Music

Vanguart

Quarteto faz sua homenagem ao ídolo Bob Dylan em álbum-tributo que reúne muitas faixas de sua fase áurea nos anos 1960 e 1970

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Juan Pablo Mapeto/Divulgação

Bob Dylan é um gênio com suas crônicas e poesias rimadas e musicadas no gênero folk. Por conta de sua complexidade e riqueza artística incomparável, ouvidos menos treinados sempre encontrarão certa dificuldade em absorver sua arte. A voz rouca e o timbre anasalado do cantor e compositor norte-americano podem soar um tanto enjoativo para alguns e as canções quase intermináveis são compridas demais para cativar a atenção das novas gerações acostumadas com a fluidez das coisas. Acompanhar “Hurricane” do começo ao fim, por exemplo, exige uma dose extra de paciência.

Por isso, o recém-lançado álbum do Vanguart é um alento para quem gosta de Bob Dylan. Com uma roupagem despretensiosa e leve, Vanguart Sings Dylan (DeckDisc) é perfeito para se ouvir numa manhã de domingo ou durante uma loooonga viagem ao lado de uma agradável companhia, o que renderá um bom papo cabeça durante o percurso.

A bem da verdade as versões não são tão vanguardistas e seguem à risca o jeito Dylan de ser. Há covers que de tão fiéis às originais ficam quase impossíveis de se distinguir até surgir o vocal. Como “Hurricane” (que conta a história da prisão indevida do boxeador Rubin “Hurricane” Carter) interpretada pelo guitarrista David Dafré (que recebeu esse fardo por saber a letra com 880 palavras de cor).

A banda do vocalista Helio Flanders pode até resistir em inovar nos covers até mesmo para não macular a obra do bardo, mas nos presenteia com surpresas como a bela interpretação da violinista Fernanda Kostchak em “The House Of The Rising Sun”. À medida que se vai escutando o álbum fica clara a intenção da banda em gravar um tributo reverenciando o compositor, instrumentista autodidata, que foi grande influência para dezenas de artistas mundo afora. Aliás, essa homenagem até demorou para ser gravada em disco, porque o Vanguart sempre flertou com Dylan, tocou-o ao vivo e até gravou um especial com covers dele para o Canal Bis.

O deus do folk era respeitado, venerado no meio artístico, sobretudo nos anos 1960 e 1970 e continua sendo um grande influencer para artistas contemporâneos. Entre seus principais discípulos estão Beatles (a quem Dylan teria introduzido a marijuana) e Rolling Stones (que regravaram o clássico de Dylan “Like a Rolling Stone”). Claro que é preciso uma certa dose de preparo para consumir suas composições com seis, oito minutos de duração e seus versos com rimas impecáveis. Goste ou não, Dylan é nome de mestre. Que aprendeu de ouvido a tocar piano e violão. E com seu olhar detalhista, a observar e traduzir o mundo e suas reviravoltas, o que lhe rendeu um prêmio Nobel de literatura em 2016.

No Brasil, ele continua sendo fonte de inspiração para muitos cantores – principalmente do Nordeste – que se aventuraram no árduo e complexo trabalho de traduzir o punhado de canções mais famosas e transpor os versos em inglês impecável para a língua portuguesa. O primeiro que me vem à cabeça e cuja aura mais se aproxima do norte-americano é Zé Ramalho. O paraibano lançou em 2008 um disco com versões de Dylan, como “Knockin’ On Heaven’s Door” Mas a tradução fidedigna do refrão, por exemplo, destoa da versão original: como encaixar “céu” no mesmo acorde de “door” (“Bate, bate, bate na porta do céu”)?.

Outra versão que deve ter dado trabalho foi a de “Romance em Durango” gravada pelo cearense Fagner, que nos primeiros versos dá uma velocidade que mais parece um desespero atropelado para casar letra e música. As rimas originais desaparecem na tradução também fiel à original. A primeira estrofe (“Hot chilli peppers in the blistering sun/ Dust on my face and my cape/ Me and Magdalena on the run/ I think this time we shall escape”) se transformou em “Pimenta quente no sol escaldante/ Poeira no meu rosto e minha capa/ Eu e Madalena na corrida/ Acho que desta vez vamos escapar”.

