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Lauryn Hill – ao vivo

Cantora desconstrói seu repertório e divide Porto Alegre ao meio em sua primeira apresentação no retorno ao Brasil

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Texto e foto por Fábio Soares

Ela tinha contas a acertar com o Brasil. Afundada em problemas pessoais, concebeu uma desastrada apresentação em São Paulo há nove anos e, sem lançar material inédito há dezessete, retorna ao país com sua turnê comemorativa de duas décadas do multiplatinado Miseducation, o álbum que abalou 3/4 do mundo em 1998. Doze anos depois de sua última passagem pela capital gaúcha, o show em Porto Alegre foi anunciado sem alarde no início de março e em nada se comparou ao pandemônio de ingressos disputados a tapa e esgotados há meses para o show em São Paulo, no próximo dia 3. Faltando uma hora para o início da apresentação, na noite do Dia do Trabalhador (1º de maio) ainda era possível adquirir entradas nas bilheterias da Pepsi One Stage. Não se viam longas filas, tampouco superlotação da arena.

Com quase meia hora de atraso, Mrs. Lauryn Hill surgiu no palco com vestido longo e touca alaranjada na cabeça. Sua banda, formada por oito integrantes com um trio de hacking vocals incluso, superpovoa o espaço de dimensões diminutas. Coube a “Lost Ones” abrir os trabalhos. A segunda faixa de Miseducation tem punch gigantesco no álbum mas perde sua força ao vivo, sem sua a característica base de scratches. A qualidade de som da casa, muito distante de ser um primor, também não ajudou e grande foi a dificuldade dos técnicos em emulá-la. O clássico “Everything Is Everything”, cujo clipe assombrou o planeta há vinte anos, equivocadamente foi posicionado como segunda canção do set liste o resultado assustou: com andamento desacelerado e sem sua indefectível batida marcial, decepcionou os ouvidos mais atentos. O público, no entanto, não ligou nem um pouco e mais parecia preocupado em reverenciar a cantora, que sinalizava a todo instante aos técnicos reclamando de algo (muito provavelmente do som e da porcaria de acústica do local!).

O show prosseguiu e a presença de palco de Lauryn impressionava: às vésperas de completar 44 anos, sabe que não precisa de longos deslocamentos para se fazer presente. Sabe também que o repertório de sua principal obra fala por si: “Superstar”, “When It Hurts So Bad” e “Every Ghetto, Every City” automaticamente manteriam o alto nível da apresentação que gradativamente crescia, sobretudo em sua segunda metade – com destaque para “Forgive Them Father”, “Ex-Factor” e “To Zion”, eterna homenagem a seu primogênito filho, elevando sua interpretação a um máximo grau de impessoalidade.

Mas foi em “Killing Me Softly” que os contornos de catarse ganharam forma. O eterno clássico dos Fugees foi entoado a plenos pulmões por uma plateia completamente entregue aos pés da cantora. Semblantes emocionados eram vistos pelos quatro cantos da casa. Percebendo que o jogo está ganho, a banda estende sua execução que bateu à porta dos oito minutos.

A partir daí, só festa! “Can’t Take My Eyes Off You” é a carta na manga que todo artista gostaria de ter. O eterno clássico de Frankie Valli fez a audiência balançar e foi a deixa para a espetacular “Doo Wop (That Thing)” transformar a Arena Pepsi numa gigantesca pista de dança. Até o pessoal dos bares dançou com o verso “Guys you know you’d better, watch out (Watch out!)/ Some girls, some girls are only, about (About!)” A atuação impecável do trio de backing vocalscontinuou em “Ready Or Not” (mais uma dos Fugees), evidenciando o entrosamento da cantora com seu time. O som, finalmente equalizado a contento, permitiu que a sobreposição de vocais se tornasse perceptível. Jamais poderemos saber qual o verdadeiro sentimento de Lauryn ao revisitar a repertório do grupo que a alçou ao estrelato e ao lado dos ex-companheiros (e eternos desafetos) Wyclef Jean e Pras Michel. O fato é que resgatá-lo é uma necessidade, tendo em vista seu escasso material solo.

