Music

Cazuza

Um olhar com o distanciamento do tempo sobre o cantor e compositor que morria há trinta anos e deixava marcas profundas na música brasileira

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Texto por Henrique Crespo

Fotos: Reprodução

E completam-se 30 anos sem Cazuza. Foi em 1990, numa manhã de sábado, no dia 7 de julho, que Agenor de Miranda Araújo Neto foi atropelado pelo trem da morte. O trem que cantou com voz falhando, em “Cobaias de Deus”, faixa de Burguesia, o álbum-despedida.  Lucinha Araújo, sua mãe, conta no livro Cazuza – Só as Mães São Felizes(escrito em parceria com a jornalista Regina Echeverria e publicado pela Editora Globo), que, na véspera, o filho a chamou com um fiapo de voz: “Mamãe, estou morrendo…”. Ela reagiu, indignada, dizendo para ele que não devia falar essas coisas. “Porra, mãe, eu tô morrendo é de fome. O que tem para rangar?”, o filho retrucou. Uma cena com a cara dele.

Caso a gente embarque nos exercícios especulativos sobre a possível vida presente de um artista que já morreu, como imaginar Cazuza nos dias de hoje? Difícil cravar o que diria ou como se posicionaria. Afinal, era um cara completamente imprevisível. Mas dá para apostar que aquela figura inquieta não caberia no Brasil atual.

O jovem tipicamente carioca, nascido e criado na zona sul, parte privilegiada da cidade partida, encontrou e se encontrou na música. A essa altura, todo mundo conhece a história que conta que Léo Jaime apresentou o amigo como candidato a vocalista da vaga que antes lhe fora oferecida, no recém-formado Barão Vermelho. Iniciava ali uma trajetória artística curta (de 1981 a 1990), mas impossível de ignorar. Algo como um fenômeno da natureza que passa causando efeito e deixando memória.

Cantor de voz rascante e bluesy, performer de formação teatral – e, no meio disso, o que se impunha, era sua verve letrista. Gravadas com o Barão, na carreira solo e por outros artistas. Deixou pouco mais de uma centena de registros, sem contar os vários poemas que ainda estão no baú e, quem sabe, ainda se transformarão em novas canções. Essas criações, na grande maioria em parceria com outros compositores, estão todas publicadas no livro compilação Preciso Dizer que te Amo (tamém assinado por Lucinha e Regina Echeverria, também editado pela Globo). Uma obra nem tão numerosa e nem tão pouca, porém de tamanho imensurável.

Um jogo divertido ao se embrenhar nela é pescar alguns versos e isolá-los. Funcionam como frases de impacto. É possível imaginá-las em camisetas, em postagens de rede sociais, até em cartazes de manifestações. Alguns deles parecem conter um livro inteiro de significados e reflexões. Tudo sem nunca deixar de soar como algo possivelmente dito numa mesa de bar. “Eu quero a sorte de um amor tranquilo/ Com sabor de fruta mordida/ Nós na batida no embalo da rede/ Matando a sede na saliva” (“Todo Amor que Houver Nessa Vida”, de Cazuza e Frejat); “Mais uma dose?/ É claro que eu estou a fim/ A noite nunca tem fim/ Por quê que a gente é assim?” (“Por que a Gente é Assim?”, de Cazuza, Frejat e Ezequiel Neves); “Nadando contra a corrente/ Só pra exercitar/ Todo o músculo que sente” (“Por Dia Nascer Feliz”, de Cazuza e Frejat); e “Raspas e restos/ Me interessam/ Pequenas poções de ilusão/ Mentiras sinceras me interessam” (“Maior Abandonado”, de Cazuza e Frejat), algumas entre tantas da época do Barão Vermelho, ilustram isso. Também da fase solo dá para pinçar trechos quase que aleatoriamente. “Não escondam suas crianças/ Nem chamem o síndico/ Nem chamem a polícia/ Nem chamem o hospício, não/ Eu não posso causar mal nenhum/ A não ser a mim mesmo” (“Mal Nenhum”, de Cazuza e Lobão); “As possibilidades de felicidade/ São egoístas, meu amor/ Viver a liberdade, amar de verdade/ Só se for a dois” (“Só se For a Dois”, de Cazuza e Rogério Meanda); “Meus heróis morreram de overdose/ Meus inimigos estão no poder/ Ideologia/ Eu quero uma pra viver” (“Ideologia”, de Cazuza e Frejat); “Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade!/ Pra essa gente careta e covarde/ Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade!/ Lhes dê grandeza e um pouco de coragem” (“Blues da Piedade”, de Cazuza e Frejat); e “Brasil mostra tua cara/ Quero ver quem paga pra agente ficar assim/ Brasil, qual o teu negócio?/ O nome do teu sócio?/ Confia em mim” (“Brasil”, de Cazuza, George Israel e Nilo Romero) são outros. E paramos por aqui porque a lista é grande.