Esses exemplos levam a concluir que a arte de Bob Dylan deve se perpetuar na língua inglesa. É preciso ouvi-lo no original, caso contrário, pode se perder todo o sentido. Por isso, o álbum de Vanguart é tão significativo por respeitar a voz e a língua do compositor.

Quinze das dezesseis faixas contemplam a primeira fase da sua obra entre suas décadas mais expressivas. Começa com baladas mais suaves como “Tangled Up In Blue” e “Don’t Think Twice it’s All Right”, “Just Like a Woman” (com a clássica gaita na introdução), “Hurricane” e “Like a Rolling Stone” aparecem em sequência, mais para o final do álbum que encerra com a obra-prima “Blowin’ In The Wind”, hino entoado em coro pela banda. Claro que faltam singles bastante conhecidos, como “Knockin’ On Heavens door” (escrita em 1972 por Dylan para o filme Pat Garrett & Billy The Kid) e “Mr. Tambourine Man”. Entrada e prato principal para um segundo Vanguart Sings Dylan, quem sabe.

Movies

Divaldo – O Mensageiro da Paz

Cinebiografia do médium baiano fica à altura de sua obra ao tratar de temas como a sua atividade filantrópica, o suicídio e o que há após a morte

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Fox/Divulgação

A ideia de que o ser humano é livre para optar pelo seu futuro e tomar decisões sobre seus atos sempre foi debatida pela filosofia e religião. Há quem diga, porém, que o livre-arbítrio é inverossímil, que nosso destino já está predefinido, escrito, seja por Deus, pelos astros ou pela entidade que for. Os budistas, pelo contrário, acreditam na lei da ação e reação, o “karma”, que diz que para toda decisão há uma consequência, boa ou ruim. A doutrina espírita também segue nesta linha, de que a evolução do ser humano depende de um constante aprendizado, o qual demanda esforço diário, pessoal e interpessoal. Nosso objetivo é alcançar a tal da perfeição, outro termo bastante complexo. Por isso, algumas almas precisam reencarnar tantas vezes quantas forem preciso até que essa transcendência moral e intelectual aconteça, por meio da caridade, da tolerância, do perdão, da fraternidade, do amor ao próximo como pregava os líderes espirituais Jesus Cristo ou Mahatma Gandhi.

Um desses seres que beiram a perfeição teve sua biografia transformada em longa-metragem. Divaldo – O Mensageiro da Paz (Brasil, 2019 – Fox) é um filme que retrata um ser humano exemplar que tem se dedicado de corpo e alma a acolher o próximo. Aos 92 anos, Divaldo Pereira Franco segue em atividade na Mansão do Caminho, a obra social do centro espírita Caminho da Redenção, erguido há 67 anos em Salvador e que presta diversos serviços além de ajuda espiritual a milhares de pessoas independentemente da religião. Hoje são 600 crianças acolhidas pela entidade filantrópica.

Ao contrário do popular Chico Xavier, o nome Divaldo é conhecido apenas entre os seguidores do espiritismo, mesmo tendo proferido dezenas de palestras ao redor do mundo e vendido mais de oito milhões de livros. Por isso, estava mais que na hora da cinebiografia sobre o médium entrar para o rol dos filmes espíritas.

O diretor Clovis Mello, que assina também o roteiro, conseguiu entregar uma obra correta e à altura do médium, tirando alguns tropeços perdoáveis. O longa foi baseado no livro Divaldo Franco: a Trajetória de um dos Maiores Médiuns de Todos os Tempos, de Ana Landi, e, assim como o filme Kardec (sobre o pai do espiritismo, lançado no primeiro semestre deste ano), também deveria ser visto por adeptos de qualquer doutrina ou religião. Primeiro por tratar de temas delicados, como o suicídio (lembrado neste mês pela campanha Setembro Amarelo), e pela visão que católicos e espíritas têm sobre a morte. Outro motivo está explícito no título do longa: a mensagem de Divaldo, que abdicou de uma vida tradicional para dedicar-se à filantropia, para levar um pouco de paz e amor àqueles que sofrem de carência, financeira ou afetiva.

O filme conta a trajetória do menino, nascido em Feira de Santana, Bahia, que desde os quatro anos de idade se comunica com os mortos e, por isso, precisa a aprender a conviver com o preconceito dos incrédulos. Pela mediunidade ter se manifestado cedo, conversar com a avó morta por exemplo era tão natural quanto bater um papo com um familiar de carne e osso.

