Movies

Medo Profundo: O Segundo Ataque

Sequência de história de dois anos atrás chega aos cinemas com elenco desconhecido mas cheio de sobrenomes famosos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Paris Filmes/Divulgação

Esqueça as leis da física. Esqueça a lógica. A sequência do terror survival Medo Profundo: O Segundo Ataque (47 Meters Down: Uncaged, Reino Unido/EUA, 2019 – Paris Filmes) menospreza a capacidade intelectual do espectador mas nem por isso deixa de proporcionar alguns sustos. Rasos, por sinal. De profundo mesmo só o mar da Península de Yucatán, no México, onde se passa a aventura de quatro garotas (duas irmãs, como no primeiro filme) que decidem mergulhar para conhecer um recém-descoberto santuário maia.

O filme traz sobrenomes famosos entre as atrizes novatas. A modelo Sistine Rose Stallone faz sua estreia no cinema. E adivinha quem é o pai dela? Essa é fácil: Sisitine é a segunda filha de Sylvester, o Rambo, o Cobra, com a também modelo americana Jennifer Flavin (para ver que ela seguiu mesmo a profissão dos pais). Corinne Foxx é filha do ator e cantor Jamie Foxx. Há também a novata Brec Bassinger que, apesar do sobrenome, não é filha de Kim. No elenco também há um ator jovem chamado Khylin Rhambo, que, obviamente, não é filho do Sly. Para fechar, integram o cast John Corbett, Nia Long, Sophie Nelisse, Brianne Tju e o carioca radicado nos Estados Unidos Davi Santos.
O primeiro Medo Profundo, de 2017, também dirigido pelo inglês Johannes Roberts, entrou para a lista de mais um daqueles filmes sobre tubarão que surgiram na esteira do clássico de Steven Spielberg. O longa virou hit, apesar da premissa um tanto absurda: duas irmãs vão passar as férias num praia paradisíaca mexicana e decidem entrar numa daquelas gaiolas de mergulho usadas por turistas para ver os tubarões-brancos mais de pertinho, mas a gaiola arrebenta do barco que a sustenta e as garotas afundam em alto-mar a exatos 47 metros da superfície.

follow-up do ataque de tubarões surge dentro do mesmo contexto com as irmãs Mia (Sophie Nélisse) e Sasha (Corinne Foxx) que moram na península paradisíaca no México. O pai delas é interpretado por Corbett, o mergulhador que descobre o tal santuário do povo maia submerso. Certo final de semana, ele propõe que as filhas façam um passeio típico de turista, até como estratégia para aproximá-las (já que as duas não se bicam!) e observar os tubarões num daqueles aquários submersos. Na fila da atração, Mia acaba encontrando suas rivais da escola. Sasha e mais duas amigas convidam-na para uma aventura mais empolgante: mergulhar no cemitério subaquático.

Por um momento, o suspense nas primeiras cenas debaixo d’água gera a expectativa de que o filme trará surpresas. Porém, as decepções são grandes e várias situações não tardam a incomodar, como a voz límpida das garotas mesmo usando máscaras de mergulho e o fato de o mar parecer um piscinão já que nenhum peixe surge nos primeiros minutos. Quando você começa a se perguntar sobre onde estariam os peixes, surge a resposta através de um único exemplar de nadadeiras cego. A explicação é que o peixe evoluiu para se adaptar às profundezas, como os abissais. As garotas, porém, muito ingênuas desconheciam que ali também era habitat de tubarões, que também são cegos, mas não bobos como elas. As garotas viram iscas numa armadilha e precisam lutar contra os peixões e a falta de oxigênio.

A primeira cena de ataque, por mais previsível que seja, ainda é capaz de provocar certo susto. Como praticamente toda a trama se passa debaixo d’água, o diretor não tem para onde fugir e até consegue ser criativo em algumas sequências – como na cena em que um mergulhador é abocanhado com Roxette ao fundo. Os demais jump-scares se tornam ineficientes. Aliás, alguns chegam a provocar risos de indignação. Afinal, como ser mordido por um tubarão-branco sem ao menos ter a perna amputada?

O filme, enfim, mostra que ser filho de peixe grande não é suficiente e que as atrizes carecem de mais aulas de interpretação. Numa das sequências finais, é nítido quando Mia dá risada enquanto a irmã se esforça pra sobreviver (vamos entender que foi um riso de desespero…). Um ponto positivo é para o make à prova d’água das garotas (queria saber a marca!) e os ferimentos, que pareciam reais.

Apesar de ter no elenco herdeiras de astros de Hollywood, essa seqüência não merece mais do que três estrelas. Nem o tubarão, coitado, é tão assustador assim. Talvez se fosse em 3D escaparia de ir água abaixo.