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Foi no final de julho de 1985, na porta da gravadora Som Livre, pouco antes do Barão assinar o contrato para o quarto disco, que Cazuza comunicou sua saída. O filho único de João e Lucinha Araújo não parecia mais disposto a dividir atenção com uma banda e caiu fora, justamente quando o quinteto tinha virado um grande sucesso nacional. Maior Abandonado, o terceiro álbum deles, já estava com 100 mil cópias vendidas, quando o vocalista anunciou que estava fora. Mais uma cena com a cara dele.

Começava, então, o que podemos identificar como segunda fase da carreira de Caju (apelido que ganhara dos amigos). No mesmo ano da separação, lançou Exagerado, álbum que registrou três composições que – segundo o livro BRock – O Rock Brasileiro dos Anos 80, de Arthur Dapieve (Editora 34) – seriam gravadas no novo do Barão, caso tivessem seguindo o plano original. São elas “Boa Vida”, “Só as Mães São Felizes” e “Rock da Descerebração”, todas assinadas ao lado de Frejat – parceria esta que, desde o início, rendeu vários hits e clássicos e ainda iria se estender por toda a carreira do Cazuza. O álbum que lançou em 1987, Só se For a Dois, é uma espécie de continuação do primeiro solo. Ou seja, discos que ainda não definem com precisão o lugar do cantor e compositor no cenário da música brasileira. Claro que já deixavam explícito que o cara, mesmo solo – nunca sozinho, pois estabeleceu parcerias criativamente produtivas – estava acima da média. Os dois trabalhos renderam sucessos nacionais, momentos brilhantes e um repertório que ganhou versões e regravações de outros artistas. Por outro lado, ficam no meio do caminho entre deixar ou não o rock’n’roll pra trás.

Com Ideologia, Caju achou seu lugar, ou melhor, criou o seu lugar. O álbum de 1988 fincava a obra de Cazuza no cenário artístico brasileiro. É discoteca básica, é o clássico, o disco que achou o som do artista. Aquele que usa o rock com a conveniência maquiavélica, mas em essência é totalmente desprendido dessa fronteira. Não se faz nele um rock que se mistura à música brasileira, movimento que se anunciava nesse fim dos 80, mas sim uma MPB com linguagem pop que sabe fazer uso estratégico do rock. Sem falar no discurso, que é oportuno e afinado com o tempo. Gerou mais hits e clássicos.

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O disco ao vivo, lançado em 1989, é, provavelmente, a necessidade dele de sublinhar esse lugar. De brinde luxuoso, uma inédita. “O Tempo Não Pára”, canção que dá nome ao álbum e parceria de Cazuza com Arnaldo Brandão, é um torpedo certeiro, que pega a ideia de que a História se repete e manda um recado contundente, com reflexão nada leve sobre a vida. Uma música cheia de versos de forte impacto. O álbum é um registro da turnê do álbum anterior. Tour esta que foi um sucesso, mas rendeu muitas situações de tensão. Caju estava em tratamento, fazia algum tempo que  tinha sido diagnosticado com o HIV. E isso somado ao álcool e drogas, o deixava mais incontrolável ainda, como conta a mãe, no já antes citado livro Só as Mães são Felizes. Lucinha também diz que o filho declarou que, por não acreditar em vida depois da morte, queria viver todo o possível, chegar às últimas consequências. Nesse clima, Cazuza cuspiu – como protesto contextualizado – numa bandeira brasileira que foi jogada no palco. A repercussão na imprensa foi grande e nada boa. O mesmo livro lembra um fato curioso, mas que diz muito sobre o momento: a cuspida de Caju fez com que O Estado de São Paulo proibisse o nome do artista em suas páginas. Impossível não conectar isso com o fato de que neste show (e nesta turnê) Cazuza cantou “Brasil”, o sucesso que traz os seguintes versos: “Grande pátria desimportante/ Em nenhum instante eu vou te trair”.