Três atores interpretam o médium: João Bravo, na infância; na mocidade, Ghilherme Lobo; e pelo recifense Bruno Garcia, na fase adulta. A história é contada de forma linear e Mello mostra a evolução do caráter de Divaldo, com sua teimosia e orgulho presentes na juventude, até a aceitação da sua vocação e a posterior conquista da serenidade.

A escolha do elenco, aliás, foi decisiva para garantir coesão à trama e alcançar a empatia do espectador, principalmente em relação ao sotaque. Os pais de Divaldo, por exemplo, são interpretados por atores de teatro baianos. A mãe, dona Ana, é Laila Garin, que conduz sua personagem com uma doçura irresistível. Caco Monteiro é Seu Francisco, o pai severo, porém capaz de absorver ao longo do tempo as diferenças do filho.

Divaldo pertencia a uma família católica e, logo no início do filme, surgem várias críticas à igreja. Numa das cenas mais cômicas, o médium, na pele de Ghilherme, vê o espírito da mãe do padre com quem está se confessando. Curioso, o religioso pergunta como sua mãe está vestida e a resposta de Divaldo o faz se libertar de suas amarras.

O longa ainda mostra como o espírita recebeu apoio de pessoas queridas, verdadeiros “pontos de luz”: dona Ana é uma delas e representa a verdadeira mãe de sangue nordestino. Do início ao fim da sua vida, concede o apoio incondicional ao filho, quando, por exemplo, ele é convidado pela médium Laura (Ana Cecília Costa) ainda na adolescência a se mudar para Salvador para estudar a doutrina e trabalhar como datilógrafo. Outro que permaneceu ao lado do médium desde jovem foi o amigo Nilson.

Em sua jornada, Divaldo recebe orientações de sua guia espiritual, Joanna de Angelis, reencarnação de Santa Clara de Assis, a quem é atribuída a maior parte das mensagens psicografadas pelo baiano. A entidade é interpretada por Regiane Alves, que logo coloca os pingos nos is a Divaldo, alertando-o sobre as dificuldades, resistência e preconceito que enfrentaria. Por mais que a doutrina espírita evoque o livre-arbítrio, o filme nos leva a entender que Divaldo já estava predestinado e que ter filhos de sangue não estaria incluso na sua missão. Ele teria filhos de coração.

O contraponto de Joanna vem na forma do espírito obsessor incorporado pelo ator Marcos Veras, que soa um tanto caricato, vestido de preto, com maquiagem pesada e fantasmagórica. A alma assombra a mente de Divaldo, sempre atiçando-o para o lado negro. Outro ponto forçado é a trilha sonora, que parece ter sido escolhida a dedo para arrancar lágrimas dos olhos dos espectador mais sensível – como na cena em que Divaldo perde a sua mãe com “Ave Maria” ao fundo.

No geral, Mello preocupou-se em enfatizar a doutrina espírita em sua essência, de uma forma leve, graciosa e com diálogos bem-humorados. Porém, as falas de Regiane Alves, principalmente, fogem desse viés e soam um tanto cansativas, em tom de sermão. Em certas cenas, a atriz chega a perder o fôlego para dar conta do texto extenso.

Entre tantos ensinamentos transmitidos por Joanna a Divaldo, um deles é determinante para acolher em nosso cotidiano tão trivial, quando encarar alguns vivos chega a ser mais aterrorizante do que topar com uma alma penada. A melhor resposta para enfrentar a intolerância é o silêncio.

Movies

Atentado ao Hotel Taj Mahal

Ataque terrorista ocorrido em 2008 em hotel de luxo na Índia chega aos cinemas brasileiros logo após eventos semelhantes em Sri Lanka

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Quase 62 horas ou pouco mais de 2.350 quilômetros de distância separam o Hotel Shangri-La, em Colombo, no Sri Lanka, do Taj Mahal Palace Hotel, em Mumbai, na Índia. Os dois hotéis de luxo cinco estrelas em dois países de extrema desigualdade social foram alvo de ataques terroristas. No último domingo de Páscoa, data que simboliza a ressurreição de Jesus Cristo, foram 253 mortos no Sri Lanka. Os terroristas islâmicos explodiram igrejas – templos do catolicismo – e hotéis – templos de turistas endinheirados em várias cidades do país.

