Music

Chico Bernardes

Um papo sobre passado, presente, futuro, tecnologia, influências diversas e as comparações com o irmão Tim e o pai Mauricio Pereira

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Texto e entrevista por Janaina Monteiro

Foto: Zoé Passos/Divulgação

Quando se nasce numa família musical, é natural tomar o mesmo rumo na vida. Chico Bernardes não se incomoda com o sobrenome. Pelo contrário. Ser conhecido como o irmão de Martim, o Tim, cantor e compositor d’O Terno que também desenvolve carreira solo, é motivo de orgulho. Chico é o caçula da família Bernardes Pereira e, assim como Tim e a irmã, a atriz Manuela Pereira, herdou a veia artística do genial músico paulistano e vanguardista Maurício Pereira, jornalista e criador do duo Os Mulheres Negras, ao lado de André Abujamra. Maurício foi também crooner da Banda Fanzine, do saudoso programa apresentado por Marcelo Rubens Paiva na TV Cultura, numa época quando ainda fazia sentido assistir a uma televisão de sinal aberto de boa qualidade.

Portanto, aquela história que os pais costumam dizer aos filhos, a de que “não faça música porque não dá dinheiro”, simplesmente não cola numa família extremamente criativa com essa. Chico até tentou resistir, mas a arte foi maior que ele. Cinco anos após começar a tocar e compor, o garoto de cabelos volumosos e estilo hipster já é multiinstrumentista (violão, piano, bateria). Em junho de 2019, aos 20 anos de idade, lançou seu álbum de estreia Chico Bernardes, autoral, sincero e com arranjos elaborados, que traz canções folk ao estilo Nick Drake, um de seus mestres inspiradores. As letras são poéticas reflexivas, existenciais, com versos de um romantismo doce, porém bastante maduros para a idade dele. Como “Um Astronauta” (“Um astronauta de bom coração/ Demorou muito pra reconhecer/ Que as estrelas que tanto estudou/ Brilham bem menos do que as que deixou/ Em seu planeta”) ou sua primeira canção, “Vago”, escrita aos 15 anos (“Eu não sei o que deu em mim/ De repente eu vi o mundo assim/ De um jeito mesclado de informações/ Complexos gostos e opiniões/ Absolutas verdades em expressões).

Recentemente, Chico pegou seu violão e viajou pela primeira vez sozinho, sem assessores ou amigos, com destino a Curitiba, onde apresentou um show intimista na Casa Quatro Ventos para um público restrito. Foram 11 músicas no set list, com apenas duas covers: “True Love Will Find You In The End”, de Daniel Johnston (falecido em setembro do ano passado) e regravada por gente como Beck e Wilco, e uma delicada versão de “Maria”, de Gilberto Gil. Ao final da apresentação, ele recebeu calorosamente a reportagem do Mondo Bacana para conversar sobre passado, presente e futuro.

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PASSADO

Como foi que você resolveu trilhar o mesmo caminho que seu pai e irmão?

Quando eu era pequeno, não tinha intenção alguma em fazer música. Falava não. Meu irmão já estava começando a carreira, já estava estudando. E eu falava que já tinha  músico demais na família, que não iria ser músico. Mas, aos 15 anos, comecei a tocar bateria numa banda com os amigos e a gostar de tocar violão. Depois, comecei a compor. E então fiquei meio maravilhado. Com 17 me formei e tive de decidir o que eu ia fazer. Prestei Jornalismo, mas não estava muito a fim. Pensei em Psicologia, mas também não estava muito a fim. Entrei em Música e decidi que ia focar nessa área.

A música então está em seu DNA? Você chegou a resistir a trabalhar com isso, mas foi algo mais forte?

Existe a influência também de ter acesso muitos recursos para fazer música. Porque não é de uma hora para outra que você escolhe fazer música. E também não é necessariamente um dom. Na minha casa, tenho pai e irmão músicos e instrumentos soltos. Estamos sempre ouvindo música. Até minha mãe, psicanalista, sempre teve um carinho muito grande pela música. Então, o fato de viver num ambiente musical foi o que me levou a isso, mais até do que o fato de meu pai ou irmão serem músicos. Foi de estar ali num ambiente que a música estava rolando e que eu negava. Falava “não, não vou ser músico”. Mas depois eu gostei e fui…

O que você ouvia em casa? Quais são suas referências? 

