Music

The Who’s Tommy – ao vivo

Montagem britânica recria a clássica ópera-rock pela segunda vez no palco do Teatro Guaíra, em Curitiba

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Texto e foto por Abonico R. Smith

O Who encontrava-se num grande dilema no final dos anos 1960. Depois de emplacar uma série de hits em singles e transformar-se numa poderosa banda para ser vista ao vivo, ainda faltava um grande disco, uma respeitável coleção de canções compondo uma mesma obra. Afinal, era o tempo dos álbuns que traziam um conceito costurando as faixas mais capa, contracapa e toda o resto da programação visual da obra. Em dezembro de 1967, fechando um ano glorioso para álbuns temáticos, o quarteto lançou The Who Sell Out, no qual brincava com a relação entre a música e a comunicação e toda a questão do consumo a ela associado, inclusive com propagandas fictícias estampando as fotos e preenchendo os intervalos entre as músicas. Apesar das críticas positivas da imprensa, as vendas não decolaram, frustrando, assim, mais uma vez, as expectativas de emplacar um álbum.

Foi então que caiu nas mãos de Pete Townshend um livro do guru Meher Baba e ele se interessou pelas obras e a mensagem do indiano que passou seus últimos 44 anos de vida sem quebrar o voto de silêncio feito em 1925 e para quem o uso de drogas alucinógenas – intenso naquela época de explosão contracultural – não servia para fins espirituais. Provocado pelo empresário e produtor artístico das gravações da banda, Kit Lambert, o guitarrista topou compor uma ópera-rock para o próximo álbum da banda. O formato já não era novidade para o Who, que havia feito o mesmo – porém com menor duração – em “A Quick One, While He’s Away” (com nove minutos de duração e seis atos), última faixa do segundo álbum, A Quick One (1966). Então, recluso em seu estúdio caseiro, Pete compôs as demos que viriam a ser as músicas de Tommy, o tão esperado álbum de sucesso comercial do Who, lançado em 23 de maio de 1969.

O álbum duplo contava a história de um garoto inglês que, diante de uma série de abusos na infância (sexuais e psicológicos, sobretudo), fecha-se num mundo de introspecção e perde o contato sensitivo com o mundo humano, tornando-se, sugestiva e convenientemente, cego, surdo e mudo. Depois de descobertas como o prazer sexual (simbolizado pelas drogas sintéticas) e o poder (o jogo de fliperama), recobra os sentidos já adulto, ao enxergar o seu reflexo em um espelho, e acaba se convertendo em uma espécie de messias em um acampamento jovem (religiões e seitas). Entretanto, sua mão pesada contra os seguidores provoca uma rebelião que o destitui. O final é aberto, mas muitos fãs sugerem que Tommy teria se fechado de novo ao mundo, voltando às fantasias desenvolvidas em sua mente.

Para compor a trama, o guitarrista utilizou diversas referências autobiográficas, inseridas nos personagens em maior ou menor grau de veracidade com as suas próprias experiências de vida. Mas o fato é que Tommy, enfim, teve o seu reconhecimento popular traduzido em vendas (número dois nas paradas britânicas e quatro nas americanas), emplacou um hit nas rádios mundiais (“Pinball Wizard”), deu início a uma grande turnê que reproduzia o repertório na íntegra e ainda inaugurou uma nova fase do Who, menos pop e bem mais pesada, com grandes álbuns na sequência e shows concorridos no mercado americano, onde a performance explosiva de cada um dos quatro integrantes eram os grandes destaques. Em 1972 o disco ganhou versão orquestral e em uma estreou celebrada versão cinematográfica com direção do britânico Ken Russell com elenco encabeçado pelo próprio vocalista Roger Daltrey e as participações dos atores Ann-Margret, Oliver Reed e Jack Nicholson mais outros ídolos do rock como Elton John, Tina Turner, Eric Clapton, o próprio Townshend e mais John Entwistle e Keith Moon (respectivamente, o baixista e o baterista da banda). Em 1993, veio um musical da Broadway com a adição de canções inéditas assinadas por Townshend. Com o passar dos anos as vendas ultrapassaram a marca de 20 milhões de exemplares físicos, o que garantiu que a obra entrasse para o Hall da Fama do Grammy.

