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Brujeria

Letras altamente politizadas, humor negro e zoações com Trump: oito motivos para não perder o show da banda em Curitiba

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Texto por Rodrigo Juste Duarte

Foto: Divulgação

A banda Brujeria está em turnê pelo Brasil e vai se apresentar em Curitiba nesta sexta-feira de feriado (15 de novembro) no Jokers Pub (mais informações sobre o concerto estão aqui). Conhecido até por quem não costuma apreciar música extrema, o Brujeria – que está celebrando trinta anos de existência – tornou-se uma das mais conhecidas formações do grindcore mundial.

Para quem ainda não conhece, aqui vão oito motivos para não perder uma apresentação da banda, em especial a desta noite na capital passagem, onde o Brujeria toca pela segunda vez.

Humor negro

Tudo começou como uma piada, reunindo músicos amigos de várias bandas conhecidas como Napalm Death, Faith No More e Fear Factory. A brincadeira unia vocais guturais em espanhol (por conta de Juan Brujo, um dos poucos membros que restaram da formação original), instrumental brutal e letras que faziam referência a cultura mexicana subversiva, narcotráfico e até satanismo – além do mistério em torno das identidades dos músicos, que usam pseudônimos. Imagine agora tudo isso potencializado em seu álbum de estreia Matando Gueros, de 1993, que teve capa censurada em vários países por ter uma foto tirada de um jornal sensacionalista com a imagem de uma cabeça decepada em um suposto ritual (até hoje há controvérsia sobre a tal notícia, mas a cabeça se tornou um personagem apelidado de Coco Loco, que é referenciado em várias artes da banda). A intenção era chocar e ela foi cumprida. A fama da banda ganhou o mundo.

Virada sócio-política

A partir de 1995, com o lançamento do segundo álbum Raza Odiada, a banda adquiriu um tom mais denunciativo, partindo para uma pegada sociopolítica, abordando a partir de então seguintes questões sobre preconceito sofrido pelos latinos. Nisso sobrou para políticos americanos dos mais estúpidos, que não tinham a menor vergonha de latir suas ideias retrógadas. Exemplos? Pete Wilson, ex-governador da Califórnia, e o hoje presidente estadunidense Donald Trump.

Trolando Gueros 

Quando aparece alguém fazendo ou falando baboseiras dignas de receber o selo “inimigo dos mexicanos”, pode esperar que, mais cedo ou mais tarde, o Brujeria vai compor algo a respeito para zoar o sujeito. E esta vai ser com um senso de humor negro peculiar da banda. O ex-governador da Califórnia Pete Wilson ganhou duas músicas (“Raza Odiada” e “California Uber Aztlan”). Donald Trump, ainda quando estava em campanha para eleição presidencial, foi homenageado em “Viva Presidente Trump”. Neste ano, já em campanha extraoficial para a reeleição, voltou a ser fonte de inspiração para a banda na letra e na capa do single “Amaricon Czar”. Em tempo: no último álbum, Pocho Aztlan (2016), uma das imagens presentes é do vergonhoso muro mexicano erguido na fronteira entre os Estados Unidos e México, onde está pichado o sobrenome do republicano que hoje ocupa a Casa Branca.

Set list de clássicos

O cartaz da turnê brasileira informa que o show contará com os clássicos dos quatro álbuns. Se repetirem o mesmo repertório que já tocaram nas primeiras cidades da turnê brasileira, o público será contemplado com diversas faixas dos álbuns Raza Odiada e Brujerismo (2000), somadas a algumas poucas do trabalho de estreia (“Matando Gueros” e “Desperado”) e do mais recente Pocho Aztlan (“Satongo” e “No Aceptan Immitaciones”), além de músicas de duas músicas novas (“Amaricon Czar” e “Lord Nazi Ruso”). Só é uma pena que não haja espaço para muitas do último disco, talvez por ele não ter sido muito marcante na carreira do grupo. Mas ainda assim lá estão suas pérolas. Se o público pedir a plenos pulmões, quem sabe eles não tocam o hino “Mexico Campeon” (feito para a última Copa do Mundo) ou a releitura “California Uber Aztlan”?