Onze anos separam este domingo de Páscoa daquele 26 de novembro, um dia qualquer na capital econômica da Índia, terra do hinduísmo (que divide a sociedade em castas), do jainismo, do budismo, do sikhismo e onde a população muçulmana cresce a cada ano. País onde a vaca é sagrada e a mulher ainda é inferiorizada e constantemente vítima de violência sexual.

Em 2008, assim como no Sri Lanka (que tem o budismo como religião predominante), uma série de ataques terroristas matou mais de 160 pessoas. Esses quatro dias de pânico são recontados no primeiro longa do diretor Anthony Maras, Ataque ao Hotel Taj Mahal (Hotel Mumbai, Austrália/Índia/EUA, 2018 – Imagem Filmes). A produção tem o ator britânico Dev Patel (estrela de Quem Quer Ser um Milionário, longa rodado em Mumbai e que estreou no cinema no ano do atentado) como protagonista e produtor executivo. Retrata o “11 de setembro da Índia” e entrou em cartaz no Brasil na última quinta-feira, um ano após o lançamento de outro filme sobre o tema, One Less God, também australiano.

O longa de Maras (premiado diretor dos curtas Azadi, de 2005, e The Palace, 2011, sobre o conflito Chipre-Turquia) foi lançado no festival de cinema de Adelaide, no final de março, em uma sessão emocionante que reuniu sobreviventes do atentado, entre eles o chef do Taj Mahal, Hermant Oberoi (interpretado pelo veterano ator indiano Anupam Kher), que ajudou a salvar centenas de hóspedes. Em entrevista à NBC News, Oberoi disse que a experiência de reviver o ataque foi visceral, sobretudo nas primeiras cenas de tiroteio.

E essa era a intenção de Maras: trazer a maior carga de verossimilhança possível e retratar o heroísmo de pessoas comuns diante do terror. Pessoas que, sem poderes sobrenaturais, escolheram arriscar a vida para salvar desconhecidos diante do abismo. Foram humanas, demasiadamente humanas.

É nítida a intenção do diretor australiano em chocar, expor a realidade, seja com o estampido dos tiros – nada artístico, sem uso de qualquer música clássica como em Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola – ou em cenas em que as personagens precisam escolher entre permanecer no hotel para salvar outras vidas ou tentar escapar para reencontrar a família.

As cenas de tiroteio, aliás, parecem intermináveis. São tantos tiros de AK-47 que o espectador corre o risco de deixar o cinema com náusea e dores de cabeça. A sensação, porém, não chega aos pés de quem sofreu na pele uma situação limite de estar em meio a um massacre ao vivo.

O apocalipse de Atentado ao Hotel Taj Mahal já fica evidente no início com os contrastes de um país onde milhões de pessoas são indigentes; onde agricultores cometem suicídio todos os anos, e 40% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição crônica.

Os dez terroristas paquistaneses chegam à cidade de barco, com suas mochilas nas costas e sempre seguindo instruções do líder que faz uma massiva lavagem cerebral. “You feel strong. There is no fear in your heart. You are like sons to me. I am with you. God is with you. Paradise awaits” (Você se sente forte. Não há medo em seu coração. Vocês são como filhos para mim. Estou com vocês. Deus está com vocês. O Paraíso espera). É como o líder terrorista profetizou: o mundo inteiro está vendo. E com as mídias sociais, o alcance das mensagens de intolerância religiosa fica cada vez mais potente.

O grupo se separa a fim de concretizar a sequência de ataques. Corta para a personagem de Patel: Arjun está num banheiro público e se arruma na frente do espelho. Sua filha, ainda bebê, está no chão sujo, chorando. Ele a pega no colo e segue para o trabalho da mulher porque não tem com quem deixar a criança. A esposa está grávida. Com o turbante sikh (que fortalece nosso deus interior), apressa-se para não chegar atrasado ao imponente hotel – uma construção de arquitetura gótica vitoriana que homenageia a umas das sete maravilhas do mundo. Lá ele trabalha como garçom. No caminho, perde um dos sapatos e, por pouco, não perde o emprego. Oberoi, seu chefe, empresta-lhe um par e Arjun precisa atender os clientes mancando.

