Music

Vanguart

Quarteto faz sua homenagem ao ídolo Bob Dylan em álbum-tributo que reúne muitas faixas de sua fase áurea nos anos 1960 e 1970

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Juan Pablo Mapeto/Divulgação

Bob Dylan é um gênio com suas crônicas e poesias rimadas e musicadas no gênero folk. Por conta de sua complexidade e riqueza artística incomparável, ouvidos menos treinados sempre encontrarão certa dificuldade em absorver sua arte. A voz rouca e o timbre anasalado do cantor e compositor norte-americano podem soar um tanto enjoativo para alguns e as canções quase intermináveis são compridas demais para cativar a atenção das novas gerações acostumadas com a fluidez das coisas. Acompanhar “Hurricane” do começo ao fim, por exemplo, exige uma dose extra de paciência.

Por isso, o recém-lançado álbum do Vanguart é um alento para quem gosta de Bob Dylan. Com uma roupagem despretensiosa e leve, Vanguart Sings Dylan (DeckDisc) é perfeito para se ouvir numa manhã de domingo ou durante uma loooonga viagem ao lado de uma agradável companhia, o que renderá um bom papo cabeça durante o percurso.

A bem da verdade as versões não são tão vanguardistas e seguem à risca o jeito Dylan de ser. Há covers que de tão fiéis às originais ficam quase impossíveis de se distinguir até surgir o vocal. Como “Hurricane” (que conta a história da prisão indevida do boxeador Rubin “Hurricane” Carter) interpretada pelo guitarrista David Dafré (que recebeu esse fardo por saber a letra com 880 palavras de cor).

A banda do vocalista Helio Flanders pode até resistir em inovar nos covers até mesmo para não macular a obra do bardo, mas nos presenteia com surpresas como a bela interpretação da violinista Fernanda Kostchak em “The House Of The Rising Sun”. À medida que se vai escutando o álbum fica clara a intenção da banda em gravar um tributo reverenciando o compositor, instrumentista autodidata, que foi grande influência para dezenas de artistas mundo afora. Aliás, essa homenagem até demorou para ser gravada em disco, porque o Vanguart sempre flertou com Dylan, tocou-o ao vivo e até gravou um especial com covers dele para o Canal Bis.

O deus do folk era respeitado, venerado no meio artístico, sobretudo nos anos 1960 e 1970 e continua sendo um grande influencer para artistas contemporâneos. Entre seus principais discípulos estão Beatles (a quem Dylan teria introduzido a marijuana) e Rolling Stones (que regravaram o clássico de Dylan “Like a Rolling Stone”). Claro que é preciso uma certa dose de preparo para consumir suas composições com seis, oito minutos de duração e seus versos com rimas impecáveis. Goste ou não, Dylan é nome de mestre. Que aprendeu de ouvido a tocar piano e violão. E com seu olhar detalhista, a observar e traduzir o mundo e suas reviravoltas, o que lhe rendeu um prêmio Nobel de literatura em 2016.

No Brasil, ele continua sendo fonte de inspiração para muitos cantores – principalmente do Nordeste – que se aventuraram no árduo e complexo trabalho de traduzir o punhado de canções mais famosas e transpor os versos em inglês impecável para a língua portuguesa. O primeiro que me vem à cabeça e cuja aura mais se aproxima do norte-americano é Zé Ramalho. O paraibano lançou em 2008 um disco com versões de Dylan, como “Knockin’ On Heaven’s Door” Mas a tradução fidedigna do refrão, por exemplo, destoa da versão original: como encaixar “céu” no mesmo acorde de “door” (“Bate, bate, bate na porta do céu”)?.

Outra versão que deve ter dado trabalho foi a de “Romance em Durango” gravada pelo cearense Fagner, que nos primeiros versos dá uma velocidade que mais parece um desespero atropelado para casar letra e música. As rimas originais desaparecem na tradução também fiel à original. A primeira estrofe (“Hot chilli peppers in the blistering sun/ Dust on my face and my cape/ Me and Magdalena on the run/ I think this time we shall escape”) se transformou em “Pimenta quente no sol escaldante/ Poeira no meu rosto e minha capa/ Eu e Madalena na corrida/ Acho que desta vez vamos escapar”.