Ainda na década de 1990, a montagem da Broadway circulou pelo nosso país, sendo Curitiba umas das escalas. Agora, na noite do último dia 23 de março de 2019, mais de duas décadas depois, o mesmo Teatro Guaíra recebeu uma outra montagem de Tommy, desta vez britânica, que também passou por outras cidades brasileiras (Belo Horizonte, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo) e países sul-americanos (Chile, Paraguai, Peru). Encenado há 24 anos em Londres, o musical The Who’s Tommy trouxe seu elenco atual formado por uma banda de cinco músicos altamente técnicos (alguns assumindo os vocais na hora da entrada em cena de personagens secundários) e seis cantores-atores (inclusive um mirim, representando o protagonista ainda na infância). Toda e qualquer informação adicional vinha do telão disposto ao fundo do palco, que trazia muita referência visual ao filme de Russell e ainda uma alteração temporária significativa na história: o nascimento de Tommy Walker é transferido para depois da Segunda Guerra (mais precisamente em 1951, não mais em 1921), fazendo, assim, com que ele acabe por completar 18 anos justamente quando o álbum original fora lançado.

Por falar na obra de 1969, o set list da montagem inglesa respeita integralmente a ordem das faixas disposta pela banda no álbum duplo, ignorando a sequência e as novidades levadas ao cinema. Gary Brown solta o gogó como o Tommy adulto e conquista qualquer plateia com seu carisma e potência vocal. Contudo, quem rouba a noite é Joanna Male, cantora oriunda da cidade de Liverpool, que se divide entre a mãe Nora e a cafetina cigana Acid Queen. Na apresentação realizada em Curitiba não foi diferente, por sinal. Programada inicialmente para dois atos, a ópera-rock foi executada sem intervalos no Teatro Guaíra, fazendo com que os 75 minutos das canções passassem voando.

E quem não foi apressadinho e saiu do local nos momentos finais da canção de encerramento do musical ainda ganhou um belo brinde. Banda e cantores se uniram no palco para um bis especial, formado por cinco outras composições do Who, todas lançadas nos anos subsequentes ao sucesso mundial de Tommy. Com direito a show de iluminação em laser e clássicos como “Won’t Get Fooled Again”, “Baba O ‘Riley” e “Behind Blue Eyes”.

A capital paranaense já assistiu às montagens de Tommy vindas dos dois lados do Oceano Atlântico. Agora só faltam os originais Daltrey e Townshend. Tomara que isto ainda seja possível ainda um dia.

Set List: “Overture”, “It’s a Boy”, “1951”, “Amazing Journey”, “Sparks”, “The Hawker”, “Christmas”, “Cousin Kevin”, “The Acid Queen”, “Underture”, “Do You Think It’s Alright?”, “Fiddle About”, “Pinball Wizard”, “There’s a Doctor”, “Go To The Mirror!”, “Tommy, Can You Hear Me?”, “Smash The Mirror”, “Sensation”, “Miracle Cure”, “Sally Simpson”, “I’m Free”, “Welcome”, “Tommy’s Holiday Camp” e “We’re Not Gonna Take It”. Bis: “Won’t Get Fooled Again”, “Baba O’Riley”, “Behind Blue Eyes”, “Who Are You” e “Join Together”.

Movies

Nós

Oito motivos para você não deixar de assistir nos cinemas ao novo longa com a assinatura do celebrado diretor e roteirista Jordan Peele

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Universal Pictures/Divulgação

Nós (Us, EUA, 2019 – Universal Pictures) acaba de estrear nas salas de projeção de todo país. Este é o segundo filme escrito e dirigido por Jordan Peele, sensação do cinema norte-americano, e tão surpreendente e criativo quanto o anterior, Corra!. Eis oito motivos para você não deixar de sair de casa para assistir a esta novidade.

