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A Vida Invisível

Com extrema sensibilidade, Karim Aïnouz emociona ao retratar a invisibilidade feminina na sociedade brasileira de algumas décadas atrás

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Textos por Janaina Monteiro e Leonardo Andreiko

Fotos: Sony/Divulgação

Quando A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) termina e surgem os letreiros, a sensação é de que acabamos de vivenciar uma profunda imersão na vida secreta de nossas avós, principalmente para os espectadores – como eu – cujo sangue português corre nas veias. É bem possível que você fique atônito, perplexo, abalado, devastado ou se renda a qualquer outro sentimento que talvez provoque lágrimas, como ocorreu à plateia de críticos do último festival de Cannes, onde o filme do diretor Karim Aïnouz ganhou o prêmio da mostra paralela Um Certo Olhar. Em agosto, o título também foi escolhido pelo país como o seu candidato a uma possível vaga ao Oscar de filme em língua não inglesa em 2020, superando o também premiado, badalado e cultuado Bacurau.

Martha Batalha, autora do livro que inspirou o filme e cuja história retrata a vida de duas irmãs separadas primeiro pela paixão, depois pelo pai e então pelo destino, já adverte na introdução: as personagens Eurídice e Guida foram, sim, baseadas “na vida das minhas e das suas avós”. Eurídice, Guida e todo o núcleo feminino são retratos da mulher que teve de abandonar – ou pelo menos adiar – os sonhos para se dedicar à família, aos próprios filhos ou aos filhos dos outros. Elas são o espelho da mãe solteira e da mulher que era chamada de biscate caso ferisse os bons costumes. É sinônimo da mulher invisível, que tinha como dever obedecer às regras sociais, ser refém do marido. Sua frustração era combatida com esperança, convertida em forma de netos em vez de diplomas pós-doc.

O melodrama tropical (como fora rotulado o filme) nos remete à tradicional família de imigrantes portugueses na época pré-pílula anticoncepcional, quando a mulher era feita para ser mãe e ainda precisava, sim, trabalhar fora. Para adaptar a história às telas, o diretor Aïnouz e os roteiristas Inês Bortagaray e Murilo Hauser (este, um curitibano da gema) trabalharam por três anos a fim de extrair a essência da obra de Martha e conseguiram retratar a sociedade patriarcal daquele tempo com uma verossimilhança impressionante.

O cenário é a cidade do Rio de Janeiro, a Floresta da Tijuca, o bairro de Santa Tereza. Eurídice (Carol Duarte) mora com os pais e a irmã mais velha Guida (Julia Stockler) numa casa em São Conrado. A jovem, de 18 anos, é um talento nato no piano, sonha em ser concertista e sempre dá cobertura à Guida, interpretada no final do filme pela magnífica Fernanda Montenegro. Dona de um temperamento extrovertido, Guida se apaixona e decide fugir com o namorado grego sem ao menos saber dizer uma palavra do idioma. De mala e cuia, ela deixa a casa, rumo ao porto, onde embarca de navio para sua aventura amorosa.

Com o sumiço da irmã, Eurídice fica à deriva e se apega ao brinco perdido por Guida. Carol exterioriza essa condição de desorientação de forma surpreendente, com seu olhar sempre perdido, tentando encontrar alguma resposta no horizonte. Quando Guida volta ao Brasil, pouco tempo depois de terminado o romance, ela é expulsa de casa e as duas se separam. O restante do filme é sobre a busca de Eurídice em rever a irmã, que para seu marido Antenor Campelo, funcionário dos Correios e amigo da família, já está morta. Gregorio Duvivier, ator dedicado à comédia e que até surpreende no teatro, tenta convencer ao interpretar o estereotipo do marido dos anos 1950, porém se perde no meio do caminho. Fica caricato, ora exagerando na veia cômica, ora se esforçando no drama.

Guida consegue sobreviver sozinha na capital do país. Toma um rumo que nunca sonhou e paga o preço por ter fugido de casa. Enquanto vive à procura de Guida, Eurídice também toca a vida: engravida e adia o sonho de ser musicista.

