A sequência do terror survival Medo Profundo: O Segundo Ataque (47 Meters Down: Uncaged, Reino Unido/EUA, 2019 – Paris Filmes) menospreza a capacidade intelectual do espectador mas nem por isso deixa de proporcionar alguns sustos. Rasos, por sinal. De profundo mesmo só o mar da Península de Yucatán, no México, onde se passa a aventura de quatro garotas (duas irmãs, como no primeiro filme) que decidem mergulhar para conhecer um recém-descoberto santuário maia.

O filme traz sobrenomes famosos entre as atrizes novatas. A modelo Sistine Rose Stallone faz sua estreia no cinema. E adivinha quem é o pai dela? Essa é fácil: Sisitine é a segunda filha de Sylvester, o Rambo, o Cobra, com a também modelo americana Jennifer Flavin (para ver que ela seguiu mesmo a profissão dos pais). Corinne Foxx é filha do ator e cantor Jamie Foxx. Há também a novata Brec Bassinger que, apesar do sobrenome, não é filha de Kim. No elenco também há um ator jovem chamado Khylin Rhambo, que, obviamente, não é filho do Sly. Para fechar, integram o cast John Corbett, Nia Long, Sophie Nelisse, Brianne Tju e o carioca radicado nos Estados Unidos Davi Santos.
O primeiro Medo Profundo, de 2017, também dirigido pelo inglês Johannes Roberts, entrou para a lista de mais um daqueles filmes sobre tubarão que surgiram na esteira do clássico de Steven Spielberg. O longa virou hit, apesar da premissa um tanto absurda: duas irmãs vão passar as férias num praia paradisíaca mexicana e decidem entrar numa daquelas gaiolas de mergulho usadas por turistas para ver os tubarões-brancos mais de pertinho, mas a gaiola arrebenta do barco que a sustenta e as garotas afundam em alto-mar a exatos 47 metros da superfície.

follow-up do ataque de tubarões surge dentro do mesmo contexto com as irmãs Mia (Sophie Nélisse) e Sasha (Corinne Foxx) que moram na península paradisíaca no México. O pai delas é interpretado por Corbett, o mergulhador que descobre o tal santuário do povo maia submerso. Certo final de semana, ele propõe que as filhas façam um passeio típico de turista, até como estratégia para aproximá-las (já que as duas não se bicam!) e observar os tubarões num daqueles aquários submersos. Na fila da atração, Mia acaba encontrando suas rivais da escola. Sasha e mais duas amigas convidam-na para uma aventura mais empolgante: mergulhar no cemitério subaquático.

Por um momento, o suspense nas primeiras cenas debaixo d’água gera a expectativa de que o filme trará surpresas. Porém, as decepções são grandes e várias situações não tardam a incomodar, como a voz límpida das garotas mesmo usando máscaras de mergulho e o fato de o mar parecer um piscinão já que nenhum peixe surge nos primeiros minutos. Quando você começa a se perguntar sobre onde estariam os peixes, surge a resposta através de um único exemplar de nadadeiras cego. A explicação é que o peixe evoluiu para se adaptar às profundezas, como os abissais. As garotas, porém, muito ingênuas desconheciam que ali também era habitat de tubarões, que também são cegos, mas não bobos como elas. As garotas viram iscas numa armadilha e precisam lutar contra os peixões e a falta de oxigênio.

A primeira cena de ataque, por mais previsível que seja, ainda é capaz de provocar certo susto. Como praticamente toda a trama se passa debaixo d’água, o diretor não tem para onde fugir e até consegue ser criativo em algumas sequências – como na cena em que um mergulhador é abocanhado com Roxette ao fundo. Os demais jump-scares se tornam ineficientes. Aliás, alguns chegam a provocar risos de indignação. Afinal, como ser mordido por um tubarão-branco sem ao menos ter a perna amputada?

O filme, enfim, mostra que ser filho de peixe grande não é suficiente e que as atrizes carecem de mais aulas de interpretação. Numa das sequências finais, é nítido quando Mia dá risada enquanto a irmã se esforça pra sobreviver (vamos entender que foi um riso de desespero…). Um ponto positivo é para o make à prova d’água das garotas (queria saber a marca!) e os ferimentos, que pareciam reais.