Music

Seu Jorge – ao vivo

Cantor deixa o groove de lado em Curitiba e faz uma bela apresentação contida e minimalista mas nem por isso menos animada

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Texto e foto por Janaina Monteiro

A música popular brasileira é recheada de Jorges. Tem o Ben Jor, com seu genial samba rock. O Mautner, do maracatu atômico. O Vercilo, das canções românticas. Outro Jorge não leva sobrenome artístico, mas é dono de uma voz tão potente e de uma história de vida tão incrível que alcançou os quatro cantos do mundo. Este Jorge usa apenas um pronome de tratamento na frente, abreviação de Senhor. Seu Jorge foi Nosso Jorge em Curitiba no primeiro dia de agosto de 2019, onde apresentou um “senhor” show de voz e violão, acompanhado pelo sambista e mestre do cavaquinho Pretinho da Serrinha.

Quem está acostumado com o groove de Seu Jorge, tendo inclusive um naipe de metais, conheceu um outro lado do multiartista. Ele, Pretinho e mais um DJ chegaram de mansinho e conduziram uma apresentação contida, mas nem por isso pouco animada. Em se tratando de Seu Jorge, mais pra quê? Sentado ou de pé, ele tem suingue e seu vozeirão é suficiente para animar a plateia. Mesmo minimalista, o cantor conseguiu dar sentido a um repertório eclético – capaz de reunir o que há de melhor no terreno da música popular – e marcado por contrastes. Vai de samba de raiz, cover de Racionais MCs, revival de canções do Farofa Carioca (banda da qual ele era integrante nos anos 1990), clássicos da bossa nova e até Tim Maia no derradeiro número. Houve, claro, alguns tropeços, tanto por conta do comportamento da plateia quanto da estrutura do set list. Mas nada que tolhesse o carisma e a competência do artista que enaltece o cotidiano das “minas” e dos “manos” para um público repleto de “burguesinhos” e “burguesinhas”.

Essa discrepância já tomava forma na chegada à Ópera de Arame, onde o público era recepcionado por música clássica (para combinar com o nome do local!) até o início do show, às 21h15. O erudito, então, deu a vez ao samba e suas vertentes. E a luz negra que iluminava o teatro se refletiu no palco. Seu Jorge entrou vestido com calças e agasalho amarelos, como um leão, e logo agarrou uma xícara de chá – com sachê à mostra – para espantar o frio (e olha que aquela não foi uma das noites mais geladas neste inverno curitibano).

Em instantes, engatou clássicos da MPB e quebrou a expectativa de todos, que cantaram “Samba da Minha Terra”, de Dorival Caymmi, e a sua “Carolina”. Mesmo sentado, Jorge dava vazão à famosa malemolência dos sambistas, charme que deixava um grupo de amigas, atrás de mim, derretidas. Em vez de cantar, elas não paravam de rasgar elogios à “pérola negra”. “Ah, eu pegava ele”, dizia uma delas…

A terceira canção foi “Negro Drama”, dos Racionais. Na plateia, um grupo de mulheres negras se levantou e empunhou as mãos para cima. Jorge aproveitou a ocasião para lembrar a presença feminina no samba, dando o exemplo de Leci Brandão. “As mulheres estão no front agora”, disse. Foi um dos únicos momentos contestadores em que o artista se levantou da cadeira e largou o violão. Depois seguiu homenageando a Mangueira com um samba de Cartola, “Preciso me Encontrar”, e “Você Abusou”, de Antônio Carlos e Jocafi. Reverenciou, também, João Gilberto num momento especial, ao convidar sua filha Flor de Maria para cantar “Retrato em Branco e Preto”. Foi uma doce homenagem a um dos pais da bossa, apesar de a composição ser de Chico Buarque e Tom Jobim. “Mas esta música estava no repertório de João”, justificou o cantor. Também foi chamado ao palco o trompetista Azeitona (Paulo Henrique) com um belo porém quase inaudível solo.

Logo que as músicas mais animadas começam a invadir o teatro, a plateia – jovem ou idoso, branco ou negro – deixava a timidez de lado e se levantava para sacolejar. Menos ele, Jorge, que continuava sentado, tocando seu violão, escorregando num acorde vez ou outra.  Então, a Ópera se enchia de boemia, alegria e simpatia do músico, que conversava sem parar, contanto causos sobre música. Só faltavam mesmo a mesa de bar e o churrasco. Porque a bebida não era problema para os presentes, apesar da restrição clara no ingresso.