Muito Beatles. Minhas primeiras lembranças são das viagens de carro que a gente fazia e ia ouvindo música. Lembro de ouvir Beatles, Bob Marley, Police, Chuck Berry, Los Hermanos.

Por falar nisso, o trecho “além do que se vê” na canção “Astronauta” é uma referência a Los Hermanos? 

Acho que foi inconsciente. Só depois que me liguei. Até porque eu ouvia o CD no carro com 7 anos de idade e não lia as letras. Depois que eu vi o encarte e o nome da música, me toquei.

Você nasceu na época do CD e dos iPods. Hoje ouvimos música por streaming. Você acha importante resgatar o estilo retrô de consumir música, como vinil ou fita cassete por exemplo? 

Sim. Lá em São Paulo, estão vendendo pôster, que é só o encarte, sem o CD.

Sua vibe mesmo é bem retrô, pelo seu jeito de se vestir e estilo que decidiu seguir que é o folk. Foi em parte influência do Tim?

Acho que tem um pouco de influência do meu irmão, pelas referências que ele me mostrava quando eu estava na sexta, sétima série. Eu era pequeno e ouvia um monte de coisa, era bem eclético. Daí eu pedi para ele encher meu iPod com algumas músicas. E a partir daí, comecei a gostar de folk. Ele colocou Fleet Foxes, Bob Dylan, que eu escuto até hoje. Mas o engraçado é que as coisas que me pegam não são as mesmas pra ele. Dentro das referências dele, tem coisas que eu incorporei mais.

E de MPB, o que você escuta? 

Depois que eu entrei na faculdade, comecei a ouvir mais MPB. Ouvia muita coisa de fora. Conhecia Caetano, mas pouco. Só depois fui tocar violão e estudar compositores na faculdade que passei a ter mais contato com vários estilos. Teve um semestre que estudei Gil, outro Caetano, Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Adoniran Barbosa…

PRESENTE

Como é seu processo criativo?

Pelo fato de eu fazer faculdade de música, posso dedicar meu tempo exclusivamente a isso. Em casa, sento na frente do piano e surgem as ideias. Começo a gravar e vou juntando tudo. Por isso, eu já tenho uma abertura grande. Não é como se eu estivesse, por exemplo, fazendo Administração e no meu tempo vago eu fizesse música. Quando me bate a inspiração, já estou a postos.

Você disse que estava lendo no aeroporto. A leitura te influencia a compor?

Eu não leio muito, mas o que eu leio me marca. Trouxe um livro de contos da Clarice Lispector. Recentemente li O Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mãe.

Clarice Lispector disse que escrever é se expor. Você tem algum receio quanto a isso? É preciso muita coragem para fazer arte?

Antes de me lançar como artista, eu estava com medo do que as pessoas iam achar pelo fato de me sentir exposto, analisado. Mas ao mostrar meu trabalho cada um ouviu e interpretou da sua maneira. Por mais que sejam músicas em primeira pessoa, uma galera coloca o fone e ouve e se vê protagonista. Isso me tranquilizou, mesmo porque meu disco tem temas que todo mundo vive de alguma forma, cada um do seu jeito.

Você se incomoda em ser comparado e rotulado como sendo o irmão do Tim Bernardes?

Eu vejo isso numa boa. Antes eu estava com um pouquinho de medo de ouvirem meu som e falarem “olha aí o irmão do Tim!”. Mas as pessoas estão dizendo: “olha o Chico! Como ele tem coisas diferentes do Tim e do Maurício!”. Estou feliz por ver essa diferença. Porque sempre vão comparar, pois Tim é meu irmão. A gente cresceu na mesma casa e justamente ele montou parte do meu iPod. Ele me ensinou muita coisa. Eu sou o caçula, ele é o mais velho. A gente cresceu junto. Eu vendo de baixo pra cima. Ele vendo de cima para baixo.  Admiro muito o trabalho do meu irmão, assim como o do meu pai. Tenho sua influência, mas o trabalho é diferente, porque temos personalidades muito diferentes. Meu irmão é superfamoso. Muito conhecido por aí, então é normal. Às vezes tem gente que sabe que eu sou irmão dele e fala assim: “gosto muito do seu som e do seu irmão”. Às vezes tem gente que nem sabe quem eu sou, que gosta muito do som dele mas não me conhece. Tem gente que fala também: “gosto muito do som do seu irmão, cheguei no seu som e adorei, tô ouvindo direto”. Acho que é uma ponte também. Existe muito mais vantagem do que desvantagem.