Apesar de ter no elenco herdeiras de astros de Hollywood, essa seqüência não merece mais do que três estrelas. Nem o tubarão, coitado, é tão assustador assim. Talvez se fosse em 3D escaparia de ir água abaixo.

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Divaldo – O Mensageiro da Paz

Cinebiografia do médium baiano fica à altura de sua obra ao tratar de temas como a sua atividade filantrópica, o suicídio e o que há após a morte

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Fox/Divulgação

A ideia de que o ser humano é livre para optar pelo seu futuro e tomar decisões sobre seus atos sempre foi debatida pela filosofia e religião. Há quem diga, porém, que o livre-arbítrio é inverossímil, que nosso destino já está predefinido, escrito, seja por Deus, pelos astros ou pela entidade que for. Os budistas, pelo contrário, acreditam na lei da ação e reação, o “karma”, que diz que para toda decisão há uma consequência, boa ou ruim. A doutrina espírita também segue nesta linha, de que a evolução do ser humano depende de um constante aprendizado, o qual demanda esforço diário, pessoal e interpessoal. Nosso objetivo é alcançar a tal da perfeição, outro termo bastante complexo. Por isso, algumas almas precisam reencarnar tantas vezes quantas forem preciso até que essa transcendência moral e intelectual aconteça, por meio da caridade, da tolerância, do perdão, da fraternidade, do amor ao próximo como pregava os líderes espirituais Jesus Cristo ou Mahatma Gandhi.

Um desses seres que beiram a perfeição teve sua biografia transformada em longa-metragem. Divaldo – O Mensageiro da Paz (Brasil, 2019 – Fox) é um filme que retrata um ser humano exemplar que tem se dedicado de corpo e alma a acolher o próximo. Aos 92 anos, Divaldo Pereira Franco segue em atividade na Mansão do Caminho, a obra social do centro espírita Caminho da Redenção, erguido há 67 anos em Salvador e que presta diversos serviços além de ajuda espiritual a milhares de pessoas independentemente da religião. Hoje são 600 crianças acolhidas pela entidade filantrópica.

Ao contrário do popular Chico Xavier, o nome Divaldo é conhecido apenas entre os seguidores do espiritismo, mesmo tendo proferido dezenas de palestras ao redor do mundo e vendido mais de oito milhões de livros. Por isso, estava mais que na hora da cinebiografia sobre o médium entrar para o rol dos filmes espíritas.

O diretor Clovis Mello, que assina também o roteiro, conseguiu entregar uma obra correta e à altura do médium, tirando alguns tropeços perdoáveis. O longa foi baseado no livro Divaldo Franco: a Trajetória de um dos Maiores Médiuns de Todos os Tempos, de Ana Landi, e, assim como o filme Kardec (sobre o pai do espiritismo, lançado no primeiro semestre deste ano), também deveria ser visto por adeptos de qualquer doutrina ou religião. Primeiro por tratar de temas delicados, como o suicídio (lembrado neste mês pela campanha Setembro Amarelo), e pela visão que católicos e espíritas têm sobre a morte. Outro motivo está explícito no título do longa: a mensagem de Divaldo, que abdicou de uma vida tradicional para dedicar-se à filantropia, para levar um pouco de paz e amor àqueles que sofrem de carência, financeira ou afetiva.

O filme conta a trajetória do menino, nascido em Feira de Santana, Bahia, que desde os quatro anos de idade se comunica com os mortos e, por isso, precisa a aprender a conviver com o preconceito dos incrédulos. Pela mediunidade ter se manifestado cedo, conversar com a avó morta por exemplo era tão natural quanto bater um papo com um familiar de carne e osso.

Três atores interpretam o médium: João Bravo, na infância; na mocidade, Ghilherme Lobo; e pelo recifense Bruno Garcia, na fase adulta. A história é contada de forma linear e Mello mostra a evolução do caráter de Divaldo, com sua teimosia e orgulho presentes na juventude, até a aceitação da sua vocação e a posterior conquista da serenidade.