Esses exemplos levam a concluir que a arte de Bob Dylan deve se perpetuar na língua inglesa. É preciso ouvi-lo no original, caso contrário, pode se perder todo o sentido. Por isso, o álbum de Vanguart é tão significativo por respeitar a voz e a língua do compositor.

Quinze das dezesseis faixas contemplam a primeira fase da sua obra entre suas décadas mais expressivas. Começa com baladas mais suaves como “Tangled Up In Blue” e “Don’t Think Twice it’s All Right”, “Just Like a Woman” (com a clássica gaita na introdução), “Hurricane” e “Like a Rolling Stone” aparecem em sequência, mais para o final do álbum que encerra com a obra-prima “Blowin’ In The Wind”, hino entoado em coro pela banda. Claro que faltam singles bastante conhecidos, como “Knockin’ On Heavens door” (escrita em 1972 por Dylan para o filme Pat Garrett & Billy The Kid) e “Mr. Tambourine Man”. Entrada e prato principal para um segundo Vanguart Sings Dylan, quem sabe.

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Michael Jackson

Dez curiosidades a respeito deste grande ídolo que há uma década deixa saudades entre os fãs de música pop

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Reprodução

Uma década sem Michael Jackson são dez anos privados de um dos artistas mais criativos e excêntricos da história da música pop. Não há – e dificilmente haverá – quem chegue aos pés do autor de “Billie Jean”, “Man In The Mirror”, “Beat It”, “Black Or White”, “Thriller” e tantos outros megahits.

Polêmicas à parte, o fato é que Michael cresceu artista, forçado desde muito cedo pelo pai a entrar no showbiz – o que explica boa parte de seu comportamento como adulto e perante suas doenças, como o vitiligo. Michael sempre foi um garoto com sua síndrome de Peter Pan; tanto é que batizou seu rancho de Neverland (Terra do Nunca, em português).

Nunca teve sossego esse Rei do Pop, sempre perseguido pelos olhares da mídia. Em contrapartida, era amado por milhões de fãs ao redor da Terra. O artista superlativo vendeu milhões e rendeu centenas de curiosidades. Que ele ganhou treze prêmios Grammy ou que Thriller é o álbum mais vendido do mundo até hoje todos já sabem, certo? Mas você fazia ideia que Michael não compôs “Thriller” (na verdade, o autor é o produtor Rod Temperton, o mesmo que fez outro hit seu, “Rock With You”)? Ou que seu super-herói favorito era Morfo, do X-Men?

Em busca de peculiaridades, o Mondo Bacana fez uma pesquisa a respeito do ídolo, que morreu no dia 25 de junho de 2009, de overdose acidental de medicamentos, aos 50 anos de idade. Veja só o que encontramos de muito curioso.

>> Como Michael era testemunha de Jeová, quando ele estava em turnê nunca comemorava seu aniversário. “Todo ano seu assistente tinha de lembrar todo mundo: okay, o aniversário de Michael está chegando, mas ele não celebra”, contou a chef Mani Nail em entrevista à revista People, que conheceu o astro em 1982.

>> Michael era bastante rígido com sua alimentação. Sempre magrinho porque comia pouco e dava preferência à dieta veggie. No site da revista People, uma das chef que trabalhava para ele conta que o astro ficava horas sem comer e que gostava de pizza, mas não tolerava macarrão. MJ também era guloso e adorava doces, mas detestava chocolate. O cantor era fã mesmo de comida mexicana, como enchiladas bem picantes. Também gostava de kebab de tofu grelhado com cuscuz e molho marroquino. Michael também teve uma cozinheira brasileira, chamada Remi Vale Real. Ele adorava panquecas de vegetais, crepes e arroz com feijão que a mineira fazia. Remi uma vez, disse em entrevista à imprensa, que o ídolo pop adorava melancia.