O Taj Mahal é um paraíso. Ali o hóspede – estrangeiro, rico, fino, vip, famoso – é tratado como um deus. Toma banho na temperatura perfeita. Enquanto isso, em nome de Alá ou Allah (a palavra árabe que designa Deus), os terroristas dão cabo ao primeiro ataque, na estação de metrô, onde calcula-se que cem pessoas tenham morrido. O tiroteio é noticiado pela televisão mas os hóspedes que chegam ao Taj ainda permanecem alheios ao terror, jantando nos restaurantes de luxo do hotel. Como o casal formado pela indiana Zahra (Nazanin Boniadi) e o americano David (Armie Hammer), que viaja com o filho recém-nascido e a babá dele (Tilda Cobham-Hervey).

Depois do ataque a um restaurante na cidade, as vítimas sobreviventes correm desesperadas para buscar refúgio no hotel e os terroristas se infiltram entre elas. O luxo se transforma em inferno. O sangue, o suspense e o pânico se instalam.

Forças militares de Nova Delhi demoram horas para chegar e o staff do hotel e uma equipe de policiais locais tentam salvar os hóspedes como heróis. Os dedos massacrados pelo sapato apertado de Arjun não importam mais. A dor desaparece diante do caos, de um pesadelo real, da luta pela sobrevivência.  Aos tiros somam-se o choro do recém-nascido e a experiência de assistir ao filme torna-se torturante.

Maras tenta ainda humanizar os terroristas, como na comovente cena em que um dos atiradores telefona para a família perguntando se o dinheiro já havia sido enviado aos pais. O vilão é o herói da família. O terrorista, capaz de amar e matar o próximo em nome de Alá, chora diante de suas vítimas amordaçadas.

Como toda história baseada em fatos reais, o desfecho desse filme já é esperado, é conhecido. E, se depender da escalada do terror que só cresce no mundo, muitos outros finais como esse serão retratados no cinema. Quem sabe o próximo título do filme de Maras será Atentado ao Hotel Shangri-La.

Saiba mais

Documentário

Este atentado na Índia já rendeu algumas produções cinematográficas. Em 2009, foi lançado um documentário sobre a infiltrada dos jihadistas. “A maioria dos ataques terroristas duram segundos. Mas o ataque em Mumbai foi diferente”, assim começa a narração do documentário Surviving Mumbai, sobre o ataque. O país é o vice-campeão mundial de taxa de extrema pobreza (perdeu para a Nigéria em 2018, segundo o relatório da Brookings Institution) e está entre aqueles com maior número de ataques e vítimas de terrorismo em todo o mundo, depois de Iraque e Paquistão. O documentário foi lançado em 2009 e traz relatos de sobreviventes, como Oberoi.

Reconstrução

Vidas não podem ser “reconstruídas”. Espaços físicos, sim. Dois anos após o atentado, o jornal New York Times publicou matéria sobre a restauração de preciosas obras de arte indiana que o Taj Mahal abrigava em suas dependências, como no imenso lobby. O trabalho durou 21 meses. Quase 300 peças, entre elas quadros de importantes pintores indianos como Vasudeo S. Gaitonde e Jehangir Sabala, ficaram cobertas por fuligem e fungo. Para ler mais sobre isso clique aqui.

Conflito sem fim

Índia e Paquistão são hoje duas potências nucleares e disputam a região da Caxemira antes mesmo de se tornarem independentes do Reino Unido, em 1947. Na época, foi traçado um plano territorial apresentado pelo parlamento britânico e o governante local (isto é, o marajá) da Caxemira decidiu se anexar à Índia, dando início ao conflito interminável. A rivalidade é intensificada por conta da religião. Na Índia, o hinduísmo ainda predomina. Já os paquistaneses são muçulmanos.

Movies

My Name Is Now, Elza Soares

Documentário desconcerta o espectador pela opção de desnudar a alma da cantora por caminhos não convencionais

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: It Filmes/Divulgação

Meu nome é agora, diz a cantora durante a série de depoimentos dados para o filme. Ela agradece a Deus por tudo o que viveu e aconteceu na sua vida, inclusive os momentos mais difíceis e as tragédias constantes que teve em família. Tudo isso, segundo ela, foi responsável por transformá-la no que ela é.