Você disse durante o show em Curitiba que curte fotografar com câmera analógica. Como consegue equilibrar o offline e o online?

Sou meio contra a corrente. Os eletrônicos, em geral, me deixam meio confuso. Fui fazer aula de guitarra antes de tocar violão e é outra relação com instrumento, sempre ligado na tomada, energia elétrica, e volume… Uma coisa alta, botar um pedal de distorção, uma coisa barulhenta. E eu ia tocando violão ao mesmo tempo. Com o violão, você pode ir a qualquer lugar. Já era. Pronto. Eu e minha família viajamos muito para o campo. Eu sempre levo o violão e fico tocando. Componho muito nessas viagens. Tenho tempo de ficar sozinho e refletir. Gosto muito de estar desconectado, olhar em volta. Não ficar preso a certas tecnologias. Depois disso, fui buscando outras coisas, como tirar foto com câmera analógica. Também tenho uma máquina de escrever, que eu acho muito gostoso de usar. Tocar piano também. São pequenas coisas que deixam o dia menos saturado de informação. Mais orgânico.

Quando ouvi o seu album, tive a sensação de “flutuar”, de estar “desplugada” deste mundo frenético em que vivemos…

Tem gente que acredita em signos também. Eu sou geminiano e dizem que geminianos são uma galera meio avoada. Por isso voltei a ouvir vinil. Porque no Spotify eu escutava uma música, ouvia 20 segundos e clicava em outra. Vinil você ouve inteiro, escolhe a ordem e ouve como foi feito, numa ordem pensada. Você não pega, por exemplo, a cena favorita de um filme e coloca na frente das outras. A música também é uma obra que tem justamente seus momentos organizados.

FUTURO

Como você percebe os jovens da sua geração quanto ao engajamento na arte e na política por exemplo?

Bom, não vou entrar em pormenores de política, mas genericamente quando a gente se vê em tempos tão sombrios é um momento que esse contramovimento faz com que a arte cresça, porque toda essa repressão continua gerando sentimento e os artistas continuam produzindo. Então, por mais que a gente passe por tempos difíceis, os artistas estão produzindo. Por exemplo, se o nosso presidente fala uma cagada sobre o público LGBT, tem músicos, atores, drags, muitas figuras que podem representar esse pessoal e ir contra isso. Esse movimento de resistência ajuda também a nos unir nesse mundo tão solto e tão bagunçado. Acho que na música também tem isso, muitos estilos e gêneros, mas cada um tem sua voz adquirida. Como o pessoal da voz LGBT. O pessoal mais famoso, que tem visibilidade grande, como o Caetano, que está sempre tentando trazer movimentos, como para a questão da Amazônia, e aproveita o sucesso do passado pra realmente se posicionar. O Felipe Neto também tem grande visibilidade e está usando isso pra fazer alguma coisa.

E da atual geração de músicos, como você, quem vai substituir os grandes nomes da MPB?

Não sei, porque sou protagonista da minha vida. Não me vem esse delírio de querer ser uma imagem grande da música, mas de construir a minha história. Acho que a imagem que os outros têm de mim não é o que eu construí exatamente. É algo muito idealizado. Acho que essa ideia de ir construindo uma trajetória é muito mais importante. O sucesso pra mim é construir o que eu acho bonito e ir sempre melhorando. E não o sucesso que outros consideram, como ficar famoso, aparecer na TV. Claro que eu quero também conversar com o público, trazer meus feedbacks, ter uma troca. Mas meu objetivo não é atingir muitas pessoas, até porque é uma exposição muito grande. Sou artista pequeno, tenho visibilidade pequena. Vou fazer um show e, no meio desse caos todo, tão maluco, eu busco tentar fazer algo que saia de mim pra tranquilizar as pessoas, deixá-las confortáveis. Fazer com que elas pensem e tentem atingir um relacionamento delas consigo mesmas. Justamente o que eu falei no show, porque está tudo tão corrido e não conseguimos parar para olhar para nós mesmos. Muita gente evita esse sentimento. Passa a semana inteira trabalhando, faz um monte de coisas, final de semana vai para o bar, enche a cara e não confronta de fato os problemas internos.

Hoje em dia as pessoas terminam relacionamentos via WhatsApp e escolhem parceiros pelo Tinder.

Igual ao iFood. Assustador…

Como você lida com esse mundo digital?

