Music

Iron Maiden – ao vivo

Agora com um shopping center de produtos ligados à sua marca, o sexteto nunca decepciona, mesmo sem qualquer novidade no repertório

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Texto por Fábio Soares

Foto: Midiorama/Divulgação

No primeiro dia de agosto do já longínquo ano de 1992, um moleque de 16 anos se dirigia à finada cancha Palestra Itália, do Palmeiras, para o seu primeiro concerto do Iron Maiden. O show da turnê do álbum Fear Of The Dark foi espetacular! “Be Quick Or Be Dead!” foi o pontapé inicial para um inesquecível par de horas que jamais saiu da memória daquele imberbe guri.

Bem, o piá era eu e 27 anos depois novamente me dirigi a um estádio de futebol para um concerto do Maiden (agora no Morumbi, em 6 de outubro último). Se em 1992 a identidade visual do grupo restringia-se ao mascote Eddie em camisetas pretas, agora a alcunha está associada a um verdadeiro shopping center: cerveja, linguiça, jogo de videogame e de pinball, mochilas, canecas, bandanas, e (se vacilar) shampoo, condicionador, sabonete e desodorante. Com mais de quatro décadas de carreira, o Maiden há muito transpassa o simples rótulo de banda de heavy metal: é uma instituição cultural que arrasta fervorosos fiéis, sobretudo na Latino América. No Brasil, essa devoção atinge patamares de religião. Com certeza há aficionados pelo Iron em Xapuri, no Acre; nos Lençóis Maranhenses; e em Uruguaiana, no Rio Grande.

Dois dias antes, a banda já havia levado a tour Legacy Of The Beast ao Rock In Rio, com ingressos esgotados. Pouco menos de 48 horas depois, lá estava o “conglomerado” pronto a labutar novamente desta vez contando com abertura da banda Raven Age, mais um daqueles 44.856 grupos de metal melódico do qual ninguém se lembrará daqui a dois anos. Havia ali, porém, um plus: seu guitarrista, George Harris, é filho do manda-chuva (e ditador) Steve Harris, baixista do Maiden. Chato ao extremo, o som do Raven Age me proporcionou tempo suficiente para uma ida ao banheiro e uma visita à banca de merchandising do Iron para aquisição de uma camiseta.

Voltando às arquibancadas, a visão das pistas comum e premium impressionava: pouquíssimos espaços vagos no gramado comprovam que show do Iron Maiden no Brasil é certeza de lucro fácil. Um pouco antes das 20h30, um vídeo promocional do homônimo jogo eletrônico alusivo à turnê começou a rolar nos telões. Depois, uma canção incidental antecedeu a inconfundível introdução de “Aces High”, que veio acompanhada pela espetacular alegoria de um avião da segunda guerra a flanar sobre o palco. Mesmo após tanto tempo de carreira, o sexteto de ferro que possui quase quatro séculos de idade com seus integrantes somados impressionava pela disposição no palco.

Mas devemos isso a um fator preponderante: Steve Harris, Dave Murray, Nicko McBrain, Adrian Smith e Janick Gers não seriam ninguém sem o carisma, energia e voz de Bruce Dickinson. Quando o vi em 1992, ele tinha joviais 34 anos e nada mais natural que corresse pelo palco como os diabos. Mas neste domingo de 2019, Bruce me deixou de boca aberta: aos 61, não para um só segundo e alcança inimagináveis agudos mesmo tendo enfrentado um câncer nas cordas vocais recentemente. A belíssima “The Clansman”, pinçada do obscuro Virtual XI (de 1998, que trazia os vocais do HORROROSO Blaze Bayley, substituto de Bruce por sete anos), trouxe ares de catedral ao Morumbi com hipnotizantes oito  minutos de duração. Preparação de terreno para o que viria a seguir: “The Trooper” é o arrasa-quarteirão que toda banda gostaria de ter. Nela, brilharam os solos do multi-homem Adrian Smith, um dos maiores da história quando o assunto é heavy metal. Em “Trooper”, o mascote Eddie surgiu no palco como um metaleiro boneco de Olinda. Alvejado pelo vocalista com um pseudodisparo, deixou o recinto não sem antes ouvir Bruce dizer “See you later, Eddie!”

Em “The Wicker Man”, Dickinson regeu seus súditos que, a esta altura já estavam a seus pés. Incontáveis pedidos de “scream for me, São Paulo!” foram prontamente atendidos por uma audiência fiel, ávida e entregue. O clima “ópera-rock” prosseguiu com a sempre bela “Sign Of The Cross”. Empunhando uma cruz coberta por leds luminosos que acendiam e apagavam ao seu comando, Bruce provocava: “Porque então Deus ainda está me protege mesmo quando não mereço?”. O destaque era a cenografia no palco: uma belíssima projeção em vermelho com cruzes espalhadas pelos quatro cantos, dando ao espectador o inferno da dúvida de um homem cristão em relação à sua fé.