Em My Name Is Now, Elza Soares (It Filmes, 2018), a diretora Elizabete Martins Campos opta por um caminho nada convencional em se tratando de documentário. Ela dispensa uma narrativa histórica linear da vida e da carreira biografada. Tampouco quer contar a sua trajetória de fato. Sua opção é por uma estética sensorial. Imagens e sons vão se misturando e complementando. Por vezes Elza canta acompanhada de uma banda nunca vista pela câmera. Por vezes ela fala sobre seus sentimentos e um pouco do que já viveu em quase noventa anos de idade. Nascida no Rio de Janeiro no dia 23 de julho de 1930 (segundo ela mesma conta no início do filme), Elza Soares é uma mulher múltipla e vulcânica. Uma força da natureza capaz de assombrar sempre que abre a boca. Pela voz, pelo timbre, pela lucidez, pela sagacidade, pela resiliência, pela emoção. E a diretora, ciente demais de tudo isso, ainda brinca com o espectador fundindo áudio e vídeo de maneira difusa, brincando com efeitos (ecos, filtros, closes, sobreposições de música e fala).

Claro que as mais importantes informações sobre a vida de Elza estão lá. O enfrentamento da fome, a gravidez muito precoce, a perda dos maridos, o romance com Mané Garrincha (que acabou por se eternizar no inconsciente coletivo da população brasileira), seu ressurgimento para o primeiríssimo escalão da MPB nas últimas décadas. Mas nada aparece de forma tão mastigada assim. Por vezes é Elza quem relembra misturando emoções (raiva, alegria, saudade, indignação), por vezes a música que rola naquele instante (ora com letras cantadas, ora com a melodia tracejadas pelos scats inacreditáveis que ela arranca do gogó), por vezes são as imagens de arquivo (vídeos antigos, fotografias, recortes de jornais e revistas) ou uma câmera subjetiva que se apresenta como os olhos da biografada.

Ao espectador resta a condição de se conformar como um voyeur. Não se sabe onde se vai chegar, não há muitas explicações que não sejam a da memória e a do afeto. Por isso mesmo é inevitável se sentir desconcertado por este filme. E não só pela boca, mas também pelo olhar de Elza Soares. E, claro, por sua alma desnudada de maneira tão incisiva e corajosa.

Obs: My Name Is Now, Elza Soares entrou em cartaz no circuito nacional neste primeiro dia de novembro, através do projeto Circulabit (Circuito Laboratorial de Produção e Difusão do Audiovisual em multiplataformas, com os eixos LabiT – Incubadora de Criações, Prêmio Circulabit, Circuito Salas de Cinema, Laboratório de acessibilidade, Exibição ao Ar Livre e Cirucito Brasil – Exibições Gratuitas. Este projeto teve início no último mês de outubro e se estenderá até abril de 2019, com programação no Brasil e em Portugal, em diferentes formatos, plataformas e parcerias.

Music

Against Me! – ao vivo

Extenso set list e um largo sorriso estampado no rosto de Laura Jane Grace marcam a estreia da banda em solo brasileiro

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Texto por Abonico R. Smith

Foto de iaskara

Ela não entendia muita coisa do que a plateia gritava em português ao final de quase todas as músicas que a banda tocava, mas captou a mensagem e também mandou o seu recado, ao microfone, contra a nova onda de fascismo que varre o mundo, em especial o Brasil nos dias atuais. Foi o que bastou para o salão de shows do Jokers, lotado, explodir em êxtase já quase no final do show. Era a coroação de uma noite de glórias, tão esperada havia anos por muitos fãs brasileiros.

Naquela noite de 19 de outubro de 2018 estreavam, tardiamente, Laura Jane Grace e seu Against Me! em solo brasileiro. Depois de mais de vinte anos da formação da banda e do lançamento de sete álbuns, o quarteto, enfim, realizava em Curitiba seu primeiro show no país, abrindo uma turnê brasileira que incluiria passagens em outras duas capitais (São Paulo e Natal) e marcava também o lançamento da edição nacional de sua autobiografia Tranny – Confissões da Anarquista Mais Infame e Vendida do Punk Rock. E claro que tudo isso seria uma noite bastante politizada.