Quando chegou a hora do sucesso “É Isso Aí” (versão de “The Blower’s Daughter”, tema do filme Closer – Perto  Demais), Jorge mostrou que dá conta do recado sem Ana Carolina. Cantou com tanto vigor que, provavelmente, os versos foram ouvidos em toda a vizinhança. Apesar de quase engolir o microfone, sua voz não agredia, apenas abafava a do público que tentava acompanhá-lo.

Para a alegria dos fãs, cantou “Quem Não Quer Sou Eu”, “Tive Razão”, “Amiga da Minha Mulher” (dando um show de interpretação!), “Mina do Condomínio” e “Burguesinha”. De covers teve também “Mas Que Nada” (do então Jorge Ben e que ficou conhecida no exterior com Sérgio Mendes) e “Chega de Saudade”, marco inicial da bossa nova, feito por Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

E veio mais bossa no bis. Parte do público que já estava aquecido – como as “burguesinhas do condomínio” que estavam atrás de mim – não conseguiu entrar no clima de “S’Wonderful” e “Dindi”. Muitos conversavam em voz alta, de pé, ensejando pedidos de silêncio. Seu Jorge permanecia compenetrado, dedilhando seu instrumento. Outros foram embora antes mesmo do gran finale. Estes perderam a contagiante “Felicidade” (ou nossa versão tupiniquim de “Happy”), do álbum Música Para Churrasco II, e “Não Quero Dinheiro”, clássico de Tim Maia. Só no finalzinho é que o cantor ficou em pé e deu aquela sacudida no estilo James Brown, ao som do genuíno funk.

Seu Jorge, batizado assim pelo falecido Marcelo Yuka, tem sobrenome, sim senhor: ele é Jorge Mário da Silva. Goste dele ou não, o fato é que o músico representa um tremendo case de sucesso. Negro, pobre, nascido em Belford Roxo, região metropolitana do Rio de Janeiro, ele perdeu o irmão assassinado e, depois disso, passou três anos vivendo como mendigo. Lembro que fiquei impressionada quando assisti a uma entrevista dele no programa do Jô Soares (ainda nos tempos de SBT) na qual relatava como fora resgatado das ruas e entrara em contato com a música e o teatro, até se tornar um dos artistas brasileiros mais conhecidos mundo afora, inclusive com diversas atuações no cinema nacional (como em Cidade de Deus) e internacional (A Vida Marinha Com Steve Zissou, dirigido por Wes Anderson, para o qual escreveu catorze versões em português do repertório de David Bowie). Aliás, a vida de Jorge daria um belo filme. Radicado nos Estados Unidos, ele, há anos, viaja o mundo representando a música popular brasileira.

Music

Racionais MCs

Oito motivos para você não perder a passagem por Curitiba da turnê que celebra a trajetória de três décadas do grupo

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Texto por Rodrigo Juste Duarte

Foto: Kalus Mitteldorf/Divulgação

Maior nome do hip hop no Brasil, o Racionais MCs completa trinta anos e comemora a data com a turnê Racionais 3 Décadas (ou 3D), que passa pela capital paranaense neste sábado, 17 de agosto, com show na Live Curitiba (mais informações aqui).

Formado em 1988 no bairro Capão Redondo, na periferia de São Paulo, o grupo foi ganhando destaque no cenário nacional a cada álbum lançado, sempre emplacando músicas que se tornaram clássicos. A estreia foi na coletânea Consciência Black Vol. 1, de 1989, da qual participaram com a faixa “Pânico na Zona Sul”. O mesmo disco também contava com “Tempos Difíceis”, assinada como sendo de Edi Rock e KL Jay, mas na real uma música dos Racionais (até se tornou o primeiro videoclipe do grupo!). Depois vieram os álbuns Holocausto Urbano (1990) e Raio-X do Brasil (1993). No finalzinho de 1997 foi lançado Sobrevivendo no Inferno, um marco não só no mundo do rap mas na música popular brasileira como um todo, por tirar o estilo da “quebrada” e o colocar nos maiores patamares da cultura nacional. Na sequência, vieram apenas dois discos de estúdio, Nada Como Um Dia Após O Outro Dia (2002) e Cores e Valores (2014), além de canções fora de álbuns como “Mil Faces de um Homem Leal (Marighella)” e “Mente do Vilão”, ambas em 2012.

O Mondo Bacana apresenta agora oito motivos pelos quais você não pode perder este show histórico.