Juan Brujo

Todos os integrantes têm outras bandas. Menos o vocalista, que integra o Brujeria com exclusividade. Vários músicos são americanos de origem hispânica. Mas Juan Brujo é mexicano de fato. Ele sempre se apresenta com o rosto coberto por um lenço com a bandeira do México, mantendo sua identidade em sigilo por décadas. Boa parte do universo do Brujeria é escrito por Brujo nas letras da banda. É uma figura icônica.

Choke

A noite de 15 de novembro no Jokers não se resume apenas ao show do Brujeria em Curitiba. A produção caprichou na escalação de bandas de abertura, trazendo ao palco um verdadeiro trio de ferro da música extrema de Curitiba. Isso inclui o Choke, que conta com vocais e letras do também escritor e filósofo Ottavio Lourenço (se você já esteve na Biblioteca Pública do Paraná e foi atendido por um bibliotecário que vinha trabalhar todo dia com uma camiseta do Brujeria, pode ter certeza que era ele). A banda teve início em 1998 e de lá para cá já fez nada menos do que quinze turnês levando seu metal crossover para países da América do Sul. A discografia conta com seis álbuns lançados, além de um split.

Jailor

Há quem diga que esta é a reserva moral do thrash metal de Curitiba. Aliás, um thrash devastador, diga-se de passagem. Assim como o Choke, também iniciou atividades em 1998, chegando em 2005 ao primeiro álbum Evil Corrupts. Dez anos depois, o grupo lançou o segundo, intitulado Stats Of Tragedy. Ambos possuem produções dignas das bandas do primeiro escalão do gênero no Brasil, com um cuidado precioso tanto nas músicas quanto nas gravações. O Jailor já abriu shows de grandes nomes do metal mundial, como Destruction, Exciter, Exodus, além de tantas outras estrangeiras e nacionais.

Necrotério

Provavelmente o maior representante do metal extremo paranaense. Sua temática é splattergore. No ano passado completou 25 anos, acumulando no currículo três álbuns, um DVD e duas turnês europeias (tendo tocado na Alemanha, Bélgica, França, República Tcheca, Croácia, Eslovênia, Áustria, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Itália). Ainda nos primórdios, seu nome repercutiu pelo Brasil quando o grupo gravou um videoclipe comandado pelo diretor de filmes trash Peter Baiestorf.

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Johnny Hooker + Mulamba – ao vivo

Pernambucano encerra turnê em Curitiba fazendo deliciosa sessão de resistência cultural, desbunde e exorcismo de desilusões amorosas

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Johnny Hooker

Texto e fotos por Janaina Monteiro

Vingança, ódio, raiva são sentimentos comuns e completamente compreensíveis entre aqueles que já levaram o famoso pé na bunda. Afinal, quem nunca tomou um fora nessa vida? Comum também é extravasar toda essa revolta ouvindo aquela playlist “Especial Fossa” no último volume. Sair pela sala, como uma pessoa doida, berrando versos de dor de cotovelo que são campeãs do Spotify. Quem canta seus males espanta. Ou quem canta a depressão espanta.

A raiva faz parte do processo de esquecimento desses seres egoístas e covardes que vagam pelo mundo espalhando o desamor. Mas há quem sinta tanto, tanto ódio no coração partido que pensa em fazer macumba para se vingar, como Johnny Hooker. Se você já sofreu uma desilusão amorosa certamente já ouviu esse “hino do rejeitado” escrito pelo cantor pernambucano: “Eu Vou Fazer Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”. Assim mesmo, com ponto de exclamação, é a faixa que dá nome ao primeiro álbum de Hooker, o cantor da vida. O pernambucano, que já fez novelas e programas na Globo, também sofreu na pele a dor de ser abandonado subitamente. E essa foi uma das canções mais aguardadas durante o show de Hooker na Ópera de Arame, no último dia 7 de junho, para celebrar o aniversário da festa curitibana Brasilidades.

