Music

How To Dress Well – ao vivo

Sozinho no palco, Tom Krell arrasta os espectadores do Balaclava Fest para sua dimensão íntima de abstrações e sentimentos

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Texto por Daniel González Xavier

Foto: Fabricio Vianna/Balaclava/Divulgação

O norte-americano Tom Krell, nome por trás do projeto solo How To Dress Well, iniciou sua apresentação para as poucas pessoas que acabavam de adentrar o espaço Club da Audio (SP), após o encerramento do show do Wild Nothing no Balaclava Fest do último 27 de abril. Logo de cara, estabeleceu um pacto de intimidade e cumplicidade com o público presente através de sua emocional mescla de electronica, R&B e pop experimental que irradiava, junto às cores e texturas, provenientes das projeções visuais generativas no fundo do palco.

Minutos depois o espaço estava lotado e o How To Dress Well arrastava os expectadores para sua dimensão íntima e pessoal, em um difícil equilíbrio entre sutileza e força através da combinação de cálidas harmonias, vozes em falsete e beats evocados por sintetizadores e sequenciadores de ritmo. O músico se alternava entre dois microfones carregados de efeitos para sobrepor e acoplar a própria voz, que se materializava de diversas formas rumo à construção de atmosferas, ora sombrias ora luminosas.

Impressionou a capacidade de Tom Krell em transpor para o palco seus pensamentos, tristezas e temores como se não houvesse filtro entre seus sentimentos e sua música. As letras fluíam de forma terna, mantendo o peso das palavras através de uma voz reconhecível, mesmo quando sobreposta por capas e efeitos.

Porém o melhor de seu live esteve guardado nas entrelinhas. Eram estalidos, rupturas sonoras, glitches e abstrações que emergiam abruptamente, criando fraturas e dissonâncias para logo se harmonizarem com a sua particular mistura de pop e rhythm and blues.

Set List: “Human Disguised As Animals ŸNonkilling 1”, “Body Fat”, “Nonkilling 3 ŸThe Anteroom ŸFalse Kull 1”, “Nonkilling 13 ŸCeiling For The Sky”, “Love Means Taking Action”, “Vacant Boat”, “Suicide Dream 1 (Orchestral Version)”, “Nothing”, “Words I Don’t Remember” e “Nonkilling 6 ŸHunger”.

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Lauryn Hill – ao vivo

Cantora desconstrói seu repertório e divide Porto Alegre ao meio em sua primeira apresentação no retorno ao Brasil

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Texto e foto por Fábio Soares

Ela tinha contas a acertar com o Brasil. Afundada em problemas pessoais, concebeu uma desastrada apresentação em São Paulo há nove anos e, sem lançar material inédito há dezessete, retorna ao país com sua turnê comemorativa de duas décadas do multiplatinado Miseducation, o álbum que abalou 3/4 do mundo em 1998. Doze anos depois de sua última passagem pela capital gaúcha, o show em Porto Alegre foi anunciado sem alarde no início de março e em nada se comparou ao pandemônio de ingressos disputados a tapa e esgotados há meses para o show em São Paulo, no próximo dia 3. Faltando uma hora para o início da apresentação, na noite do Dia do Trabalhador (1º de maio) ainda era possível adquirir entradas nas bilheterias da Pepsi One Stage. Não se viam longas filas, tampouco superlotação da arena.

Com quase meia hora de atraso, Mrs. Lauryn Hill surgiu no palco com vestido longo e touca alaranjada na cabeça. Sua banda, formada por oito integrantes com um trio de hacking vocals incluso, superpovoa o espaço de dimensões diminutas. Coube a “Lost Ones” abrir os trabalhos. A segunda faixa de Miseducation tem punch gigantesco no álbum mas perde sua força ao vivo, sem sua a característica base de scratches. A qualidade de som da casa, muito distante de ser um primor, também não ajudou e grande foi a dificuldade dos técnicos em emulá-la. O clássico “Everything Is Everything”, cujo clipe assombrou o planeta há vinte anos, equivocadamente foi posicionado como segunda canção do set liste o resultado assustou: com andamento desacelerado e sem sua indefectível batida marcial, decepcionou os ouvidos mais atentos. O público, no entanto, não ligou nem um pouco e mais parecia preocupado em reverenciar a cantora, que sinalizava a todo instante aos técnicos reclamando de algo (muito provavelmente do som e da porcaria de acústica do local!).

O show prosseguiu e a presença de palco de Lauryn impressionava: às vésperas de completar 44 anos, sabe que não precisa de longos deslocamentos para se fazer presente. Sabe também que o repertório de sua principal obra fala por si: “Superstar”, “When It Hurts So Bad” e “Every Ghetto, Every City” automaticamente manteriam o alto nível da apresentação que gradativamente crescia, sobretudo em sua segunda metade – com destaque para “Forgive Them Father”, “Ex-Factor” e “To Zion”, eterna homenagem a seu primogênito filho, elevando sua interpretação a um máximo grau de impessoalidade.

Mas foi em “Killing Me Softly” que os contornos de catarse ganharam forma. O eterno clássico dos Fugees foi entoado a plenos pulmões por uma plateia completamente entregue aos pés da cantora. Semblantes emocionados eram vistos pelos quatro cantos da casa. Percebendo que o jogo está ganho, a banda estende sua execução que bateu à porta dos oito minutos.

A partir daí, só festa! “Can’t Take My Eyes Off You” é a carta na manga que todo artista gostaria de ter. O eterno clássico de Frankie Valli fez a audiência balançar e foi a deixa para a espetacular “Doo Wop (That Thing)” transformar a Arena Pepsi numa gigantesca pista de dança. Até o pessoal dos bares dançou com o verso “Guys you know you’d better, watch out (Watch out!)/ Some girls, some girls are only, about (About!)” A atuação impecável do trio de backing vocalscontinuou em “Ready Or Not” (mais uma dos Fugees), evidenciando o entrosamento da cantora com seu time. O som, finalmente equalizado a contento, permitiu que a sobreposição de vocais se tornasse perceptível. Jamais poderemos saber qual o verdadeiro sentimento de Lauryn ao revisitar a repertório do grupo que a alçou ao estrelato e ao lado dos ex-companheiros (e eternos desafetos) Wyclef Jean e Pras Michel. O fato é que resgatá-lo é uma necessidade, tendo em vista seu escasso material solo.

E foi justamente mais uma dos Fugees, a responsável por encerrar a noite: “Fu-Gee-La” não perdeu sua magnitude mesmo após vinte e três anos de seu lançamento. Sua execução porém, foi irregular. Faltam as batidas de Jean e Michel e mesmo negando, o “fantasma Fugees” sempre estará presente e tatuado na pele da cantora.

Após 90 minutos, opiniões divididas. Houve quem achou que a falta de punch em algumas canções não permitiu que a apresentação atingisse um grau de excelência (eu) e houve quem saiu da Arena Pepsi com a alma lavada somente com a onipresença da cantora. Será que o show de São Paulo será diferente? Veremos. Resta saber se a Lauryn 2019, que dividiu o Rio Grande em dois, dividirá a capital paulista também.

Set List: “Intro”, “Lost Ones”, “Everything Is Everything”, “Superstar”, “When It Hurts So Bad”, “Final Hour”, “Every Ghetto, Every City”, “Forgive Them Father”, “Ex-Factor”, “Can’t  Take My Eyes Off You”, “To Zion”, “The Miseducation Of Lauryn Hill”, “Doo Wop (That Thing)”, “Killing Me Softly With His Song” e “Ready Or Not”. Bis: “Fu-Gee-La”.