Music

Chico Bernardes

Um papo sobre passado, presente, futuro, tecnologia, influências diversas e as comparações com o irmão Tim e o pai Mauricio Pereira

chicobernardes_fotozoepassos

Texto e entrevista por Janaina Monteiro

Foto: Zoé Passos/Divulgação

Quando se nasce numa família musical, é natural tomar o mesmo rumo na vida. Chico Bernardes não se incomoda com o sobrenome. Pelo contrário. Ser conhecido como o irmão de Martim, o Tim, cantor e compositor d’O Terno que também desenvolve carreira solo, é motivo de orgulho. Chico é o caçula da família Bernardes Pereira e, assim como Tim e a irmã, a atriz Manuela Pereira, herdou a veia artística do genial músico paulistano e vanguardista Maurício Pereira, jornalista e criador do duo Os Mulheres Negras, ao lado de André Abujamra. Maurício foi também crooner da Banda Fanzine, do saudoso programa apresentado por Marcelo Rubens Paiva na TV Cultura, numa época quando ainda fazia sentido assistir a uma televisão de sinal aberto de boa qualidade.

Portanto, aquela história que os pais costumam dizer aos filhos, a de que “não faça música porque não dá dinheiro”, simplesmente não cola numa família extremamente criativa com essa. Chico até tentou resistir, mas a arte foi maior que ele. Cinco anos após começar a tocar e compor, o garoto de cabelos volumosos e estilo hipster já é multiinstrumentista (violão, piano, bateria). Em junho de 2019, aos 20 anos de idade, lançou seu álbum de estreia Chico Bernardes, autoral, sincero e com arranjos elaborados, que traz canções folk ao estilo Nick Drake, um de seus mestres inspiradores. As letras são poéticas reflexivas, existenciais, com versos de um romantismo doce, porém bastante maduros para a idade dele. Como “Um Astronauta” (“Um astronauta de bom coração/ Demorou muito pra reconhecer/ Que as estrelas que tanto estudou/ Brilham bem menos do que as que deixou/ Em seu planeta”) ou sua primeira canção, “Vago”, escrita aos 15 anos (“Eu não sei o que deu em mim/ De repente eu vi o mundo assim/ De um jeito mesclado de informações/ Complexos gostos e opiniões/ Absolutas verdades em expressões).

Recentemente, Chico pegou seu violão e viajou pela primeira vez sozinho, sem assessores ou amigos, com destino a Curitiba, onde apresentou um show intimista na Casa Quatro Ventos para um público restrito. Foram 11 músicas no set list, com apenas duas covers: “True Love Will Find You In The End”, de Daniel Johnston (falecido em setembro do ano passado) e regravada por gente como Beck e Wilco, e uma delicada versão de “Maria”, de Gilberto Gil. Ao final da apresentação, ele recebeu calorosamente a reportagem do Mondo Bacana para conversar sobre passado, presente e futuro.

chicobernardescapadisco2019mb

PASSADO

Como foi que você resolveu trilhar o mesmo caminho que seu pai e irmão?

Quando eu era pequeno, não tinha intenção alguma em fazer música. Falava não. Meu irmão já estava começando a carreira, já estava estudando. E eu falava que já tinha  músico demais na família, que não iria ser músico. Mas, aos 15 anos, comecei a tocar bateria numa banda com os amigos e a gostar de tocar violão. Depois, comecei a compor. E então fiquei meio maravilhado. Com 17 me formei e tive de decidir o que eu ia fazer. Prestei Jornalismo, mas não estava muito a fim. Pensei em Psicologia, mas também não estava muito a fim. Entrei em Música e decidi que ia focar nessa área.

A música então está em seu DNA? Você chegou a resistir a trabalhar com isso, mas foi algo mais forte?

Existe a influência também de ter acesso muitos recursos para fazer música. Porque não é de uma hora para outra que você escolhe fazer música. E também não é necessariamente um dom. Na minha casa, tenho pai e irmão músicos e instrumentos soltos. Estamos sempre ouvindo música. Até minha mãe, psicanalista, sempre teve um carinho muito grande pela música. Então, o fato de viver num ambiente musical foi o que me levou a isso, mais até do que o fato de meu pai ou irmão serem músicos. Foi de estar ali num ambiente que a música estava rolando e que eu negava. Falava “não, não vou ser músico”. Mas depois eu gostei e fui…

O que você ouvia em casa? Quais são suas referências? 