Hooker soube, como ninguém, dar uma reviravolta na situação, e lançou o segundo álbum, Coração, em 2017. O trabalho tem a faixa “Touro” que representa o fechamento do ciclo coração partido: “Viver, morrer, renascer/ Firme e forte como um touro”. Foi assim como um touro que Hooker aterrissou no palco da Ópera de Arame imponente – num figurino preto e dourado, com maquiagem impecáveis – e levando a plateia ao delírio ao tascar um beijo na boca do guitarrista de joelhos. Esse primeiro ato já foi o suficiente para o público se aquecer do frio de bater o queixo. De queixo caído fiquei eu, que até então pouco conhecia obra de Hooker, um artista híbrido, plural.

O pernambucano é um misto de Caetano Veloso, Ney Matogrosso e David Bowie. O performer-cantor-ator-compositor consegue transitar pelos mais diferentes estilos musicais sem muito esforço: axé, forró, samba, pop, rock, rumba, ska, bolero, jazz, blues, soul. E seu discurso é atual, potente, que representa as minorias. Com sua voz rasgada e debochada ao extremo, Hooker entoa hinos sobre amor marginal e a falta de amor. Assim como Liniker, como As Bahias e a Cozinha Mineira, como a banda curitibana Mulamba e como outros artistas que são resistência e contrariam o modus operandi brasileiro, Hooker é o desbunde em pessoa. Veio para escandalizar.

E bem ao estilo Bowie camaleônico de ser, o astro continuou o show de encerramento da turnê de Coração, com o público fiel e totalmente derretido pelos seus encantos. Os presentes, aliás, cantavam todas, mas TODAS as canções de cor. De coração. Algumas já foram temas de novela, como “Alma Sebosa”, incluída em Geração Brasil (na qual Johnny interpretou o músico Thales Saltado) e “Amor Marginal”, de Babilônia. O tecnobrega “Corpo Fechado” ( “Se depender do seu ódio, eu não morro mais/ Se depender da sua inveja, eu não morro mais/Se depender do seu veneno, eu não morro mais”), dobradinha com Gaby Amarantos, foi indicado na categoria de featuring do ano no MTV MIAW 2019 .

A apresentação é uma sessão de exorcismo de sensações e gestos. Todos pulam, se confraternizam, gritam contra os opressores. No set list não podem faltar homenagens aos mestres, como a deliciosa “Caetano Veloso”, que reverencia o baiano tropicalista, e “Beija Flor”, aquele axé contagiante da Timbalada (“Eu fui embora/meu amor chorou”). Antes de cantar “Poeira nas Estrelas”, Hooker explica que fez a canção para seu ídolo maior no dia em que ele morreu. Trata-se de “um réquiem sobre a morte de David Bowie e sobre a perda de uma maneira geral. É meu pedido para que aquele homem das estrelas não nos deixe aqui sozinhos sem uma luz para nos guiar”, tuitou o artista um dia sobre a obra.

A tal canção da macumba – que transforma a Ópera num terreiro – chega na metade do show. E todos na plateia se descabelam com ele, soltando o grito que estava preso na garganta. Com direito a fazer stories e mandar para ex. “Te desejo uma vida de desilusão/ Não desejo afago nem o perdão/ E que seja feliz com quem encontrar/ Mas, nunca mais volte aqui/ Profane o meu lar”. É como um Cee-Lo Green cantando “Fuck You”.