Piece Of Mind, a matadora bolacha de 1983, seria representada a seguir pela maravilhosa “Flight of Icarus”. Um incansável Dickinson percorreu o palco armado com um minilança-chamas enquanto uma gigantesca figura alada surgia em cena. Momento deveras emocionante com novo magistral solo de Adrian Smith, que manteria a atmosfera em suspenso para a execução de “Fear Of The Dark”. Numa escancarada referência ao Fantasma da Ópera, Bruce voltou vestido de fraque e com o rosto coberto com eternizada máscara usada pelo personagem criado por Gaston Leroux no mais famoso romance gótico da história. Como de praxe, o público se transformou no sétimo integrante da banda ao entoar o tema da canção como um estrondoso grito de torcida de futebol.

A seguir, a familiar fala introdutória do lendário Barry Clayton anunciava a chegada do clássico maior: “The Number Of The Beast” não perdeu sua energia nem por um decreto, mesmo após 37 anos de seu lançamento. Êxtase! Era impossível não se emocionar ao ver Harris, Gears, Murray e Smith perfilados no centro do palco praticamente reverenciando Dickinson à frente do quarteto. Memorável era pouco! Para o bis, o único equívoco do set list. “The Evil That Men Do” soou deslocada demais. E por que, bulhufas, “Can I Play with Madness” não foi executada é algo que custarei a entender. “Isso aqui não é 1992!”, certamente diria Bruce, se pudesse indagá-lo.

Seguiu, então, o jogo para o duo final: “Hallowed Be Thy Name” foi mais uma prova de fogo para as cordas vocais de Dickinson. Nem precisava, também. O público sabia o refrão de cor e salteado e fez as vezes do backing vocal. Sete minutos que desceram como água para o último ato. “Run To The Hills” ganhou ares de celebração a estes senhores que tantas vezes foram acusados de oportunistas e aproveitadores de um gênero que não ajudaram a forjar mas que sabiamente deram uma banana a seus detratores.

Quanto à relação da banda com o Brasil, Bruce foi mais do que claro em sua fala de despedida: “Voltaremos aqui quantas vezes forem precisas pelo resto de nossas vidas”. Portanto, pode começar a guardar dinheiro desde já. Daqui a no máximo três anos o conglomerado Iron Maiden retornará, não nos mostrará nenhuma novidade em seu repertório. Só que ninguém, absolutamente NINGUÉM, reclamará…

Set list: “Aces High”, “Where Eagles Dare”, “2 Minutes To Midnight”, “The Clansman”, “The Trooper”, “Revelations”, “For The Great Good Of God”, “The Wicker Man”, “Sign Of The Cross”, “Flight of Icarus”, “Fear Of The Dark”, “The Number Of The Beast”, “Iron Maiden”, “The Evil That Men Do”, “Hallowed Be Thy Name” e “Run To The Hills”.

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Weezer – ao vivo

Quarteto volta ao Brasil após quase uma década e meia com repertório de clássicos misturados a covers especiais

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Texto por Bruno Castro

Foto: Weezer/Reprodução

O Weezer se apresentou na quinta feira 26 de setembro em São Paulo, no Ginásio do Ibirapuera. Para alguém que como eu cresceu e vivenciou os anos 1990 na infância e adolescência, um flash de coisas passou pela cabeça.

A banda abriu o show com “Buddy Holly”, uma das mais famosas do álbum de estreia. Na sequência, foi mantendo o clima no topo com “Undone – The Sweater Song” (do mesmo debut, de capa azul) e “Hash Pipe” (do terceiro, de capa verde). No set estavam incluídas uma série de canções alheias extraídas do recém-lançado álbum de covers, como “Africa” (Toto), “Take On Me” (a-ha) e “Happy Together” (Turtles). Esta foi uma viagem bem encantadora rumo aos anos 1960 com direito a inclusão de trecho de música do Green Day, mas foram em músicas como “The Good Life” (do segundo álbum) e “Island In The Sun” (do terceiro) é que a banda mostrou toda a sua versatilidade emulada na geração 1990 do rock alternativo, da qual tornou-se um dos principais representantes.

“My Name Is Jonas” (do “Blue Album”), “El Scorcho” (de Pinkerton) e “Porks and Beans” (uma das mais recentes do set, do disco de capa vermelha, de 2008) deram ânimo a varias pessoas vistas cantarolando durante o show. O vocalista Rivers Cuomo, por sua vez, esbanjou simpatia. Disse que SP era o par perfeito, Falou ainda diversas vezes que amava todos nós. Uma espécie de dívida que foi paga com uma apresentação incrível – afinal o quarteto americano só havia tocado antes no Brasil uma única vez, em Curitiba, em 2005.

Os mais saudosistas ainda foram recompensados com duas covers especiais: “Paranoid” (Black Sabbath) e “Lithium” (Nirvana). Mas o encerramento do concerto –  com direito a uma versão a cappella de Buddy Holly e gran finale trazendo a maravilhosa “Say It Ain’t So” (mais um resgate do álbum de estreia e o primeiro das obras batizadas com o nome da banda e que se diferenciam pelas cores de suas respectivas capas) – deu a chave de ouro uma noite que fez passar um filme na mente de todos os que estavam na pista meio vazia do Ibirapuera.

Depois disso, resta esperar que o Weezer não demore mais uma década e meia para voltar a se apresentar no Brasil.

Set list: “Buddy Holly”, “Undone – The Sweater Song”, “Hash Pipe”, “My Name Is Jonas”, “Happy Together/Longview”, “Holiday”, “Island In The Sun”, “Perfect Situation”, “Take On Me”, “The End Of The Game”, “Surf Wax America”, “Africa”, “The Good Life”, “El Scorcho”, “Paranoid”, “Porks And Beans”, “Beverly Hills” e “Lithium”. Bis: “Buddy Holly (a cappella) e “Say It Ain’t So”.