Jordan Peele

Já faz umas boas décadas que novos diretores – muitos deles acumulando também a função de roteiristas de suas obas – têm trazido a Hollywood um frescor não só de ideias como também de assinaturas bem peculiares. E Peele, antes apenas um comediante de sucesso na TV a cabo, tornou-se também um dos cineastas mais festejados pela imprensa desde que Corra! chegou às grandes telas dois anos atrás. Agora, em seu tão esperado segundo filme, Jordan mostra que não só soube manter o elevado nível da estreia como também mostra ter fôlego para muito mais. Com uma cara autoral que pouco se vê em produções com orçamento de indústria mainstream, Nós é atrevidamente delicioso, misturando cultura pop com filmes B sem subjugar o espectador em momento algum e, ainda pelo contrário, oferecer a ele saídas da obviedade de costume dos cinemas de shopping centers. Tudo isso mantendo uma linha autoral claramente destacada, tangenciando autorreferências a detalhes do longa anterior e ainda oferecendo um caminho de evolução. Não à tôa ele foi o nome escolhido para comandar a futura nova temporada da série Além da Imaginação, um dos maiores nomes do audiovisual de ficção científica do Século XX.

Críticas mordazes

Jordan Peele vem do território do humor, mais precisamente do stand up. No cinema, enveredou pela trilha prioritária do terror, mas até agora não abriu mão de soltar críticas contundentes no decorrer de suas histórias. Foi assim em Corra! e é assim novamente em Nós. Seus protagonistas são negros, com problemas referentes aos negros e tendo os brancos como coadjuvantes perversos ou abobalhados da trama. Neste segundo filme, chega ao requinte de colocar toda uma família negra (dois adultos, duas crianças) em uma casa de veraneio de uma abastada praia californiana. Também dá destaque de sobra ao gênero feminino, fazendo sempre a mãe e a primogênita parecerem mil vezes mais inteligentes, perspicazes e interessantes que o pai e o caçula. As alfinetadas não ficam por aí em Nós e, do começo ao fim (literalmente!), alguns detalhes que preenchem a narrativa promovem o deleite do espectador mais atento a este tipo de observação sociocultural, que, desta vez, não poupa nem a tradição hippie criada pela contracultura norte-americana lá nos já longínquos anos 1960. Tudo isso sem falar na sutileza do título original, já que Us quer dizer “nós” português mas serve também como uma ligeira metáfora para a sigla de uns Estados Unidos (isto é, United States) nem tão unidos assim em seus objetivos sobretudo humanitários. É o “nós” do “eu” em primeiro lugar.

Duplo

Um motes de Nós é a existência do famigerado duplo. E mais do que isso: como ser humano é bem despreparado para agir quando se depara com ele. O que acontece na região da praia de Santa Cruz ilustra bem a situação. Primeiro é com a família Wilson, surpreendida por quatro modelos idênticos fisicamente, mas com atitudes, comportamentos e necessidades completamente diferentes. É a aparição deles que dá início a uma espécie de segundo ato, quando o terror sai da zona psicológica e parte para o deleite slasher. Só que a coisa fica melhor ainda quando mais duplos aparecem para começar a amarrar todas as pontas aparentemente soltas no filme. Contar mais sobre isso estragará o prazer da descoberta de quem não assistiu a Nós.

Prólogo

Mal o filme começa e o espectador já é bombardeado com dados aleatórios escritos na tela preta. Depois entra a primeira cena, também cheia de outras informações sendo exibidas por um canal de televisão lá no ano de 1986. Depois, a menina que assiste a tudo sai de casa e aparece com o pai no parque de diversões à beira da praia em Santa Cruz. Lá ela vai viver uma experiência da qual nunca mais vai se esquecer. Este é o prólogo de Nós, que tem conexão com todo o resto do filme, claro. O interessante é que, assim como fizera em Corra! ele vai marcando uma assinatura em seus filmes: a de antecipar dados importantes para o que virá em seguida sem, contudo, deixar claro o que é.