O disco seguinte nasceu com o cantor e compositor já bastante debilitado de saúde. Burguesia é um legítimo e comovente registro do momento. Entre vinte canções, apenas quatro delas não traziam a assinatura dele. Foi lançado como álbum duplo. Irregular, com imperfeições, mas muito sincero e com alguns momentos arrepiantes, como a citada “Cobaia de Deus” (de Cazuza e Ângela Ro Rô) e “Quando Eu Estiver Cantando” (de Cazuza e João Rebouças). Um disco de despedida, carregado de honestidade.

Teve ainda Por Aí…, lançado em 1991. Como todo disco póstumo, é retalhado. São sobras de gravações de outros álbuns. A música que dá título ao álbum é uma nova versão da faixa do primeiro lançamento do Barão Vermelho. Aqui tem também o Cazuza em sua onda intérprete, no standard “Summertime” (Heyward e Gershwin), “Camila, Camila” (hit da banda gaúcha Nenhum de Nós) e “Cavalos Calados” (Raul Seixas).  De resto, são mais sete faixas com parceiros diversos. Cá entre nós, é um item só para colecionadores.

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Do que fez com os amigos do Barão Vermelho até as várias outras parcerias com tanta gente diferente, dá para encontrar alguns pontos em comum. Um deles é a capacidade de criar um ambiente, um cenário, cena que está intimamente ligada ao universo que ele circulava, o Rio de Janeiro da virada dos 1970 para os 1980 e por toda essa década. Além disso, nele estava o rock como espírito de época, mas as composições podiam ser vistas, em geral, como dor de cotovelo, samba-canção, música de fossa, o mundo da boemia. Algumas de suas criações poderiam ser ouvidas na voz de uma Maysa, por exemplo, sem causar estranheza. Duvida? Olhe isso: “Amor escravo de nenhuma palavra/ Não era isso que você procurava” (“Baby Suporte”, de Cazuza, Maurício Barros, Pequinho e Ezequiel Neves); “Se todo alguém que ama/ Ama pra ser correspondido/ Se todo alguém que eu amo/ É como amar a lua inacessível” (“Não Amo Ninguém”, de Cazuza, Frejat e Ezequiel) e “O teu amor é uma mentira/ Que a minha vaidade quer/ E o meu, poesia de cego/ Você não pode ver” (“O Nosso Amor a Gente Inventa”, de Cazuza, João Rebouças e Rogério Meanda).

Para o jornalista Zeca Camargo, no início de 1989, assumiu publicamente que estava com AIDS. Notícia que virou capa da Folha de S.Paulo de 13 de fevereiro. A coragem em assumir (lembrem-se era o ano de Mil Novecentos e Oitenta e Nove, ainda meses antes da queda do Muro de Berlim!) e a forma como lidou com as consequências dessa exposição são quase que continuações ou sintomas da própria obra do artista. Ou seja, cenas com a cara dele.

O compositor Cazuza já foi e ainda é muito gravado e regravado. A grande lista de intérpretes de sua obra tem a característica de ser heterogênea. De Ney Matogrosso – o primeiro – passando por Cássia Eller – uma das mais próximas ao espírito da obra – e seguindo por, entre outros, Marina Lima, Gal Costa, Ângela Maria, Simone, Sandra de Sá, Joanna, Supla, Bebel Gilberto e Léo Jaime, a lista revela que suas músicas não se fecham em um pequeno universo.