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Érika Martins

Cantora fala sobre os diversos projetos, sua entrada nos Autoramas, a carreira solo, o passado na Penélope e o que ainda está por vir

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Entrevista por Fábio Soares

Fotos: Léo de Azevedo/Divulgação (Érika) e Divulgação (Autoramas)

Ela é um dos mais famosos rostos femininos do rock brasileiro e vive o melhor momento de sua longeva carreira de pouco mais de duas décadas, iniciada com a banda Penélope e seguida de período solo. Há quatro anos, integra (ao lado do marido Gabriel Thomaz, o baixista Jairo Fajer e o baterista Fábio Lima) o “conglomerado” Autoramas, a mais bem sucedida banda independente brasileira, que no próximo mês de maio viajará à Europa para a sua décima sexta turnê internacional. Não sem antes finalmente tocar no festival Lollapalooza, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Ou depois subir ao palco Sunset, no próximo Rock In Rio, para ser uma das convidadas especiais dos Titãs.

Antes de uma apresentação na capital paulista, Érika Martins recebeu o MONDO BACANA em seu camarim para uma entrevista. Na pauta, a música como filosofia de vida, a objetificação da mulher no rock e projetos que estão por vir.

No início de sua carreira, nos anos 1990, você teve contato com dois grandes produtores que, infelizmente, não estão mais entre nós: Tom Capone e Carlos Eduardo Miranda. Atualmente, essa figura do superprodutor anda ausente no cenário por uma série de fatores. Na sua opinião, a presença de um grande nome assinando a direção artística de um trabalho ainda é preponderante ou a possibilidade de lançar um trabalho de forma independente não a torna tão necessária assim?

Acho que isso independe da época em que vivemos e que cada década teve o seu grande nome em produções musicais. Não que isso também seja algo primordial na gravação de um disco. No meu caso, tive a sorte e o privilégio de trabalhar com esses dois grandes nomes. Na época das gravações do primeiro disco da Penélope, Mi Casa, Su Casa, a Sony Music nos disponibilizou um grande orçamento para realizá-lo. Para se ter uma ideia, a verba nos possibilitou que o grande Eumir Deodato fizesse os arranjos de cordas do disco. Enfim, tínhamos infinitas possibilidades ao nosso alcance.

Como chegaram ao Tom Capone?

Por indicação do Marcio Melo, artista baiano que tinha, nos anos 1980, uma banda com a Lan Lanh, ex-percussionista de Cássia Eller, e com a Érika Nande, que foi nossa baixista na Penélope. Junto com ele, veio o Antoine Midani, filho do “messias” André Midani, que eu já admirava por seus trabalhos de arranjos de voz com a Marisa Monte.

Imaginei que você tivesse conhecido o Tom Capone através da Constança [Scofield, tecladista da Banda Penélope e viúva do produtor]…

Não! Aí é que vem a história que é sensacional: nosso primeiro encontro com o Tom foi no estúdio para a pré-produção do disco. Quando os dois trocaram olhares, eu já senti a faísca! Se apaixonaram! Assim, Mi Casa, Su Casa foi gravado em meio a uma bolha de amor maravilhosa!

Então você é testemunha de que amores à primeira vista realmente existem!

Sim! Presenciei! E a Constança sempre foi mais séria e cética… Quando a vi apaixonada daquele jeito perguntei a mim mesma: “o que tá acontecendo com minha amiga?” (risos)

E como você conheceu o Miranda?

Com o sucesso da repercussão do Mi Casa… fui convidada para gravar uma participação no disco Só No Forévis, dos Raimundos [Érika participou da faixa “A Mais Pedida”, grande sucesso do grupo e que foi amplamente executada nas rádios]. Recebi o convite em Salvador, sem ter a mínima ideia de como seria minha participação. Fui ao Rio, cheguei no estúdio para gravar e dou de cara com quem? O Miranda! Que já era ídolo de todos nós havia muito tempo. Pra você ter uma ideia, em 1995 saí de Salvador e vim a São Paulo distribuir algumas fitas-demo da Penélope e uma das pessoas que eu já tinha em mente para entregar era o Miranda. Ele foi muito receptivo e disse “pô, já estava esperando esse material faz tempo!”. Quase cinco anos depois estava eu ali, em estúdio com ele. Apesar de ter passado três meses com o Tom na gravação do Mi Casa…, eu era muito jovem e ainda muito verde em gravações. Mas aí veio o Miranda, com toda a paciência do mundo para me ensinar o caminho das pedras. Uma generosidade ímpar. Olhava para ele e pensava: “caramba, é o Miranda… que pressão e responsabilidade!”. Tudo correu bem e foi sensacional. Era um grande produtor.

Quais eram as diferenças mais evidentes entre os dois? Ou eles eram muito parecidos no modo de trabalhar?

O Tom era mais “mão cheia”. Tocava e timbrava os instrumentos como ninguém. Metia a mão na massa de verdade. Já o Miranda tinha o dom de saber extrair do artista o que ele tinha de melhor. Além de ser uma espécie de olheiro de primeira. Tinha uma capacidade surreal de descobrir novos artistas. Um curador de verdade.