Lupita Nyong’o

Se existe um nome no elenco que, sozinha, já faz valer o ingresso do cinema esta é Lupita. Na pele de Adelaide, a esposa do fanfarrão Gabe (Winston Duke, astro de Pantera Negra), sempre zelosa com os filhos e aterrorizada pelos fantasmas do passado, ela já dá um show de interpretação. Quando aparece em cena na pele do duplo Red, então, arrebenta de vez mostrando toda a sua força tanto em expressões faciais quanto nos limites do uso de sua voz em timbres e ruídos indecifráveis.

Elizabeth Moss

OK que Lupita Nyong’o rouba o filme pra ela, mas há no elenco coadjuvante outra grande força da natureza dramática chamada Elizabeth Moss. Revelada ao estrelato pela série The Handmaid’s Tale, aqui ela é a esposa completamente sem noção da família nouveau riche branquela e amiga dos Wilson. Faz com maestria papel da típica lôraburra, que só enche seu tempo com coisas fúteis e se preocupando em mostrar o resultado de suas operações plásticas ou mostrar como já cresceram e estão belas as filhas adolescentes (interpretadas pelas mesmas gêmeas que, quando pequenas, dividiam o tempo em cena como a filhinha pequena dos personagens Rachel e Ross na série Friends).

Trilha sonora incidental

Produzida em conjunto por Jordan Peele e o compositor Micahel Abels, a trilha incidental de Nósfoi criada tendo como base o trabalho sonoro feito para o icônico filme de terror A Hora do Pesadelo. Algumas faixas são muito percussivas, para acentuar a dramaticidade de certas cenas e deixa-las ainda mais assustadoras. Vale lembrar que esta não é a primeira experiência conjunta deles. Abels fez também a trilha de Corra!, contribuindo da mesma forma para deixar a história ainda mais tensa. Por ter background erudito, Abels é capaz de fazer obras-primas como “Anthem”, a “música de abertura” do longa, com direito a vocais operísticos femininos em stacatto e melodia que gruda na hora na cabeça e nunca mais sai dela, mesmo quando você já se libertou de todos os duplos vistos na tela do cinema.

Trilha sonora pop

Imagine você ver um belo massacre de uma família, feito por assassinos cruéis e com sangue espirrando para tudo quanto é lado, ao som de “Good Vibrations”, dos Beach Boys. Pois é, só Jordan Peele para ter criatividade e ousadia suficiente para bancar isso em um filme feito para a grande indústria do cinema. E agora imagine esta cena tendo o hit supremo dos Beach Boys emendado, com extremo bom humor e maestria, com a sempre contundente “Fuck The Police”, do grupo de rap NWA. Esta é apenas uma das cenas que nunca mais vão sair da sua memória depois de ver Nós. A parte pop apresenta ainda mais duas cantoras bastante representativas da black music do presente e do passado (Janelle Monáe e Minnie Riperton, respectivamente). E também refaz o rap “I Got 5 On It!”, música cuja discussão no carro a respeito de sua letra também é outro pico de bom humor no roteiro.

Music

Garotos Podres + Sick Sick Sinners – ao vivo

Noite do Psycho Carnival também contou com as bandas João Cascaio, Wood Surfers, Red Lights Gang e a húngara Tom White and The Mad Circus

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Sick Sick Sinners

Texto por Guilherme Motta

Fotos: Priscilla Oliveira/CWB Live

Curitiba têm o carnaval mais rock’n’roll da América Latina. Graças ao Psycho Carnival, festival que reúne bandas de psychobilly, rockabilly, punk e outros estilos ligados à contracultura contemporânea do rock. O evento é realizado sempre no feriadão do carnaval. Geralmente são quatro ou cinco dias de muita música extrema. Confesso que não sou o maior dos fãs do gênero musical predominante do evento, o psychobilly, porém meu primeiro contato com o festival e o gênero musical foi há cerca de 16 anos, graças a minha mãe, que estava fazendo a cobertura do evento. Como eu era muito jovem, não pude acompanhá-la. No dia seguinte, ao acordar, ela imediatamente me deu o CD Rock’n’Roll is a Devil’s Music, autografado da banda alemã Chibuku, uma das principais atrações daquela edição do Psycho Carnival. Ali eu descobri o que era o psychobilly e às vezes escuto esse álbum. Até hoje. Inclusive agora, escrevendo esse texto.