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Mulamba

O discurso que levanta a bandeira do protesto contra a homofobia também se fez presente no show de abertura, com a banda curitibana Mulamba, formada por seis mulheres de atitude rock’n’roll numa clara homenagem a Cássia Eller. Assistir ao show das “mulambentas” dá um certo orgulho de ser curitibana (eu nasci na Bahia, mas vivo aqui há muito tempo!). A sonoridade é potente. Os vocais, vigorosos. E a mensagem, crítica, atual. Como em “P.U.T.A”, que fala sobre violência e feminicídio: “Por ser só mais uma guria/ Quando a noite virar dia/ Nem vai dar manchete/ Amanhã a covardia vai ser só mais uma que mede, mete e insulta/ Vai, filho da puta”.

O convidado principal da noite também usa o intervalo entre as canções para discursar. “Equidade de diferenças é o que importa”. “Ser artista no Brasil  é um ato de resistência”. “Podem matar uma rosa ou duas, mas não podem deter a chegada da primavera”. Foram algumas das frases proferidas pelo pernambucano. E para arrematar o show-protesto, Hooker canta “Flutua” que gravou com Liniker. Com as mãos para o alto, todos entoam o refrão: “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar”. Assim ocorre a transformação de toda a ira, ódio, sentimento de vingança em um ato de liberdade.

Set list Johnny Hooker: “Touro”, “Alma Sebosa”, “Corpo Fechado”, “Chega de Lágrimas”, “Caetano Veloso”, “Volta”, “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”, “Você Ainda Pensa?”, “Amor Marginal”, “Poeira de Estrelas”, “Coração de Manteiga de Garrafa”, “Boato”, “Beija-Flor”, “Escadalizar/Desbunde Geral” e “Flutua”.

Set list Mulamba: “Provável Canção de Amor Para Estimada Natália”, “Interestelar”, “Tereshkova”, “P.U.T.A”, “Mulamba” e “Espia, Escuta”.

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Aurora – ao vivo

Norueguesa leva fãs ao delírio e até celebra casamento durante segunda passagem pela capital paranaense

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Texto e foto por Abonico R. Smith

Aurora Aksnes é uma força da natureza. Já começa pelo prenome com palavra de origem latina, que, de acordo com a mitologia grega, remete à deusa que personificava o amanhecer, filha de dois titãs e irmã das divindades solar e lunar. Com 1,6 m de altura, pele alva nórdica e o cabelo naturalmente platinado com um corte long bobacompanhado de um tufo comprido de cada lado, deixado para fazer tranças casualmente, ela não para um segundo no palco. Movimenta-se de um lado para outro em coreografias que misturam o ritmo de sua música pop com passos de dança resgatados de rituais ancestrais. Tudo isso sem abalar por um segundo sequer o poderio intacto de seu gogó, agraciado com uma voz doce e suave para falar e timbre de soprano com larga extensão para alcançar várias oitavas.

O segredo para isso? Alimentação saudável, sempre com muitas frutas. E água, bastante água. Pelo menos foi o que ela entregou logo depois de começar o show do último dia 22 de maio, em Curitiba. “Só hoje já mijei nove vezes”, emendou de cara, sem qualquer constrangimento a norueguesa que não se depila e também não usa esmaltes nas unhas, ama cantar e dançar descalça e ainda faz de suas letras um belo conjunto de metáforas, sentimentos e sensações que de algum modo se referem à natureza. Composições estas que formam uma poderosa trilogia fonográfica lançada de 2016 para cá – e que montaram o repertório da atual turnê, que teve cinco datas no Brasil.

O concerto na capital paranaense foi a quarta desta cinco escalas. Enchendo a plateia da Ópera de Arame, muitos jovens entre a adolescência e os vinte e poucos anos, que preenchiam uma paleta de estilos comungando hipsters, queers, góticos suaves e uma ou outra pessoa meio perdida visualmente. No palco, pela segunda vez na cidade, Aurora agora trazia uma banda mais completa (guitarrista, dois tecladistas e baterista, mais as tradicionais bases pré-gravadas com percussões, orquestrações e mais camadas delineadas por sintetizadores) e até mesmo uns quinze minutos de uma atração de abertura – na verdade, a morena tecladista e backing vocal que a acompanha, Silja Sol, em versão mais cutee solta no palco para tocar guitarra como o único acompanhamento e conversar com a audiência sobre a origem de suas seis canções solo apresentadas de modo simples, básico e compacto.