Enfim, A Vida Invisível é uma obra que retrata estereótipos e costumes da metade do século passado, revirando a memória afetiva do espectador. Mostra o pai português severo, a mãe que vive na cozinha trabalhando e cuidando da casa, a família que se reúne ao redor da bacalhoada e da rabanada na ceia de Natal. O realismo e a naturalidade como o diretor trabalha essas figuras são surpreendentes. Nada fica de fora, seja o suor de seus corpos, o sangue pós-parto, as relações sexuais não consentidas. Aliás, as cenas de sexo, sem cortes e explícitas, nos remetem a muitos títulos dos anos 1970 e 1980 que hoje são exibidos de madrugada no Canal Brasil. Assim como a textura e proporção de tela escolhidos por Aïnouz que costuma ser comparado a Pedro Almodóvar. Isso porque ele consegue imprimir uma visão feminina da história, ao dar corpo a personagens com atitude feminista, no limiar da segunda onda do feminismo. Os saltos temporais também são executados com maestria. Apenas os erros de continuidade prejudicam a perfeição do filme.

Depois de A Vida Invisível certamente vamos olhar para essas senhoras de cabelos brancos com mais curiosidade e atenção. Mulheres podem, agora, ter o canudo que quiser, escolher o parceiro ou parceira, decidir pela maternidade. Somos fruto de cada Eurídice e cada Guida, as irmãs que resistiram ao fardo de pertencer a uma sociedade conservadora. Sociedade que, ainda hoje, guarda o ranço do machismo. (JM)

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***

Karim Aïnouz é um autor. Seu forte estilo de direção, bastante focado em seus personagens, como ele próprio definiu, angariou fãs dentro e fora do Brasil, além de diversos prêmios. No entanto, ele confidenciou ao espectador curitibano durante a pré-estreia do filme, na noite de 24 de outubro no Cine Passeio, que A Vida Invisível (Brasil/Alemanha, 2019 – Sony) surgiu da vontade de alçar voos mais próximos do público, distanciando-se do estigma do cinema arte de salas vazias e lançamentos modestos, antes mesmo da crescente – e absurda – desvalorização da indústria audiovisual brasileira.

Seu melodrama ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950, corroteirizado por Murilo Hauser e Inés Bortagaray, revolve em torno da relação de duas irmãs, Eurídice e Guida Gusmão, cada uma de espírito fortemente distinto da outra, separadas pelas circunstâncias da vida e desejando o reencontro. Tanto o roteiro quanto a direção de Aïnouz propõem um rumo diferente da tomada por Martha Batalha no romance que inspirou a obra – portanto, comparações se tornam ainda menos necessárias que de costume.

O título anterior da obra (quando venceu a mostra Um Certo Olhar do último Festival de Cannes, em maio, o filme se chamava A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, assim como o livro) trazia, a princípio, um foco maior nesta, interpretada por Carol Duarte. O longa, porém, trata Guida e sua irmã como protagonistas, ambas seguindo suas histórias, enormemente distantes e distintas. Este, talvez, seja um forte trunfo da obra. Pois tanto Duarte quanto Julia Stockler têm seu respectivo espaço para construir suas personagens, cujos contrastes dão tom à trama, ao mesmo tempo que são muito aproveitados metaforicamente. Enquanto Guida é altiva e senhora de si, Eurídice é contida e, embora tão forte e sonhadora quanto sua irmã, acaba envolvida na opressora máquina da família tradicional, cujo vigor era ainda maior na época. Assim, a audiência é capaz de torcer para que ambas se reencontrem, ainda que torça para que suas tramas individuais deem certo.

A cumplicidade de A Vida Invisível com suas personagens é outro amplificador à imersão da obra. A câmera de Aïnouz e da diretora de fotografia Hélène Louvart as acompanha e, numa instância mais poética, torna-se parte delas. Sentimos o que elas sentem, desde as emoções transpassadas pela maravilhosa atuação até as emoções mais abstratas, como o constante desfoque que sequestra os quadros de Eurídice. Ampliada pela belíssima direção de arte e ambientação, a fotografia é capaz de evocar naturalismo fotográfico e, num plano subsequente, flertar com o imaginário e figurar os fortes vermelhos característicos da filmografia de seu diretor.

