Movies

O Caso Richard Jewell

Clint Eastwood segue na zona de conforto dirigindo mais um longa que aposta a temática do heroísmo americano

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Warner/Divulgação

A ideia do heroísmo americano é trabalhada exaustivamente em diversas produções cinematográficas. Clint Eastwood fez toma uma carreira interpretando papéis e dirigindo filmes que abordam o tema, como, mais recentemente, Sully – O Herói do Rio Hudson e Sniper Americano. Seu mais novo longa não foge a regra.

Contando a história real do segurança que consegue identificar uma bomba durante as Olimpíadas de Atlanta em 1996 e evitar uma tragédia maior, O Caso Richard Jewell (Richard Jewell, EUA, 2019 – Warner) traça uma narrativa rica sobre a construção e destruição de ídolos pela mídia. Em um primeiro momento, o protagonista é considerado um herói. Contudo, após a imprensa divulgar que ele está sob investigação, sua imagem é drasticamente transformada na do vilão.

Essa seria uma ótima reflexão, se o rumo escolhido pelo diretor não fosse tão tortuoso. Olivia Wilde interpreta a ambiciosa jornalista Kathy Scruggs, retratada no filme como uma mulher implacável, sem empatia e disposta a oferecer favores sexuais para conseguir um furo. A empresa de mídia Cox Enterprises, dona do Atlanta Journal-Constitution, jornal em que a verdadeira Kathy trabalhava, levantou acusações contra a produção por conta da retratação errônea e difamatória da jornalista. Segundo o The New York Times, não existem relatos de que a jornalista agia de tal maneira. Considerando em que vive-se a época do movimento #MeToo, é absurda a direção escolhida para a personagem de Wilde.

Richard Jewell (Paul Walker Hauser) é apresentado como um cidadão comum, que só quer servir e fazer o bem. Exageradamente ingênuo, Jewell tem fascinação por policiais e sua maior meta é tornar-se um. A empatia que deveria ser dedicada a ele é quase toda destinada a sua mãe Bobi, em uma bela atuação da sempre incrível Kathy Bates.

O filme é mais um conto americano em que “qualquer um pode ser tornar um herói”. Porém, com críticas à máquina da mídia e ao governo, que usam seus poderes para interferir na vida de pessoas comuns.

Clint Eastwood, hoje com 89 anos de idade, certamente sabe produzir dentro de sua zona de conforto. O Caso Richard Jewell é uma obra que não poderia ser feita por outro diretor e isso não é nem uma crítica tampouco um elogio. Sem ousar mas certamente causando polêmica, o diretor alcançou aqui um filme mediano e 100% americano.

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Playmobil – O Filme

Clássicos bonequinhos infantis dos anos 1970 e 1980 não empolgam em seu primeiro longa-metragem

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Quem foi criança nas décadas de 1970 e 1980 certamente traz na memória brincadeiras com Playmobil, aquele bonequinho com mãos em forma de U, cabelo-cuia que virou sinônimo de gíria e um sorrisinho no rosto. O brinquedo, objeto de desejo da garotada, era inicialmente importado e caro pra chuchu, assim como ter uma Barbie (lembro até hoje do meu único exemplar azulzinho). Inventados por alemães há 44 anos, esses Playmobil aterrissaram no Brasil antes mesmo do inigualável Lego, que começou a ser produzido em terras tupiniquins em 1986, numa fábrica instalada na Zona Franca de Manaus.

Nos cinemas, porém, Playmobil – O Filme (Playmobil: The Movie, França/EUA, 2019 – Paris Filmes), que estreia agora no Brasil, chega com um delay de cinco anos em relação a Uma Aventura Lego. O longa que dá vida ao brinquedo escandinavo tornou-se sucesso de público e crítica, rendendo uma franquia. Já Playmobil – O Filme vem amargando prejuízo desde que entrou nos cinemas mundo afora.

A expectativa era de que esta produção – parte live action, parte animação – proporcionasse momentos nostálgicos, remetendo àquela infância na qual a criatividade ainda era a força-motriz das brincadeiras de criança, numa era pré-Atari e demais jogos de console. Lino DiSalvo, que aqui estreia na direção e roteiro, até que conseguiu transparecer na mensagem a importância do lúdico, inclusive com o fim de superar obstáculos e recuperar autoestima nessa aventura da vida. A animação traz um colorido exuberante e é repleta de personagens secundários cativantes. Contudo, parece que DiSalvo e os corroteiristas Greg Erb, Blaise Hemingway e Jason Oremland abusaram da imaginação, deixando a trama com eventos em excesso (talvez por conta da história ter sido composta a quatro mãos), diálogos exaustivos, e uma introdução apressada e pra lá de clichê. A aventura, de cem minutos, equipara-se àquela viagem cansativa, em que as crianças sempre perguntam: “Já chegou, Mamãe? Já chegou, Papai?”.