Certa vez, vi o Miranda dizer numa entrevista que pesquisava novos artistas de uma maneira quase compulsiva.

Sabe o que era legal no Miranda? Ele ia aos shows! Cheguei a encontrá-lo uma vez num festival em Belém do Pará. Em outra, fiz um show solo em Porto Alegre e quem estava na plateia? O Miranda! Acho que isso está em falta atualmente. Hoje dificilmente você encontra produtores em shows algo que acrescentaria em muito no trabalho deles. Sacar o que está rolando sem beber exclusivamente da fonte da internet.

Já que tocamos no assunto, com pouco mais de vinte anos de carreira, você já pensou em produzir outros artistas? 

Agora faria sim. Antes não me sentia segura o suficiente mas neste momento adoraria pegar um trabalho do zero e colocar meu toque pessoal. Estou mais à vontade.

O que falta é tempo…

Nem me fale! Às vezes acordo e nem sei por onde começar. Tenho os Autoramas, minha carreira solo, Lafayette & Os Tremendões [projeto de Érika e Gabriel Thomaz para releituras de clássicos da Jovem Guarda com a participação de Lafayette Coelho, tecladista e grande nome do movimento], o Chuveiro In Concert [projeto de karaokê ao vivo com banda, realizado na maioria das vezes em eventos corporativos]… É muita coisa! Imagina ter que parar tudo isso pra assinar a produção de um disco! (risos) Depois ainda temos que ouvir que artista não trabalha.

Pegando o gancho dessas diversas atividades que você exerce, em seu pouquíssimo tempo livre ainda há disposição para descobrir novas bandas e artistas?

Sim! Sempre! Até porque recebo quase diariamente em minhas redes sociais muito material de novas bandas. Claro que não dá para ouvir tudo de uma vez mas sempre procuro fazer isso e dar o feedback depois. Nisso acabo descobrindo muita coisa boa e quer saber? Tenho preferência para ouvir o que ainda não está na mídia. É muito prazeroso ouvir artistas em início de carreira e dar força e atenção a eles é o mínimo que posso fazer. E, intimamente, agradecer ao universo por ter tido o privilégio de viver de música.

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Libido é o oitavo álbum dos Autoramas e foi muito bem recebido pela critica especializada, inclusive fora do país. A banda é praticamente uma unanimidade no cenário independente brasileiro. Uma prova disso, foi o recente lançamento da coletânea A 300 Km Por Hora, na qual 41 artistas estão reunidos para homenageá-los. No meio dessa louca rotina que levam, já caiu a ficha de que vocês são um expoente da cena e, por tabela, um exemplo a serem seguidos? Ou então relaxam com relação a isso para que tudo flua naturalmente?

Tenho uma visão mais destacada com relação a este assunto. Estou na banda há quatro anos e convivo com o Gabriel há mais de quinze. Quando a Penélope fez shows no Rio para lançar o Mi Casa…, a gravadora nos pediu uma indicação para banda de abertura e não pensei duas vezes: Autoramas, que eu já adorava desde aquela época. Quando eu casei com o Gabriel passei a “respirar” os Autoramas mais ainda. Mais até do que os próprios integrantes. Lembro de uma vez o Gabriel precisar de um cenário para um show e, como sempre gostei dessa parte de cenografia, eu mesma costurei o cenário. Fora isso, já compúnhamos juntos e eu participava dos discos e shows. Então, mesmo eu não fazendo parte da banda, tinha esta visão destacada do respeito que o público tinha pelos Autoramas e de que sua obra nunca teria um conteúdo raso. Via ao vivo e pensava: “é uma banda para a História, criativa, original, única e com tudo muito inspirado!”, Lembro-me de assistir a documentários de bandas que amo, como Ramones ou Cramps… Quando vejo os Autoramas hoje, logo penso que no futuro ela será lembrada como estes artistas. Exponencial. Por isso me sinto privilegiada. Por ter vivido os dois lados: de fã e integrante.

Sua carreira solo estava muito bem encaminhada e você ainda colhia os frutos do sucesso do álbum Modinhas quando foi integrada à banda. Houve algum momento de hesitação de sua parte em dar este hiato ou aceitou de imediato?

Não pensei duas vezes! Mas isso foi um processo mais que natural tendo em vista que eu já participava da banda de uma forma ou outra. E o convite veio num momento muito apropriado porque eu já havia divulgado muito bem o Modinhas na imprensa. Fiz shows nas principais capitais e no exterior, inclusive. Então, minha entrada nos Autoramas não gerou nenhum tipo de confronto de datas, por exemplo. Eu já estava numa fase de parar e pensar em um próximo projeto. Mas minha carreira solo não acabou não, hein? (risos) Há um novo projeto a caminho que só não está em andamento por conta da grande demanda de nossa agenda. Mas o que queria dizer é que estar nos Autoramas vai muito além da questão artística pura e simplesmente: tem a ver com vida. Tem a ver com o que escolhi para mim. Adoro viajar, conhecer gente, lugares novos, outras culturas e os Autoramas me propiciaram tudo isso. Além, é claro, o fato de poder viajar com o Gabriel, que é meu marido. Antes de meu ingresso na banda, viajávamos pouquíssimas vezes juntos. Era cada um para um lado. Mas, agora, não. Fazemos tudo juntos, viajamos o mundo juntos e tocamos numa banda sensacional. Realmente, me sinto privilegiada em viver tudo isso.