Depois da impactante abertura com “Churchyard”, que começa a capella e embala para um arranjo bastante percussivo, o que se viu foi um festival de uníssono vindo da plateia. Fãs – maioria feminina – cantavam sem parar verso atrás de verso. Mesmo já tendo feito outros shows no país antes, Aurora parecia não acreditar no estava acontecendo. Comunicava-se firmemente com a plateia, sempre ressaltando ao microfone estar tomada por grande emoção – o que nem precisava, pois via-se de forma escancarada em seus olhos. Chegou até atender ao pedido de um cartaz mostrado por um jovem casal sentado na primeira fila, mais para a lateral do palco, e celebrou o casamento espiritual deles – claro que sob uma chuva de aplausos, urros e gritos que ecoavam por toda a arena.

Natural que os grandes hits proporcionassem maior frenesi na plateia. Como “Warrior”, “I Went To Far” e “Runaway”, do primeiro álbum (All My Demons Greeting As A Friend, de 2016). Ou faixas do EP Infections Of a Different Kind – Step 1, de 2018 e lançado apenas digitalmente, como “All Is Soft Inside”, “Forgotten Love”). Entretanto, houve ainda surpresas. Como “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, cantada em dueto por Aurora e Silja somente ao acompanhamento da guitarra de Fredrik Vogsborg (mais conhecido pelo públicoindiepelo trabalho com a banda Casiokids, formada em 2005 e com três álbuns gravados entre 2007 e 2011), mais usada como um baixo ressaltando a nota tônica. Ou ainda os singles do novo disco, o novo EP A Different Kind Of Human – Step 2, que chegará em junho apenas às plataformas de streaming e download, mas já com os respectivos clipes disponibilizados na internet. “Animal”, “The River”, “In Bottles” e, especialmente, “The Seed” tiveram recepção tão efusiva quanto os outros sucessos um pouco mais antigos.

As duas faixas programadas para o bis, ambas do EP do ano passado, fecharam a noite em grande estilo. Primeiro veio a balada “Infections”, preparando o terreno das emoções para a explosão de “Queendom”, de cunho explicitamente empoderador, que faz questão de celebrar a força feminina e um mundo mais justo diante de uma sociedade machista e patriarcal em ruínas. Ao final dela, Aurora abriu uma bandeira LGBTQIA+ e deixou em delírio a plateia. Após a saída dela, muitos não continham o choro e a excitação por estar diante de sua deusa de quase 23 anos de idade e que ainda tem um excelente futuro musical pela frente. Tudo de forma bem natural e espontânea. Mesmo fazendo música pop.

Set List: “Churchyard”, “Warrior”, “Home”, “All Is Soft Inside”, “Soft Universe”, “Murder Song (5, 4, 3, 2, 1)”, “Runaway”, “In Bottles”, “The Seed”, “It Happened Quiet”, “Animal”, “I Went Too Far”, “The River”, “Forgotten Love” e “Running With The Wolves”. Bis: “Infections Of A Different Kind” e “Queendom”.

