Music

Metronomy

Oito motivos para não perder o show do quinteto inglês que, para muitos, tem a cara e a alegria do verão em seu synthpop

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Fundado há vinte anos, o Metronomy chega ao Brasil com seu synthpop alegre e irresistível e que, para alguns, é a cara do verão que está quase aí. Joseph Mount (voz, guitarra e teclados), Oscar Cash (teclados e saxofone), Gbenga Adelekan (baixo), Michael Lovett (teclados e violão) e Anna Prior (bateria) prometem agitar a noite de quatro capitais do nosso  país com seus sintetizadores, grooves, melodias grudentas e uma soma de estilo e irreverência na mise-en-scène. No Brasil, serão quatro apresentações dentro do projeto Popload Gig: São Paulo (dia 7 de dezembro, na Audio), Curitiba (dia 9, na Ópera de Arame), Rio de Janeiro (dia 11, no Sacadura 154) e Porto Alegre (dia 13, no Opinião). Mais informações sobre os estes concertos você encontra, respectivamente, aqui, aqui, aqui e aqui.

O quinteto traz para cá o show baseado em seu novíssimo disco, Metronomy Forever, lançado em setembro ultimo e que vem sendo apresentado pela Europa. No set list, claro, não faltarão sucessos dos álbuns anteriores. Como “The Look”, “Love Letters” e “The Bay”.

Abaixo, o Mondo Bacana lista oito motivos para você passar até a semana que vem dançando com os ingleses. Especialmente se você morar ou estiver na capital paranaense na próxima segunda, onde o grupo toca pela primeira vez.

Ligação com o Coldplay

A banda britânica lançou seis álbuns de estúdio (o primeiro é de 2006) e já se apresentou quatro vezes no Brasil. O Metronomy se formou em 1999 em Devon, região onde também nasceu o vocalista do Coldplay. Aliás, em passagem pelos Estados Unidos, os conterrâneos chegaram a excursionar com a banda de Chris Martin.

Nome de batismo

Joe Mount batizou a banda de Metronomy porque achou o nome interessante e que seguia na mesma linha de bandas como Autechre e Funkstorung. A palavra significa metrônomo, equipamento que músicos utilizam para marcar as batidas do compasso e é importante para aguçar a precisão rítmica dos mesmos.

Balada na segunda-feira

Quantas vezes você já saiu de casa na noite de uma segundona? Então, o show do Metronomy é uma ótima oportunidade para se divertir em pleno iniciozinho de semana. Além disso, a performance será na Ópera de Arame, cartão-postal de Curitiba que costuma deixar artistas gringos que ali se apresentam de queixo caído. E mais: depois do concerto, o baixista da banda mais a vocalista do CSS, Lovefoxxx, atacarão de DJs e transformarão o espaço num grande dancefloor.

Dança sem culpa

O mundo está em ruínas. Você liga a televisão, ouve rádio ou se conecta à internet e só vê tragédia sendo noticiada. Esse, então, é outro bom motivo para você ir ao show do Metronomy e se acabar de dançar ao som dos britânicos, famosos no mundo inteiro pelo hit “The Look” – cujo clipe já passa de 40 milhões de visualizações no YouTube. Bora curtir a sonzeira e esquecer as dores do mundo por quase duas horas?

Respeito na cena indie

Nos últimos treze anos, o Metronomy se estabeleceu como uma das mais interessantes e respeitadas bandas da cena indie mundial, tendo sido destaque em críticas e matérias de publicações como a NME, o Guardian e a DIY.  O quinteto ainda se apresentou na BBC Radio 1, no lendário programa Later With Jools Holland da BBC 2 e fez concertos de ingressos esgotados nos palcos da Brixton Academy, Somerset House e Royal Albert Hall. Espera que ainda tem mais: a banda foi headliner do Park Stage no mais cultuado festival musical europeu, o Glastonbury.

Parceria famosa

A banda teve o charmoso e fofíssimo clipe de “Love Letters” dirigido pelo cultuado Michel Gondry. O farncês é um dos nomes mais famosos do cinema pop dos anos 2000 e assinou logas-metragens como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Rebobine, Por Favor.