Muito Beatles. Minhas primeiras lembranças são das viagens de carro que a gente fazia e ia ouvindo música. Lembro de ouvir Beatles, Bob Marley, Police, Chuck Berry, Los Hermanos.

Por falar nisso, o trecho “além do que se vê” na canção “Astronauta” é uma referência a Los Hermanos? 

Acho que foi inconsciente. Só depois que me liguei. Até porque eu ouvia o CD no carro com 7 anos de idade e não lia as letras. Depois que eu vi o encarte e o nome da música, me toquei.

Você nasceu na época do CD e dos iPods. Hoje ouvimos música por streaming. Você acha importante resgatar o estilo retrô de consumir música, como vinil ou fita cassete por exemplo? 

Sim. Lá em São Paulo, estão vendendo pôster, que é só o encarte, sem o CD.

Sua vibe mesmo é bem retrô, pelo seu jeito de se vestir e estilo que decidiu seguir que é o folk. Foi em parte influência do Tim?

Acho que tem um pouco de influência do meu irmão, pelas referências que ele me mostrava quando eu estava na sexta, sétima série. Eu era pequeno e ouvia um monte de coisa, era bem eclético. Daí eu pedi para ele encher meu iPod com algumas músicas. E a partir daí, comecei a gostar de folk. Ele colocou Fleet Foxes, Bob Dylan, que eu escuto até hoje. Mas o engraçado é que as coisas que me pegam não são as mesmas pra ele. Dentro das referências dele, tem coisas que eu incorporei mais.

E de MPB, o que você escuta? 

Depois que eu entrei na faculdade, comecei a ouvir mais MPB. Ouvia muita coisa de fora. Conhecia Caetano, mas pouco. Só depois fui tocar violão e estudar compositores na faculdade que passei a ter mais contato com vários estilos. Teve um semestre que estudei Gil, outro Caetano, Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Adoniran Barbosa…

PRESENTE

Como é seu processo criativo?

Pelo fato de eu fazer faculdade de música, posso dedicar meu tempo exclusivamente a isso. Em casa, sento na frente do piano e surgem as ideias. Começo a gravar e vou juntando tudo. Por isso, eu já tenho uma abertura grande. Não é como se eu estivesse, por exemplo, fazendo Administração e no meu tempo vago eu fizesse música. Quando me bate a inspiração, já estou a postos.

Você disse que estava lendo no aeroporto. A leitura te influencia a compor?

Eu não leio muito, mas o que eu leio me marca. Trouxe um livro de contos da Clarice Lispector. Recentemente li O Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mãe.

Clarice Lispector disse que escrever é se expor. Você tem algum receio quanto a isso? É preciso muita coragem para fazer arte?

Antes de me lançar como artista, eu estava com medo do que as pessoas iam achar pelo fato de me sentir exposto, analisado. Mas ao mostrar meu trabalho cada um ouviu e interpretou da sua maneira. Por mais que sejam músicas em primeira pessoa, uma galera coloca o fone e ouve e se vê protagonista. Isso me tranquilizou, mesmo porque meu disco tem temas que todo mundo vive de alguma forma, cada um do seu jeito.

Você se incomoda em ser comparado e rotulado como sendo o irmão do Tim Bernardes?

Eu vejo isso numa boa. Antes eu estava com um pouquinho de medo de ouvirem meu som e falarem “olha aí o irmão do Tim!”. Mas as pessoas estão dizendo: “olha o Chico! Como ele tem coisas diferentes do Tim e do Maurício!”. Estou feliz por ver essa diferença. Porque sempre vão comparar, pois Tim é meu irmão. A gente cresceu na mesma casa e justamente ele montou parte do meu iPod. Ele me ensinou muita coisa. Eu sou o caçula, ele é o mais velho. A gente cresceu junto. Eu vendo de baixo pra cima. Ele vendo de cima para baixo.  Admiro muito o trabalho do meu irmão, assim como o do meu pai. Tenho sua influência, mas o trabalho é diferente, porque temos personalidades muito diferentes. Meu irmão é superfamoso. Muito conhecido por aí, então é normal. Às vezes tem gente que sabe que eu sou irmão dele e fala assim: “gosto muito do seu som e do seu irmão”. Às vezes tem gente que nem sabe quem eu sou, que gosta muito do som dele mas não me conhece. Tem gente que fala também: “gosto muito do som do seu irmão, cheguei no seu som e adorei, tô ouvindo direto”. Acho que é uma ponte também. Existe muito mais vantagem do que desvantagem.