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Ride + Wild Nothing – ao vivo

Quarteto britânico mostrou a força do shoegaze em um Balaclava Fest que também teve o coletivo de influências eighties

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Mark Gardener (Ride)

Texto por Fábio Soares

Fotos de Fábio Soares (Ride) e Fabricio Vianna/Balaclava/Divulgação (Wild Nothing)

Há quem reclame da Balaclava mas, sinceramente, não entendo o porquê. A produtora já trouxe a São Paulo nomes como Swervedriver, Slowdive, Deerhunter e o Mercury Rev com a turnê comemorativa de 20 anos do seminal Deserter’s Songs. Ainda procura, à sua maneira, manter a periodicidade de um festival por semestre desde a primeira edição, realizada em 2015 e que trouxe Mac McCaughan, líder do Superchunk. E, aparentemente, atinge seu ápice na edição do primeiro semestre de 2019. Quando anunciou o line up, em fevereiro, um verdadeiro pandemônio virtual tomou conta das redes sociais com o anúncio do Ride como atração principal. Vinte e nove anos após o lançamento de uma das bíblias do shoegaze (o para sempre clássico Nowhere) uma vinda do quarteto de Oxford sempre pareceu um sonho distante de ser alcançado por toda uma geração indie que, se já não passou dos 40 há algum tempo (meu caso), beira essa marca.

Antes da apresentação do quarteto, o palco principal recebeu o Wild Nothing, projeto norte-americano criado e liderado por Jack Tatum, um declarado fã de música oitentsta que escancarou suas influências em seu debut, o álbum Gemini (2010), e as consolidou em Indigo (2018). Tatum, porém, nunca teve pudor em manter uma banda fixa e o rodízio de integrantes quase chega a ser uma regra neste projeto que completa dez anos em 2019. Ladeado por Nathan Goodman (guitarra), Jeff Haley (baixo), Matt Kallman (teclados) e Elroy Finn (bateria), comanda uma apresentação que tem tudo para decolar mas que aqui pecou pela irregularidade. Se por um lado momentos memoráveis foram registrados (como nas execuções de “Live In Dreams”, “Shalow Water”e “Summer Holiday”), em outros o que imperou foi a sonolência como em “Paradise” e na chatíssima “Whenever I”. Resumindo, foi pouco mais de uma hora “nota 5” mas confesso que ainda gostaria de ver Jack Tatum por aqui e com um set list melhor. O Wild Nothing, afinal, é um daqueles casos que não devemos desistir por completo.

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Jack Tatum (Wild Nothing)

Mas vamos ao que interessa porque a ansiedade dos indies quarentões já estava a mil naquela noite de 27 de abril a Audio. O clima na pista era de torcida organizada à espera de seu clube do coração. Finalmente, um pouco depois das 23h, as molas motrizes Andy Bell e Mark Gardener pisaram no gramado, acompanhados pelos costumazes Laurence Colbert (bateria) e Steve Queralt (baixo). O frisson regado a êxtase estava armado e a peleja começou com os primeiros acordes de “Future Love”, single lançado menos de uma semana antes do show na capital paulista e que fará parte do novo álbum do quarteto, This Is Not a Safe Place, a ser lançado em agosto. Como era de se esperar, uma má equalização do som fez com que os simultâneos vocais de Bell e Gardener se embolassem. Já na segunda faixa, “Lannoy Point”, o quase inaudível vocal de Gardener me causou irritação. Também confesso que esta não é das minhas faixas preferidas da banda mas faltava algo. Faltava o punch. E ele veio na terceira canção.

“Seagull”, primeira faixa de Nowhere a ser executada, é daqueles arrasa-quarteirões dignos de levantar estádio. As distorções de ambas as guitarras estremeceram o teto. Um momento sublime que serviu de pano de fundo para o primero momento “olhos marejados” da noite: a marcial introdução de “Dreams Burn Down” fez o trem do túnel do tempo começar a rodar. Estava tudo ali: o clima dream pop, o solo de Bell, os sussurrados vocais de Gardener, a sobreposição de camadas. O gigante shoegaze, finalmente materializado na minha frente! ERA O RIDE, ENFIM! E a partir daí, nenhum problema técnico estragaria aquela noite.