>> Que Michael foi ferido na cabeça durante uma explosão acidental enquanto participava da gravação do comercial da Pepsi, em 1984, todo mundo sabe. Mas você poderia desconfiar que, apesar de ser o garoto-propaganda da marca, ele não gostava do refrigerante?

>> Meias brancas com mocassim preto, chapéu tipo Fedora ou Borsalino e luva de lantejoulas eram a marca registrada do astro. MJ começou a usar a luva na mão direita provavelmente para esconder o vitiligo. Ele vestiu o acessório pela primeira vez no clipe de “Billie Jean”, lançado na MTV no dia 10 de março de 1983.

>> Aliás, existem N teorias sobre a identidade de Billie Jean. Todos sabem que ela era apenas uma garota, como diz a letra da canção. Mas você fazia ideia de que Michael compôs “Billie Jean” enquanto dirigia seu Rolls-Royce. Ele ficou tão compenetrado em sua criação, inclusive, que simplesmente não notou que o carro começou a pegar fogo. Esta canção, o primeiro single do álbum Thriller, já recebeu dezenas de versões em vários estilos. Entre os que a regravaram estão Chris Cornell e Caetano Veloso. “Billie Jean” também foi o primeiro videoclipe de um cantor negro a aparecer na MTV.

>> E foi cantando “Billie Jean” que Michael executou o moonwalk pela primeira vez, em rede nacional, durante a comemoração dos 25 anos da gravadora Motown, em 1983. O famoso passo, porém, não foi inventado pelo Rei do Pop, mas pelo sapateador Bill Baily na década de 1950. MJ deu seu toque de mágico e o transformou na dancinha mais imitada mundo afora.

>> Michael arrastava uma multidão de fãs enlouquecidos por onde passava. E muitos deles tentavam imitá-lo. Na França, em 1984, um alucinado matou-se porque não havia conseguido realizar uma cirurgia plástica para ficar com a cara do astro. Aliás, estima-se que o cantor tenha feito de dez a doze procedimentos em apenas dois anos. Há quem diga que isso era para ficar com o nariz do Peter Pan.

>> Além de Peter Pan, Michael era fã de Pinocchio (olha só o elemento “nariz” de novo!) e dos Três Patetas. Seus livros preferidos eram O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, e Rip Van Winkle, um conto escrito pelo americano Washington Irving em 1819. A história – baseada na obra dos irmãos Grimm – é sobre um homem que cochilou à sombra de uma árvore e dormiu durante vinte anos. Quando ele acordou, seu país não era mais colônia inglesa: em vez do Rei George III todos celebravam George Washington.

>> O cantor era apaixonado pelo Brasil e pisou pela primeira vez em solo brasileiro antes mesmo de lançar o brilhante álbum solo Off The Wall, em 1979. Cinco anos antes, ele fez cinco concertos nem nosso país (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília) com os irmãos do Jackson 5. Depois voltou em 1996, e para gravar o clipe da faixa “They Don’t Care About Us”, dirigido pelo cineasta Spike Lee. As locações escolhidas foram o Pelourinho, em Salvador, e na favela Dona Marta do Rio de Janeiro. Nessa última vinda, há relatos de que o Rei do Pop cantou durante toda a viagem de tão contente de estar voltando para o Brasil. E também que, no hotel, experimentou várias frutas tropicais.

>> Para o final, uma descoberta e tanto às gerações mais novas de fãs do cantor. A doce balada “Ben” foi lançada em single por Michael em 1972 e se engana quem acha que a letra se refere a um bichinho fofinho. Uma das faixas mais tocadas nas rádios naquele ano, ela foi gravada para os créditos finais do filme que, no Brasil, ganhou o título de Ben, O Rato Assassino. É uma história de terror que retrata a amizade entre um garoto solitário e um ratinho. Mas o camundongo, na verdade, é o líder de um bando de roedores assassinos. A canção foi escrita pelo astro teendos anos 1960, Danny Osmond, que integrava o grupo Osmonds. Ela apenas foi interpretada por Michael, que na época tinha apenas 12 anos de idade, porque Danny não teve tempo de gravá-la para o filme por estar em turnê.