Você disse durante o show em Curitiba que curte fotografar com câmera analógica. Como consegue equilibrar o offline e o online?

Sou meio contra a corrente. Os eletrônicos, em geral, me deixam meio confuso. Fui fazer aula de guitarra antes de tocar violão e é outra relação com instrumento, sempre ligado na tomada, energia elétrica, e volume… Uma coisa alta, botar um pedal de distorção, uma coisa barulhenta. E eu ia tocando violão ao mesmo tempo. Com o violão, você pode ir a qualquer lugar. Já era. Pronto. Eu e minha família viajamos muito para o campo. Eu sempre levo o violão e fico tocando. Componho muito nessas viagens. Tenho tempo de ficar sozinho e refletir. Gosto muito de estar desconectado, olhar em volta. Não ficar preso a certas tecnologias. Depois disso, fui buscando outras coisas, como tirar foto com câmera analógica. Também tenho uma máquina de escrever, que eu acho muito gostoso de usar. Tocar piano também. São pequenas coisas que deixam o dia menos saturado de informação. Mais orgânico.

Quando ouvi o seu album, tive a sensação de “flutuar”, de estar “desplugada” deste mundo frenético em que vivemos…

Tem gente que acredita em signos também. Eu sou geminiano e dizem que geminianos são uma galera meio avoada. Por isso voltei a ouvir vinil. Porque no Spotify eu escutava uma música, ouvia 20 segundos e clicava em outra. Vinil você ouve inteiro, escolhe a ordem e ouve como foi feito, numa ordem pensada. Você não pega, por exemplo, a cena favorita de um filme e coloca na frente das outras. A música também é uma obra que tem justamente seus momentos organizados.

FUTURO

Como você percebe os jovens da sua geração quanto ao engajamento na arte e na política por exemplo?

Bom, não vou entrar em pormenores de política, mas genericamente quando a gente se vê em tempos tão sombrios é um momento que esse contramovimento faz com que a arte cresça, porque toda essa repressão continua gerando sentimento e os artistas continuam produzindo. Então, por mais que a gente passe por tempos difíceis, os artistas estão produzindo. Por exemplo, se o nosso presidente fala uma cagada sobre o público LGBT, tem músicos, atores, drags, muitas figuras que podem representar esse pessoal e ir contra isso. Esse movimento de resistência ajuda também a nos unir nesse mundo tão solto e tão bagunçado. Acho que na música também tem isso, muitos estilos e gêneros, mas cada um tem sua voz adquirida. Como o pessoal da voz LGBT. O pessoal mais famoso, que tem visibilidade grande, como o Caetano, que está sempre tentando trazer movimentos, como para a questão da Amazônia, e aproveita o sucesso do passado pra realmente se posicionar. O Felipe Neto também tem grande visibilidade e está usando isso pra fazer alguma coisa.

E da atual geração de músicos, como você, quem vai substituir os grandes nomes da MPB?

Não sei, porque sou protagonista da minha vida. Não me vem esse delírio de querer ser uma imagem grande da música, mas de construir a minha história. Acho que a imagem que os outros têm de mim não é o que eu construí exatamente. É algo muito idealizado. Acho que essa ideia de ir construindo uma trajetória é muito mais importante. O sucesso pra mim é construir o que eu acho bonito e ir sempre melhorando. E não o sucesso que outros consideram, como ficar famoso, aparecer na TV. Claro que eu quero também conversar com o público, trazer meus feedbacks, ter uma troca. Mas meu objetivo não é atingir muitas pessoas, até porque é uma exposição muito grande. Sou artista pequeno, tenho visibilidade pequena. Vou fazer um show e, no meio desse caos todo, tão maluco, eu busco tentar fazer algo que saia de mim pra tranquilizar as pessoas, deixá-las confortáveis. Fazer com que elas pensem e tentem atingir um relacionamento delas consigo mesmas. Justamente o que eu falei no show, porque está tudo tão corrido e não conseguimos parar para olhar para nós mesmos. Muita gente evita esse sentimento. Passa a semana inteira trabalhando, faz um monte de coisas, final de semana vai para o bar, enche a cara e não confronta de fato os problemas internos.