A escolha do elenco, aliás, foi decisiva para garantir coesão à trama e alcançar a empatia do espectador, principalmente em relação ao sotaque. Os pais de Divaldo, por exemplo, são interpretados por atores de teatro baianos. A mãe, dona Ana, é Laila Garin, que conduz sua personagem com uma doçura irresistível. Caco Monteiro é Seu Francisco, o pai severo, porém capaz de absorver ao longo do tempo as diferenças do filho.

Divaldo pertencia a uma família católica e, logo no início do filme, surgem várias críticas à igreja. Numa das cenas mais cômicas, o médium, na pele de Ghilherme, vê o espírito da mãe do padre com quem está se confessando. Curioso, o religioso pergunta como sua mãe está vestida e a resposta de Divaldo o faz se libertar de suas amarras.

O longa ainda mostra como o espírita recebeu apoio de pessoas queridas, verdadeiros “pontos de luz”: dona Ana é uma delas e representa a verdadeira mãe de sangue nordestino. Do início ao fim da sua vida, concede o apoio incondicional ao filho, quando, por exemplo, ele é convidado pela médium Laura (Ana Cecília Costa) ainda na adolescência a se mudar para Salvador para estudar a doutrina e trabalhar como datilógrafo. Outro que permaneceu ao lado do médium desde jovem foi o amigo Nilson.

Em sua jornada, Divaldo recebe orientações de sua guia espiritual, Joanna de Angelis, reencarnação de Santa Clara de Assis, a quem é atribuída a maior parte das mensagens psicografadas pelo baiano. A entidade é interpretada por Regiane Alves, que logo coloca os pingos nos is a Divaldo, alertando-o sobre as dificuldades, resistência e preconceito que enfrentaria. Por mais que a doutrina espírita evoque o livre-arbítrio, o filme nos leva a entender que Divaldo já estava predestinado e que ter filhos de sangue não estaria incluso na sua missão. Ele teria filhos de coração.

O contraponto de Joanna vem na forma do espírito obsessor incorporado pelo ator Marcos Veras, que soa um tanto caricato, vestido de preto, com maquiagem pesada e fantasmagórica. A alma assombra a mente de Divaldo, sempre atiçando-o para o lado negro. Outro ponto forçado é a trilha sonora, que parece ter sido escolhida a dedo para arrancar lágrimas dos olhos dos espectador mais sensível – como na cena em que Divaldo perde a sua mãe com “Ave Maria” ao fundo.

No geral, Mello preocupou-se em enfatizar a doutrina espírita em sua essência, de uma forma leve, graciosa e com diálogos bem-humorados. Porém, as falas de Regiane Alves, principalmente, fogem desse viés e soam um tanto cansativas, em tom de sermão. Em certas cenas, a atriz chega a perder o fôlego para dar conta do texto extenso.

Entre tantos ensinamentos transmitidos por Joanna a Divaldo, um deles é determinante para acolher em nosso cotidiano tão trivial, quando encarar alguns vivos chega a ser mais aterrorizante do que topar com uma alma penada. A melhor resposta para enfrentar a intolerância é o silêncio.

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Toy Story 4

Woody, Buzz e outros brinquedos retornam em aventura com clima de nostalgia e que volta a trazer lágrimas aos olhos

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Texto por Flávio St Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Buena Vista/Divulgação

Se tem uma franquia do cinema que nunca nos decepcionou foi Toy Story. Desde que conhecemos Woody e Buzz 24 anos atrás sabemos que naqueles filmes encontraremos nosso conforto e aconchego. Suas histórias sempre consistentes foram nos apresentando novas camadas de profundidade àqueles brinquedos e novos personagens que fomos aprendendo a amar na mesma medida.

Muitos cresceram junto com Andy, acompanhando sua evolução e poucos foram os que não choraram quando ele se despediu do cowboy e do astronauta em definitivo no final do terceiro filme em 2010. Mas como o cinema atualmente vive de nostalgia, chegou a hora de, nove anos depois da despedida, nos reencontrarmos com Woody, Buzz, Jesse, Rex, Sr e Sra Cabeça de Batata e tantos outros em Toy Story 4 (EUA, 2019 – Disney/Buena Vista).