Set list de clássicos

No final do ano passado, uma notícia bastante comentada foi o show de retorno dos Racionais MCs, realizado no Credicard Hall (São Paulo) após um anunciado período de pausa nas atividades que não durou nem um ano. A apresentação reuniu um set list surpreendente, que apresentava em ordem cronológica boa parte dos clássicos do grupo desde o início da carreira (como “Pânico na Zona Sul”, “Tempos Difíceis”, “Voz Ativa”, “Beco sem Saída” e “Mano na Porta do Bar”), até chegar a músicas mais recentes. Esse show serviu de base para compor o repertório desta turnê 3 Décadas.

Sobrevivendo no Inferno

Pelo que já foi conferido nos shows anteriores da turnê, o álbum Sobrevivendo no Infernoé o que mais tem músicas incluídas no set list. Chamou bastante atenção a nova introdução de “Capítulo 4, Versículo 3”, que traz uma narração com estatísticas sobre violência contra negros no Brasil. Para a atual turnê, estas informações foram atualizadas e ampliadas com novos indicadores, que lamentavelmente mostram que o panorama ainda não é dos mais favoráveis, apesar dos avanços sociais nos anos passados desde o lançamento do disco. Ainda sobre este que é o mais icônico álbum do grupo: ele foi selecionado como leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp, virou um livro pela editora Cia. das Letras; e foi dado de presente ao Papa Francisco pelo então prefeito de São Paulo Fernado Haddad quando este participou de um seminário no Vaticano, em 2015.

Banda de apoio

Além da dobradinha entre MCs e DJs, formato clássico das apresentações de rap, nesta turnê os Racionais são acompanhados por uma numerosa banda, composta por doze músicos. Tem naipe de metais, teclados, percussão, bateria, baixo e duas guitarras! Isto até então era algo inédito nos shows do grupo. Mano Brown já havia se apresentado com banda, mas nas apresentações de seu álbum solo de black musicBoogie Naipe, lançado em 2016. Agora é a vez de experimentar o formato com o rap dos Racionais MCs.

Megaestrutura 

Ficou impressionado com o show de lançamento do último álbum Cores e Valores, que tinha no palco o cenário de uma fortaleza? Em Curitiba, o concerto foi apresentado no Spazio Van, em 2015. Independentemente de ter uma cenografia ou não, as apresentações dos Racionais contam com uma infraestrutura gigantesca no palco, com projeções em um enorme telão em sincronia com as músicas (em certos momentos, com imagens servido de apoio ou introdução para as próprias canções), iluminação poderosa e uma grande quantidade de músicos sobre o palco. O resultado é uma apresentação que não deixa nada a dever para qualquer artista da música brasileira.

Oportunidade rara

Nos últimos anos, o Racionais tem feito shows bem espaçados. Quando eles aparecem para tocar na sua cidade é melhor aproveitar, pois eles podem demorar para voltar. Essa turnê de três décadas começou em 8 de junho e vai até 12 de outubro, passando por apenas oito capitais brasileiras. O grupo já se apresentou em Brasília, Florianópolis, Recife e Salvador. Depois de Curitiba (no próximo sábado), os quatro seguirão para Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo.

Formação sólida

Em 30 anos de trajetória, o Racionais mantem a mesma formação, o que é admirável. Foi na antessala de uma corretora de valores onde o ainda jovem Mano Brown chegou em KL Jay (ambos office boys da empresa) com a ideia de montar o grupo de rap. Brown também convocou para a empreitada seu primo Ice Blue e o amigo Edi Rock, que na época trabalhava como servente de pedreiro. Não é qualquer formação que consegue manter os mesmos integrantes em tanto tempo. Muitos dizem que fazer parte de um grupo musical é como estar em um casamento, com seus altos e baixos e a dificuldade para gerenciar tantas situações adversas com o objetivo de manter uma união. De tempos em tempos o Racionais costuma dar uma pausa nas atividades, além de vir fazendo shows mais esporádicos. Isto é bom para que retorne com fôlego renovado e brinde os fãs com performances grandiosas.

Público variado

Das três décadas, nas duas últimas pôde-se observar uma plateia que vai além dos fãs de rap vindos de classes sociais desfavorecidas (em sua maioria, afrodescendentes), que se veem representados nas canções do grupo. O público é bastante diverso. Um fã do Racionais pode ter as mais variadas origens, independentemente da cor da pele ou da classe social a que pertence. E o melhor é que nesta diversidade há muita gente com inclinação para se engajar socialmente, o que é bastante positivo, além de condizente com o discurso das músicas.

O lado social

A influência do quarteto não se reflete apenas na música, mas na sociedade brasileira. Mais do que artistas, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay são ativistas sociais. Temas como desigualdade social, racismo, violência (da polícia, do Estado e do crime organizado) são constantes. Suas letras, por mais incômodas e até chocantes que sejam, são acima de tudo reflexivas.