Music

Strokes

The New Abnormal apresenta tons de nostalgia e melancolia mas ainda não é capaz de fazer a banda reviver toda a maestria dos dois primeiros álbuns

strokes2020mb

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Divulgação

Fãs de rock tem a péssima mania de rotular novas bandas como “salvadora” do gênero. Algo um tanto quanto preconceituoso, musicalmente falando, e ingênuo. Esse pensamento de que um estado puro do rock precisa ser resgatado tem o poder de conturbar e até afundar muitas carreiras. O Strokes, quando surgiu, sofreu com a pressão do título de messias. O que poderia ser uma benção de fãs e críticos provou ser uma maldição quando a banda não conseguiu entregar trabalhos tão interessantes quanto os dois primeiros álbuns.

Quase vinte anos após a estreia, o grupo nova-iorquino lançou seu sexto álbum de estúdio, The New Abnormal (Cult/RCA Records). Foram sete anos de um hiato precedido pelo desastroso Comedown Machine. E a banda liderada por Julian Casablancas tinha muito a provar para seus sempre esperançosos fãs e para uma exigente mídia especializada.

De cara já é possível constatar que o novo trabalho é muito melhor que o antecessor. Os vocais de Casablancas – também o dono do selo pelo qual o quinteto faz seus discos agora – também melhoraram. Os falsetes estão mais certeiros, o que melhora muito a experiências das canções. A primeira faixa, “The Adults Are Talking”, tem o som centrado no baixo, uma abordagem diferente dos principais hits da banda.

No geral, o trabalho aborda sentimentos de nostalgia e melancolia. É fato que são temáticas já conhecidas de trabalhos anteriores, mas em The New Abnormal elas tomam outra proporção. Para uma banda que sempre foi apontada como a ressurreição do Velvet Underground e o “novo antigo”, a conformidade de que o passado nunca retorna em “Brooklyn Bridge To Chorus” soa catártica. “And the ’80s bands? Oh, where did they go?”, Julian canta. Se o passado nunca volta, porque voltaria na música?

Os sintetizadores sempre foram amigos do som do grupo e aqui não é diferente. Muitas faixas como “At The Door” e “Ode To The Mets” carregam a mistura do som tradicional das guitarristas com a modernidade do eletrônico. Em uma homenagem aos ídolos, o Strokes inspirou-se em várias canções já famosas para produzir The New Abnormal. Por exemplo: “Bad Decisions” é uma reescrita (de menor qualidade) de “Dancing With Myself”, hit de Billy Idol.

O álbum começa promissor, mas se perde em canções que poderiam ter sido revisadas mais algumas vezes antes da versão final. Não soa pronto e essa não parece ter sido a intenção.  Se repensado mais vezes, tinha chances de ser grande, com canções mais polidas e quem sabe uma faixa a menos (“Selfless” é uma balada completamente desnecessária!).

The New Abnormal faz um bom trabalho em redimir um desastroso passado recente. Infelizmente, o grupo não conseguiu atingir toda a qualidade da qual é capaz e o mediano não é bom o bastante para quem já provou ser grande logo no início. O Strokes permanece um eterno refém do hype do início dos anos 2000. Enquanto outras bandas contemporâneas conseguiram sair da caixinha e encontrar novos caminhos, a carreira dos nova-iorquinos parece ainda estar presa e assombrada pelos primeiros elogios que receberam.

strokesthenewabnormalcover

Music

Rita Ora

Oito motivos para não perder o show da cantora, que aproveitará a vinda ao Lollapalooza Brasil para se apresentar pela primeira vez em Curitiba

ritaora2019MB

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Divulgação

Rita Ora irá se apresentar pela primeira vez em Curitiba no dia 2 de abril. Aproveitando sua visita ao país para o festival Lollapalooza, a cantora estenderá a estadia e fará uma visita a capital paranaense (mais informações sobre este evento você tem aqui). Por isso, o Mondo Bacana elaborou uma lista com oito motivos para não perder o concerto “solo” da popstar de etnia albanesa, nascida em Kosovo e radicada no Reino Unido desde o primeiro ano de idade.

Chancela de Jay-Z

Em 2008, quando Rita estava procurando por uma gravadora foi feita uma reunião com o rapper Jay-Z, dono da Roc Nation. O magnata do hip hop gostou tanto da cantora que assinou contrato com ela no mesmo dia e vendeu sua imagem como a de “nova Rihanna”.

