Music

Caetano Veloso & Ivan Sacerdote

Cantor e compositor lança novo disco de surpresa, no qual revisita algumas velhas músicas suas em dueto com o clarinetista criado na Bahia

caetanovelosoivansacerdote2020mb

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Sem alarde nem aviso prévio, Caetano Veloso lançou seu novo disco via streaming com nove versões de composições de sua autoria num dueto com o clarinetista Ivan Sacerdote. O álbum-surpresa também conta com participações do primogênito Moreno Veloso na percussão mais o sambista Mosquito e o violonista Cezar Mendes.

Caetano Veloso & Ivan Sacerdote é fruto da casualidade e encantamento do baiano pelo som cativante de Ivan. Nascido no Rio de Janeiro mas criado na Bahia, o clarinetista tem formação universitária no instrumento, foi solista em rodas de choro e acompanhou nomes expressivos da MPB, como Rosa Passos. A parceria gerou um álbum despretensioso que realça o ápice do amadurecimento do cantor e músico de 77 anos de idade, seja no tom mais grave de sua voz ou na sutileza do dedilhado. O doce sopro da clarineta de Ivan abre o disco e acompanha o violão de Caetano, imprimindo uma vivacidade alegre e serena ao repertório com faixas lado B como “O Ciúme” (originalmente de 1987), selecionadas conforme a preferência dos envolvidos no trabalho. Ivan passeia à vontade pelas melodias do mestre tropicalista, com seus solos improvisados, como se estivesse pincelando notas num jardim recriado por Monet. É um trabalho belo, sutil, tranquilo, para se deleitar com os arranjos singelos que mesclam jazz, samba e bossa nova, e aproximam Caetano cada vez mais do gênio João Gilberto, sua fonte inspiradora no início da carreira.

A primeira faixa do álbum, de Uns (1983), foi um pedido de Ivan. Em “Peter Gast” (pseudônimo de Johann Heinrich Köselitz, amigo do filósofo Friedrich Nietzsche) Caetano filosofa “Eu sou um/ Ninguém é comum e eu sou ninguém”. Do premiado disco Livro, de 1998, surgem “Minha Voz Minha Vida” e “Manhatã”, em que o clarinetista nos proporciona a sensação de levitar.

As duas canções mais conhecidas são “Trilhos Urbanos”, de Cinema Transcendental (1979), e a belíssima “Desde Que o Samba é Samba” (com a participação de Mosquito), gravada por Caetano no álbum-marco Tropicália 2 (1993), e que abre o disco João Voz e Violão, com a refinada interpretação do mentor da bossa nova.

Como diz o primeiro verso da quinta faixa, “Você Não Gosta de Mim”, você pode não gostar de Caetano e toda a sua polêmica e imperatividade que por vezes lhe conferem um ar de errônea arrogância. Entretanto, é indiscutível o seu legado para a MPB. Ele sempre foi um contestador, seja encabeçando o movimento tropicalista ou cantando sobre os “ridículos tiranos” (na letra de “Podres Poderes”, de Velô, de 1984). A pouco de completar oito décadas de vida, Caetano se apropria da idade da serenidade e deixa de lado os discursos eloquentes para combater as trevas usando suas armas mais poderosas. Que são a sua voz e a sua arte.

Music

Lauryn Hill – ao vivo

Cantora desconstrói seu repertório e divide Porto Alegre ao meio em sua primeira apresentação no retorno ao Brasil

laurynhill2019poa_fabiosoares

Texto e foto por Fábio Soares

Ela tinha contas a acertar com o Brasil. Afundada em problemas pessoais, concebeu uma desastrada apresentação em São Paulo há nove anos e, sem lançar material inédito há dezessete, retorna ao país com sua turnê comemorativa de duas décadas do multiplatinado Miseducation, o álbum que abalou 3/4 do mundo em 1998. Doze anos depois de sua última passagem pela capital gaúcha, o show em Porto Alegre foi anunciado sem alarde no início de março e em nada se comparou ao pandemônio de ingressos disputados a tapa e esgotados há meses para o show em São Paulo, no próximo dia 3. Faltando uma hora para o início da apresentação, na noite do Dia do Trabalhador (1º de maio) ainda era possível adquirir entradas nas bilheterias da Pepsi One Stage. Não se viam longas filas, tampouco superlotação da arena.

Com quase meia hora de atraso, Mrs. Lauryn Hill surgiu no palco com vestido longo e touca alaranjada na cabeça. Sua banda, formada por oito integrantes com um trio de hacking vocals incluso, superpovoa o espaço de dimensões diminutas. Coube a “Lost Ones” abrir os trabalhos. A segunda faixa de Miseducation tem punch gigantesco no álbum mas perde sua força ao vivo, sem sua a característica base de scratches. A qualidade de som da casa, muito distante de ser um primor, também não ajudou e grande foi a dificuldade dos técnicos em emulá-la. O clássico “Everything Is Everything”, cujo clipe assombrou o planeta há vinte anos, equivocadamente foi posicionado como segunda canção do set liste o resultado assustou: com andamento desacelerado e sem sua indefectível batida marcial, decepcionou os ouvidos mais atentos. O público, no entanto, não ligou nem um pouco e mais parecia preocupado em reverenciar a cantora, que sinalizava a todo instante aos técnicos reclamando de algo (muito provavelmente do som e da porcaria de acústica do local!).