O trem desgovernado não parou por aí e o indefectível riff de baixo nos dois iniciais segundos de “Twisterella” (o eterno clássico do álbum Going Blank Again) foi a brecha que o sistema indie da terceira idade queria. Vi uma pista inteira dançar com as mãos pro alto com semblantes emocionados. Emoção essa que prosseguiu com “Chrome Waves” (do mesmo disco) e finalmente os vocais sobrepostos da dupla Bell-Gardener fizeram-se audíveis. Os três insanos minutos de “Taste” também ficarão registrados na memória. Uma das mais assobiáveis melodias dos anos 1990 fez com que a plateia não se fizesse de rogada e cantasse em uníssimo os versos “But what’s right or wrong?/ I don’t know/ I don’t know/ The taste just slips away”. Sublime demais! Lindo demais! Corações disparados continuaram assim com a canção seguinte. A introdução de “Vapour Trail” tornou-se o bilhete de embarque para um automático teletransporte. Das madrugadas em frente à tevê assitindo ao Lado B da MTV Brasil. Dos cassetes gravados com muito esforço e gastos sem dó em walkmen surrados. Sem levantar bandeira de saudosismo mas, nesse caso, valeu.

No palco, o Ride sabe que carrega consigo a bandeira shoegaze de toda uma geração. Porém, parece relaxar diante disso. Gardener e Bell sabem que já estão beirando cinco décadas de vida e que certas rusgas devem ser postas de lado em nome de um bem comum. E foi com a fúria de “Kill Switch” que a banda encerrou a primeira parte da apresentação, que passou voando. No bis, a banda novamente revisitou Going Blank Again com os oito hipnotizantes minutos de “Leave Them All Behind”. Desta vez, olhos fixos no palco para apreciar a dinâmica do quarteto: movimentos econômicos, riffs poderosos, microfonia nas alturas. Ninguém reclamaria se contraísse alguma microlesão auditiva, até porque “Polar Bear” veio a seguir com excelente performance de Laurence Colbert à bateria, capitaneando a viagem sonora que já anunciava seu fim. “Chelsea Girl” fez todo mundo pular. Foi como se a a banda dissesse “Bem-vindos aos anos 1990 e até a próxima”. Ritmo acelerado para encerrar a noite.

Por fim, lágrimas na pista. Amigos se abraçavam e se dirigiam à saída. Permaneci no local por mais alguns minutos, na esperança de encontrar alguém quando o inacreditável se fez presente: Gardener voltou ao palco empunhando sua guitarra, seguido por Bell, Colbalt e Steve Queralt. É isso mesmo: um segundo bis seria executado e como eu estava na pista quase esvaziada, corri para a grade. “Catch You Dreaming” fez as honras para um desfecho memorável que viria com a maravilhosa “Like a Daydream”, com todas as suas pinceladas noventistas. Agora sim, estava na hora de ir para casa, ainda atordoado com o que acabara de assistir. Esta foi daquelas noites que guardaremos para sempre e com muito carinho e com um sentimento de pena para aqueles que rotulam o shoegaze como “subgênero”. Azar o deles. Seguiremos por aqui, às portas da velhice mas com ânimo ainda para melodias assobiáveis, guitarras distorcidas e microfonias à enésima potência. The taste just slips away.

Set List Wild Nothing: “Nocturne”, “Wheel Of Misfortune”, “Golden Haze”, “Flawed Translation”, “Live In Dreams”, “Partners In Motion”, “Bend”, “Summer Holiday”, “Whenever I”, “Shallow Water”, “Canyon On Fire”, “Paradise”, “Letting Go”, “Chinatown”, “A Dancing Shell” e “Shadow”.

Set List Ride: “Future Love”, “Lannoy Point”, “Seagull”, “Dreams Burn Down”, “Twisterella”, “Charm Assault”, “In A Different Place”, “Chroma Waves”, “Taste”, “Vapour Trail”, “Drive Blind” e “Kill Switch”. Bis 1: “Leave Them All Behind”, “Polar Bear” e “Chelsea Girl”. Bis 2: “Catch You Dreaming” e “Like a Daydream”.