Nova oportunidade no país

Sua primeira e última visita ao Brasil foi sete anos atrás, mas foi uma passagem bem apagada. Sua vinda foi por conta da ação de marketing de uma loja. O que deixou a cantora com vontade de fazer mais apresentações no país.

Muitas parcerias

Além de faixas solo, Ora também coleciona um grande número de parcerias. Requisitada e respeitada por seus companheiros de profissão, já participou de gravações de Iggy Azalea, Sofia Reyes, Tiësto, Avicii, Charli XCX e contou com a participação de Liam Payne, Cardi B, Bebe Rexha, Kygo e Chris Brown em músicas de sua autoria.

O novo álbum

Seis anos após o lançamento de Ora, Rita soltou em 2018 seu segundo disco, Phoenix. Já em uma nova gravadora, a cantora recebeu muitas críticas positivas da mídia especializada, incluindo a nota geral de 76 no Metacritic.

Set list equilibrado

Além da divulgação das músicas de seu mais novo trabalho de estúdio, também podemos esperar a execução dos maiores hits de Rita Ora. Faixas do início de carreira como “This Is How We Do (Party)”, “R.I.P.” e “I Will Never Let You Down” devem figurar no set list dos shows por aqui.

Vocais impecáveis

Não é incomum o público se decepcionar com as performances ao vivo dos cantores. Entretanto, este não é o caso de Ora. Ela já provou diversas vezes ter a mesmo gogó nos estúdios e nos palcos, proporcionando sempre um completo espetáculo.

Padrão estético

Não é possível saber qual será o formato do show que a cantora trará para Curitiba, mas é certo que seguirá o belo padrão estético dos outros que faz na Europa e Estados Unidos. Luzes, projeções, roupas combinando se juntam às músicas, tornando a experiência mais interessante e imersiva

Interações com o público

Rita Ora é muito conhecida por sua simpatia. Quando está cantando, também dedica muito tempo para conversar com seus fãs, contar histórias, dividir um pouco mais sobre sua vida. Tudo para deixar a plateia mais próxima dela.

Music

Silva

Cantor capixaba transforma em disco seu show formado por resgate de clássicos da axé music baiana

silvablodosilva2019mb

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Breno Galtier/Divulgação

O músico Silva é do Espírito Santo, mas tem um pezinho no estado vizinho, a Bahia, que gerou um dos ritmos mais genuinamente brasileiros, o axé. Pertencente a uma geração que cresceu embalada por hits de Banda Eva, Banda Mel, Banda Beijo, Chiclete com Banana, Ara Ketu e Olodum, Silva não nega a baianidade nagô presente em seu estilo. Depois de lançar um tributo a Marisa Monte e o autoral Brasileiro, no qual flerta com vários ritmos, o cantor rodou o país com o show Bloco do Silva, cantando ao lado de nomes que brotaram do axé, como Daniela Mercury e Ivete Sangalo.

A apresentação em Vitória, sua terra natal, o projeto se transformou num álbum ao vivo, lançado pela Som Livre, traduzindo-se num tributo merecido a bandas que revelaram algumas das principais estrelas da música popular brasileira, principalmente vozes femininas.  Mais que um aquecimento para o próximo carnaval, o lançamento de Bloco do Silva dá um ar de nostalgia e serve como um resgate da maior festa popular brasileira, que hoje é uma mistura híbrida de funk com sertanejo e pagode em versões de axé.

O repertório com dezenove faixas foi escolhido entre as favoritas de Silva e nos remete àquele velho LP, CD ou K7 com as “melhores da axé music”. Bloco do Silva inicia com a “A Cor é Rosa”, uma evidente homenagem ao gênero, no melhor estilo Caetano Veloso e que foi composta para Brasileiro (lançado no fim do ano passado, este disco mostra um Silva que mergulha de cabeça na MPB, mesclando ritmos nativos, como bossa nova, sempre flertando com batidas eletrônicas).