Tocarei num assunto polêmico agora: objetificação da mulher na música. Agora, em 2019, completam-se vinte anos de sua participação no álbum Só No Forévis, dos Raimundos. Uma dúvida paira no ar quando surge a questão se os Raimundos fariam o sucesso hoje em dia devido ao conteúdo de algumas de suas letras, tendo em vista que a questão do feminismo final e merecidamente está em voga nos dias de hoje. Gostaria de saber como você se sentia na época com relação a este assunto. Isso já te incomodava há vinte anos?

Sempre procurei ser um exemplo de ir contra esse tipo pensamento. No início da Penélope, uma de minhas maiores preocupações era justamente peitar essa coisa machista de que “para se fazer rock era necessário ter uma postura masculinizada”. Sempre fui contra isso! Com relação ao convite dos Raimundos, deixei bem claro que não colocaria minha voz ou emprestaria minha imagem ao clipe de uma faixa que tivesse palavrão, putaria ou algo pejorativo do tipo porque meu perfil não é esse. Tanto é que a temática de “A Mais Pedida” é totalmente outra. Sobre o conteúdo de algumas letras dos Raimundos que, por ventura, seriam muito mal vistas hoje em dia, sempre achei meio papo de “turma de fundão”, sabe? Mesmo não concordando, estava lá. Existia. O que sempre pensei com relação a qualquer coisa era: temos que ocupar os espaços! Se o espaço é machista, temos que ocupá-lo sendo a referência do contrário. Muitas meninas me procuravam na época e diziam odiar essa coisa do machismo no rock e viam, na minha figura, alguém que dizia o discurso que elas queriam ouvir. Mas olha só: eu fui projetada pelos Raimundos! O disco da Penélope estava engavetado, na geladeira. Só foi lançado porque “A Mais Pedida” foi o sucesso que foi. Os Raimundos foram a ponte para que eu chegasse a algum lugar. E chegar a esse lugar sendo um exemplo do que é legal. Ser mulher e ter atitude! É preciso ocupar e preencher os espaços. Na divulgação do Mi Casa… fomos convidados para o Faustão e choveram críticas do tipo “que queimação de filme!”. Nem ligamos para isso. Tínhamos de aparecer e levar nosso discurso ao maior número possível de pessoas e levo esse pensamento até hoje. Não concorda com o conteúdo de programa X ou emissora Y? Vá lá e mostre o contrário. Mostre a esse público que só consome X ou Y que há um mundo de outras possibilidades. E se conseguir a fazer com que alguém absorva sua mensagem e se interesse pelo seu trabalho, já terá valido a pena.

Você já tocou em duas edições do Rock In Rio. Neste ano, o Lollapalooza, em sua oitava edição, finalmente convidou os Autoramas para o line up. No festival dos sonhos da Érika, quem tocaria no mesmo dia dos Autoramas?

Cara, tanta banda! Os B-52s, com certeza! Encontramos a Cindy Wilson no ano passado no Festival South by Southwest e foi um sonho! O Cramps também estaria. Dos nacionais, sem dúvida, a Gang 90 com a formação original, com as Absurdettes, seria lindo! Adoraria ter conhecido o Júlio Barroso. Acho que tá bom, né?

Está ótimo! Vocês sempre tiveram uma relação de muito afeto com a Jovem Guarda. Além do Lafayette, vocês recentemente tiveram contato com o Silvio Brito. Elocubração do entrevistador aqui: uma parceria entre Autoramas e Erasmo Carlos. Já pensaram em algo a respeito?

Ele é maravilhoso! Superaberto! Recentemente assistimos à sua biografia no cinema. Ficamos muito emocionados. Mandamos uma mensagem e ele respondeu “muito obrigado, meu casal lindo!”. Sempre foi muito carinhoso conosco e sempre fomos apaixonados por ele. Fazer algo juntos seria mágico! Sempre tivemos muito respeito com o pessoal da Jovem Guarda. A Wanderléa participou do segundo álbum da Penélope (Buganvília, na faixa “Não Vou Ser Má”). Com relação ao Silvio Brito, já temos um projeto em andamento e com o qual estamos ensaiando. Muito respeito por essa turma mais antiga e que nos ensinou e continua nos ensinando demais. Amo escutar as histórias. Certa vez, o Lafayette e o Jerry Adriani ficaram horas contando histórias e ficamos ali, assistindo a isso de boca aberta.

Em maio, os Autoramas embarcarão para mais uma turnê europeia. Quando retornarem, a divulgação de Libido prosseguirá ou vocês darão mais atenção a estes novos projetos?

Libido seguirá a todo vapor, até porque foi lançado há pouquíssimo tempo. Estou louca para que saia logo o clipe de “No Futuro”, minha faixa favorita do álbum.

Creio que seja a favorita de todo mundo!

Pois é! (risos) Estou sonhando com esse clipe mas, como não paramos nunca, um milhão de coisas acontecerão paralelamente. Lançarei o áudio do especial que fiz para o Canal Brasil. Já o Gabriel lançará o disco de seu projeto instrumental, o Gabriel Thomaz Trio. Enfim, não pararemos.