Lançando moda

O quinteto gosta de lançar moda e já trabalhou com o estilista alemão Karl Lagerfeld, diretor da Chanel falecido neste ano. Também criou uma garrafa de cerveja (!!!), em parceria com a Heineken.

New wave revival

O show é para os fãs de synthpop, subgênero da new wave e que, como o próprio nome diz, é marcado pelos sintetizadores em substituição às guitarras no comando dos arranjos. Um dos embriões deste estilo foram os discos e concertos da banda alemã Kraftwerk lançados nos anos 1970. No Reino Unido, berço da Metronomy, o synthpop surgiu na era pós-punk do final da mesma década e se estendeu como febre até meados dos 1980, quando despontaram bandas como New Order, Soft Cell e Depeche Mode. Se você curte nomes mais recentes como Hot Chip, Ladytron e Cut Copy, então vale (e muito!) a pena conhecer o trabalho de Mount e sua turma.

Movies

Yesterday

O consumo musical de hoje em dia é questionado com história costurada por canções dos Beatles em um mundo onde a banda não existiu

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Universal Pictures

Talvez um mundo sem Rolling Stones seja possível. Sem Beatles, porém, jamais. Pelo menos essa é a visão de Yesterday (Reino Unido, 2019 – Universal Pictures), filme dirigido pelo aclamado Danny Boyle, do cult Trainspotting e do oscarizado Quem Quer Ser um Milionário?, que estreia no Brasil com dois meses de delay.

Em resumo, o longa é uma bela homenagem aos Fab Four, com críticas sutis ao showbiz frente ao mundo volátil de hoje e carregando uma mensagem totalmente John Lennon no final. Quem assina o roteiro é Richard Curtis, o neozelandês naturalizado britânico especialista em comédias românticas água com açúcar como Quatro Casamentos e um Funeral Um Lugar Chamado Nothing Hill. Da dobradinha inglesa, quem se sobressai é o roteirista que imprime sua digital ao filme, abafando a direção de Boyle.

O longa conta a história de Jack Malik (interpretado pelo britânico filho de pais indianos Himesh Patel) que vive em Lowestoft, condado de Suffolk, Inglaterra, com sua vidinha de repositor num supermercado. Em paralelo, ele se apresenta em pubs e festivais, tocando as composições que compõe, às quais ninguém dá muita atenção. Pela decoração do quarto de Malik, dá pra perceber sua paixão por indie rock: há pôsteres da banda escocesa Fratellis; do álbum In Rainbows, dos ingleses do Radiohead; e dos americanos Killers. Além de cantar, Malik é multi-instrumentista (toca piano, violão e guitarra) e guarda uma supercoleção de discos de vinil dentro do armário.

Quem dá suporte à sua carreira são os amigos. Em especial Ellie Appleton (Lily James), parceira desde a infância e que se tornou uma espécie de manager de Malik. Lily é uma garota meiga e romântica, que dá aulas de matemática numa escola e, claro, nutre uma paixão platônica por Malik.  Quando, frustrado, o rapaz pensava seriamente em desistir do sonho de se tornar um cantor famoso, o inesperado acontece. Ao voltar para casa pedalando após um show praticamente às moscas, ele é atropelado por um ônibus durante um apagão planetário, como o bug que todos esperavam na virada do milênio. Jack vai parar no hospital e lá já percebe que há algo mais estranho do que ele ter ficado banguela. O rapaz cantarola trecho de uma canção dos Beatles e Ellie sequer reconhece. Ao receber alta, ganha um violão novo de presente e interpreta a canção que batiza o longa, “Yesterday”, que Paul McCartney compôs logo após lembrar-se de uma melodia vinda durante um sonho.

E então o mote do filme começa. Malik reage ao impacto de saber que é o único que se lembra de Beatles, num misto de indignação e nervosismo. Os amigos do protagonista chegam a comparar “Yesterday” com “Fix You”, do Coldplay – um dos momentos hilários do longa. O mundo, então, torna-se estranho, vazio e sem sentido para o rapaz que, por várias vezes, recorre ao Google para descobrir se algo mais desapareceu no fog. Será que o Oasis sequer existiu também?