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The Who’s Tommy – ao vivo

Montagem britânica recria a clássica ópera-rock pela segunda vez no palco do Teatro Guaíra, em Curitiba

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Texto e foto por Abonico R. Smith

O Who encontrava-se num grande dilema no final dos anos 1960. Depois de emplacar uma série de hits em singles e transformar-se numa poderosa banda para ser vista ao vivo, ainda faltava um grande disco, uma respeitável coleção de canções compondo uma mesma obra. Afinal, era o tempo dos álbuns que traziam um conceito costurando as faixas mais capa, contracapa e toda o resto da programação visual da obra. Em dezembro de 1967, fechando um ano glorioso para álbuns temáticos, o quarteto lançou The Who Sell Out, no qual brincava com a relação entre a música e a comunicação e toda a questão do consumo a ela associado, inclusive com propagandas fictícias estampando as fotos e preenchendo os intervalos entre as músicas. Apesar das críticas positivas da imprensa, as vendas não decolaram, frustrando, assim, mais uma vez, as expectativas de emplacar um álbum.

Foi então que caiu nas mãos de Pete Townshend um livro do guru Meher Baba e ele se interessou pelas obras e a mensagem do indiano que passou seus últimos 44 anos de vida sem quebrar o voto de silêncio feito em 1925 e para quem o uso de drogas alucinógenas – intenso naquela época de explosão contracultural – não servia para fins espirituais. Provocado pelo empresário e produtor artístico das gravações da banda, Kit Lambert, o guitarrista topou compor uma ópera-rock para o próximo álbum da banda. O formato já não era novidade para o Who, que havia feito o mesmo – porém com menor duração – em “A Quick One, While He’s Away” (com nove minutos de duração e seis atos), última faixa do segundo álbum, A Quick One (1966). Então, recluso em seu estúdio caseiro, Pete compôs as demos que viriam a ser as músicas de Tommy, o tão esperado álbum de sucesso comercial do Who, lançado em 23 de maio de 1969.

O álbum duplo contava a história de um garoto inglês que, diante de uma série de abusos na infância (sexuais e psicológicos, sobretudo), fecha-se num mundo de introspecção e perde o contato sensitivo com o mundo humano, tornando-se, sugestiva e convenientemente, cego, surdo e mudo. Depois de descobertas como o prazer sexual (simbolizado pelas drogas sintéticas) e o poder (o jogo de fliperama), recobra os sentidos já adulto, ao enxergar o seu reflexo em um espelho, e acaba se convertendo em uma espécie de messias em um acampamento jovem (religiões e seitas). Entretanto, sua mão pesada contra os seguidores provoca uma rebelião que o destitui. O final é aberto, mas muitos fãs sugerem que Tommy teria se fechado de novo ao mundo, voltando às fantasias desenvolvidas em sua mente.

Para compor a trama, o guitarrista utilizou diversas referências autobiográficas, inseridas nos personagens em maior ou menor grau de veracidade com as suas próprias experiências de vida. Mas o fato é que Tommy, enfim, teve o seu reconhecimento popular traduzido em vendas (número dois nas paradas britânicas e quatro nas americanas), emplacou um hit nas rádios mundiais (“Pinball Wizard”), deu início a uma grande turnê que reproduzia o repertório na íntegra e ainda inaugurou uma nova fase do Who, menos pop e bem mais pesada, com grandes álbuns na sequência e shows concorridos no mercado americano, onde a performance explosiva de cada um dos quatro integrantes eram os grandes destaques. Em 1972 o disco ganhou versão orquestral e em uma estreou celebrada versão cinematográfica com direção do britânico Ken Russell com elenco encabeçado pelo próprio vocalista Roger Daltrey e as participações dos atores Ann-Margret, Oliver Reed e Jack Nicholson mais outros ídolos do rock como Elton John, Tina Turner, Eric Clapton, o próprio Townshend e mais John Entwistle e Keith Moon (respectivamente, o baixista e o baterista da banda). Em 1993, veio um musical da Broadway com a adição de canções inéditas assinadas por Townshend. Com o passar dos anos as vendas ultrapassaram a marca de 20 milhões de exemplares físicos, o que garantiu que a obra entrasse para o Hall da Fama do Grammy.