Depois da abertura autoral, o cantor embala uma série de sucessos radiofônicos das décadas de 1980 e 1990. A Banda Eva surge com “Me Abraça”, “Beleza Rara” e “Alô Paixão”, este um dos primeiros hits da então quase irreconhecível Ivete Sangalo. Ara Ketu é representado com duas músicas: “Ara Ketu é Bom Demais” e “Mal Acostumada”. O axé mais raiz surge nas releituras de “Eu Também Quero Beijar”, lançada em 1981 pelo guitarrista Pepeu Gomes e “Toda Menina Baiana”, de Gilberto Gil. Dessa leva mais saudosista, Caetano é lembrado em “Não Enche”, “A Luz de Tieta” e “Meia Lua Inteira”. Esta última canção é de Carlinhos Brown, que na época (começo dos anos 1990) era percussionista dos shows de Caetano. Também há uma composição de outro Veloso, o filho Moreno, “Deusa do Amor”.

Silva também ressuscitou o Olodum e um pot-pourri com hits das bandas Mel e Beijo. Claro que também não poderiam faltar Chiclete Com Banana e Daniela Mercury. De novidade ainda há mais uma canção autoral que Silva gravou com a cantora pop Anitta – que, aliás, fica bem melhor sem a participação dela.

O disco, enfim, é para os mais nostálgicos e para quem, porventura, pretende introduzir o axé às novas gerações. Um ritmo muito mais agradável de se dançar e ouvir do que novas batidas que tomaram conta da oitava maravilha do mundo, o carnaval brasileiro.

Music

Sisters Of Mercy – ao vivo

Andrew Eldritch e sua banda vivem de um passado cada vez mais distante mas os fãs nem ligam para a ausência de qualquer novidade

sistersofmercy2019cwb01mb

Textos de Abonico Smith e Fábio Soares

Fotos: Abonico Smith

A discografia do Sisters Of Mercy é extremamente curta. Primeiro foram lançados dois EPs entre 1983 e 1984. Depois vieram três álbuns entre 1985 e 1990. Nos anos seguintes alguns singles e, enfim, duas coletâneas em 1992 e 1993. Depois mais nada. Neca de pitibiriba. O modelo de negócios do mercado da música mudou do vinil ao compact disc e depois à compressão digital do MP3 e nada de Andrew Eldritch se animar em compor algo novo.

Em 2016, um pouco antes da banda desembarcar pela primeira vez em Curitiba para uma apresentação, ele me disse por telefone que se sentia confortável com essa questão. Não havia planos de lançar material inédito. Três anos se passaram e o Sisters Of Mercy veio de novo à capital paranaense como uma das escalas de nova turnê pela América do Sul. E tudo continua da mesma maneira, com o repertório ao vivo passeando pelos dez anos fonográficos por uma hora e meia de show.

O que muda de tempos em tempos são os integrantes que o acompanham. Agora, na mesma Ópera de Arame, Eldritch trocou um dos guitarristas – o australiano Dylan Smith faz dobradinha com o veterano Ben Christo nas seis cordas. Um cara fica mais recuado comandando os computadores que detonam as bases pré-gravadas de baixo e bateria e lá atrás da plateia, junto ao operador das mesas de som e luz, um quinto músico incógnito se divide entre mais um computador e um teclado de cor laranja (?!?!) e de pendurar nos ombros que parece ter saído da uma típica banda tecnopop dos anos 1980.

Como já faz quase três décadas que Eldritch não faz a mínima questão de desovar material inédito do Sisters Of Mercy, todo o repertório é calcado em cima de velhos conhecidos do público. Não chegam a ser exatamente hits, mas para os fãs cada música que compõe o set list é um clássico. Recebido com urros, cantado em uníssono a plenos pulmões. A voz de Eldritch é bem grave. Não há backings, apenas o acompanhamento de todos os versos pela plateia. As guitarras de Ben e Dylan somente tecem camadas e mais camadas de riffs e harmonias que se somam ao peso dançante da cozinha que já vêm alto e direto dos computadores.

Com os músicos todos de preto e fazendo jogos coreográficos que aproveitavam-se da penumbra como o único elemento cênico, o som que o Sisters Of Mercy despejou na Ópera de Arame foi o convite perfeito para uma festa na antessala das trevas, com uma pista de dança exorcizando em passos lentos todas as suas angústias, melancolias e (por que não?) desejos ardentes e flamejantes.