E foi justamente mais uma dos Fugees, a responsável por encerrar a noite: “Fu-Gee-La” não perdeu sua magnitude mesmo após vinte e três anos de seu lançamento. Sua execução porém, foi irregular. Faltam as batidas de Jean e Michel e mesmo negando, o “fantasma Fugees” sempre estará presente e tatuado na pele da cantora.

Após 90 minutos, opiniões divididas. Houve quem achou que a falta de punch em algumas canções não permitiu que a apresentação atingisse um grau de excelência (eu) e houve quem saiu da Arena Pepsi com a alma lavada somente com a onipresença da cantora. Será que o show de São Paulo será diferente? Veremos. Resta saber se a Lauryn 2019, que dividiu o Rio Grande em dois, dividirá a capital paulista também.

Set List: “Intro”, “Lost Ones”, “Everything Is Everything”, “Superstar”, “When It Hurts So Bad”, “Final Hour”, “Every Ghetto, Every City”, “Forgive Them Father”, “Ex-Factor”, “Can’t  Take My Eyes Off You”, “To Zion”, “The Miseducation Of Lauryn Hill”, “Doo Wop (That Thing)”, “Killing Me Softly With His Song” e “Ready Or Not”. Bis: “Fu-Gee-La”.

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Arquivo MB: Prodigy – ao vivo (2011)

Liam Howlett, Keith Flinn e Maxim Reality mostraram em Curitiba o quão rock’n’roll pode ser a música eletrônica

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: iaskara

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Inale, inale. Depois exale, exale. Você é vítima, afinal. E o Prodigy mostra que possui o veneno e também o antídoto. É assim uma apresentação ao vivo do grupo inglês que acaba de fazer a sua segunda passagem por terras brasileiras demonstrando que, após duas décadas, eles ainda têm muito o que incendiar.

O primeiro dos dois shows por aqui foi na madrugada de sexta (9 de novembro) para sábado (10), durante o evento que comemorou os dez anos da Vibe, um nightclub de música eletrônica da capital paranaense. Por falta de um local mais adequado para o show (leia-se “a Pedreira Paulo Leminski continua interditada pelo Ministério Público para eventos musicais de grande porte”), o palco para Liam Howlett, Keith Flint e Maxim Reality foi armado sob o galpão do Expotrade, um local para feiras e convenções que de vez em quando também abriga concertos. Apesar da inadequação do local para o tipo de performance (dava para ver as lâmpadas de luz fria no teto acima dos ingleses e o som estava baixo demais para a potência do trio) e do atraso de mais de uma década em relação ao auge do grupo, não teve como não se levar pela empolgação e arrastão sonoro provocado pelo set baseado no mais recente lançamento, o CD e DVD World’s On Fire, gravado ao vivo em uma grande arena londrina.

Logo de cara, Howlett e seus asseclas (os dois vocalistas mais os dois músicos de apoio – o baterista Leo Crabtree e o guitarrista Rob Holliday, que de vez em quando também segura o contrabaixo) já mostravam que não tinham vindo para dar moleza aos curitibanos. Depois da introdução, atacaram com a premiére mundial de uma música ainda inédita em disco. “A.W.O.L” é uma sigla de significado dúbio: pode ser interpratada tanto como “American Way Of Life” (estilo de vida estadunidense) como “Absent Without Official Leave” (ausente sem permissão oficial, termo criado e ainda bastante utilizado no âmbito militar). Nas mãos do Prodigy virou uma pancadaria punk, com guitarras duelando com os sintetizadores nos barulhos e nas harmonias e a bateria mais reta que um fã do Prodigy poderia ouvir de sua banda preferida. Isto é, nada dos breakbeats acelerados do hip hop, que tornaram a banda um dos estandartes do subgênero eletrônico que ficou conhecidos nos anos 1990 como big beat.