Mas agora voltemos aos tempos atuais. Em 2019, na vigésima edição, foram quatro noites de puro barulho dançante no Jokers, estabelecimento que recebe o evento desde suas primeiras edições. E vamos falar especificamente da noite do dia 3 de março, quando se apresentaram as bandas João Cascaio, Wood Surfers, Tom White and The Mad Circus, Red Lights Gang, Sick Sick Sinners e Garotos Podres.

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Wood Surfers

A abertura da noite ficou por conta dos caras da banda João Cascaio e seu country folk à moda tradicional. Para quem curte um country music “de raiz” vale muito a pena ir atrás do trampo dos caras. O destaque é a utilização de diversos instrumentos não muito convencionais nas bandas do festival, como o lap steel e o banjo, que inclusive são tocados simultaneamente pelo guitarrista. Logo na sequência o palco foi do trio londrinense de surf music instrumental Wood Surfers. Na minha humilde opinião, foi a surpresa da noite. Lembrou muito uma banda curitibana chamada Maremotos, que costumava ouvir quando mais jovem. A banda faz um trabalho excelente mantendo a linha tênue entre a surf music clássica e o psicodelismo.

Depois chegou a vez de uma das atrações mais esperadas do festival, Tom White and The Mad Circus. Banda de origem húngara, que conta com um brasileiro no contrabaixo. O som é o clássico rockabilly. Muito enérgico. Realmente não dá pra assistir parado. Logo no início da apresentação já se formou uma imensa roda de dança no centro do salão. As músicas são executadas com extrema maestria por parte dos integrantes, o que resulta em uma experiência satisfatória vê-los ao vivo. A The Red Lights Gang subiu ao palco com a mesma energia. Com som influenciado por country, western swing e rockabilly, não deixou ninguém parado. No set list rolaram versões de clássicos de Siouxsie & The Banshees e Sonics. A banda desempenha um papel importante na cena paulistana. Vale conferir o álbum 13 desses caras.

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Tom White and The Mad Circus

A próxima atração era figurinha carimbada do festival, inclusive com a formação trazendo os organizadores do mesmo. O trio curitibano Sick Sick Sinners é sempre um dos nomes mais esperados de todos os anos. E com razão. Os caras chegam arregaçando tudo o que está pela frente. Já no primeiro instante em que Vlad Urban soa o primeiro acorde da guitarra começa um sinistro, violento e amoroso moshpit em todo o salão. No Jokers ninguém ficou de fora, nem mesmo nos camarotes. É realmente muito impressionante a energia que os caras passam ao vivo. Se você nunca viu os caras tocarem, vai por mim: tenta não perder a próxima oportunidade.

Fechando a terceira noite tivemos uma lenda viva do punk rock nacional. Depois de uma longa briga judicial, os Garotos Podres voltaram à ativa com o seu vocalista, único remanescente da formação original, Mao. Assim que as cortinas se abriram, um coro de absolutamente todas as pessoas que estão ali presentes ecoou pela casa. A música “Garoto Podre” Foi extasiante. O salão se dividia entre pogos, empurrões e muitos abraços. Difícil descrever o sentimento na hora. Entre hinos do punk e aulas de História, a madrugada foi seguindo com a extrema empolgação dos integrantes. A felicidade de voltar a fazer o que a banda sempre pregou era visível.  O set list da banda foi composto por todos os clássicos lançados nesses quase 40 anos fazendo punk. Ninguém deixou de cantar nada em nenhum momento, o que, à parte, foi um espetáculo e tanto.

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Garotos Podres

Obrigado, Garotos Podres, por proporcionarem uma das melhores noites de punk rock da minha vida. Obrigado, Vlad e toda a organização do Psycho Carnival, por nos dar a oportunidade de vermos algumas das bandas das quais gostamos tanto.