Malik se vê na obrigação de mostrar ao mundo o que só ele lembra e, de quebra, consegue impulsionar sua carreira ao se apropriar da obra de Paul, John, George e Ringo, despertando, claro, curiosidade e desconfiança por conta de toda essa explosão criativa que surge da cabeça de quem compunha canções banais.

Conforme ele mergulha na memória para buscar cada palavra e cada acorde do repertório beatle, revela-se a trilha sonora do filme, repleta de “lados A” como “I Wanna Hold Your Hand”, “In My Life”, “Help!”, “Eleanor Rigby”, “I Saw Her Standing There”, “All You Need Is Love”, “Let It Be”, “Hey Jude”, “Here Comes The Sun” e “Ob-La Di Ob-La-Da”. Para relembrar a dificílima letra de “Eleanor Rigby”, precisa ir a Liverpool e visitar alguns lugares, por exemplo. E assim várias canções do quarteto vão dando um contorno ao filme, cada qual situada com um propósito definido.

Os “novos hits” passam a chamar atenção e Malik conhece Ed Sheeran, a grande surpresa do longa. O astro pop interpreta ele mesmo, como uma autocaricatura, um clown, e é responsável por arrancar boa parte das risadas do público (algo me diz que Sheeran teve aulas com Hugh Grant!). As obras-primas despertam também os olhares da manager de Sheeran, Debra Hammer (a comediante Kate McKinnon, que dá um show ao personificar a produtora sem escrúpulos).  De rapaz desconhecido, Malik vira ídolo pop. Alcança e conhece de perto a fama, primeiro abrindo shows do astro ruivo inglês que compôs “Shape Of You”, cujo refrão surge repetidamente no filme. Numa das cenas, os dois chegam a disputar quem faz a melhor música na hora (adivinhe quem ganha!).

A partir do momento que o protagonista começa a fazer sucesso com os hits dos Beatles – e obviamente desbanca Ed Sheeran – é possível perceber críticas implícitas sobre as mudanças sofridas na indústria do entretenimento nestas últimas décadas. Como a tecnologia transformou o processo de criação (quem é capaz de fazer uma letra como Eleanor Rigby hoje?) e facilitou o consumo de música pop requentada (porque a original Coca-Cola também desapareceu do mundo e só existe Pepsi?); e também como o marketing digital revolucionou a divulgação do trabalho dos artistas. A direção de Boyle, com seus efeitos visuais e ritmo dinâmico, nos faz mergulhar na era dos downloads, aplicativos e redes sociais e refletir sobre essas alterações tão impactantes na indústria cultural. Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band perde o colorido e “Help!” se transforma num hardcore meia boca.

O eixo principal do filme, porém, é o relacionamento entre Malik e Ellie, que fica conturbado depois que o rapaz atinge o estrelato. Mas a tensão entre o casal só vem à tona nos minutos finais. Aliás, Yesterday desanda da metade para o fim (se perde assim como a série Lost) e a expectativa de um desfecho criativo é atropelada por um ônibus biarticulado.

Mesmo assim vale assistir a Yesterday pelo tributo, pelos covers bem executados por Patel, para rir de Ed Sheeran e, sobretudo, refletir sobre o modo como consumimos cultura e amor hoje em dia. Como já diziam os Beatles, bem fresquinho na memória: “in the end the love you take is equal to the love you make”.

Music

As Bahias e a Cozinha Mineira

Trio lança o primeiro disco por uma grande gravadora e fala em entrevista sobre amor, influências e a nova MPB LGBT

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Texto e entrevista por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Se existe uma banda com atitude, crítica social e capacidade de inspirar e transformar o cenário musical atual é o trio As Bahias e A Cozinha Mineira. Só pelo nome já é possível perceber a carga de brasilidade e presença feminina no trabalho das cantoras trans Assucena Assucena e Raquel Virgínia – a baiana e a paulistana – e do mineiro Rafael Acerbi, que se apresentam em Curitiba neste final de semana no Teatro do Paiol (mais informações sobre os dois shows você tem aqui).