Em “A.W.O.L.”, Maxim e Keith já faziam a sua parte, pulando sem parar, ocupando todos os espaços vazios do palco e inflamando o público com berros e gritos de comando. Logo depois o jogo tornou-se ganho com o megabit “Breathe” vindo na sequência. A trinca de sucessos ainda foi complementada por “Omen” e “Poison” (um technoragga resgatado lá do início de carreira do trio e que não costuma aparecer muito nos sets da atual turnê). Pronto. Receita eficaz de como começar de maneira arrebatadora um show. A plateia estava completamente na mão, dominada por completo e sem muito tempo para respirar como Maxim manda na letra de “Breathe”.

O miolo do set foi dominado por obras mais recentes, lançadas no último álbum de estúdio (Invaders Must Die, de 2009), já lançado selo próprio do grupo. Com pegada rock bem menor e abusando dos timbres de sintetizadores e batidões perfeitos para academias de ginástica, foi o momento que mais agradou à turma do step e do spinning. Por falar nisso, enganou-se quem achou que a vinda do Prodigy a Curitiba levaria ao local o público mais rock’n’roll da cidade. Era incrível a multiplicação de marombados e piriguetes por metro quadrado, talvez a maior já vista na cidade durante este ano. Ficava até divertido ver o deslocamento de muitas destas garotas, sempre montadas na altura dos saltos e com roupas pequenas e justas para realçar seios e outras partes do corpo. O movimento das danças era completamente descoordenado da velocidade das BPMs e muitas mãos jogadas para o alto não sabiam se faziam o chifrinho do heavy metal, os dedos abertos do hang loose, as armas apontadas dos rappers ou tudo ao mesmo tempo. Teria se saído melhor quem preferisse apontar apenas o dedo médio para cima, mas, pensando bem… A atitude ROCK que sobrava no palco faltou em demasia naquela multidão pouco punk e mais sintonizada com o line up de DJs locais e estrangeiros que se estenderia até o dia clarear.

O miolo pode ter sido morno, aquecido apenas com um “Firestarter” aqui e outro “Voodoo People” ali (duas faixas dos anos 1990, a fase mais rocker do Prodigy) e uma boa versão dubsteppara “Thunder”. Contudo, o final deu uma esquentadinha com mais duas faixas extraídas de The Fat Of The Land, a obra-prima lançada pela banda em 1997). “Diesel Power” e “Smack My Bitch Up” são duas faixas com origem nos versos escritos pelo rapper Kool Keith, do grupo eightie Ultramagnetic MCs. Na última, o povo cantou em coro as duas frases que compõem a letra (“Change my pitch up/ Smack my bitch up”).

Na volta para o bis, três das quatro canções normalmente reservadas para este objetivo. Se faltou a melhor delas, “Everybody In The Place”, da época raver dos primeiros anos do Prodigy, a presença de outras duas contemporâneas (“Thier Law” e “Out Of Space” – esta, mais uma boa queda de Howlett e seu MC Reality pros lados do ragga) compensaram a barriga do set list e deram mais um gás em quem ficou até o final da performance dos dois vocalistas hiperpilhados e o cérebro musical quase sempre escondido por trás dos sintetizadores e computadores.

Set List: “Intro”, “A.W.O.L.”, “Breathe”, “Omen”, “Poison”, “Thunder (Dubstep)”, “Warrior’s Dance”, “Firestarter”, “Run With The Wolves”, “Voodoo People”, “Omen (Reprise)”, “Invaders Must Die”, “Diesel Power”, “Smack My Bitch Up”. Bis: “Take Me To The Hospital”, “Their Law”, “Out Of Space”.

>> Leia aqui a notícia sobre a morte de Keith Flint e a trajetória do Prodigy

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Warpaint + Deerhunter + Mercury Rev – ao vivo

Edição 2018 do Balaclava Fest contou também com shows de Metá Metá, Jaloo, Marrakesh, Barbagallo e MOONS

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Warpaint

Texto por Fabrizio Zorzella

Fotos: Fabricio Vianna/Balaclava/Divulgação (Warpaint e Mercury Rev) e Marta Ayora (Deerhunter)

Num domingo frio de novembro em Sampa (4 de novembro), o selo Balaclava Records promoveu mais um dos seus ótimos e intimistas festivais. A Audio foi palco da farra e viu em seu espaço uma mistura de indie rock, dream pop, psicodelismo, electro, jazz e folk para ninguém reclamar. Diferentemente da versão do ano passado, em que o público não pareceu comparecer em peso, dessa vez os vários espaços dentro da excelente casa de shows estavam tomados. Me lembrou a vibedas edições do Popload Festival de 2014 e 2015 (faltou só aquele último ambiente com o caminhão de Heineken, né?).