Music

Noel Gallagher

Oito motivos para não perder o novo show do ex-guitarrista do Oasis com sua atual banda High Flying Birds

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Texto: Abonico R. Smith

Foto: Divulgação

Nesta semana o ex-guitarrista e principal compositor das músicas gravada pelo Oasis Noel Gallagher está de volta ao país para três shows de sua carreira solo. Sempre acompanhado pela banda de apoio High Flying Birds, montada por ele depois da briga com o irmão Liam que culminou na dissolução do grupo formado na cidade inglesa de Manchester que se tornou um dos estandartes do britpop nos anos 1990, Noel vem com a turnê de seu mais recente disco, Who Built The Moon?, lançado em 2017 e considerado o melhor de sua carreira pós-Oasis. Serão três shows. Nos dias 7 (quarta) e 8 (quinta) de novembro, ele se junta aos americanos do Foster The People no line updo Summer Break Festival, em Curitiba e São Paulo (mais informações aqui e aqui, respectivamente). No dia 10 (sábado), ele se apresenta em Belo Horizonte (mais informações aqui).

O Mondo Bacana lista abaixo oito motivos para você não deixar de ver o seu show em uma destas datas.

Trabalhador incansável

Noel Gallagher fez fama com o Oasis e sempre se mostrou bem longe de deitar na cama e viver dos louros do passado. Pelo contrário. De 2012 para cá já são três álbuns em sua carreira solo (disfarçada pelo codinome de Noel Gallagher’s High Flying Birds) e com previsão de entrar em estúdio em janeiro de 2019 para gravar o seu quarto e próximo trabalho, cuja sonoridade o próprio descreve como algo próximo de encontro entre o Cure e o Police. Com isso, pode estabelecer uma proporção no set list dos seus shows: apenas um terço costumam ser músicas compostas para a antiga banda, na qual seu irmão e ainda desafeto Liam cantava.

Who Built The Moon?

Lançado em 2017, apenas dois anos após o antecessor Chasing Yesterday, Who Built The Moon? surpreendeu por apresentar um Noel quase completamente desconstruído. Aqui ele apresenta um repertório bombástico, com forte presença de elementos até então não muito presentes em sua obra como o psicodelismo, o soul, o folk, o country e o glam. “If Love Is The Law” (com Johnny Marr na guitarra), “She Taught Me How To Fly”, “Holy Mountain” (com Paul Weller tocando órgão) e “Keep On Reaching” são petardos que, quando tocados ao vivo, são capazes de crescer ainda mais e engolir um grande público. Entre seis e oito faixas deste disco costumam integrar o repertório de cada apresentação da atual turnê.

Noel Gallagher’s High Flying Birds

Dois anos após a briga com Liam que pôs fim à trajetória do Oasis, Noel veio com seu primeiro álbum solo oficial, gravado em estúdio e com o nome também creditado à sua banda de apoio. Ainda com um pezinho e meio no estilo de compor um tanto classic rock expertque sempre apresentou antes, ele entrega mais um punhado de belos hits daqueles de erguer uma rena inteira e fazer todo mundo cantar junto a plenos pulmões e com os punhos erguidos sobre a cabeça. Tanto que “AKA… What a Life!”, “Dream On” e “The Death Of You And Me” são presenças indispensáveis em qualquer set list de show do músico até hoje.

Banda de apoio

Sabe quem está tocando atualmente na formação dos High Flying Birds? Gem Archer e Chris Sharrock. O primeiro, guitarrista, fez parte do Oasis entre 1999 e 2009. O segundo, baterista, foi recrutado para a ultima turnê da banda. Gem e Chris, por sinal, integraram o Beady Eye junto com Liam logo após o fim das atividades do Oasis. Tem também o baixista Russell Pritchard, que era do Zutons, banda de Liverpool que fez sucesso em meados da década passada juntando indie, pós-punk, blues, funk e soul. “Valerie” foi composta e gravada por eles antes de se tornar hit mundial na gravação de Amy Winehouse com o produtor Mark Ronson. Mike Rowe, experiente tecladista e produtor de estúdio, também se soma ao grupo ao vivo.  Jessica Greenfield e Charlotte Marionneau (cantora e compositora francesa mais conhecida pela alcunha de Le Volume Courbe) completam o time nos backings, teclados adicionais e pequenas percussões.