Logo de cara podemos perceber que o filme ainda vai investir na nostalgia e está ali para agradar mais aos adultos que às crianças. Ao fazer sua retrospectiva inicial, Toy Story 4 nos leva de volta a Andy e ao passado e, ao invés de resumir a história pras novas audiências, serve mais pra encher nossos olhos de lágrimas mais uma vez. Aos poucos vamos nos acostumando mas, assim como Woody, lutamos contra esta nova realidade.

Woody representa muito de nós que nos apegamos ao passado, ao confortável, e tememos arriscar o novo. Ainda somos assim e o cowboy vai nos mostrar como esta situação está longe de ser a ideal. Quando ele reencontra Bo, percebe que sua vida pode ser diferente, que pode não se resumir ao armário de uma criança. O novo personagem, Garfinho, acaba funcionando como um contraponto humorístico em um roteiro que, de outra forma, acabaria pesado demais.

E o filme não brinca em serviço quando nos leva, junto com Woody, a questionar se tudo o que vivemos e fazemos nos faz bem. Só que, assim como ele que sempre foi resistente às mudanças, nós também somos. Sentimos falta de Andy, demoramos para nos acostumar com Bonnie. E com Buzz e Jesse relegados à prateleira dos fundos.

Acima de qualquer coisa, Toy Story 4 é sobre Woody. É sobre relação com sua criança, com seu passado, com uma aventura não vivida e com o mundo exterior. Claro que como um filme infantil (que, afinal de contas, ele ainda é!), o longa tem muito humor e ação, cenas incríveis e cenários deslumbrantes. E novos personagens que acabam sendo mais irritantes que divertidos.

Garfinho, Duke Caboom, o Coelho e o Pato e Isa Risadinha não fazem mais do que ilustrar alguns momentos, enquanto quem brilha em muitas cenas é Bo, que deixa de ser uma frágil boneca de porcelana e em tempos de girl powerse torna quase uma heroína, com direito a capa e tudo.

No fim das contas, o filme consegue, mais uma vez, nos encher os olhos de lágrimas em sua despedida. Vinte e quatro anos atrás conhecemos este cowboy que, depois de muita resistência, virou melhor amigo de um astronauta. Esta dupla sempre esteve ali para nos confortar. Não é fácil se despedir dela assim.

Mais um sbin-off que uma sequência, mais um anexo que um filme propriamente necessário, Toy Story 4 faz jus à sua franquia e não nos decepciona, deixando um gosto de quero mais, de que este quarto capítulo pode muito bem ser o início de uma nova trilogia. Por que não?

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Plebe Rude + Relespública – ao vivo

Uma noite entre mods e punks com carreiras longevas, repertórios matadores e muita fúria em forma de rock’n’roll

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Plebe Rude

Texto por Getulio Guerra
Fotos: Murilo Ribeiro

Jokers Pub, noite de sábado, 8 de junho de 2019. Casa cheia pra ver dois dinossauros da cena roqueira nacional no bar mais tradicional do rock curitibano. DJ Ronypek era um dos fanzineiros responsáveis pelo Ordem & Protesto – o fanzine mais foda da cidade, distribuído mundo afora nos anos 1980. Entre um IPA e um APA, a discotecagem já antevia a vibe da noite com “Festa Punk”, dos Replicantes (“Quero uma festa com os Kennedys / Eles é que sabem o que é hardcore / Depois pra resfriar, pra afastar os junkies/ Poguear um monte ouvindo Circle Jerks”)

Sobe ao palco a primeira banda da noite. A Relespública com o trio clássico é matadora! Não consigo pensar em outra formação que não seja Moon-Fábio-Ricardo fazendo aquele som… A banda curitibana tem hits, mesmo que no underground e o anexo todo do Jokers socado, inclusive os camarotes, e cantando junto com Fábio Elias – em sua melhor forma possível, mental-física-espiritualmente. Ele conta que abrir para a Plebe no Jokers já era um sonho antigo, da banda e do Sandro – o dono da porra toda da conceituada casa. Fabio brinca que sua guita não está afinando talvez por causa do frio. Diz que quando foi comprar na loja ela afinava mas ali no palco, não. Oferece a cover “I Cant Explain”, do Who, a Serguei e Andre Matos, ambos falecidos horas antes desse show.