O show prosseguiu e a presença de palco de Lauryn impressionava: às vésperas de completar 44 anos, sabe que não precisa de longos deslocamentos para se fazer presente. Sabe também que o repertório de sua principal obra fala por si: “Superstar”, “When It Hurts So Bad” e “Every Ghetto, Every City” automaticamente manteriam o alto nível da apresentação que gradativamente crescia, sobretudo em sua segunda metade – com destaque para “Forgive Them Father”, “Ex-Factor” e “To Zion”, eterna homenagem a seu primogênito filho, elevando sua interpretação a um máximo grau de impessoalidade.

Mas foi em “Killing Me Softly” que os contornos de catarse ganharam forma. O eterno clássico dos Fugees foi entoado a plenos pulmões por uma plateia completamente entregue aos pés da cantora. Semblantes emocionados eram vistos pelos quatro cantos da casa. Percebendo que o jogo está ganho, a banda estende sua execução que bateu à porta dos oito minutos.

A partir daí, só festa! “Can’t Take My Eyes Off You” é a carta na manga que todo artista gostaria de ter. O eterno clássico de Frankie Valli fez a audiência balançar e foi a deixa para a espetacular “Doo Wop (That Thing)” transformar a Arena Pepsi numa gigantesca pista de dança. Até o pessoal dos bares dançou com o verso “Guys you know you’d better, watch out (Watch out!)/ Some girls, some girls are only, about (About!)” A atuação impecável do trio de backing vocalscontinuou em “Ready Or Not” (mais uma dos Fugees), evidenciando o entrosamento da cantora com seu time. O som, finalmente equalizado a contento, permitiu que a sobreposição de vocais se tornasse perceptível. Jamais poderemos saber qual o verdadeiro sentimento de Lauryn ao revisitar a repertório do grupo que a alçou ao estrelato e ao lado dos ex-companheiros (e eternos desafetos) Wyclef Jean e Pras Michel. O fato é que resgatá-lo é uma necessidade, tendo em vista seu escasso material solo.

E foi justamente mais uma dos Fugees, a responsável por encerrar a noite: “Fu-Gee-La” não perdeu sua magnitude mesmo após vinte e três anos de seu lançamento. Sua execução porém, foi irregular. Faltam as batidas de Jean e Michel e mesmo negando, o “fantasma Fugees” sempre estará presente e tatuado na pele da cantora.

Após 90 minutos, opiniões divididas. Houve quem achou que a falta de punch em algumas canções não permitiu que a apresentação atingisse um grau de excelência (eu) e houve quem saiu da Arena Pepsi com a alma lavada somente com a onipresença da cantora. Será que o show de São Paulo será diferente? Veremos. Resta saber se a Lauryn 2019, que dividiu o Rio Grande em dois, dividirá a capital paulista também.

Set List: “Intro”, “Lost Ones”, “Everything Is Everything”, “Superstar”, “When It Hurts So Bad”, “Final Hour”, “Every Ghetto, Every City”, “Forgive Them Father”, “Ex-Factor”, “Can’t  Take My Eyes Off You”, “To Zion”, “The Miseducation Of Lauryn Hill”, “Doo Wop (That Thing)”, “Killing Me Softly With His Song” e “Ready Or Not”. Bis: “Fu-Gee-La”.

Music, Videos

Clipe: Noel Gallagher’s High Flying Birds – If Love Is The Law

Artista: Noel Gallagher’s High Flying Birds

Música: If Love Is The Law

Álbum: Who Built The Moon? (2017)

Por que assistir: Na semana em que Liam Gallagher deu declarações explícitas através da imprensa britânica de que quer esquecer a briga com o irmão e recolocar o Oasis nos trilhos uma década depois da suspensão de suas atividades, Noel mandou mais um sinal de que parece estar nem aí para uma possível retomada da banda. Na estrada com a turnê referente ao terceiro álbum solo da carreira (gravado sob a alcunha Noel Gallagher’s High Flying Birds), o mais velho da dupla e principal compositor do Oasis, solta mais um videoclipe de primeira, o quarto extraído deste disco não menos bombástico. Em Who Built The Moon?, Noel escancara um leque de influências que até então não haviam aparecido com tanto destaque nos seus tempos de cérebro musical daquela que foi a banda mais importante e popular do britpop ninetie. Neste trabalho tem muito glam, psicodelismo e folk, talvez intencionalmente para apagar aquele ranço de compositor classic rock expert em hits de arena, daqueles que fazem todo mundo cantar junto os refrãos com as mãos para cima mas soam sempre como algo extremamente quadrado, óbvio e comodamente formulaico. Em “If Love Is The Law” Noel vai buscar influências no interior norte-americano disfarçando o pezinho country com uma banda mais encorpada e de verve rocker – não à tôa entre os “pássaros” atuais do Gallagher primogênito estão o baterista Chris Sharrock e o guitarrista Gem Archer, dois instrumentistas da última formação do Oasis e que vieram exatamente da segunda banda do caçula Liam, o Beady Eye. Para completar a porrada que é o novo videoclipe, além da bela cinematografia e a sacada de colocar a banda performatizando no amplo cenário de aridez do deserto, o diretor e o roteirista Mike Bruce insere cenas de seu novo longa-metragem Stranded On The Earth. Nesta justaposição de clipe e trailer do filme, Bruce aproveita a letra cinematográfica escrita por Noel para contar a história de um rapaz e uma moça, que, assim como fizeram os mitológicos Bonnie e Clyde, saíam pelo país cometendo delitos e realizando assaltos entre beijos, abraços e declarações de amor, afeto e carinho. Não por acaso, aliás, os dois ostentam tatuagens dos “antepassados no crime”. Entre flashbacks do roteiro e cenas que brilham os olhos, mostra-se que tudo tem um fim, até mesmo o amor do jovem casal fora-da-lei. E outrora magnânimo Oasis também.

Texto por Abonico R. Smith