Caju, que morreu com 32 anos de idade, já foi tema de filme, peça e livro. Cazuza – O Tempo Não Pára, longa-metragem dirigido por Sandra Werneck, foi lançado em 2004. Antes, em 2000, com sucesso de público, sua obra inspirou uma história original que deu origem ao musical Cazas de Cazuza, escrito e dirigido por Rodrigo Pitta, e que há pouco tempo ganhou nova montagem. Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”, é um sucesso teatral escrito por Aloisio de Abreu e dirigido por João Fonseca, que estreou em 2013. Lucinha Araújo junto com a jornalista Regina Echeverria publicaram dois livros, os dois citados anteriormente aqui no texto: uma biografia pelo olhar da mãe e uma compilação com todas as letras dele.

Longe de esgotar o assunto, todo esse material gerado pela vida e música dele, ajudam a entendê-lo. Tem ainda uma lacuna aí, porém para o documentário. Quem se habilita?

Music

Brujeria

Letras altamente politizadas, humor negro e zoações com Trump: oito motivos para não perder o show da banda em Curitiba

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Texto por Rodrigo Juste Duarte

Foto: Divulgação

A banda Brujeria está em turnê pelo Brasil e vai se apresentar em Curitiba nesta sexta-feira de feriado (15 de novembro) no Jokers Pub (mais informações sobre o concerto estão aqui). Conhecido até por quem não costuma apreciar música extrema, o Brujeria – que está celebrando trinta anos de existência – tornou-se uma das mais conhecidas formações do grindcore mundial.

Para quem ainda não conhece, aqui vão oito motivos para não perder uma apresentação da banda, em especial a desta noite na capital passagem, onde o Brujeria toca pela segunda vez.

Humor negro

Tudo começou como uma piada, reunindo músicos amigos de várias bandas conhecidas como Napalm Death, Faith No More e Fear Factory. A brincadeira unia vocais guturais em espanhol (por conta de Juan Brujo, um dos poucos membros que restaram da formação original), instrumental brutal e letras que faziam referência a cultura mexicana subversiva, narcotráfico e até satanismo – além do mistério em torno das identidades dos músicos, que usam pseudônimos. Imagine agora tudo isso potencializado em seu álbum de estreia Matando Gueros, de 1993, que teve capa censurada em vários países por ter uma foto tirada de um jornal sensacionalista com a imagem de uma cabeça decepada em um suposto ritual (até hoje há controvérsia sobre a tal notícia, mas a cabeça se tornou um personagem apelidado de Coco Loco, que é referenciado em várias artes da banda). A intenção era chocar e ela foi cumprida. A fama da banda ganhou o mundo.

Virada sócio-política

A partir de 1995, com o lançamento do segundo álbum Raza Odiada, a banda adquiriu um tom mais denunciativo, partindo para uma pegada sociopolítica, abordando a partir de então seguintes questões sobre preconceito sofrido pelos latinos. Nisso sobrou para políticos americanos dos mais estúpidos, que não tinham a menor vergonha de latir suas ideias retrógadas. Exemplos? Pete Wilson, ex-governador da Califórnia, e o hoje presidente estadunidense Donald Trump.

Trolando Gueros 

Quando aparece alguém fazendo ou falando baboseiras dignas de receber o selo “inimigo dos mexicanos”, pode esperar que, mais cedo ou mais tarde, o Brujeria vai compor algo a respeito para zoar o sujeito. E esta vai ser com um senso de humor negro peculiar da banda. O ex-governador da Califórnia Pete Wilson ganhou duas músicas (“Raza Odiada” e “California Uber Aztlan”). Donald Trump, ainda quando estava em campanha para eleição presidencial, foi homenageado em “Viva Presidente Trump”. Neste ano, já em campanha extraoficial para a reeleição, voltou a ser fonte de inspiração para a banda na letra e na capa do single “Amaricon Czar”. Em tempo: no último álbum, Pocho Aztlan (2016), uma das imagens presentes é do vergonhoso muro mexicano erguido na fronteira entre os Estados Unidos e México, onde está pichado o sobrenome do republicano que hoje ocupa a Casa Branca.