Hoje em dia as pessoas terminam relacionamentos via WhatsApp e escolhem parceiros pelo Tinder.

Igual ao iFood. Assustador…

Como você lida com esse mundo digital?

Acho que toda tecnologia tem algo interessante, que avança. Você pode achar alguém interessante no Tinder por acaso. Se não fosse por ele, você não acharia.  Então, é um recurso que pode tornar algo viável. Mas acho que tudo, o Instagram, as mensagens, estão ali para ajudar a gente a ver como estão as pessoas, nossos amigos. Mas aí a gente acaba sabendo tanto que quando a gente se encontra pessoalmente não tem graça. Tem um vídeo que eu vi outro dia com a minha irmã, do Porta dos Fundos, que é um pessoal da firma reunido para jantar. Alguém ia contar uma história e aí todo mundo começou a falar as mesmas palavras porque a pessoa já tinha postado. Ou seja, você já postou. Eu já sei o que está acontecendo. Não é nenhuma novidade pra mim. Isso eu acho que passa um pouco do limite, mas, claro, a tecnologia ajuda a gente. Só não podemos abusar muito dela, porque fica meio confuso.

O Instagram e o Facebook são ferramentas importantes para divulgar o seu trabalho?

Sim, o Instagram eu uso geralmente para divulgar o trabalho. O Facebook eu uso para evento e trabalho da faculdade, quando o pessoal cria grupo. Mas não fico mais lá perdendo tempo. Depois, quando a gente precisa desse tempo, você se pergunta o que aconteceu lá atrás e o que você fez.

Movies

Um Espião Animal

Paródia de clássicos filmes de espionagem, animação vai além do público infantil e cativa também os adultos

spiesindisguise2019mb

Texto por Ana Clara Braga

Foto: Fox/Divulgação

Todos os anos chegam aos cinemas filmes sobre espiões, mas com tantas novas produções, nem sempre é fácil inovar nas tramas. A mais nova produção da Blue Sky consegue trazer frescor ao gênero e ainda por cima no formato de desenho animado.

Um Espião Animal (Spies In Disguise, EUA, 2019 – Fox) narra a história do melhor espião do mundo, Lance Sterling (dublado na versão original por Will Smith e na brasileira por Lázaro Ramos), que precisa unir-se ao ingênuo cientista Walter Beckett (Tom Holland, em inglês) ao ser acusado de um crime que não cometeu. Querendo desaparecer para iniciar sua própria investigação, Sterling acaba, acidentalmente, transformando-se em um pombo e assim a jornada dos dois opostos se desenrola.

A animação é uma ótima paródia de longas de espionagem. Com enredo interessante, traz mensagens importantes para o público infantil como o trabalho em equipe, autoconfiança e como a violência não precisa ser a resposta. Os dois personagens principais são carismáticos e bem construídos, fazendo com que a história flua de maneira natural e divertida.

Como qualquer filme de espião, as cenas de luta estão presentes, seja com apetrechos hipertecnológicos, pombos ajudantes ou até mesmo glitter, elas não deixam a desejar. Um Espião Animal torna-se atrativo não só para crianças, mas para toda a família. O humor não se baseia em piadas clichês de histórias infantis e é capaz de divertir outras faixas etárias.

O roteiro é criteriosamente pensado: nada é citado ou aparece na tela sem motivo. Todo esse cuidado só não foi dedicado à introdução do vilão. O antagonista é extremamente promissor, mas suas razões e explicações ganham pouco tempo na história. Uma pena, já que é um personagem que destoa muito do típico vilão de filmes de criança e seria interessante entender mais sobre sua trajetória anterior.

Mesmo assim Um Espião Animal surpreende e presenteia o público com um enredo divertido e cheio de ação. Consegue quebrar barreiras do subgênero de espionagem ao entrar na animação e sair do foco infantil e cativar também o público adulto.

