Music

Sisters Of Mercy – ao vivo

Andrew Eldritch e sua banda vivem de um passado cada vez mais distante mas os fãs nem ligam para a ausência de qualquer novidade

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Textos de Abonico Smith e Fábio Soares

Fotos: Abonico Smith

A discografia do Sisters Of Mercy é extremamente curta. Primeiro foram lançados dois EPs entre 1983 e 1984. Depois vieram três álbuns entre 1985 e 1990. Nos anos seguintes alguns singles e, enfim, duas coletâneas em 1992 e 1993. Depois mais nada. Neca de pitibiriba. O modelo de negócios do mercado da música mudou do vinil ao compact disc e depois à compressão digital do MP3 e nada de Andrew Eldritch se animar em compor algo novo.

Em 2016, um pouco antes da banda desembarcar pela primeira vez em Curitiba para uma apresentação, ele me disse por telefone que se sentia confortável com essa questão. Não havia planos de lançar material inédito. Três anos se passaram e o Sisters Of Mercy veio de novo à capital paranaense como uma das escalas de nova turnê pela América do Sul. E tudo continua da mesma maneira, com o repertório ao vivo passeando pelos dez anos fonográficos por uma hora e meia de show.

O que muda de tempos em tempos são os integrantes que o acompanham. Agora, na mesma Ópera de Arame, Eldritch trocou um dos guitarristas – o australiano Dylan Smith faz dobradinha com o veterano Ben Christo nas seis cordas. Um cara fica mais recuado comandando os computadores que detonam as bases pré-gravadas de baixo e bateria e lá atrás da plateia, junto ao operador das mesas de som e luz, um quinto músico incógnito se divide entre mais um computador e um teclado de cor laranja (?!?!) e de pendurar nos ombros que parece ter saído da uma típica banda tecnopop dos anos 1980.

Como já faz quase três décadas que Eldritch não faz a mínima questão de desovar material inédito do Sisters Of Mercy, todo o repertório é calcado em cima de velhos conhecidos do público. Não chegam a ser exatamente hits, mas para os fãs cada música que compõe o set list é um clássico. Recebido com urros, cantado em uníssono a plenos pulmões. A voz de Eldritch é bem grave. Não há backings, apenas o acompanhamento de todos os versos pela plateia. As guitarras de Ben e Dylan somente tecem camadas e mais camadas de riffs e harmonias que se somam ao peso dançante da cozinha que já vêm alto e direto dos computadores.

Com os músicos todos de preto e fazendo jogos coreográficos que aproveitavam-se da penumbra como o único elemento cênico, o som que o Sisters Of Mercy despejou na Ópera de Arame foi o convite perfeito para uma festa na antessala das trevas, com uma pista de dança exorcizando em passos lentos todas as suas angústias, melancolias e (por que não?) desejos ardentes e flamejantes.

O que, naquela noite em especial, tornou-se algo ainda mais curioso porque exatamente do lado da Ópera, na Pedreira Paulo Leminski, acontecia um evento cristão. Mais precisamente um concerto de canções de louvor e adoração sob o comando do grupo Hillsong United, formado há duas décadas pela união dos ministérios de uma gigantesca congregação carismática australiana chamada Hillsong. Enquanto a luz estava ali pertinho, Andrew Eldritch fazia nas sombras uma nova celebração gótica tão aguardada havia três anos. Para almas aflitas e torturadas não era preciso ter qualquer ineditismo. Vampiros, afinal, vivem por séculos e séculos e não fazem lá muita questão de novidades. (ARS)

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O que esperar de um show do Sisters Of Mercy em 2019? Quanto a você, eu não sei. Mas para mim um mínimo de dignidade a este expoente do dark não seria de todo mal. E foi com este ceticismo que me dirigi ao Tom Brasil no último sábado (9 de novembro). A plateia “quarentona” – como era de se esperar – não lotou o espaço por completo. Também é inexato rotular os fãs do Mercy com a simples alcunha de “gótico”. São seguidores fiéis. Um exército vestido de preto que acompanhará a banda tantas vezes ela pisar por aqui.

Calcado na onipresente figura de seu decano Andrew Eldritch, o grupo retornou a São Paulo com uma econômica formação com o eterno escudeiro Ben Christo e o novo guitarrista Dylan Smith. Para os efeitos de baixo e bateria, esqueça a seminal aura da Doktor Avalanche, histórica drum machine imortalizada pela banda nos anos 1980. O Sisters Of Mercy versão 2019 conta com um par de iBooks operados por um anônimo quarto integrante e que nem de longe faz lembrar o peso da engenhoca sisteriana.