E qual é o limite dos Autoramas?

Não há limite! Trezentos quilômetros por hora são pouco… (risos) Bota trezentos quilômetros por hora nisso!

Music

Sepultura

Em entrevista exclusiva, Andreas Kisser fala sobre o ano da banda, a gravação do novo álbum, o Rock In Rio e a paixão por motocicletas

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Texto e entrevista por Abonico R. Smith

Foto: Rafael Mendes/Divulgação

O mês de abril será intenso para o Sepultura. Serão seis datas em países que formavam parte da extinta União Soviética. Três shows iniciais na Ucrânia, mais um na Rússia (em uma cidade menor, por onde a primeira parte da turnê internacional do álbum Machine Messiah, que já esteve antes em Moscou e são Petesburgo), outro no Cazaquistão e outro no Quirguistão. Na “República de Borat”, então, será a primeira vez do quarteto brasileiro em ação. Logo depois, haverá uma pequena esticada para o Oriente Médio, com passagens por Líbano e Emirados Árabes Unidos.

Este calendário especial, entretanto, é só começo de um ano agitado para Andreas Kisser, Paulo Jr, Derrick Green e Eloy Casagrande. Para agosto estão marcadas as sessões de gravação em estúdios do novo disco da banda. Antes disso, muitos rascunhos e reuniões para as primeiras definições quanto ao repertório. Logo depois, ensaios para a noite do dia 4 de outubro, quando a banda abre os trabalhos do palco Mundo no Rock In Rio, em uma das noites mais aguardadas pelos fãs do heavy metal. Fechando, mais algumas datas que deverão ser marcadas o decorrer da temporada. E, como aquecimento para a maratona, dois shows agora em fevereiro: dia 2 no balneário de Iguape, no estado de São Paulo; e 9 em Curitiba, no Curitiba Motorcycles, evento que reunirá amantes do universo dos roncos dos motores sobre duas rodas, além de shows de grandes bandas da cidade, como Motorocker, Secret Society, Hillbilly Rawhide e Didley Duo (mais informações aqui)

Para carregar as baterias, o guitarrista Andreas Kisser partiu para Los Angeles para passar alguns dias de férias com a família e, de quebra, visitar uma feira de música realizada na Califórnia no fim de janeiro. Horas antes de embarcar, ele atendeu ao telefone para conversar rapidamente com o Mondo Bacana e antecipar um pouco do que está por vir.

Já dá para adiantar algo sobre o próximo álbum? Existe alguma direção encaminhada? Conceito, nome?

Vamos gravar em agosto. Enquanto isso temos algumas demos feitas a partir de ideias iniciais. Fizemos recentemente obras temáticas com influências de livro ou filme, mas acho que mais importante do que isso agora é ir coletando que estamos vendo pelo mundo. A cada nova turnê visitamos países que onde nunca havíamos tocado antes, como, por exemplo, o Cazaquistão agora. Destas observações saem coisas importantes que acabam sendo transformadas em música depois. Machine Messiah surgiu disso, da dependência cada vez maior que as pessoas têm da tecnologia.

Falando sobre o Brasil e sobre o binarismo zero um da tecnologia, de que forma você vê toda esta polarização que domina o país já há algum tempo. Parece que tudo se transformou em binário por aqui: ou é azul para meninos ou rosa para meninas, ou PT ou PSDB (e agora o PSL no lugar)…

Já rodamos muito pelo Brasil e te digo isso não é uma cultura nacional recente, não. Sempre foi assim, não vejo como algo diferente de uns tempos para cá. Este discurso não se tornou diferente nos últimos anos. Só que não podemos nos esquecer que tudo vem sendo muita ideologia. Precisa ser mais realista. Nosso país é algo bem maior do que qualquer divisão. Tomando como exemplo a imigração: o Brasil sempre recebeu os estrangeiros de braços abertos. Minha família, por parte de avó, veio da Eslovênia, por exemplo. Assim como também veio gente de outros países para construir uma nova vida no Brasil: japoneses, italianos, alemães. Entretanto, existem e existirão pessoas que pensam diferente da gente. E democracia é isso, é o debate de ideias.

Como é o processo de criação do Sepultura?

Eu vou gravando algumas ideias iniciais e o Eloi vai preparando algo focado na parte rítmica. Depois disso o Paulo segue com algumas sugestões. Por fim, Eu e o Derrick sentamos e pensamos nas letras. Passadas estas fases nos reunimos os quatro e arranjamos as músicas todos juntos.

Nas últimas edições do Rock in Rio vocês vem sendo presença constante na programação, inclusive fazendo parcerias inusitadas com artistas como Zé Ramalho e Les Tambours du Bronx…

É, o Rock In Rio é um show único, uma oportunidade de apresentar algo novo e diferente. Como gravaremos o disco em agosto e tocaremos no festival no dia 4 de outubro, com certeza deveremos apresentar em primeira mão algo do disco novo. Pelo menos uma música inédita deverá presente no set. E esta será a noite do metal também. Iron Maiden, Scorpions, Megadeth, Slayer, Anthrax, Nervosa, Torture Squad, Claustrofobia e o vocalista do Testament também se apresentação. Muitos ídolos, mas há também novos nomes do gênero. Eu me lembro até hoje de 1991, quando o Rock In Rio abriu espaço para o Sepultura. A gente havia acabado de gravar o álbum Arise e ali tocamos “Orgasmatron” pela primeira vez. Na mesma noite testavan Guns N’Roses, Judas Priest, Queensrÿche, Lobão e o mesmo Megadeth que voltaá a tocar com a gente agora.