Movies

Projeto Gemini

Will Smith precisa assassinar seu clone em trama dirigida por Ang Lee e que aposta na inovação da tecnologia de captação

geminiman2019

Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Paramount/Divulgação

Tendo a me preocupar quando um filme faz de sua tecnologia de captação o carro-chefe de sua estratégia de propaganda (milionária, é claro). Não quero dizer com isso que pouco importa a forma com que a produção foi efetuada, muito menos que a inovação de métodos e meios para tal deva ser ignorada, ou até mesmo não continuada. Pelo contrário. Acho interessantíssimo como uma obra busca na alteração de quadros/segundo um determinado efeito em sua mise-en-scène– o que não significa que esta deva ser a maior qualidade deste filme.

É o que ocorre em Projeto Gemini (Gemini Man, EUA/China/Taiwan, 2019) novo filme de Ang Lee, rodado em 120fps (quadros/segundo) a fim de garantir a nitidez em uma projeção de 60fps. Além disso, o filme conta com um Will Smith completamente clonado pelo CGI, com uma aparência extremamente jovial. Tudo isso funcionando para a narrativa de David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, que gira em torno de um superassassino, Henry Brogan (Will Smith), que é clonado pelo governo americano em busca da replicação de suas habilidades. Este clone, então, recebe a missão de caçar e assassinar Brogan, sem saber que ambos são, na verdade, “a mesma pessoa”. Premissa esta que, a princípio, é capaz de desenrolar-se numa trama competente, ao mínimo.

No entanto, Lee propõe algo avesso à própria narrativa, interessado apenas em seu espetáculo mirabolante em alta definição e nitidez. O efeito disso, além de um inicial estranhamento visual por conta da maior intensidade de quadros/segundo (que é sentida até em uma projeção nos tradicionais 24fps), é um filme completamente esquecível, incapaz de desenvolver novidades em seu arco. Ignorando completamente as barreiras espaço-temporais, Projeto Gemini parece pinçar elementos funcionais de outros blockbusters para fundi-los numa gororoba convencional de história de ação.

Isto se amplifica por uma interpretação muito aquém do elenco principal do filme. Will Smith não parece ter se empolgado com as nuances propostas pelo roteiro, soando à vontade apenas nos momentos herói fodão de seu personagem, enquanto Mary Elizabeth Winstead recebe pouco material para desenvolver-se em tela – no fim, não ajuda nem atrapalha. Clive Owen tampouco tem chão para criar um forte personagem, mas parece tão desinteressado quanto Smith. Resta a Benedict Wong, que opera como alívio cômico no filme, a maior consistência de atuação. O personagem pouco faz além de levar Brogan do ponto A ao B, mas ao menos Wong salta de cabeça nele, por mais raso que seja.

Quanto à música e o desenho de som, estes são completamente operantes. O mesmo pode ser dito da montagem, competente durante os diálogos e refinadíssima nas cenas de ação. É difícil entender o ritmo de um filme cujo efeito nos olhos do espectador é completamente diferente dos demais, e Tim Squyres, habitual editor de Lee, parece ter compreendido a missão e a executado com esmero.

Projeto Gemini é mais um filme esquecível com atuações esquecíveis, mas que, para quem não liga tanto para a história, pode até ser divertido. A tecnologia de construção de Smith jovem, por mais que falhe em uma ou outra cena, é muito bem utilizada. Mais um lançamento incapaz de empolgar, no qual nem o próprio elenco parece investido nisso.

Movies

Yesterday

O consumo musical de hoje em dia é questionado com história costurada por canções dos Beatles em um mundo onde a banda não existiu

yesterdayboyle2019a

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Universal Pictures

Talvez um mundo sem Rolling Stones seja possível. Sem Beatles, porém, jamais. Pelo menos essa é a visão de Yesterday (Reino Unido, 2019 – Universal Pictures), filme dirigido pelo aclamado Danny Boyle, do cult Trainspotting e do oscarizado Quem Quer Ser um Milionário?, que estreia no Brasil com dois meses de delay.