Hora da nostalgia

Claro que em todo show de Noel Gallagher até o fim da sua vida ele vai ter de cantar “Wonderwall”, o maior de todos hits perpetrados pelo Oasis quando a banda alcançou o topo das paradas norte-americanas. Para alguns, é até melhor ouvi-lo cantar do que Liam, em relação ao vocal monocórdico e arrastado do irmão mais novo, que muitas vezes fica ainda pior ao vivo. Mas um terço do set list da atual turnê de Noel é dedicado à sua antiga banda, para a alegria dos fãs mais antigos e daqueles mais movidos pela nostalgia.  “Whatever”, “Little By Little”, “Supersonic”, “Half The World Away”, “Go Let It Out” e, claro, “Don’t Look Back In Anger” (gravada pelo Oasis com o vocal principal de Noel) costumam pintar no repertório.

All You Need Is Love

Composta por John Lennon mas creditada também a Paul McCartney e lançada como single em julho de 1967, esta música permanece atual mesmo já tendo passado meio século de sua primeira execução. Na época, Lennon captava o espírito da época e os utópicos sentimentos daquele que ficou conhecido como o verão do amor. Por isso, a canção tornou-se uma grande hino da contracultura e de toda a sua filosofia flower power. Noel vem tocando o clássico dos Beatles em sua turnê. O mundo precisa relembrar que o amor deve estar acima de tudo e de todos e que vence qualquer dificuldade e batalha. Ainda mais nos dias atuais de nosso país.

Bigmouth strikes again

Morrissey é um grande amigo seu e parece que o título de uma das músicas mais conhecidas dele nos tempos de Smiths cai como uma luva para o comportamento de Noel durante as entrevistas que dá desde os primórdios do Oasis. O mais velho dos irmãos Gallagher sempre foi um grande bocudo. Não pensa duas vezes antes de fazer alguma tirada ou xingamento que reflita um pouco de petulância, cinismo, niilismo e, claro, aquele excelente humor que vem do mau humor. No auge do britpop, em 1995, quando Blur e Oasis “duelaram” via imprensa para ver qual disco que seria lançado na mesma data chegaria em primeiro lugar nas paradas britânicas, ele chegou a soltar “que morram todos de aids” – coice pior e mais politicamente incorreto impossível, aliás. Quando perguntado sobre novas bandas e artistas que admira, Noel sempre diz que prefere ficar em casa com seus discos e livros e que eles são muito melhores do que qualquer novidade musical. Para a imprensa argentina, esses dias, fez um balanço dos dez primeiros anos sem o Oasis e garantiu estar “muito melhor, inclusive no visual”. E por aí vai…

Manchester

O que será que tem na água desta cidade industrial situada no noroeste da Inglaterra que de lá, desde os primórdios do pós-punk, sai tanta banda boa? Só para citar 30 exemplos no terreno do indie: Magazine, Fall, A Certan Ratio, Joy Division, New Order, Durutti Column, Smiths, 808 State, Bodines, Stone Roses, Happy Mondays, Electronic, Oasis, Chemical Brothers, Future Sound Of London (aka Amorphous Androgynous), Mint Royale, Badly Drown Boy, Courteneers, Doves, Delphic, WU LYF, Longcut, Lamb, Slow Readers Club, Hurts, Nine Black Alps, I Am Kloot, Everything Everything, 1975, Pale Waves. Quer mais? No pop dos anos 1960 tivemos Herman’s Hermits, Mindbenders e Hollies. No progressivo do final da mesma década, o Van Der Graaf Generator. Entre os anos 1980 e 1990, tivemos M People, Simply Red, Take That e Swing Out Sister.