Acho que toda tecnologia tem algo interessante, que avança. Você pode achar alguém interessante no Tinder por acaso. Se não fosse por ele, você não acharia.  Então, é um recurso que pode tornar algo viável. Mas acho que tudo, o Instagram, as mensagens, estão ali para ajudar a gente a ver como estão as pessoas, nossos amigos. Mas aí a gente acaba sabendo tanto que quando a gente se encontra pessoalmente não tem graça. Tem um vídeo que eu vi outro dia com a minha irmã, do Porta dos Fundos, que é um pessoal da firma reunido para jantar. Alguém ia contar uma história e aí todo mundo começou a falar as mesmas palavras porque a pessoa já tinha postado. Ou seja, você já postou. Eu já sei o que está acontecendo. Não é nenhuma novidade pra mim. Isso eu acho que passa um pouco do limite, mas, claro, a tecnologia ajuda a gente. Só não podemos abusar muito dela, porque fica meio confuso.

O Instagram e o Facebook são ferramentas importantes para divulgar o seu trabalho?

Sim, o Instagram eu uso geralmente para divulgar o trabalho. O Facebook eu uso para evento e trabalho da faculdade, quando o pessoal cria grupo. Mas não fico mais lá perdendo tempo. Depois, quando a gente precisa desse tempo, você se pergunta o que aconteceu lá atrás e o que você fez.

Movies

História de um Casamento

Scarlett Johansson comanda um time de grandes atuações em filme que mostra como um divórcio pode fazer mal sobretudo aos filhos

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Netflix/Divulgação

Existe um ditado que diz mais ou menos assim: você só conhece uma pessoa de fato quando se separa dela. Ou seja, uma gatinha pode se tornar uma leoa da noite para o dia quando se trata de proteger a cria.

Enfrentar um divórcio é como entrar numa guerra. Raros são aqueles que chegam a um acordo de paz sem antes lutar contra justamente a pessoa que, um dia, entrou na sua vida para compartilhar o tempo, o espaço e a genética. Aquele que ontem era seu amigo e emprestava os ombros pra você chorar hoje dá de ombros e te faz chorar, transformando-se num rival. Durante o doloroso processo, muitas vezes é preciso cavar até o fundo do poço para, enfim, desmembrar aquele território edificado a dois com enorme dispêndio de energia, afeto, carinho, amor e, claro, dinheiro.

Casamento, enfim, é como qualquer sociedade. Pode ou não dar certo. Tentativa e erro. Para serem bem-sucedidos, os sócios devem estar muito bem alinhados. Caso contrário, o relacionamento chega ao fim, não se sustenta, desmorona, como tudo na vida que é efêmero. A única diferença é que, sem filhos, o adeus pode ser definitivo. Como é impossível dividir um filho, o desfecho pode tomar outro rumo. Nesse caso, o desgaste é maior e o poder de negociação atinge limites impensáveis, com trocas de acusações na frente do juiz, que revelam segredos e deixam feridas expostas. E todo o amor que um dia talvez tenha existido dá lugar à raiva, à amargura, como nos mostra o tocante longa História de um Casamento (Marriage Story, EUA/Reino Unido, 2019 – Netflix), do diretor e roteirista Noah Baumbach, hoje casado com a atriz, diretora e roteirista Greta Gerwig.

Separação, aliás, é um tema recorrente da filmografia de Baumbach. Em sua primeira obra, a autobiográfica A Lula e a Baleia, o diretor se inspirou na separação dos pais e conduziu a história sob o ponto de vista dele e do irmão. Já em seu mais recente e cultuado História de um Casamento, um dos nove indicados ao Oscar de melhor longa em 2020, ele se debruça em seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh, com quem tem um filho de 9 anos, praticamente a mesma idade do filho dos protagonistas vividos por Scarlett Johansson, exuberante no papel da atriz Nicole, e Adam Driver, que interpreta Charlie, um respeitado diretor de teatro.

A história do título (que lembra Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman) começa pelo fim do relacionamento entre Nicole e Charlie. Para quem não vivenciou a traumática experiência de uma separação, é bem possível que História de um Casamento seja percebido como uma obra mediana, com uma direção correta e um roteiro bem-feito. Talvez se fosse distribuído para o cinema e não exibido diretamente via streaming, a recepção fosse outra. Eu, no entanto, tive de pausá-lo algumas vezes por causa de tamanha identificação com a personagem de Scarlett, que também se inspirou na experiência pessoal para transmitir com um realismo pungente toda a angústia, frustração e tristeza do fim de um longo relacionamento.