No entanto, o longa-metragem sofre de um problema, no mínimo impactante. Ao retratar algumas cenas com intensidade maior que a necessária, Aïnouz passa do ponto, o que pode causar fortes desconfortos a audiências com gatilhos envolvendo abusos sexuais. A sensibilidade que permeia os momentos introspectivos da obra se perde na noite de núpcias de Eurídice com Antenor, interpretado muito bem por Gregório Duvivier – que não perde seu jeito característico no humor e, mesmo assim, desenvolve um personagem distante de sua figura porta-dos-fundesca, por assim dizer. Fica aqui o alerta de gatilho, portanto.

Ainda assim, a obra é repleta de acertos, que se aglomeram e transformam A Vida Invisível numa história emocionante e envolvente. Quando imaginamos que tudo já poderia acabar, é claro que estamos enganados. Fernanda Montenegro tem a sensacional – ou terrível, caso precise escrever sobre sua atuação – mania de transcender, em seu ofício, quaisquer elogios, adjetivos ou análise que possa ser feita. Em poucas palavras e muitos olhares, a nonagenária atriz amplifica a já belíssima personagem de Carol Duarte. A Eurídice Gusmão de Fernanda, já calejada de uma vida inteira, emociona do primeiro ao último olhar. Aïnouz soube dirigi-la com maestria e, assim, amarrar com finesse a trama que constrói em seu filme.

Capaz de argumentar sobre a invisibilidade das mulheres na sociedade, o machismo estrutural e suas vítimas em ambos gêneros e a perda da esperança, o longa não se esforça em desenvolver quaisquer destes temas. Antes do tema, vêm as personagens. Essa é a história de Eurídice e Guida, mas poderia e deveria ser a história de muitas mulheres. Nossas bisavós, avós e mães. (LA)

Music

Dado Villa-Lobos + Marcelo Bonfá + André Frateschi – ao vivo

Em Curitiba, trio relembra (quase) na íntegra as faixas dos álbuns Dois e Que País é Este 1978/1987, da Legião Urbana

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Texto por Abonico R. Smith

Fotos de Igor Filus/Charme Chulo (Dado e Bonfá) e Abonico R. Smith (André Frateschi)

Nove de abril de 1988. Aquela não era uma noite qualquer. O cheiro de tensão já estava no ar desde antes de começar o show. Depois de um bom tempo de atraso, eis que sobem ao palco montado no Ginásio do Tarumã, em Curitiba, os quatro integrantes da Legião Urbana. Naquela época, a banda ainda era um quarteto, com Renato Rocha tocando o baixo e sem a presença de músicos de apoio nos teclados, violões e segunda guitarra.

Por pressão da gravadora, o terceiro álbum da banda, Que País É Este 1978/1987 tinha acabado de sair no final do ano passado. Foi algo montado às pressas, ainda para aproveitar a carona do extremo sucesso do anterior Dois, lançado em 1986, em um ano de extrema euforia econômica por causa do Plano Cruzado e que impulsionava a vendagem de discos. O novo repertório havia ficado no meio do caminho. Para completar o disco, a banda pegou antigas canções escritas por Renato Russo nos tempos de Aborto Elétrico ou Trovador Solitário, durante o final da adolescência em Brasília.

A banda vivia um período de intensas turbulências internas. Rocha, logo depois, seria desligado da formação por problemas de comportamento. Russo tentava driblar os problemas emocionais trazidos pela fama meteórica com abusos químicos e etílicos. E de certa forma comportamentais. O que viria a se refletir nesta apresentação no Tarumã. Na plateia, um séquito de fãs ensandecidos à espera de seu líder. Sim, porque um show da Legião Urbana com Renato Russo à frente do palco não era uma mera performance artística naquela ocasião. Parecia quase todo mundo ali um exército com o poder de ser comandado (ou sair do controle a qualquer instante) pelo seu grande chefe.

O que rolou dentro no Tarumã foi quase um barril de pólvora pronto para explodir. Russo, sempre imprevisível, improvisava e mandava seus pensamentos sobre vida e política e mais frases impactantes ao microfone entre cada música. A multidão se inflamava. Passou um bom tempo cantando se jogando e deitando no chão, como às vezes costumava fazer. A multidão se inflamava mais. Cantava os versos magnéticos e poderosos de suas músicas, muitas delas sobre revoluções pessoais e coletivas. A multidão se inflamava cada vez mais. Ao final do show, veio a sensação de alívio por nada de errado, estranho ou violento ter acontecido ali dentro. Entretanto, lá fora, quando as pessoas começaram a sair todas ao mesmo tempo por um mesmo portão, tudo explodiu. Policiais batiam em vários. Outros, a cavalo, tentavam conter a fúria ao mesmo tempo em que quase jogavam os animais em cima dos fãs. Algumas bombas de efeito moral explodiam aqui e ali. Eu, um garoto prestes a completar 16 anos de idade e acompanhado apenas por amigos da mesma faixa etária, tentava me proteger e sair são e salvo para um lugar mais distante e sem confusão.