Set list de clássicos

O cartaz da turnê brasileira informa que o show contará com os clássicos dos quatro álbuns. Se repetirem o mesmo repertório que já tocaram nas primeiras cidades da turnê brasileira, o público será contemplado com diversas faixas dos álbuns Raza Odiada e Brujerismo (2000), somadas a algumas poucas do trabalho de estreia (“Matando Gueros” e “Desperado”) e do mais recente Pocho Aztlan (“Satongo” e “No Aceptan Immitaciones”), além de músicas de duas músicas novas (“Amaricon Czar” e “Lord Nazi Ruso”). Só é uma pena que não haja espaço para muitas do último disco, talvez por ele não ter sido muito marcante na carreira do grupo. Mas ainda assim lá estão suas pérolas. Se o público pedir a plenos pulmões, quem sabe eles não tocam o hino “Mexico Campeon” (feito para a última Copa do Mundo) ou a releitura “California Uber Aztlan”?

Juan Brujo

Todos os integrantes têm outras bandas. Menos o vocalista, que integra o Brujeria com exclusividade. Vários músicos são americanos de origem hispânica. Mas Juan Brujo é mexicano de fato. Ele sempre se apresenta com o rosto coberto por um lenço com a bandeira do México, mantendo sua identidade em sigilo por décadas. Boa parte do universo do Brujeria é escrito por Brujo nas letras da banda. É uma figura icônica.

Choke

A noite de 15 de novembro no Jokers não se resume apenas ao show do Brujeria em Curitiba. A produção caprichou na escalação de bandas de abertura, trazendo ao palco um verdadeiro trio de ferro da música extrema de Curitiba. Isso inclui o Choke, que conta com vocais e letras do também escritor e filósofo Ottavio Lourenço (se você já esteve na Biblioteca Pública do Paraná e foi atendido por um bibliotecário que vinha trabalhar todo dia com uma camiseta do Brujeria, pode ter certeza que era ele). A banda teve início em 1998 e de lá para cá já fez nada menos do que quinze turnês levando seu metal crossover para países da América do Sul. A discografia conta com seis álbuns lançados, além de um split.

Jailor

Há quem diga que esta é a reserva moral do thrash metal de Curitiba. Aliás, um thrash devastador, diga-se de passagem. Assim como o Choke, também iniciou atividades em 1998, chegando em 2005 ao primeiro álbum Evil Corrupts. Dez anos depois, o grupo lançou o segundo, intitulado Stats Of Tragedy. Ambos possuem produções dignas das bandas do primeiro escalão do gênero no Brasil, com um cuidado precioso tanto nas músicas quanto nas gravações. O Jailor já abriu shows de grandes nomes do metal mundial, como Destruction, Exciter, Exodus, além de tantas outras estrangeiras e nacionais.

Necrotério

Provavelmente o maior representante do metal extremo paranaense. Sua temática é splattergore. No ano passado completou 25 anos, acumulando no currículo três álbuns, um DVD e duas turnês europeias (tendo tocado na Alemanha, Bélgica, França, República Tcheca, Croácia, Eslovênia, Áustria, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Itália). Ainda nos primórdios, seu nome repercutiu pelo Brasil quando o grupo gravou um videoclipe comandado pelo diretor de filmes trash Peter Baiestorf.

Movies

Capitã Marvel

Filme estrelado por Brie Larson mistura anos 1990 com os dias de hoje em um processo de início de tentativa de filão do gênero de super-heróis

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Texto por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop)

Foto: Marvel/Disney/Divulgação

Houve um mundo sem esta febre de filmes de super-herói. Era legal, eu lembro. Havia filmes de ação bacanas, sem que fosse preciso invocar personagens de quadrinhos para viverem situações fantásticas, beirando o absurdo. O novo longa da Marvel é a prova de que este filão está bem próximo do esgotamento. Os próprios executivos já notaram isso e farão uma renovação a partir do próximo capítulo da saga dos Vingadores, com a exibição de Vingadores – Ultimato no mês que vem. Muito por conta desta trama central, o longa da Capitã Marvel veio para tentar juntar peças e pontas nos roteiros. Fosse realizado há uns dez anos, Capitã Marvel (Captain Marvel, EUA, 2019 – Marvel/Disney) seria um longa melhor do que hoje. A história da piloto Carol Danvers, cheia de reviravoltas, questões, lapsos de memória e resoluções bombásticas, soa como uma realização feita às pressas, ainda que o roteiro e a ideia de levar a personagem para as telas seja antiga.