O drama começa numa sessão de terapia de casal, uma tentativa vã de recuperar algo daquela faísca do amor primordial. Charlie escreve sobre as qualidades de Nicole e as lê em voz alta. Ela, por sua vez, não consegue fazer o mesmo. Para Nicole, não há mais salvação. A relação terminou e por motivos comuns a vários casais, como traição e desencanto pelo parceiro. Quando se casou, Nicole abriu mão de uma carreira promissora de atriz de cinema em Los Angeles para morar em Nova York, onde Charlie dirige uma companhia de teatro. Ao longo dos anos, ela passou a se sentir ofuscada pelo marido.

Com a união em colapso, Nicole aceita a proposta para estrelar o piloto de uma série de televisão e se muda para a casa da mãe em Los Angeles, levando com ela o filho Henry (Azhy Robertson). Charlie continua do outro lado do país. Perdido com toda a situação, parece não se dar conta de que Nicole não voltará mais. Os dois, então, permanecem separados física e emocionalmente e ele se desdobra para viajar até a Costa Oeste para visitar Henry.

O ressentimento, aliado ao fator filho, leva Nicole a procurar a advogada Nora, interpretada pela sensacional Laura Dern (que levou os principais prêmios de coadjuvante da temporada por este papel). Quando os advogados entram em cena, o drama toma o rumo bem ao estilo de Kramer vs Kramer, vencedor do Oscar de melhor filme em 1979, com Dustin Hoffman e Meryl Streep. O dilema que poderia se encerrar num acordo – e que seria mais benéfico para Henry – transforma-se em disputa judicial pela guarda da criança. As economias, até então reservadas para pagar a futura faculdade do filho, agora vão direto para o bolso dos advogados, que cobram honorários astronômicos, dignos de estrelas de Hollywood. Durante o litígio, a vida do casal é totalmente esmiuçada; cada detalhe, cada deslize, por mínimo que seja, pode ser usado perante o juiz, desde tomar uma mísera taça de vinho na frente do filho ou esquecer de acomodar o assento no carro.

Conforme a narrativa se desenvolve, Scarlett cresce no papel e nos envolve com sua personagem, como na cena de sua primeira reunião com Nora, quando subitamente começa a chorar ao contar a história. A advogada desce do salto e consola a atriz, num discurso que expõe toda a pressão sobre a figura materna rodeado pelo mito da irgem Maria: a sociedade tolera que o homem seja um pai ausente, mas à mãe jamais é permitido sair da linha.

Sem dúvida, a sequência mais visceral e desconcertante é a cena em que Charlie e Nicole discutem sozinhos e lavam toda a roupa suja. Não sobra nada, nem um par de meias. Nesse ponto, a direção de Baumbach insere o espectador lá dentro do apartamento, como se testemunhássemos a discussão.

Histórias de um Casamento pode não ter levado o Oscar, mas é um filme sensível e honesto, com foco no roteiro e atuação do elenco (tirando a mãe de Nicole, cujo papel é exagerado). E o belíssimo desfecho nos mostra que, para proteger a saúde mental do filho, a mágoa, a raiva e a culpa devem dar espaço à dignidade, à civilidade e ao respeito mútuo.

Movies

Um Lindo Dia na Vizinhança

Na pele de um famoso e carismático apresentador de programa infantil da TV americana, Tom Hanks rouba a cena mesmo como coadjuvante

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Tom Hanks é conhecido por ser um dos caras mais legais de Hollywood. O papel de Fred Rogers parece ter sido feito sob medida para ele. O apresentador conhecido por seu programa infantil, que deu nome a este filme, não é protagonista da história, mas Hanks e seu carisma criam a sensação de que o filme gira em torno apenas dele.

A história de Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day In The Neighborhood, China/EUA, 2019 – Sony Pictures), acompanha o cético jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) na missão de entrevistar o astro Mr. Rogers. Cheio de conflitos internos, o repórter acaba passando por uma transformação ao conhecer mais a fundo o sempre doce apresentador.

Um Lindo Dia na Vizinhança ganha, (e muito) pela presença de Hanks no elenco. Certeiro, o ator consegue cativar em um personagem de muitas nuances. As conversas entre Lloyd e Rogers são delicadas e humanas, de longe os pontos altos do filme. Destaque especial para quando os dois dividem uma refeição em um restaurante sob olhares curiosos.