Dois meses depois, em junho o que não havia saído do controle durante o show de Curitiba acabou saindo no fatídico retorno da banda a Brasília. Resultado foram cenas de tensão, horror e vandalismo que pôs em risco a integridade física dos próprios músicos, destruíram o estádio Mané Garrincha, e tomou as ruas da cidade que havia revelado a banda e não a mais queria nas redondezas. Fato que foi determinante para a suspensão das apresentações e viagens pelo país durante um bom tempo e marcou uma virada de página na carreira da banda. Depois disso ver assistir a um show da Legião Urbana tornou-se um fato ainda mais difícil de acontecer quando Russo, Dado e Bonfá decidiram por retomar as turnês.

>> Clique aqui para ouvir a gravação do show de 9 de abril de 1988 em Curitiba

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Exatos trinta anos depois o repertório baseado nos discos que sustentavam aquela tensa e polêmica fase voltou a Curitiba. À meia-noite e meia da madrugada do último sábado, dia 24 de novembro de 2018, Dado e Bonfá, novamente acompanhados pelo vocalista André Frateschi e a mesma banda de apoio da turnê anterior (Lucas Vasconcellos nas guitarras e violões, Mauro Berman no baixo e direção musical e Roberto Pollo nos teclados e programações eletrônicas), que comemorava as três décadas de lançamento do álbum de estreia, agora estavam na Live Curitiba para tocar (quase) integralmente Dois e Que País É Este 1979/1988. Das 21 faixas, apenas uma, a vinheta instrumental “Central do Brasil” ficou de fora do set list do live project.

Em primeiro lugar devem ser feitas considerações a respeito da plateia que parecia que iria comparecer em bom número e, mais próximo ao início da apresentação, acabou enchendo a casa. Poucos eram os que tinham abaixo dos 30 anos de idade – ainda assim os teens estavam devidamente acompanhados por pais ou familiares. A maioria claramente era de gente que cresceu/adolesceu quando as músicas cantadas por Renato Russo povoavam a playlist da maioria das rádios FM e discos físicos – em vinil ou a laser – eram vendidos aos borbotões, os brasileiros não votavam para presidente baseados em fatos irreais do WhatsApp e a juventude ainda carrega uma certa esperança ingênua em um país que mal havia se libertado de duas décadas de ditadura militar. Portanto, não houve renovação do público da Legião Urbana. Apesar de suas canções mais antigas exalarem espírito juvenil, a garotada de hoje não se conecta mais com Renato, Dado e Bonfá. Nisso também ajudou – e muito – a interminável rusga com o herdeiro do vocalista, seu filho, detentor dos direitos sob o nome da banda e, que, segundo a dupla remanescente, impede o lançamento oficial de projetos novos e antigas gravações ainda inéditas.

Contudo, quando Dado e Bonfá sobem ao palco a coisa muda de figura. “Ah, mas não tem Renato Russo!”, muita gente pode  tentar argumentar. Bom, não tem mesmo. Infelizmente Renato morreu em 1996, o que não pode ser revertido e ainda determinou o fim oficial da banda. Portanto este não é um show da Legião Urbana em si, mas uma celebração de dois artistas que compuseram e gravaram com o amigo as canções que construíram a carreira de todos eles. E também André Frateschi se transformou em um grande achado para compensar as saudades do vocalista. O ator e cantor – com respeitável carreira solo no underground brasileiro – não quer substituir, muito menos imitar o seu também ídolo. Não faz os mesmos trejeitos e coreografias, não tem o mesmo timbre vocal, mas está cada vez mais solto e acostumado à condição de estar à frente do guitarrista e baterista. Sua performance é própria, ele toca instrumentos (bateria e harmônica) e tudo é tão energético quanto as músicas que canta. Sem falar que, em determinados momentos, é um dos dois que assume a função de bandleader.