Ainda na década de 1990, a montagem da Broadway circulou pelo nosso país, sendo Curitiba umas das escalas. Agora, na noite do último dia 23 de março de 2019, mais de duas décadas depois, o mesmo Teatro Guaíra recebeu uma outra montagem de Tommy, desta vez britânica, que também passou por outras cidades brasileiras (Belo Horizonte, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo) e países sul-americanos (Chile, Paraguai, Peru). Encenado há 24 anos em Londres, o musical The Who’s Tommy trouxe seu elenco atual formado por uma banda de cinco músicos altamente técnicos (alguns assumindo os vocais na hora da entrada em cena de personagens secundários) e seis cantores-atores (inclusive um mirim, representando o protagonista ainda na infância). Toda e qualquer informação adicional vinha do telão disposto ao fundo do palco, que trazia muita referência visual ao filme de Russell e ainda uma alteração temporária significativa na história: o nascimento de Tommy Walker é transferido para depois da Segunda Guerra (mais precisamente em 1951, não mais em 1921), fazendo, assim, com que ele acabe por completar 18 anos justamente quando o álbum original fora lançado.

Por falar na obra de 1969, o set list da montagem inglesa respeita integralmente a ordem das faixas disposta pela banda no álbum duplo, ignorando a sequência e as novidades levadas ao cinema. Gary Brown solta o gogó como o Tommy adulto e conquista qualquer plateia com seu carisma e potência vocal. Contudo, quem rouba a noite é Joanna Male, cantora oriunda da cidade de Liverpool, que se divide entre a mãe Nora e a cafetina cigana Acid Queen. Na apresentação realizada em Curitiba não foi diferente, por sinal. Programada inicialmente para dois atos, a ópera-rock foi executada sem intervalos no Teatro Guaíra, fazendo com que os 75 minutos das canções passassem voando.

E quem não foi apressadinho e saiu do local nos momentos finais da canção de encerramento do musical ainda ganhou um belo brinde. Banda e cantores se uniram no palco para um bis especial, formado por cinco outras composições do Who, todas lançadas nos anos subsequentes ao sucesso mundial de Tommy. Com direito a show de iluminação em laser e clássicos como “Won’t Get Fooled Again”, “Baba O ‘Riley” e “Behind Blue Eyes”.

A capital paranaense já assistiu às montagens de Tommy vindas dos dois lados do Oceano Atlântico. Agora só faltam os originais Daltrey e Townshend. Tomara que isto ainda seja possível ainda um dia.

Set List: “Overture”, “It’s a Boy”, “1951”, “Amazing Journey”, “Sparks”, “The Hawker”, “Christmas”, “Cousin Kevin”, “The Acid Queen”, “Underture”, “Do You Think It’s Alright?”, “Fiddle About”, “Pinball Wizard”, “There’s a Doctor”, “Go To The Mirror!”, “Tommy, Can You Hear Me?”, “Smash The Mirror”, “Sensation”, “Miracle Cure”, “Sally Simpson”, “I’m Free”, “Welcome”, “Tommy’s Holiday Camp” e “We’re Not Gonna Take It”. Bis: “Won’t Get Fooled Again”, “Baba O’Riley”, “Behind Blue Eyes”, “Who Are You” e “Join Together”.