Os três se conheceram na Universidade de São Paulo, onde faziam História. Mas foi a morte de Amy Winehouse, em 2011, que despertou a vontade dos amigos em formar uma banda e se profissionalizar. Desde então, foram três álbuns lançados e prêmios conquistados. O mais recente trabalho, Tarântula, tem duplo sentido no nome e faz referência a uma operação da polícia paulista de 1987, que perseguiu e prendeu centenas de travestis sob a desculpa de “combater o avanço da aids”.

O trio bebe na fonte de vários ritmos e transita entre as mais variadas influências: da cultura hip hop ao axé, da Tropicália – principalmente Gal Costa e Caetano Veloso – ao Clube da Esquina. Por e-mail, Raquel falou com o Mondo Bacana sobre o novo disco e o momento atual do grupo.

A banda se conheceu durante o curso de História da USP. Vocês acreditam que podem fazer mais “história” com a música do que lecionando?

Não acho que dê pra fazer esse comparativo. São ofícios muito diferentes. A natureza dos dois trabalhos e o tempo de impacto social de cada função também. Acho as duas profissões fundamentais e importantes.

Liniker, Johnny Hooker, As Bahias e a Cozinha Mineira… é possível identificar um movimento na música popular brasileira que resgata a cultura popular como fizeram os tropicalistas ou o Clube da Esquina (que são suas referências) e que dá voz à comunidade LGBT, às minorias?

Acho que existe uma conjuntura que une as Bahias, Liniker, Johnny. Mas não consigo dizer que existe um conceito artístico e estético que nos una, como os tropicalistas. Não por enquanto. Estamos conectadas muito mais por questões comportamentais e sociais que artisticamente. Ainda sim, nossas artes correspondem de alguma maneira a esse momento e isso nos conecta, sem dúvida.

Vocês assinaram com a Universal, uma gravadora mainstream. Como conseguiram manter a identidade criativa da banda e as letras críticas (como em “Fuça de um Fuzil”) sem que a gravadora interferisse, por exemplo, no conteúdo? Isso é um sinal que os tempos mudaram, que existe o inverso, que o artista pode “mandar” nas gravadoras?

As Bahias não foi um projeto que nasceu dentro de uma gravadora. Nascemos e fizemos os dois primeiros álbuns de maneira independente. Quando entramos na gravadora já carregávamos uma identidade, de certa forma. A gravadora quer reforçar e tornar mais popular o que nós já somos. Potencializar. Eles não interferiram de maneira incisiva nas canções. Foi e está sendo tudo muito tranquilo.

“Sou mulher de botar pra quebrar” diz um dos versos de “Mátria”, a faixa de abertura de Tarântula. Num tempo em que falamos sobre o empoderamento feminino, como a mulher pode botar pra quebrar hoje em dia? Sendo feminista ou feminina?  

Feminista. Sendo feministas podemos ser o que quisermos, inclusive femininas.

O trio tem duas musas inspiradoras Gal e Amy Winehouse. Quem seria o muso inspirador?

Caetano Veloso tem nos influenciado muito como grupo. Individualmente, amo Stromae, cantor e compositor belga.

Vocês cantam sobre o amor e as desilusões, sentimentos comuns independentemente de sexo, cor e religião. Mas nessa sociedade do consumo, a sensação é de que os relacionamentos são fugazes e não se sustentam mais. Como vocês enxergam o amor nos dias de hoje com os aplicativos onde as pessoas são escolhidas como num cardápio?

Eu tenho um olhar muito seco pro amor. Acho que amor tem raça, gênero e classe social. As pessoas se amam mas precisam estar num padrão pra serem amadas. Como mulher trans preta e que nunca teve um relacionamento afetivo, penso que o amor precisa ser ressignificado.

E o que mudou no país desde a operação policial que batizou o novo trabalho? É possível que o tempo cure esse retrocesso político em que vivemos?

Sendo muito honesta, não sei aferir o que mudou. A nossa História é muito apagada e fragmentada. Mas essa é uma boa pesquisa.

Pra descontrair: qual o prato da culinária paulista, baiana e mineira do qual vocês mais gostam? Como sairia uma receita dos três estados juntos?

Paulista: amo um bom pão na chapa; baiana: sou apaixonada por caruru; mineira: goiabada cascão. Uma receita dos três juntos de As Bahias e a Cozinha Mineira!