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Um Dia de Chuva em Nova York

Woody Allen mistura passado e presente em ambientação de trama que fica aquém de seus momentos mais inspirados

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Não há necessidade de introduzir a carreira brilhante de Woody Allen. O cineasta também trabalha com profissionais que, hoje em dia, chegam a dispensar introduções – por motivos diferentes. O aclamado diretor junta-se a Timothée Chalamet, Elle Fanning, Jude Law e até Selena Gomez em seu novo longa.

Tal como a extensa filmografia de Allen, Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day In New York, EUA, 2019 – Imagem Filmes) é, do início ao fim, repleto de narrações. O roteiro, também do autor americano, segue Gatsby Welles (Chalamet) e Ashleigh Enright (Fanning) durante o dia em que o casal de estudantes universitários passa em Nova York. Enquanto ela segue um cultuado diretor de cinema (Liev Schreiber, em curta aparição) e seus colegas de trabalho por Manhattan, Welles passeia pela cidade em que cresceu, reencontrando conhecidos e familiares no meio do processo. A trama parece operar como um fluxo de consciência, com personagens indo de ponto A ao ponto B a bel prazer do roteirista, sem motivações claras e suficientes.

O nervo central do filme é a dinâmica interna de seus dois protagonistas e, também, destes com o ambiente. Enquanto o Gatsby de Allen é culto, esperto e confortável com a cidade, Ashleigh é ingênua e jovial, respirando ares do Arizona – onde nasceu – em uma megalópole que a carrega de um lado a outro, como uma correnteza inescapável. Assim, a oposição entre os dois personagens é clara desde o primeiro ato do filme, que trabalha bem sua incompatibilidade mesmo que estejam separados por grande parte de sua duração.

É assim que o roteiro introduz seus principais coadjuvantes, não somente por peso na história, mas por capacidade de interpretação: Selena Gomez e Jude Law. Ele faz um roteirista que, a caminho de encontrar seu diretor – que enfrenta dificuldades criativas com seu novo filme –, descobre que sua mulher está o traindo com seu melhor amigo. O ator consegue tornar seu breve personagem bastante crível, fugindo da caricatura. No entanto, quem brilha é Selena Gomez, que entrega Shannon, velha conhecida do protagonista de Chalamet, com bastante naturalidade, transparecendo a enorme química entre eles.

Retorna-se, então, à discussão do roteiro, pois a efusão de personagens secundários e sequências vagas é um dos maiores problemas do filme, em conjunto com narrações que parecem escritas às pressas. Deixo evidente que a definição anterior de Gatsby carrega consigo um ponto de vista bastante bondoso, o “de Allen”, visto que o personagem, de fato, esbanja características desagradáveis ao espectador. Por vezes, é pretensioso e de movimentação muito caricata, tornando constante a suspeita de de que Timothée Chalamet fora instruído a imitar seu diretor ao invés de construir seu próprio personagem. O texto de Gatsby revela ainda diversas falas e ideais que facilmente seriam atribuídas a Woody Allen. Dá-se a impressão de que, no fim, Gatsby Welles é um Woody Allen que, como o personagem diz em dado momento, “não quer envelhecer nunca”.

No entanto, a confusão do roteiro é amenizada pelo brilhantismo de Vittorio Storaro, o mítico diretor de fotografia que assume a obra, criando uma Nova York onírica, existente somente nas memórias de Allen. O que é um ponto alto da fotografia torna-se um defeito do desenho de produção, já que os cenários e ambientações têm um tom enquanto certos personagens têm outro. Explico: Gatsby, Shannon e até mesmo Ashleigh parecem viver numa Nova York de meados do século 20, ainda que tenhamos iPhones, táxis e sets bastante contemporâneos. Assim, o filme se ambienta numa mistura de passado e presente, uma confusão que se demonstra até mesmo nas relações entre as personagens, em especial entre Gatsby e sua mãe.

Ainda que amparado por Storaro, Woody Allen parece ter perdido a mão em Um Dia de Chuva em Nova York. Seu roteiro é um dos mais fracos da aclamada carreira. Ele mostra-se preocupado em finalizar filme atrás de filme, distanciando-se da qualidade que um dia o consagrou. Da mesma forma, o longa soa repetitivo, pois acomoda-se até demais no estilo de seu diretor. No fim, é uma confusão em si mesmo, que não é resolvida nem pelo talento de seu elenco ou de seus diretores. É agradável, certamente, mas está bem aquém dos melhores filmes de Allen.

Movies

A Morte Te Dá Parabéns 2

Sequência parte do horror slasher para apostar no cômico e acaba se desgarrando da dependência do filme original

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Sucesso de bilheteria de 2017, A Morte Te Dá Parabéns teve boa aceitação do público, ao retratar a jornada de Tree Gilbman (Jessica Rothe) para descobrir seu assassino, que, ao matá-la, fazia com que a protagonista retornasse para o início do dia de seu aniversário. Os personagens de Scott Lobdell voltam ao cinema esse ano, sob direção e roteiro de Christopher Landon .

Desta vez, em A Morte Te Dá Parabéns 2 (Happy Death Day 2, EUA, 2019 – Universal Pictures) somos apresentados à causa do loop temporal: uma máquina construída por Ryan (Phil Vu), Samar (Suraj Sharmai) e Dre (Sarah Yarkin). Ao ser reintroduzida nessa estrutura, Tree é lançada num universo alternativo, onde sua mãe ainda está viva e Lori (Ruby Modine) não tenta assassiná-la. Ainda assim, alguém entra em conluio com o serial killer John Tombs (Rob Mello), causando a morte de diversos personagens – até que Tree solucione o caso, morrendo e recomeçando o tal loop no meio do caminho.

Para quem não assistiu o antecessor, A Morte Te Dá Parabéns 2 demora para engrenar. A trama se repete em relação ao longa de dois anos atrás, mas a forma com que é tratada pela direção dá respiro ao slasher. Seu primeiro ato é problemático, com seus personagens construídos de forma caricata e plastificada, mas o humor passa a funcionar no segundo ato, paralelamente ao arco emocional da protagonista. Sendo assim, o espectador chega ao terceiro ato envolvido com os personagens – ainda que unidimensionais.

Carter, interpretado por Israel Broussard (que não é namorado de Tree neste universo), representa uma subtrama bem aproveitada, além de contribuir para o arco principal da protagonista. Ambos entregam as melhores atuações do filme, marcado pela caricaturização de seus personagens secundários.

O desenho de som é satisfatório, situando bem o espectador e dando espaço para a trilha sonora de Bear McReary. Suas composições beiram o convencional, mas apresentam refino competente.

Desta forma, A Morte Te Dá Parabéns 2 é um filme que tem certa dependência de seu predecessor, mas a utilização da comédia é bem-vinda e, junto das explicações e óbvias referências ao filme original, traz independência ao longa. Parte de um horror slasher para não se levar a sério e ganha sérios pontos com isso.