Music

Gang Of Four – ao vivo

Renovada gangue de Andy Gill divide opiniões com seu baile pós-punk nas cidades de Ribeirão Preto e São Paulo

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Textos por Regis Martins (Saturno Pop/Cia Fantasma/Motormama) e Fábio Soares

Foto de Regis Martins

Às vésperas do show da banda inglesa Gang Of Four no SESC Ribeirão Preto (SP) no último 24 de novembro, a piada era de que o grupo deveria mudar o nome para “Gangue de Um”. Tudo porque o guitarrista Andy Gill era único remanescente da formação original.

Maldades à parte, o fato é que a nova formação do quarteto não deixou nada a desejar, tanto nas duas apresentações no Sesc Pompeia, nas noites anteriores, quanto nesta no interior paulista. Pelo contrário: os jovens escalados por Andy chegam a ser musicalmente superiores aos originais tecnicamente falando.

O funk punk do G4 é matemático, cru e pulsante e ainda mais pesado ao vivo. O público que lotou o Galpão de Eventos do Sesc gostou do que viu e saiu com a certeza de que não estava sendo enganado por uma banda cover. Desde o momento em que Andy, o Jimi Hendrix do pós-punk, subiu ao palco esmurrando e jogando ao chão uma cópia genérica de sua Stratocaster, várias gerações de fãs na plateia perceberam que estavam diante de uma lenda do rock inglês.

O set list começou com algumas músicas mais recentes de discos como  o álbum What Happens Next (2015) e o EP Complicit (2018, com Ivanka Trump na capa) deixando o público um tanto confuso. A coisa realmente engrenou quando a banda soltou seus clássicos.

“Damaged Goods” foi uma das primeiras do álbum clássico Entertainment! – que completa 40 anos em 2019 – a alegrar a plateia. É incrível como essa canção é atualíssima na forma e no conteúdo.

Daí em diante, vieram “At Home He’s a Tourist”, “To Hell With The Poverty”, “I Love a Man In a Uniform”, “Not Great Men” e a longa e hipnótica “Ether” (que abre Entertainment!) no bis. O som muito bem equalizado colaborou para que todos os detalhes dos instrumentos não se perdessem numa maçaroca inaudível.

A música do G4 não é facilmente palatável. O grupo faz parte do núcleo duro do pós-punk inicial, que inclui bandas como PIL e Killing Joke, pioneiros na busca por um som árido, radical e sem concessões. Ver essa turma no interior paulista é algo realmente surpreendente.

E mais surpreendente foi ver Andy Gill e asseclas pós-show, encerrando a noite de sábado num botequim rocker do centro de Ribeirão Preto, o já cultuado Bar do Xapa. Simpáticos com todo mundo, os músicos dançaram e beberam a noite inteira, encerrando esta microturnê brasileira de forma única. That’s entertainment! (RM)

Set list: “Love Like Anthrax”, “Where The Nightingale Sings”, “Not Great Men”, “Isle Of Dogs”, “Toreador”, “Paralysed”, “I Parade Myself”, “What We All Want”, “Natural’s Not In It”, “Lucky”, “Damaged Goods”, “Do As I Say”, “Why Theory?”, “I Love a Man In a Unform”, “At Home He’s a Tourist” e “To Hell With Poverty”. Bis: “Ether”, “Return The Gift” e “I Found That Essence Rare”.

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Muita expectativa cercava a apresentação do Gang Of Four, no palco do Sesc Pompeia, na noite de 22 de novembro. Os ingressos, disputados a tapa tanto virtual quanto fisicamente nas bilheterias, esgotaram-se em pouquíssimos minutos dez dias antes das apresentações. Em sua terceira passagem por aqui, Andy Gill e sua trupe (os jovens John Sterry, nos vocais; Thomas McNice, no baixo; e Tobias Humble, na bateria) prometiam um apanhado da carreira de quase 40 anos a ser comemorada com um novo disco, Happy Now, previsto para ser lançado em fevereiro. Atmosfera favorável, alguns famosos na plateia (Sandra Coutinho, das Mercenárias; BNegão, dos Seletores de Frequência e Planet Hemp; e Clemente, dos Inocentes e da Plebe Rude), noite agradável. Enfim, um pano de fundo quase perfeito para uma celebração que começou doze minutos atrasada com os primeiros acordes de “Love Like Anthrax”, faixa de Entertainment!, seminal estreia do grupo formado na cidade inglesa de Leeds.