O filme tem acertos, mas também tem problemas. Brie Larson, por exemplo, é ótima atriz, a gente sabe. Ela pena para se encontrar na pele da Capitã ao longo do filme, mas oferece algumas boas cenas no meio do caminho, que acabam jogando a favor da situação da própria personagem, perdida entre memórias e realidade. Nicky Fury, um dos heróis mais legais da Marvel, participa ativamente da trama, fazendo de Capitã Marvel o filme em que ele mais aparece. Pena que seja como uma espécie de alívio cômico terráqueo, diante da profusão de seres espaciais que surgem na telona. Mesmo assim, Samuel L Jackson pode ser visto atuando e não recitando frases com clima tenso aqui e ali.

Os coadjuvantes de luxo surgem como … coadjuvantes. Jude Law e Annette Bening têm papéis importantes para a história, mas suas presenças parecem mais como aquele movimento manjado de trazer atores dramáticos para o universo de quadrinhos e cultura pop. Funciona no passado, causa espécie hoje. Pelo menos em mim.

O fato é que os personagens dos quadrinhos já não são os mesmos, claro. Seu surgimento nas telas do planeta significa – como não poderia deixar de ser – uma readaptação de suas características visando trazê-los para os dias de hoje. Não adianta reclamar e exigir fidelidade dos roteiros feitos por trintões nerdificados. Em certos casos, isso pode até ser legal. A Capitã Marvel, por conta do roteiro e desta repaginação perigosa, surge numa década de 1990 cheia de signos. Tem pôster de Mellon Collie And The Infinite Sadness, o terceiro disco dos Smashing Pumpkins colado num muro. Tem a locadora de vídeo Blockbuster. Tem momento reflexivo ao som de “Only Happy When It Rains”, do Garbage. Tem pancadaria ao som de “Just A Girl”, do No Doubt. Tem Brie Larson usando uma camiseta do Nine Inch Nails na maior parte do filme. E tudo isso não chega a ser ruim.

Como produto típico de 2019, Capitã Marvel tem empoderamento feminino, seja nas cenas, seja no próprio roteiro. Tem questão política de refugiados feios que parecem maus e mocinhos bonitos que parecem bons. Tem aceno leve a filmes do passado, como Top Gun. E tem piadas – talvez em excesso – para amarrar tudo com certa leveza.

A gente sai do cinema com a sensação de ter comigo num fast food e isso é o máximo que estes filmes podem fazer pelo espectador, salvo poucas exceções.

Music

Roger Waters

A história por trás dos muros que o ex-Pink Floyd quer derrubar em seus polêmicos shows em época de eleições presidenciais no Brasil

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Kate Izor/Divulgação

Observação: O texto abaixo foi publicado pelo MONDO BACANA, com exceção de seus três últimos parágrafos no dia 24 de setembro de 2015

A fama deu um nó na cabeça de Roger Waters. Enquanto o Pink Floyd crescia cada vez mais no decorrer dos anos 1970, ele se fechava. Construía seus próprios muros regidos pelo egocentrismo, intransigência e uma vontade louca de deter sempre o controle de tudo. Afastava-se assim de todos, inclusive dos próprios companheiros de banda. Conforme a década chegava ao seu final, unidade era uma palavra que pouco existia. Obcecado pelo controle artístico e criativo e guiado por rigidez e inflexibilidade, Roger acabou dando o maior passo para transformar o quarteto em uma disfarçada carreira solo sua. Dave Gilmour, Rick Wright e Nick Mason, sem muito espaço, praticamente viraram músicos de apoio em The Wall, uma ópera rock concebida solitariamente pelo baixista, mergulhado nos fantasmas de sua própria trajetória de vida. Tanto que o guia da turnê do disco ressaltava bem a divisão: “escrito e dirigido por Roger Waters; executado pelo Pink Floyd”.