Este encontro de gerações também vem acontecendo dentro do próprio Sepultura desde a entrada do Eloy na bateria, em 2012. Ele nasceu em janeiro de 1991, justamente seis dias depois do show do Sepultura no Rock In Rio 2. Como é o entrosamento de veteranos dentro da banda, como você e o Paulo, com alguém que nasceu quando vocês começaram a fazer sucesso no exterior com os álbum Beneath The Remains (1989) e Arise (1991)?

O Eloy tem uma característica marcante: ele começou bem cedo, muito novinho mesmo. Com 18 anos já estava gravando disco com o André Matos. Depois passou pelo Gloria. Trilhou seu próprio caminho, passando por diferentes estilos, participando de concursos mundiais. Tem técnica, tem groove. Acho o Eloy um cara muito profissional, passional e extremamente organizado. Para mim, ele talvez seja na atualidade o melhor baterista do mundo. E não impressiona só a mim não. Já deixou de boca aberta gos bateristas do Metallica e do Slayer também.

Falando no metal como um gênero extenso, em The Mediator Between The Head And Hands Must Be The Heart (2013) vocês foram produzidos por Ross Robinson. Como é trabalhar com ele?

Já havíamos feito o Roots. Então foi muito legal reencontrá-lo em seu estúdio em Venice Beach. O curioso é que ainda estão lá muitos equipamentos que nós usamos no Rootslá em 1995. Sua metodologia de trabalho é intensa e orgânica. Sem falar que é um cara espiritual e de grande técnica de estúdio. Afinal, o cara participou de toda a história do nü metal, gravando discos com Korn, Slipknot, Machine Head, Limp Bizkit… Fez um álbum com o Cure também, o que é muito interessante.

Quem produzirá este novo trabalho?

Vamos fazer com o mesmo cara que produziu o Machine Messiah, Jens Bogren. De novo nós vamos para o estúdio dele, que fica na Suécia.

Aliás, é uma diferença climática enorme entre gravar em Venice Beach, uma praia californiana, e gravar no interior da Suécia. Se bem que quando vocês estiverem lá agora em agosto será ainda verão no Hemisfério Norte. Portanto não deve fazer tão frio quanto o habitual no inverno.

De fato! Na época da gravação com certeza o clima estará mais ameno. Eu já peguei inverno brutal na Suécia. E eu não gosto disso… (risos)

Em Curitiba, o Sepultura tocará numa festa qie promoverá um grande encontro entre apaixonados por motocicletas. Qual é sua relação pessoal com este universo?

Tinha vários pôsteres de Cb 400 na parede do meu quarto quando era moleque. Só que minha mãe nunca me deixou andar de moto, o que eu agradeço muito a ela. Sempre fui um grande apreciador tanto da estética quanto das competições esportivas mas poderia ter me quebrado muito. Falo porque só quebrei o braço uma vez e isso foi quando estava em um jet ski. Tinha aquela falsa impressão de segurança por estar sobre a água… e aconteceu isso!

Movies, Music

Bohemian Rhapsody

Cinebio da carreira de Freddie Mercury à frente do Queen esbarra na postura conservadora e em problemas no roteiro e na direção

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

Cinebiografias são uma coisa complicada. Muitas são feitas e poucas delas acabam apresentando algo memorável, aquele resultado convincente que acaba deixando o filme para a posteridade. Se não, mostram-se fogo de palha, uma obra que só se beneficia da memória afetiva de fãs ou pessoas ligadas de algum modo ao meio de quem é biografada(o). Bohemian Rhapsody (Reuno Unido/EUA, 018 – Fox) não foge desta grande galeria de exemplos. Sua proposta é contar boa parte do tempo em que Freddie Mercury ficou conhecido como o vocalista do Queen. Só que patina no meio do caminho e deixa a desejar ao final de suas duas horas e catorze minutos.

Primeiro vamos às qualidades do longa. Rami Malek – que entrou no projeto após a desistência de Sacha Baron Cohen – está irrepreensível na sua atuação como Farrokh Bulsara, o jovem de origem indo-persa nascido na Tanzânia e radicado em Londres desde o fim da adolescência. Incrivelmente parecido nas telas, ele também se traveste de Mercury ao tomar para si a personalidade flamboyant do músico, sempre aultoconfiante e autoindulgente não só palcos mas sobretudo nos bastidores. Da vida em família enquanto ainda trabalhava como carregador de malas nos aviões da pista do aeroporto de Heathrow às festas nababescas com dezenas de convidados que dava em sua mansão, passando pelo início da fama do Queen e a transformação da banda em ícone mundial do rock.