As portas se abriram as 16 horas para, meia hora depois, no palquinho menor (o Club), a banda folk MOONS já abrir os trabalhos. Acabei não chegando a tempo de acompanhar. Falha minha! Depois, como já diria a velha expressão… quem não tem Tame Impala caça com algum amigo do Kevin Parker nos seus projetos solo. Né, não? Sendo assim, às 17 horas, o baterista francês de turnê do grupo australiano, Barbagallo, abriu o palco principal (o Stage), com um dream pop psicodélico cantado na sua língua materna. Eu vi, mas poucos viram as nove deliciosas canções tocadas. Na sequência, o Marrakesh, de Curitiba, se apresentava no palco Club. Divulgando seu mais recente álbum, o excelente Cold As Kitchen Floor, lançado pela própria Balaclava, os caras misturam três guitarras com sax! Me senti num show do King Krule.

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Mercury Rev

Depois, voltando ao Stage, vieram os americanos e velhos indies de guerra do Mercury Rev, voltando ao país depois de tocar somente em Curitiba em 2005. Eles tocaram músicas do álbum do ano de 1998 para a NME, a obra-prima da banda, Deserter’s Songs. Com os instrumentos altíssimos, chegando até ao vocal de Jonathan Donahue ficar inaudível por alguns momentos, os caras torraram o cérebro da porção mais velha do público que foi ao festival exclusivamente para vê-los. Músicas como “Holes” ou “Opus 40” soam tão magistrais e psicodélicas como na versão gravada de duas décadas atrás. Foram músicas e fim de papo.

O paraense Jaloo deu as caras com seu tecnobrega antes dos três headliners entrarem em ação (um pouco atrasado, em função de falha no sistema elétrico do Club). Misturou singles e faixas do primeiro álbum, #1, e ainda aproveitou para “testar” músicas ainda desconhecidas do grande público. Um bom ato para se requebrar. Mas da minha parte, confesso, após a quinta música já estava me dirigindo ao outro palco para ver o “meu” headliner.

A próxima atração do Stage era nada mais, nada menos que o indie do indie Deerhunter. Banda de Atlanta, Georgia, que tem como seu frontman o gigante Bradford Cox. São sete álbuns na bagagem e mais na iminência de ser lançado. O grupo americano estava estreando no Brasil. Alegria? Acho que a felicidade de verdade só para quem estava do lado de cá da plateia, porque naquele mesmo domingo já havia sido noticiada, via rede social, a morte do antigo baixista dos caras, Josh Fauver (escrevi esse texto na quarta-feira, três dias depois do show; logo depois do show no Brasil foi anunciado o cancelamento o resto da turnê sul-americana).

Verdade seja dita: mesmo com um sentimento péssimo rondando as cabeças deles, os caras mandaram demais (na minha opinião, se soubessem do fato antes da viagem para cá, teriam cancelado tudo!). Set list enxuto, mas cheio de pérolas. O que dizer de uma banda que pode se dar ao luxo de emendar na sequência “Revival”, “Breaker” e “Desire Lines”? Arranjaram ainda um tempinho de tocar o novo single, ‘Death In Midsummer’, além de voltarem para um bis e fazerem uma justa homenagem ao ex-baixista, tocando “Nothing Ever Happened”, escrita pelo mesmo. Havia visto o Deerhunter no Primavera Sound em 2016, mas esse foi disparadamente melhor. Foi também um show para o eterno amigo/colega. Quem presenciou se deu muito bem.