A grandiloqüência de The Wall, lançado em 1979, tratou de esfacelar o que ainda restava da banda. A turnê – que procurava reproduzir visualmente toda a história contada pelas canções do álbum duplo – resumiu-se em apresentações em quatro cidades europeias separadas por um considerável intervalo de tempo. Construir um gigantesco muro separando banda da plateia para depois derrubá-lo deu prejuízo. Financeiro e emocional. Tanto que o Pink Floyd fez mais apenas mais um disco antes da relação interna azedar de vez. Waters saiu da banda esperando que a tal atitude levasse ao seu fim. Gilmour, Wright e Mason decidiram continuar em frente sem seu principal compositor que, revoltado, processou os ex-companheiros pelos direitos do nome. A cisão judicial terminou com um acordo entre as partes: a trinca poderia seguir em frente sob a alcunha de Pink Floyd desde que concordasse em repassar os direitos integrais de The Wall para o seu criador.

Se a criação de The Wall serviu como uma terapia pessoal para o baixista enfrentar de frente todos os problemas da vida, ela desembocou em uma carreira solo modesta e assombrada pela rixa com os velhos amigos da adolescência. Os quatro só voltariam a se reunir no mesmo palco em uma única vez e por um motivo especial: o festival beneficente Live 8 (leia aqui a resenha do evento), que em 2005 celebrava em alguns pontos do mundo os vinte anos do Live Aid. Foram apenas algumas canções, mas o suficiente para fazer brilhar os olhos dos fãs de todos os tempos da banda, que ansiavam por ver os integrantes em paz e tocando juntos novamente.

O Live 8 serviu também como ponto de partida de um processo de aproximação de Roger com a obra do Pink Floyd. No ano seguinte, o baixista resolveu levar para a estrada um espetáculo no qual executava na íntegra a grande obra-prima da banda, The Dark Side Of The Moon (lançado em 1973 e o álbum de rock mais vendido de todos os tempos). Com boas respostas de público e crítica, ele partiu para um passo ainda mais ambicioso: refazer a antiga proposta da malfadada turnê de The Wall, desta vez passando por vários países de quatro continentes e contando com todos os benefícios e possibilidade obtidos através da evolução da tecnologia com o passar dos anos. No dia 15 de setembro de 2010, a cidade canadense de Toronto tornou-se o ponto de partida para uma excursão que duraria três longos anos e ultrapassaria a marca das duas centenas de apresentações (leia aqui a resenha sobre um dos shows realizados no Brasil, em abril de 2012). O espetáculo, estimado em orçamento de quase 40 milhões de dólares somente para ser levado ao palco, bateu todos os recordes destinados a um artista solo na história do showbiz e, apenas durante as escalas nos EUA e Canadá, obteve retorno de quase 200% de todo o investimento.

Claro que a gloriosa segunda chance dada à turnê de The Wall não ficaria nisto. Waters e o diretor visual do show Seth Evans documentaram em filme diversos shows (o áudio foi gravado na Inglaterra; as imagens foram captadas no Canadá, Argentina e Itália). Junto ao mergulho musical do baixista em sua vida, a dupla provdenciou ainda um documentário, não exatamente de bastidores dos shows, mas de pequenos intervalos da perna europeia, nos quais o artista vai literalmente em busca de seu passado. Visita o túmulo do avô (morto em combate na Primeira Guerra Mundial) e do pai que também não chegou a conhecer (Eric Fletcher Waters faleceu na batalha da praia italiana de Anzio, durante a Segunda Guerra, apenas cinco meses após o nascimento de Roger) e refaz alguns dos passos dele e de colegas militares pela França e Itália. Aproveita também para reencontrar alguns parentes mais próximos para reconstituir um pouco da história da família e tentar entender um pouco mais sobre o que aconteceu e todos os reflexos provocados em sua vida desde a mais tenra infância. Então, depois ser exibido em alguns festivais, Roger Waters The Wall, misto de musical de documentário, chega aos cinemas de todo o mundo no final de setembro em 2015. No Brasil, a rede de cinemas UCI fechou a distribuição e exibição da obra em três sessões.