O filme apropria-se do cenário do programa infantil para realizar transições e inclusive uma cena de epifania do jornalista. Esse artifício rico traz dinâmica a história, inserindo quem está do outro lado da tela ao mundo colorido e lúdico construído por Mr. Rogers.

Tom Hanks segura o quanto pode, mas a história água com açúcar acaba por perder o embalo por vezes. Quando o ator ganhador do Oscar não está na frente das câmeras, nem sempre dá paral manter o foco. Lloyd não é carismático o suficiente para prender em seus momentos solo. É fácil entender sua raiva e sua dor, mas é mais fácil ainda entendê-la quando Mr. Rogers o auxilia.

Dirigida por Marianne Heller, a história cai em um lugar comum ao render-se a um dramalhão nas partes derradeiras. Claro, é bonito ver o desfecho do protagonista, mas e Mr. Rogers? É possível ver o final feliz de um personagem secundário? O filme, principalmente em sua última cena, atiça a curiosidade de entender mais sobre a vida e os sentimentos de Fred e não de Lloyd. Por isso, Um Lindo Dia na Vizinhança torna-se uma agridoce reflexão sobre a beleza e a complexidade dos sentimentos. Não é culpa do ator escalado para ser o protagonista, mas nesse caso competir com Tom Hanks não foi justo.

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O Escândalo

História sobre os assédios sexuais que derrubaram recentemente o CEO da Fox News chega aos cinemas de forma confusa

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paris Filmes/Divulgação

O escândalo Bombshell estourou em 2016, em pleno período eleitoral (quando Donald Trump chegou à presidência norte-americana), e envolveu estrelas do maior canal de TV conservador dos Estados Unidos. Nele, âncoras da Fox News, bem como diversas outras mulheres, acusaram o diretor e CEO Roger Ailes de abuso sexual. Entre elas, Gretchen Carlson e Megyn Kelly, duas das maiores apresentadoras da emissora.

Em O Escândalo (Bombshell, EUA/Canadá, 2019 – Paris Filmes), filme dirigido por Jay Roach e escrito por Charles Randolph, acompanhamos a trajetória dessas mulheres, desde o momento em que Gretchen (Nicole Kidman) entra em litígio com Ailes (John Lithgow) até o momento em que aceita o acordo judicial, que conta com um pedido de desculpas oficial da Fox. No entanto, não é Gretchen a protagonista – a história foca no conflito interno da jornalista Megyn Kelly, que demorou a se pronunciar a respeito do escândalo, mostrando também a pressão produzida dentro do quadro de funcionários da Fox News, condenando seu inicial silêncio. Ainda, há Kayla (Margot Robbie), uma jovem evangélica que acredita nos ideais do canal mas torna-se a mais recente vítima do CEO. As três “protagonistas” têm pouco tempo de tela compartilhado, suas tramas são solitárias e pouco se entrelaçam.

Este é um filme fortemente necessário, que traz luz a um caso seríssimo de assédio sexual no ambiente de trabalho, demonstrando com crueza a dinâmica opressora entre patrão e empregadas. Mais obras com a mensagem de O Escândalo devem surgir, visibilizando o comportamento deplorável de homens em posição de poder. No entanto, é uma pena que uma história tão rica e impactante tenha sido conduzida de uma maneira tão confusa como esta.

A direção de Roach, que está em seu terceiro drama, com um passado de comédias pastelão como Austin Powers, Entrando Numa Fria e Os Candidatos, é confusa e bastante inquieta. Com exposição despejada num rompante nas cenas iniciais, com quebras inconstantes da quarta parede e câmeras na mão, com muito zoom e montadas em uma justaposição estranha, O Escândalo começa num conflito de estilos radicalmente divergentes, buscando sua estética num emaranhado de ideias que, a partir do segundo ato, são abandonadas em prol de uma abordagem mais comercial. Há cenas em que a quebra da quarta parede chega a ser incômoda, por ser súbita, breve e um caso isolado – uma das personagens o faz uma única vez; outra, duas ou três; e a última não chega a tanto.

No entanto, Roach busca um hiperrealismo que, apenas na trama de Kayla, é eficaz. Grande parte do mérito é de Margot Robbie, que interpreta muito bem uma millennial de extrema direita com certas nuances – incluindo sua sexualidade. Seu texto não é dos melhores, o que cria uma personagem por vezes estereotipada, mas que se redime quando Robbie rouba a cena.