O Against Me! transformou-se em sinônimo de banda política com o passar dessas duas últimas décadas. Não a política partidária ou econômica. Mas a política das coisas pequenas e cotidianas, do comportamento, da sexualidade, do rock’n’roll, do contestamento ao que já está estabelecido. Por isso, Laura Jane Grace é tão reverenciada. Seja pelas letras repletas de sarcasmo e ironia, incluindo um certo tom jocoso de autodepreciação – que sempre funciona para captar a identificação do público. Seja pelas melodias pegajosas, que ajudam a grudar as suas letras no cérebro e fazem todo mundo cantar junto com ela a hora que for. Seja pela questão de gênero, que envolve uma recente transição sexual. Seja pelas atitudes fora dos palcos, que colocam-na como uma das grandes expoentes da música LGBT mundial. Por isso, a turma do #EleNão entoava gritos contra um certo capitão. Aquela noite também era de protesto.

A celebração ficou por contato do extenso repertório, elaborada especialmente pela banda para sanar a sua ausência até então dos palcos brasileiros. Talvez por isso tenha havido a opção de resgatar, de modo equilibrado, as três distintas fases do Against Me!. Das 26 músicas pinçadas para o set list da noite no Jokers, quase metade representavam os três primeiros álbuns, lançados entre 2002 e 2005, quando a banda iniciava seus passos no circuito do punk rock americano com canções mais juvenis, urgentes, diretas e barulhentas. Da fase que representou o período de contrato por uma grande gravadora (com dois álbuns produzidos por Butch Vig entre 2007 e 2010, singles nas paradas de sucesso, números musicais em cultuados programas de entrevistas e humor na TV, presença no topo das listas dos melhores discos do ano), um belo recheio de sete músicas. Da fase em que Tom Gabel deixou de existir para dar lugar a Laura Jane Grace (mais dois discos entre 2014 e 2016, sendo o primeiro o essencial Transgender Dysphoria Blues, no qual o conceito é justamente a disforia de identidade de gênero da vocalista), outras sete. Então fã nenhum pode sair reclamando. Teve para todos os gostos, teve para todas as fases.

Um show do quarteto também significa que as músicas falam por elas mesmas. Daí a opção de Laura por falar bem pouco entre as canções. Era uma pancadaria atrás da outra. Quase sem interrupção, com uma banda afiadíssima, contando com o esperado retorno do baixista Andrew Seward, que passou os últimos cinco anos tocando outros negócios, e o novo baterista Atom Willard, nome experiente do rock alternativo, que encaixou-se como uma luva na engrenagem motora do ritmo do Against Me!.

Então, por quase duas horas, a plateia curitibana foi levada à loucura. Do início arrasador (com a dobradinha “FuckMyLife666” e “Transgender Dysphoria Blues”) ao final do set, com uma série de clássicos enfileirados (“I Was A Teenage Antichrist”, “The Ocean”, “Dead Friend”, “333”, “True Trans Soul Rebel” e “Black Me Out”) foi um festival de punhos erguidos no ar, coro em uníssono durante todas as letras e stage divings celebradíssimos – em especial o de uma garota de apenas dez anos de idade, fanática pela banda e levada pelos pais também fãs assumidos. Ainda deu tempo para um bis longo fuçar o repertório da primeira fase do grupo e entregar canções não tão óbvias como um presente especial para quem esperou por tanto tempo.

Na letra de “True Trans Soul Rebel”, Laura pergunta se Deus abençoaria seu coração transexual. Deus é amor, alegria e energia. E ele, com certeza, estava presente junto aquelas pessoas que se espremiam cantando tudo em alto e bom som no Jokers. Um belo e largo sorriso, estampado em seu rosto frequentemente coberto pelos longos cabelos, entregava o estado de espírito da vocalista. Uma verdadeira alma trans rebelde. Rebelde e muito feliz no Brasil.

Set list: “FuckMyLife666”, “Transgender Dysphoria Blues”, “Pints Of Guinness Make You Strong”, “Cliché Guevara”, “Rice And Bread”, “Pretty Girls (The Mover)”, “Miami”, “From Her Lips To God’s Ears (The Energizer)”, “New Wave”, “Piss And Vinegar”, “Ache With Me”, “Haunting, Haunted, Haunts”, “Walking Is Still Honest”, “Those Anarcho Punks Are Mysterious…”, “Animal”, “Americans Abroad”, “I Was A Teenage Antichrist”, “The Ocean”, “Dead Friend”, “333”, “True Trans Soul Rebel” e “Black Me Out”. Bis: “Joy”, “Baby, I’m An Antichrist!”, “We Laugh At Danger (And Break All The Rules)” e “Sink, Florida, Sink”.