Durante quase três horas o espectador é convidado a entrar no clima de terror e tensão de The Wall. O cardápio temático envolve relações familiares, bombardeios de aviões de guerra, governos autoritários, personagens grotescos (representados por grandes balões e conservando os traços da criação original assinada por Gerald Scarfe), boa dose de dramaturgia ligada à música, a construção gradual de um muro que se estende por 73 metros de comprimento, homenagens a recentes vítimas do terrorismo sob todas as suas formas e manifestações (o brasileiro Jean Charles de Menezes é citado em imagens, discursos e versos de canções) e iconografias atuais (claro que as câmeras de segurança da CCTV que espionam Londres inteira não poderiam faltar!). E, claro, composições clássicas como “Another Brick On The Wall” (em três partes), “Mother”, “Is There Anybody Out There?”, “Comfortably Numb” e “Run Like Hell” dão um molho ainda mais especial a tudo.

E se as imagens do show são grandiosas, a narrativa costurada pela viagem pessoal de Roger pelo seu passado ajudam a decodificar signos, intenções e mistérios por trás da concepção de The Wall. De quebra, para aqueles mais fanáticos pela história do Pink Floyd, Waters ainda oferece uma interessante “coda” logo após os créditos. Durante dez minutos, ele e Mason se juntam para responder perguntas enviadas pela internet por floydmaníacos dos quatro cantos do planeta. Claro que o bom humor e da ironia (sobretudo por parte do baixista) se constituem em itens providenciais para que os pontos mais polêmicos da trajetória da banda sejam abordados de forma superficial e fiquem apenas na tangente. Contudo, o falatório proporcionado pela dupla não deixa de ser um ótimo complemento posterior para entender melhor todo que foi e significa até hoje aquela  obra que, de forma grandiloquente e autoexplosiva, pôs fim à carreira criativa da banda e marcou todo um período em que o rock flertou mais com egos e arenas do que com os ouvidos e a intimidade de quem realmente ama o gênero.

Corta para 2018

Durante todo o mês de outubro, Roger Waters está no Brasil para faze vários shows de sua atual turnê, Us + Them, na qual apresenta algumas canções de seu mais recente álbum, Is This The Life We Really Want? (2017). Produzido por Nigel Godrich (Radiohead, Beck, U2, R.E.M., Paul McCartney), este é o primeiro trabalho de estúdio do músico depois de um longo intervalo de 25 anos. Contudo, não abre mão de tocar os velhos clássicos gravados por ele no Pink Floyd. E mais: persegue obsessivamente o ideal de luta contra o fascismo pelo mundo, inclusive agora nomeando no telão alguns líderes da extrema direita. Claro que o nome de um certo candidato à presidência brasileira entrou na lista, o que acabou dividindo o público e gerando altas polêmicas, inclusive com o absurdo fato de gente saindo do show para fazer um BO na delegacia de polícia contra Roger. Apenas pelo fato dele ter se posicionado politicamente.

Até a publicação deste texto, Us + Them já passou por estádios de futebol de São Paulo (Allianz Parque), Brasília (Mané Garricha), Salvador (Fonte Nova) e Belo Horizonte (Mineirão). Falta passar ainda por três cidades: dia 24 no Rio de Janeiro (Maracanã), 27 em Curitiba (Couto Pereira – ingressos já esgotados) e 30 em Porto Alegre (Beira-Rio). Vai pegar a semana decisiva anterior ao segundo turno das eleições e acabará nos dias seguintes ao pleito marcado não apenas por discursos de ódio, acusações de fake newsdisparadas em massa pelo WhatsApp e opiniões polarizadas como ainda uma possível intervenção do poder judiciário que poderá mudar seu resultado.

Portanto, além de colocar mais lenha na fogueira, Roger Waters ainda corre o sério risco de ir embora do Brasil e fazer as pessoas não pararem de pensar no título de seu novo disco um dia sequer pelos próximos anos. Afinal, depois das urnas, será mesmo aquela vida que nós realmente queremos?

>> Mais informações sobre todos os shows da parte brasileira da turnê Us + Them você encontra aqui