Numa encenação particular, Gill arrancava microfonias de uma guitarra figurativa e a atirava ao chão repetidas vezes. Já na primeira faixa, ganhava destaque a performance de McNice. O baixista, sem parar um segundo sequer, mostrava que é, disparado, o melhor músico do quarteto. Em “Not Great Men”, pulava de um lado para o outro, preenchendo os espaços sem perder a concentração. Já Sterry, transpassava insegurança. Mais preocupado em fazer caras e bocas do que ter boa performance vocal, passaria muito bem como um cover de Ian Curtis cantando num karaokê da Rua Augusta numa madrugada paulistana qualquer. Nem o petardo “What We All Want” fez o vocalista ficar à vontade. Parecia que ele estava contando quantas faixas faltavam para a apresentação acabar. Aqui, nova boa performance de McNice. Ao menos parecia estar numa festa. Ao menos…

Já Andy Gill, sabia que todas as atenções estariam voltadas a ele. Bendito fruto dentre as lendas do pós-punk, ostentava seu ar blasé durante todo o tempo. Longe de ser virtuoso à guitarra, ele procurava ser econômico na medida certa para não comprometer. E aí é que estava o problema: faltava punch ao Gang Of Four 2018. O eterno “fantasma” da presença de seu fundador, Jon King, parece afetar a banda até hoje.

Justamente esse freio de mão puxado prejudicou a recepção das novas faixas apresentadas em São Paulo. “Toreador”, em nenhum momento, levantou a plateia e até “Lucky”, pré-fabricada para as pistas, sofreu com a irregularidade do grupo. Aliado ao cenário desfavorável, a má equalização do som se fez sentir até para quem estava muito próximo ao palco (eu, inclusive). Por muitas vezes, o baixo de McNice encobria a guitarra de Gill que, por sua vez, inibia a voz de Sterry. Só o batera Humble parecia alheio ao caos técnico dos equipamentos.

Quando os acordes de “Damaged Goods” se iniciaram na guitarra, um sentimento de “agora vai!” instalou-se na choperia do Sesc. Doce ilusão! Com timidez e descompasso atrozes, John Sterry mais parecia um funcionário de cartório ansioso pelo final do expediente. Aí joguei a toalha! Se não pegou no tranco com um trator como “Damaged Goods”, ele não se soltaria mais. Dito e feito. Os vinte minutos finais da apresentação do Gang Of Four, encerrada com a execução da dançante (bem, pelo menos deveria ser) “To Hell With Poverty”, foram burocráticos e protocolares.

Triste é constatar quando o final da apresentação de um artista que admiramos causa alívio ao invés de comoção. Saldo positivo: a performance de McNice, ver Andy Gill de perto, reencontrar amigos queridos e degustar um chope gelado. Se bem que estes dois últimos aspectos podemos fazer num boteco qualquer ou em casa mesmo, né, não? Afinal, este foi um show esquecível numa noite mediana. Mas ninguém vai morrer e, por isso, segue o baile. (FS)

Set list: “Love Like Anthrax”, “Where The Nightingale Sings”, “Not Great Men”, “Toreador”, “Paralysed”, “I Parade Myself”, “Isle Of Dogs”, “What We All Want”, “Natural’s Not In It”, “Lucky”, “Damaged Goods”, “Do As I Say”, “Why Theory?”, “I Love a Man In a Unform”, “At Home He’s a Tourist” e “To Hell With Poverty”. Bis: “Ether”, “Return The Gift” e “I Found That Essence Rare”.