A montagem, assinada por Jon Poll, é, no máximo, eficiente. Contudo, erra a mão em momentos que quebram o ritmo do longa, com uma sensação de estranhamento terrível. A maquiagem é ótima em Charlize Theron, que também atua muito bem, porém causa um leve desconforto em Nicole Kidman, que parece um pouco imobilizada pelas próteses.

Por mais necessário que seja, o longa afasta o espectador com sua indecisão, que cria momentos desnecessários e desconfortantes, em especial o início de sua trama. Sinto que, nas mãos de outro diretor e com melhor cuidado de desenvolvimento de personagens, a fim de evitar unidimensionalidade das protagonistas e coadjuvantes, O Escândalo poderia alcançar resultados muito mais impactantes que com a equipe escalada. Uma história tão importante não deveria, de forma alguma, se tornar esquecível – e é isso que ocorre aqui.

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Brooklyn Sem Pai Nem Mãe

Trama escrita, dirigida e protagonizada por Edward Norton como um detetive cheio de tiques e TOCs rompe com a clássica estética noir

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Warner/Divulgação

Brooklyn Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn, EUA, 2019 – Warner), o novo filme de Edward Norton e segundo de sua carreira de diretor, é uma história detetivesca com enfoque em Lionel Essrog, portador de uma síndrome que provoca tiques nervosos, vocais e comportamentos obsessivo-compulsivos. Após a morte de seu chefe e mentor, Lionel desvenda uma trama política com diversos podres por baixo dos panos.

O texto, também de Norton, é adaptado de um livro homônimo de Jonathan Lethem e explora dois conflitos de Lionel: a busca pelo assassino de Minna, seu mentor interpretado por Bruce Willis, e a batalha diária contra uma doença incurável – e toda dor de cabeça que vem com isso. É justamente esse aspecto do personagem que prende o foco do filme e de seu espectador – a brilhante atuação de Norton é capaz de criar um protagonista multidimensional, capaz de comédia, mas também do drama. No entanto, Lionel é muito passivo. Isto é, os elementos da trama ocorrem a ele, não por causa dele, traço que se reflete no andamento de duas horas e meia – o que, infelizmente, é “tempo demais” para um longa-metragem hoje em dia.

Norton não é o único a realizar um ótimo trabalho em frente às câmeras. A maior companheira de tela de Lionel é Laura Rose, interpretada por Gugu Mbatha-Raw. Ela trabalha na intensidade certa, dosando bem as reações de outra personagem muito reativa. Alec Baldwin, o antagonista da trama, cria um personagem consciente de sua ameaça, sem precisar extrapolá-la para surtir efeito.

A fotografia traz à tona uma decisão estética interessantíssima de Brooklyn Sem Pai Nem Mãe, à qual até o roteiro contribui, em certa instância. Este é um longa com trama girando em torno de um detetive, nos anos de ouro dos Estados Unidos, em plena Nova York. Ainda assim, a obra rompe com diversas tradições do film noir, imortalizado como o “filme de detetive” por excelência. As cenas rodadas de dia, sem sombras duras projetadas ou até mesmo o chiaroscuro (o alto contraste entre sombras e realces), distanciam-se em muito dessa decisão estética que imperava lá pelos anos 1940 e 1950. No entanto, é possível ver as homenagens ao estilo fílmico em cenas noturnas, que são poucas, mas abusam dos conceitos do chiaroscuro para trazer dramaticidade. Ainda há de se levar em conta o esforço do desenho de produção em construir a ambientação da história, das grandes externas aos sets internos e intimistas, dentre os quais podem ser destacados  clube de jazz e o escritório de Minna. Convém, também, levar em conta o impacto que a música de Thom Yorke, tal como a versão de Wynton Marsalis, tem sobre a obra. Um dos momentos mais emocionantes, ainda no primeiro ato, é amparado inteiramente em Daily Battles, que toca até perto de seu final.

Enfim, Brooklyn Sem Pai Nem Mãe é um filme interessante, bem feito, bem atuado e bem dirigido. No entanto, ele não tem quaisquer características excepcionais: da mesma forma que é bom também mas não é memorável. Diferentemente de demais títulos esquecíveis, esse não é assim por ser mediano. Sua história é interessante, estética apurada e ótimas atuações fazem de Motherless Brooklyn um belo filme de telecine, daqueles ao qual assistimos tranquilamente no fim de semana, zapeando os canais da TV por assinatura.