Quem também atua de forma soberba, porém em pouco tempo, é Mike Myers. Transformado em um alienado e pouco ousado executivo de gravadora, o comediante protagoniza uma das melhores cenas: a reunião em que ele conhece a banda que acabou de contratar e quase a perde por não aceitar ouvir a opinião dos músicos. Vale a pena ressaltar a private joke do convite feito a Myers. Ele foi o protagonista do filme Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne’s World, no original), lançado em fevereiro de 199 e que o levou de vez da televisão para o cinema. A cena em que os jovens Wayne e Garth balançam freneticamente a cabeça dentro de um carro ao som de “Bohemian Rhapsody” levou a música novamente ao topo das paradas norte-americanas dezessete anos após o seu lançamento.

A trilha sonora, óbvio, também favorece. Ouvir trecho de alguns dos maiores hits do Queen sentado na poltrona do cinema é uma experiência prazerosa. Conhecer detalhes por trás da criação de alguns deles ainda pode adoçar mais a vida de quem curte o quarteto. Quando o foco da cena são os shows, então, é para se esbaldar, como na hora em que se mostra a participação de Merucry, Brian May, John Deacon e Roger Taylor no Live Aid, em julho de 1985.

Entretanto, há detalhes que pendem para o desequilíbrio e fazem Bohemian Rhapsody desperdiçar a oportunidade de ser uma obra fenomenal. Primeiro há a decisão de Roger e Brian, produtores executivos do filme e os músicos que excursionam sob o nome Queen hoje em dia (John ainda tem participação na banda mas preferiu se aposentar dos palcos), por fazer um filme “família”. Isto é, não mostrar todos os exageros de Mercury e cortar do recorte biográfico todo o tempo em que a banda se retirou dos palcos em virtude da doença de Mercury – o que durou de 1986 a 1991, até o vocalista falecer em decorrência do vírus HIV em novembro daquele ano. Muito provavelmente o motivo por esta opção tenha sido o financeiro: um acordo com um grande estúdio e a possibilidade de ganhar mais bilheteria ao redor do mundo, inclusive não limitando a faixa etária do longe. Algo que não traz riscos é bastante conservador e isso não passou despercebido pela crítica, muito menos por Baron Cohen, que, doido para construir mais um personagem histriônico em sua carreira cinematográfica, pulou fora da barca.

O roteiro também mostra muitos descompassos temporais ou conceituais com relação às músicas do Queen. Exemplos? Os dois primeiros discos são solenemente esquecidos e muita gente pode sair com a impressão de que o início do sucesso veio somente com o hit “Killer Queen”, do terceiro trabalho da banda, Sheer Heart Attack, lançado no finalzinho de 1974. “We Will Rock You” aparece sendo composta bem depois de 1977, quando a faixa chegou às lojas abrindo o álbum News Of The World. Durante a criação do arranjo de “Another One Bites The Dust” fala-se da necessidade da incorporação de sons de sintetizadores. OK, a faixa está no álbum The Game, lançado em 1980 e que trazia estampado em sua contracapa o aviso de que este era o primeiro trabalho do Queen que utilizava este instrumento. Mas cadê ele nesta música? Mais pro final, fala-se em um longo hiato do Queen, no qual o vocalista aproveitou para desenvolver uma carreira solo. Bobagem. Freddie tocou as duas coisas meio que em paralelo, sem dedicar longos espaços para um lado ou para o outro. Em janeiro de 1985, a banda foi um dos destaques da primeira edição do Rock In Rio, em dois shows destacados até hoje pelos próprios músicos. Mas o roteiro desse filme não só ignora isso como ainda força a barra dizendo que a banda estava havia muito tempo se tocar ao vivo antes do Live Aid, em julho do mesmo do mesmo ano.

Houve também sérios problemas no set. O diretor Bryan Singer acabou expulso do projeto por conta de comportamento inadequado e falta de profissionalismo, com direito a atrasos constantes e brigas com a equipe de produção e os atores – em uma delas chegou a arremessar um equipamento pesado na direção de Malek. Seu nome só continuou na ficha técnica porque ele já havia feito dois terços do trabalho e, mesmo assim, deixando boa parte das cenas para serem rodadas a cargo do diretor de fotografia por se ausentar das filmagens em períodos não autorizados. O britânico Dexter Fletcher (mais conhecido por ter feito Voando Alto em 2015 e também ator) foi contratado às pressas para juntar os pedaços que já haviam sido feitos e terminar os trabalhos (por causa de regras do sindicato dos diretores, não tem direito a ser incluído nos créditos). Toda essa instabilidade provocada por Singer ocasionou uma inevitável quebra na unidade estética do filme.

Por fim, Bohemian Rhapsody passa a sensação de estar mais para um misto de drama da televisão mexicana com novela menos inspirada de Gloria Perez. Insiste em bater na tecla da heterossexualidade de Mercury (que compôs “Love Of Life” para uma namoradinha da juventude que acabaria por se tornar uma grande amiga ao longo do tempo), esconde todo o período barra-pesada da doença, toca apenas na tangente dos excessos descontrolados de drogas e sexo.

Sabe aquele filme sem cortes e pronto para passar na TV e ser visto por toda a família “de bem” que consome a música, aprova a banda, vai vê-la tocar nas próximas edições do Rock In Rio e sempre canta “We Are The Champions” quando a música é executada em associação a alguma celebração da meritocracia? Bem isso daí. Tudo fica apenas no nível do entretenimento raso e descompromissado com algo além do momento. Por enquanto, só resta ficar com a expectativa de algum dia venha uma outra cinebiografia realmente compensadora de Freddie Mercury.