“Ah, mas não tem coisa inédita!”, outros tantos podem disparar. Não tem mesmo e ainda bem. Banda brasileira não sabe acabar após uma longa carreira e fica se arrastando ao tocar pelo país quase sempre o mesmo repertório, com os mesmos hits que já foram executas outras 35 mil vezes ao vivo. Quando aparecem faixas novas, elas são bem poucas e estão aquém de distância na qualidade se comparada aos velhos clássicos. Com Dado e Bonfá não tem isso. Velhos sucessos, sim, podem muito bem sumir do set list e a intenção destas duas últimas turnês é executar os discos no palco, de cabo a rabo. Por isso ouvir pérolas escondidas dos álbuns (como “Depois do Começo”, “Metrópole”, “Música Urbana 2”, “Química”, “Mais do Mesmo”, “Conexão Amazônica”, “Acrilic on Canvas”, “Plantas Embaixo do Aquário” e “Fábrica”) é muito mais importante, neste momento, do que ficar relembrando “Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto”, “Monte Castelo”, “Meninos e Meninas”, “Geração Coca-Cola”, “Ainda é Cedo” ou “Por Enquanto”.

O set é temático e brinda as canções gravadas entre 1986 e 1987. Portanto, o tom das canções vai do folk (soberano em Dois, gravado com muitos instrumentos acústicos de corda) ao punk (herança deixada pelo Aborto Elétrico absorvida em Que País É Este 1978/1987), abandonando as nuances pós-punk da estreia (1985) e ainda sem soar tão pop ou progressivo quanto os vindouros quarto e quinto álbum As Quatro Estações (1989) e (1991). Ainda era uma época em que as palavras bem trabalhadas valiam em letras de música neste país. O discurso era virulento ao mesmo tempo em que tentava buscar a tomada de consciência para um amanhã melhor. Buscava sintonia com os jovens da mesma época, empolgados por uma suposta mudança dos rumos que estaria por vir. Os fãs respondiam à altura, com ardor e devoção jamais vistas até então no rock brasileiro, alçado à condição de megagênero naquele momento do mercado fonográfico nacional.

Hoje a graça está mais em cima do palco do que do lado de cá dele. É bom ver como muitos versos (“Fábrica”, “Que País é Este”, “Faroeste Caboclo”, “Angra dos Reis”, “’Índios’”, “Mais do mesmo”, “Conexão Amazônica”) até hoje dizem muito a respeito de nosso universo cotidiano ao redor. E que quem as interpreta ali, na frente de muitos (e isso inclui os três músicos de apoio) parece que está se divertindo tanto quanto em quase duas horas e meia de show. Tudo passa longe de ser um relógio-ponto burocrata que funciona com base em harmonias e melodias. O que, por sinal, a Legião Urbana sempre foi. Uma banda movida apenas pelo compromisso consigo mesma e a sua necessidade de expressão e não pelo o que os outros pensam ou querem dela. Dado e Bonfá já passaram dos 50 anos de idade mas parecem ter alma muito mais jovem do que a maioria do público que foi vê-los na Live Curitiba. Estes, sim, parecem eternamente satisfeitos em ter sempre mais do mesmo.

PS: Para o bis, foi escolhido um minirrepertório pinçando, de brinde aos fãs, uma faixa representativa de cada um dos outros quatro álbuns executados ao vivo em turnês pelo trio. No caso do sexto, O Descobrimento do Brasil (1993), ainda houve uma “música-bônus”: “Giz” (anunciada como a preferida entre todas as da banda pelo vocalista) e “Perfeição” (o sempre indispensável “Hino Nacional Brasileiro” alternativo).

Set list: “Daniel na Cova dos Leões”, “Quase Sem Querer”, “Eu Sei”, “‘Índios’”, Acrilic on Canvas”, “Tédio (Com um T Bem Grande Pra Você)”,  “Mais do Mesmo”, “Metrópole”, “Química”, “Plantas Embaixo do Aquário”, “Depois do Começo”, “Conexão Amazônica”, “Música Urbana 2”, “Eduardo e Mônica”, “Faroeste Caboclo”, “Que País é Este”, “Angra dos Reis”, “Andrea Doria”, “Fábrica” e “Tempo Perdido”. Bis: “Vento no Litoral”, “Giz”, “Há Tempos”, “Será” e “Perfeição”.