O que, naquela noite em especial, tornou-se algo ainda mais curioso porque exatamente do lado da Ópera, na Pedreira Paulo Leminski, acontecia um evento cristão. Mais precisamente um concerto de canções de louvor e adoração sob o comando do grupo Hillsong United, formado há duas décadas pela união dos ministérios de uma gigantesca congregação carismática australiana chamada Hillsong. Enquanto a luz estava ali pertinho, Andrew Eldritch fazia nas sombras uma nova celebração gótica tão aguardada havia três anos. Para almas aflitas e torturadas não era preciso ter qualquer ineditismo. Vampiros, afinal, vivem por séculos e séculos e não fazem lá muita questão de novidades. (ARS)

***

sistersofmercy2019cwb02mb

O que esperar de um show do Sisters Of Mercy em 2019? Quanto a você, eu não sei. Mas para mim um mínimo de dignidade a este expoente do dark não seria de todo mal. E foi com este ceticismo que me dirigi ao Tom Brasil no último sábado (9 de novembro). A plateia “quarentona” – como era de se esperar – não lotou o espaço por completo. Também é inexato rotular os fãs do Mercy com a simples alcunha de “gótico”. São seguidores fiéis. Um exército vestido de preto que acompanhará a banda tantas vezes ela pisar por aqui.

Calcado na onipresente figura de seu decano Andrew Eldritch, o grupo retornou a São Paulo com uma econômica formação com o eterno escudeiro Ben Christo e o novo guitarrista Dylan Smith. Para os efeitos de baixo e bateria, esqueça a seminal aura da Doktor Avalanche, histórica drum machine imortalizada pela banda nos anos 1980. O Sisters Of Mercy versão 2019 conta com um par de iBooks operados por um anônimo quarto integrante e que nem de longe faz lembrar o peso da engenhoca sisteriana.

“More” abriu os trabalhos na noite paulistana e o etéreo clima de um show dos Mercy mostrou que permanece com o passar dos anos: muita fumaça, iluminação à contraluz e Eldrich fazendo seu peculiar jogo de gato e rato com a plateia. Surge no centro do palco e desaparece. Ressurge no lado direito para novamente sumir em meio à fumaça no lado esquerdo. A dupla de guitarristas também procura preencher o resto como dá. Porém a proposital falta de iluminação do palco que deveria evidenciar a voz do frontman ressalta o óbvio. Com 60 anos de idade recém-completados, Eldritch tem extrema dificuldade em sustentar os tons graves de voz que os clássicos da banda exigem. Dificuldade esta explicitada em “Doctor Jeep/Detonation Boulevard”, na maravilhosa (no disco!) “Dominion” e na quase constrangedora interpretação de “Marian”. O público pouco importou-se para tal e tratou de reverenciar a figura do pai do dark enquanto pôde. Porém, a falta de punch nas programações de baixo e bateria trouxe um ar taciturno a cada canção. Uma chatíssima execução instrumental beirando os sete minutos e de nome desconhecido marcou a reta final da primeira parte da apresentação.

Parafraseando Mauro César Pereira, comentarista dos canais ESPN, o bis teve um início pífio, pragmático e resultadista com “Lucretia My Reflection” sendo executada sem a sua histórica linha de baixo. É isso mesmo o que você está lendo. “Lucretia My Reflection” sem a sua indefectível linha de baixo é o mesmo que Buchecha sem Claudinho. E cá estava eu a xingar três gerações antepassadas da Família Eldritch quando o par de ases final salvou a apresentação de um naufrágio histórico. “Temple Of Love” e “This Corrosion” foram executadas como se deve: com peso, batidas marciais e atmosfera de catarse coletiva. Ao final de noventa minutos, houve quem saiu de alma lavada, houve quem achou mais ou menos e teve este aqui que vos escreve. No fim das contas, esta apresentação só serviu mesmo para eu dizer que, um dia, vi um show dos Sisters of Mercy. Nada mais, nada menos… (FS)

Set list (SP e Curitiba): “More”, “Ribbons”, “Crash And Burn”, “Doctor Jeep/Detonation Boulevard”, “No Time To Cry”, “Alice”, “Show Me”, “Dominion/Mother Russia”, “Marian”, “Better Reptile”, “First And Last And Always”, (Unknown), “Something Fast”, “I Was Wrong”, “Flood II”. Bis: “Lucretia My Refletion”, “Vision Thing”, “Temple Of Love” e “This Corrosion”.