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Deerhunter

Após os “caçadores de cervos”, o Metá Metá fechou o palco Club. Pequeno para eles, já que mereciam o Stage! O triozaço paulista de jazz rock (que, ao vivo, toca como um quinteto) e liderado pela Juçara Marçal nos vocais, tocou faixas dos três álbuns de estúdio. Seus arranjos são fortemente influenciados por ritmos africanos e da MPB, com destaque para a derradeira canção “Oba Ina”. Bom para quem não se importou em pegar um lugar pior na última atração da noite para de fato ver algo profundamente original e dançante. Por mais Metá Metás no mundo!

Ai chegou a vez do “headliner principal”. Também dos Estados Unidos, grupo Warpaint, formado por Emily Kokal (guitarra, teclados e voz), Theresa Wayman (guitarra, teclados voz), Jenny Lee Lindberg (baixo e voz) e Stella Mozgawa (bateria e voz), veio pela terceira vez ao Brasil mostrar todo o seu rock contemplativo. Com a pista do palco Stage completamente abarrotada para vê-las, elas abriram o show com os riffs da música auto-intitulada para começar a viagem em grande estilo. Como não divulgam nenhum álbum novo nessa volta (já haviam vindo com a turnê do disco Heads Up em 2017), mesclaram bem os sons dos quatro trabalhos da carreira.

Confesso que algumas músicas são um pouco “a mais” para mim. Mas quando acertam a mão soam incríveis. “Love Is To Die” e “So Good” são bons exemplos de acertos. Na parte final do show rolou um #EleNão em uníssono (depois de uma camisa com o tema ser lançada para o palco) e uma tentativa de explicação do que isso significava para as musicistas! Emily disse que todos ficaríamos bem porque tínhamos uns aos outros que estavam ali (#divou), mas que por enquanto o importante era nos divertirmos. Então, elas emendaram o hit máximo da banda, “New Song”.

Ainda rolou “Disco//Very”, mas me dei de presente o final do festival com a música anterior. Felicidade define.

Set List: Mercury Rev: “Holes”, “Tonite It Shows”, “Endlessly”, “Opus 40”, “Hudson Line”, “Goddess On A Hiway”, “The Funny Bird”, “Pick Up If You’re There”, “Delta Sun Bottleneck Stomp” e “The Dark Is Rising”.

Set List Deerhunter: “Cover Me (Slowly)”, “Agoraphobia”, “Revival”, “Breaker”, “Desire Lines”, “Death In Midsummer”, “Take Care”, “Snakeskin”, “Helicopter”, “We Would Have Laughed”. Bis: “Nothing Ever Happened”.

Set list Warpaint: “Warpaint”, “Elephants”, “Bees”, “The Stall”, “Love Is To Die”, “Intro”, “Keep It Healthy”, “Beetles”, “Drive”, “Krimson”, “So Good”, “Billie Holiday”, “Above Control”, “New Song” e “Disco//Very”.

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Johnny Hooker – ao vivo

Filho legítimo da Tropicália, pernambucano tremula a bandeira da liberdade em show do novo disco em Curitiba

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Texto e foto de Abonico R. Smith

Sexta-feira, 27 de abril de 2018. No palco do Teatro Marista, em Curitiba, já na parte final do show, Johnny Hooker não resiste à tentação e faz a analogia, ressaltando como ele acha bom cantar na cidade, “justamente a mesma onde um grande ícone do Brasil encontra-se preso”. Enquanto a plateia começa a entoar o coro de Lula Livre!”, ele continua, com  seu habitual bom humor. “Independentemente dos processos, quer se queira ou não, ele é um ícone. Isto não mudar. Quem não concorda com isso, apenas respira!”.

Um show de Johnny Hooker é – e sempre foi – um ato essencialmente político. Não me refiro à política partidária ou aquela que reduz às pessoas de maneira simplista como sendo de esquerda, direita ou centro. Esta foi, aliás, a única menção ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva em toda a noite. Mas esteve longe de ser a única menção ao tema chamado liberdade. Pelo contrário. No palco, Hooker ergue e tremula esta bandeira o tempo todo. A liberdade de ser, agir, pensar como quiser.