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Relespública

A Plebe Rude é uma banda que tem uma egrégora que é muito foda! Era “só” a predileta do Renato Russo em Brasília. E isso é uma baita responsa, pra vida inteira. O André e o Phillipe se conhecem e tocam juntos há muito tempo, desde a fundação da banda em 1981. E lá se vão quase 40 anos de estrada… A leveza da relação, o respeito que um tem pelo outro (que deu pra ver no recente DVD Primórdios) é bonito. E somados ao Clemente, que tem também uma presença de espírito maravilhosa, e o Capucci, que é de outra geração mas veio com discrição e precisão juntar-se aos dinossauros… Vira um quarteto e tanto.

Eu ouço os caras desde o lançamento do primeiro disco, O Concreto Já Rachou, de 1986! Aquele discurso pertinente daqueles primeiros tiros (“Proteção” e “Até Quando Esperar”) bateu forte no então jovem de 15 anos que já ouvia Inocentes (cujo bandleader é o Clemente, desde a formação da banda, também em 1981), Cólera, Garotos Podres, Replicantes, Camisa de Vênus… Tinha aquela estética e pegada pós-punk, sem tosquices nem exageros, que até hoje se mantém com integridade.

Abonico Smith – editor deste site – entrevistou os punks velhos horas antes do show, descobrindo que logo entram em estúdio pra gravar um novo disco. Será uma ópera punk com quase trinta músicas e que servirá de base para um musical. Neste disco será contada a História da humanidade. De três mil anos pra cá, desde quando o homem se tornou bípede. A ideia iniciou de uma canção inédita já há três décadas, que se chama “Evolução” e foi tirada pela Plebe da gaveta. Em breve este bate-papo estará disponível aqui no canal do Mondo Bacana no YouTube.

Mas voltemos ao show do Jokers. Phillipe fala, depois de “Um Outro Lugar”, que esta canção tem 30 anos e ele não pensava que teria de ficar cantando ela hoje. Não imaginava que teríamos um presidente que ficaria fazendo gracinhas em relação à cor das pessoas, à cultura quilombola e a outras coisas. A base do set list fica nos dois históricos primeiros discos, mas ainda dá espaço a novidades e faixas posteriormente incorporadas ao repertório da banda, como “Medo”, clássico do Cólera (“Redson não está morto!”, avisa alguém da banda).

Cortinões fechados, sem bis de nenhuma das bandas. Esse é o último concerto desta tour referente a Primórdios! Compro um botton da Plebe, carrego um pouco meu celular numa tomada do hall, pago minha ficha e pego o rumo do Xaxim. É… Alguns artistas ainda me tiram de casa.

Set list Relespública: “Boogie”, “Nós Estamos Aqui”, “Mudando os Sentidos”, “Dê Uma Chance Pro Amor”, “Nunca Mais”, “Eu Soul”, “I Can’t Explain”, “Sol em Estocolmo”, “Capaz de Tudo”, “Mod de Viola”, “In The City”, “Garoa e Solidão”, “Boatos de Bar/A Fumaça é Maior Que o Ar”,  “Camburão” e “Minha Menina”.

Set list Plebe Rude: “Voz do Brasil”, “Brasília”, “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)”, “Dança do Semáforo”, “Luzes”, “Censura”, “Um Outro Lugar”, “Anos de Luta”, “O Que Se Faz”, “Sua História”, “A Ida”, “Esse Ano”, “Bravo Mundo Novo”, “Pressão Social”, “Tá Com Nada”, “Códigos”, “Sexo & Karatê”, “Medo”, “Minha Renda”, “Proteção”, “Plebiscito”, “Disco em Moscou” e “Até Quando Esperar.