E viagem boa era aquela com o som do carro ou o walkman recheado de canções originais. No caso da trilha sonora de Playmobil, assinada pelo guitarrista brasileiro Heitor Pereira, é preciso ter paciência para acompanhar as canções. O compositor, que tocou com Ivan Lins e Simply Red, foi o mentor de soundtracks de animações como Angry BirdsMeu Malvado FavoritoMinions e George, O Curioso.  Talvez a culpa seja das versões em português e da voz dos dubladores (principalmente a da protagonista!), que tornaram a experiência maçante.

Também é de surpreender que o resultado não tenha sido satisfatório, já que DiSalvo tem um currículo extenso como colaborador da Disney Animation, contabilizando participações em projetos excepcionais, atuando como chefe da equipe de animadores, supervisor de animação e animador em produções como Frozen: Uma Aventura CongelanteEnroladosBolt: SupercãoO Galinho Chicken Little (que tem na trilha sonora nomes como Elton John, Queen e Diana Ross). Na semana passada, ele veio ao Brasil para a pré-estreia do seu primeiro “filho”, escolhido para abrir a edição de 2019 da Comic Con Experience, e contou em entrevista à imprensa que a diferença entre Lego e Playmobil está no conceito. Para ele, o primeiro brinquedo é sobre montar e deixar na estante enquanto o outro é sobre “contar histórias”.

Playmobil narra, enfim, a história de Marla (Anya Taylor-Joy, em atuação exagerada) e seu irmão mais novo Charlie (Gabriel Bateman). Os dois usam a imaginação ao arquitetar suas aventuras com os bonequinhos. Mas a diversão deles é interrompida por um evento trágico e os dois precisam se adaptar a uma nova rotina. Até que um dia Charlie resolve fugir de casa e vai parar numa exposição de Playmobil. No local, um evento mágico transporta os irmãos para o universo em miniatura dos bonequinhos, onde diferentes cenários coexistem – como o velho oeste, a cidade futurista, a megalópole e o vale dos dinossauros, aos moldes do imaginário infantil, que subverte qualquer lógica e torna tudo possível. Charlie transforma-se em um boneco viking, é sequestrado por piratas e se separa de Marla. O objetivo dela vira reencontrar o irmão perdido. Para isso, contará com amigos corajosos como o divertido caminhoneiro Del, o agente secreto Rex Dasher (um misto de James Bond com o agente Ethan Hunt, de Missão: Impossível, dublado no original pelo eterno Harry Potter Daniel Radcliffe). Entre uma missão e outra na tentativa de resgatar o irmão vendido a um imperador romano, Marla também interpreta canções, que reproduzidas nos alto-falantes ensurdecedores das salas de cinema resumem-se numa experiência desconfortável (pelo menos para os adultos!).

Por isso, o insucesso de Playmobil deixa evidente que uma boa animação merece um bom roteiro. E os fãs dos bonequinhos, certamente, não se importariam em esperar por mais alguns meses ou até anos por uma história mais empolgante e menos decepcionante.

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Crime Sem Saída

Trama policial mostra a beleza noturna de Nova York mas se atrapalha com o ritmo inconstante do enredo

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação

A nova produção dos irmãos Russo, responsáveis pela direção dos dois filmes dos Vingadores (Guerra Infinita e Ultimato), é o policial Crime Sem Saída (21 Bridges, EUA. 2019 – Galeria Distribuidora). Estrelado por Chadwick Boseman (o Pantera Negra), o filme acompanha a saga do detetive da polícia de Nova York Andre Davis para encontrar dois assassinos de policiais.

A direção de Brian Kirk deixa claro desde a primeira cena que o sentimento que reinará neste filme é a tensão. Cenas de ação intensas, trilha sonora envolvente e a atuação fria de Boseman contribuem para a criação do universo de Kirk. Além de uma intensa perseguição policial, Crime Sem Saída é uma interessante imersão pela cidade de Nova York durante a noite, com toda sua beleza e peculiaridade.

JK Simmons e Sienna Miller reforçam o elenco e a força policial da trama. O primeiro, atuando como Capitão McKenna, não tem todo o seu potencial explorado. Em alguns momentos parece que está mais fazendo mais uma participação especial do que engajando ativamente na história.

O ritmo inconstante de Crime sem Saída atrapalha o envolvimento com o enredo. Cenas de ação mescladas com investigações muito enroladas dão sensação que o diretor queria causar um grande suspense sobre a reviravolta do final. Não funcionou. A todo instante o espectador sabe o que está acontecendo, como se tivesse dado uma espiada no roteiro.

Eis que o fim chega de maneira apressada. São apenas 99 minutos. Poderia ter sido usado mais tempo para aprofundar o desfecho e não deixar a sensação de que o que foi mostrado não convenceu. A justificativa usada pelo roteiro para explicar a motivação do antagonista é ruim. Faria mais sentido não ter justificativa alguma.

Crime Sem Saída junta elementos interessantes e atrativos para um bom filme policial. Conflitos internos, protagonista com defeitos, perseguição à noite, cenas de ação envolventes… Tudo isso está presente mas o produto final não convence 100% quem está olhando para a tela.