Em resumo, o longa é uma bela homenagem aos Fab Four, com críticas sutis ao showbiz frente ao mundo volátil de hoje e carregando uma mensagem totalmente John Lennon no final. Quem assina o roteiro é Richard Curtis, o neozelandês naturalizado britânico especialista em comédias românticas água com açúcar como Quatro Casamentos e um Funeral Um Lugar Chamado Nothing Hill. Da dobradinha inglesa, quem se sobressai é o roteirista que imprime sua digital ao filme, abafando a direção de Boyle.

O longa conta a história de Jack Malik (interpretado pelo britânico filho de pais indianos Himesh Patel) que vive em Lowestoft, condado de Suffolk, Inglaterra, com sua vidinha de repositor num supermercado. Em paralelo, ele se apresenta em pubs e festivais, tocando as composições que compõe, às quais ninguém dá muita atenção. Pela decoração do quarto de Malik, dá pra perceber sua paixão por indie rock: há pôsteres da banda escocesa Fratellis; do álbum In Rainbows, dos ingleses do Radiohead; e dos americanos Killers. Além de cantar, Malik é multi-instrumentista (toca piano, violão e guitarra) e guarda uma supercoleção de discos de vinil dentro do armário.

Quem dá suporte à sua carreira são os amigos. Em especial Ellie Appleton (Lily James), parceira desde a infância e que se tornou uma espécie de manager de Malik. Lily é uma garota meiga e romântica, que dá aulas de matemática numa escola e, claro, nutre uma paixão platônica por Malik.  Quando, frustrado, o rapaz pensava seriamente em desistir do sonho de se tornar um cantor famoso, o inesperado acontece. Ao voltar para casa pedalando após um show praticamente às moscas, ele é atropelado por um ônibus durante um apagão planetário, como o bug que todos esperavam na virada do milênio. Jack vai parar no hospital e lá já percebe que há algo mais estranho do que ele ter ficado banguela. O rapaz cantarola trecho de uma canção dos Beatles e Ellie sequer reconhece. Ao receber alta, ganha um violão novo de presente e interpreta a canção que batiza o longa, “Yesterday”, que Paul McCartney compôs logo após lembrar-se de uma melodia vinda durante um sonho.

E então o mote do filme começa. Malik reage ao impacto de saber que é o único que se lembra de Beatles, num misto de indignação e nervosismo. Os amigos do protagonista chegam a comparar “Yesterday” com “Fix You”, do Coldplay – um dos momentos hilários do longa. O mundo, então, torna-se estranho, vazio e sem sentido para o rapaz que, por várias vezes, recorre ao Google para descobrir se algo mais desapareceu no fog. Será que o Oasis sequer existiu também?

Malik se vê na obrigação de mostrar ao mundo o que só ele lembra e, de quebra, consegue impulsionar sua carreira ao se apropriar da obra de Paul, John, George e Ringo, despertando, claro, curiosidade e desconfiança por conta de toda essa explosão criativa que surge da cabeça de quem compunha canções banais.

Conforme ele mergulha na memória para buscar cada palavra e cada acorde do repertório beatle, revela-se a trilha sonora do filme, repleta de “lados A” como “I Wanna Hold Your Hand”, “In My Life”, “Help!”, “Eleanor Rigby”, “I Saw Her Standing There”, “All You Need Is Love”, “Let It Be”, “Hey Jude”, “Here Comes The Sun” e “Ob-La Di Ob-La-Da”. Para relembrar a dificílima letra de “Eleanor Rigby”, precisa ir a Liverpool e visitar alguns lugares, por exemplo. E assim várias canções do quarteto vão dando um contorno ao filme, cada qual situada com um propósito definido.

Os “novos hits” passam a chamar atenção e Malik conhece Ed Sheeran, a grande surpresa do longa. O astro pop interpreta ele mesmo, como uma autocaricatura, um clown, e é responsável por arrancar boa parte das risadas do público (algo me diz que Sheeran teve aulas com Hugh Grant!). As obras-primas despertam também os olhares da manager de Sheeran, Debra Hammer (a comediante Kate McKinnon, que dá um show ao personificar a produtora sem escrúpulos).  De rapaz desconhecido, Malik vira ídolo pop. Alcança e conhece de perto a fama, primeiro abrindo shows do astro ruivo inglês que compôs “Shape Of You”, cujo refrão surge repetidamente no filme. Numa das cenas, os dois chegam a disputar quem faz a melhor música na hora (adivinhe quem ganha!).