E vai falando sobre essa tal liberdade em recados dados diretamente ao público, falando sobre a força feminina no dia a dia, os haters que teimam em gastar o seu ódio pessoal na internet, os segredos desse país descobertos por quem vai de caminhão percorrendo as estradas brasileiras, a música de cunho pessoal que sempre o emociona na hora de cantar. Em toda a sua mise en scène. Nos vários figurinos trocados a cada punhado de músicas. Na comunicação com a plateia representada pelas mais variadas combinações entre identidade e orientação sexual. No pedido apenas gestual, já na primeira canção do set list, para todo mundo se levantar das cadeiras, quebrar os protocolos solenes do confortável e simpático do teatro e se amontoar no gargarejo, colado ao palco, juntinho a ele, e dançar sem parar.

Esta proximidade física com seu público reforça a identidade musical marcada por letras cantados na primeira pessoa, quase sempre contando histórias de paixões e amores, dores e sofrimentos, perdas e superações – e que, justamente por estas características conectam-se de prontidão com os fãs, que respondem cantando verso por verso emocionadamente e a plenos pulsões. Johnny Hooker é assim nos seus dois álbuns (a estreia Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!, de 2015, e o mais recente Coração, de 2017). Explosivamente emocional, pungente, confessional. O tom se equilibra entre as faias do primeiro e do segundo. As mais antigas ainda com um gosto amargo na boca, pontuadas pela tristeza e pelo lamento. Já as mais novas – que marcam o período de vitória contra uma forte depressão que o abateu por um longo tempo – sugerem um Johnny Hooker revigorado, apagando do coração os relacionamentos quebrados (“Página Virada”, uma espécie de “versão brasileira” do espírito da letra de “I Will Survive”, acreditando em si próprio e no seu poder de conquistar e fazer as coisas (“Corpo Fechado”), celebrando seus grandes ícones (Caetano Veloso vira até nome de música; David Bowie serve como elo sugestivo para uma reflexão a respeito da morte em “Poeira das Estrelas”) e cantando o seu “renascimento” embalado por esticadas guitarreias que o levam ao rock (“Touro”).

E é justamente este up emocional da nova fase que dá ao show de Johnnny Hooker maior variedade rítmica. O set list do show mistura rumba, ska, rock, bolero, jazz, blues, pop, soul, samba, samba-reggae, ijexá. Claro que, como todo bom pernambucano, ele deixa que tudo acabe escandalizado e desbundado em frevo. Em frevos, aliás, porque emenda ao final do show um medley das faixas derradeiras de seus discos.

Claro que para o bis fica guardado o hit maior de Hooker. “Flutua” é uma balada bluesy que sintetiza a principal bandeira política do cantor e grande parte de seus fãs: a da liberdade de sexual. No caso desta música, os personagens são explicitamente dois homens, como diz a letra. Mas o verso final do refrão (“Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”) é de um poder inacreditável. Criativo (alguém aí se lembra de uma outra frase tão ousada, composta em bom português, que reúna quatro verbos no infinitivo?), espiritual (vira um mantra quando executada ao vivo por Johnny e sua banda e cantada coletivamente pela plateia inteira), transformador (depois desta experiência quem haverá de confrontar isso).

Toda essa geleia geral com intensa variedade musical, questões de gênero, coração pulsando inquietude e inconformismo e todo o seu desejo intenso por liberdade transforma Johnny, exato meio século depois, em um filho legítimo da revolução proposta pela Tropicália. A sociedade de nosso país encontra-se também tão tolhedora e conservadora quanto aquela do pós-guerra. Justamente por isso, o nome de Hooker representa um poderoso artífice dessa nova onda tropicalista que toma conta da música autoral brasileira. É sempre válido lembrar também que ele só tem dois discos e um futuro imenso pela frente. Isso tudo é muito bom, Basta segurar a ansiedade e aguardar as próximas novidades deste pernambucano.

Set List: “Intro”, “Touro”, “Alma Sebosa”, “Corpo Fechado”, “Chega de Lágrimas”, “Caetano Veloso”, “Volta”, “Você Ainda Pensa?”, “Página Virada”, “Amor Marginal”, “Poeira de Estrelas”, “Coração de Manteiga de Garrafa”, “Eu Não Sou Seu Lixo”, “Boato”, “Escandalizar/Desbunde Geral”. Bis: “Flutua”.