A partir do momento que o protagonista começa a fazer sucesso com os hits dos Beatles – e obviamente desbanca Ed Sheeran – é possível perceber críticas implícitas sobre as mudanças sofridas na indústria do entretenimento nestas últimas décadas. Como a tecnologia transformou o processo de criação (quem é capaz de fazer uma letra como Eleanor Rigby hoje?) e facilitou o consumo de música pop requentada (porque a original Coca-Cola também desapareceu do mundo e só existe Pepsi?); e também como o marketing digital revolucionou a divulgação do trabalho dos artistas. A direção de Boyle, com seus efeitos visuais e ritmo dinâmico, nos faz mergulhar na era dos downloads, aplicativos e redes sociais e refletir sobre essas alterações tão impactantes na indústria cultural. Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band perde o colorido e “Help!” se transforma num hardcore meia boca.

O eixo principal do filme, porém, é o relacionamento entre Malik e Ellie, que fica conturbado depois que o rapaz atinge o estrelato. Mas a tensão entre o casal só vem à tona nos minutos finais. Aliás, Yesterday desanda da metade para o fim (se perde assim como a série Lost) e a expectativa de um desfecho criativo é atropelada por um ônibus biarticulado.

Mesmo assim vale assistir a Yesterday pelo tributo, pelos covers bem executados por Patel, para rir de Ed Sheeran e, sobretudo, refletir sobre o modo como consumimos cultura e amor hoje em dia. Como já diziam os Beatles, bem fresquinho na memória: “in the end the love you take is equal to the love you make”.

Movies

O Rei Leão

Clássico desenho da Disney ganha nova versão de deslumbrante animação realista com cenários e animais construídos digitalmente

thelionking2019mufasasimba

Texto por Flavio St. Jayme (Pausa Dramática)

Foto: Disney/Buena Vista/Divulgação

Faz 25 anos que a Disney levou para as telas a sua versão da história de Hamlet, o príncipe atormentado pela morte do pai, exilado pelo tio e que, com a ajuda de dois fieis escudeiros e uma bela dama, tenta retomar seu rumo. Guardadas as devidas proporções, não dá pra negar as inspirações shakespeareanas de O Rei Leão, uma das melhores produções da história da animação.

Agora, com a nova tática do estúdio de transformar seus clássicos em versões em animação mais realistas, o que parecia impossível aconteceu: Simba, Nala, Timão e Pumba chegam às telas em versões “de carne e osso” digitais pra encantar uma nova geração de fãs em O Rei Leão (The Lion King, EUA, 2019 – Disney/Buena Vista). A história a gente já conhece: o leãozinho Simba é acusado da morte do pai, o rei Mufasa, e foge para um exílio autoimposto até voltar para retomar seu trono. Os personagens a gente também já conhece. Além dos já citados, reencontramos Scar, Rafiki, Sarabi, Shenzi e Zazu em um novo visual.

E chegamos no ponto principal desta nova versão de O Rei Leão: o visual. É absolutamente deslumbrante tudo o que vemos em cena. Se pensarmos que aqueles animais são todos digitais, o longa chega a ser inacreditável. Leões, hienas, antílopes, girafas, suricatos desfilam na tela em cenas incríveis de encher os olhos.

Se uma das reclamações dos trailers era a de que os animais eram menos “expressivos” que os da animação (afinal de contas, leões não sorriem enquanto cantam, né?), eles ainda conseguem ser mais expressivos que Kristen Stewart ou Keanu Reeves.

Nada, absolutamente nada no filme é ruim. Se em Mogli – O Menino Lobo o diretor Jon Favreau já tinha demonstrado o que poderia fazer com estes animais digitais, em O Rei Leão ele coroa o uso de sua tecnologia de forma espetacular.

Algumas mudanças, sim, são sentidas com relação à animação em 2D de 1994. A falta de uma ou outra cena (como Rafiki dando uma lição dolorida em Simba) ou modificações em outras (ah, meus amigos, a cena da hula ganhou um upgrade de aplaudir de pé), mas nada que afete a estrutura principal. Com um tom mais sério, o novo longa encanta crianças e os adultos saudosos do original. Chega para ser um novo clássico.