“More” abriu os trabalhos na noite paulistana e o etéreo clima de um show dos Mercy mostrou que permanece com o passar dos anos: muita fumaça, iluminação à contraluz e Eldrich fazendo seu peculiar jogo de gato e rato com a plateia. Surge no centro do palco e desaparece. Ressurge no lado direito para novamente sumir em meio à fumaça no lado esquerdo. A dupla de guitarristas também procura preencher o resto como dá. Porém a proposital falta de iluminação do palco que deveria evidenciar a voz do frontman ressalta o óbvio. Com 60 anos de idade recém-completados, Eldritch tem extrema dificuldade em sustentar os tons graves de voz que os clássicos da banda exigem. Dificuldade esta explicitada em “Doctor Jeep/Detonation Boulevard”, na maravilhosa (no disco!) “Dominion” e na quase constrangedora interpretação de “Marian”. O público pouco importou-se para tal e tratou de reverenciar a figura do pai do dark enquanto pôde. Porém, a falta de punch nas programações de baixo e bateria trouxe um ar taciturno a cada canção. Uma chatíssima execução instrumental beirando os sete minutos e de nome desconhecido marcou a reta final da primeira parte da apresentação.

Parafraseando Mauro César Pereira, comentarista dos canais ESPN, o bis teve um início pífio, pragmático e resultadista com “Lucretia My Reflection” sendo executada sem a sua histórica linha de baixo. É isso mesmo o que você está lendo. “Lucretia My Reflection” sem a sua indefectível linha de baixo é o mesmo que Buchecha sem Claudinho. E cá estava eu a xingar três gerações antepassadas da Família Eldritch quando o par de ases final salvou a apresentação de um naufrágio histórico. “Temple Of Love” e “This Corrosion” foram executadas como se deve: com peso, batidas marciais e atmosfera de catarse coletiva. Ao final de noventa minutos, houve quem saiu de alma lavada, houve quem achou mais ou menos e teve este aqui que vos escreve. No fim das contas, esta apresentação só serviu mesmo para eu dizer que, um dia, vi um show dos Sisters of Mercy. Nada mais, nada menos… (FS)

Set list (SP e Curitiba): “More”, “Ribbons”, “Crash And Burn”, “Doctor Jeep/Detonation Boulevard”, “No Time To Cry”, “Alice”, “Show Me”, “Dominion/Mother Russia”, “Marian”, “Better Reptile”, “First And Last And Always”, (Unknown), “Something Fast”, “I Was Wrong”, “Flood II”. Bis: “Lucretia My Refletion”, “Vision Thing”, “Temple Of Love” e “This Corrosion”.

Music

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes – ao vivo

“Alienígenas” incendeiam noite fria e chuvosa com performance arrebatadora em noite de lançamento do novo disco

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Texto e foto por Fábio Soares

A sexta-feira do dia 6 de setembro anoiteceu fria, chuvosa e carrancuda em São Paulo. Atmosférico convite para permanecer em nossos lares maratonando séries, ficar debaixo de edredons ou simplesmente hibernar até o dia seguinte. Na zona oeste da capital, porém, um “interplanetário” evento ocorria no lendário palco da choperia do Sesc Pompeia. Com uma tríade de lançamentos no currículo, a trupe cearense Jonnata Doll & Os Garotos Solventes promovia o lançamento de seu novo álbum de estúdio, chamado Alienígena. Com recém-completados dez anos de estrada, os Solventes encararam a temporada de 2019 como uma final de campeonato. Alienígena é o disco de afirmação do grupo, carregando a missão de elevar seu patamar de promessa alternativa para um dos grandes nomes da atual cena do rock brasileiro.

Às 21h30, os Solventes surgiram ao palco em vestimentas brancas contrastantes com o “tom de boate” do ambiente. Edson Van Gogh (guitarra), Léo BreedLove (guitarras e teclados), Felipe Popcorn Maia (bateria), Joaquim Loiro Sujo (baixo) e Jonnata Araújo (vocais) tinham a companhia da cantora sergipana Marcelle nos hacking vocals e iniciaram a apresentação com “Filtra Me”, poderoso stoner rock de letra urgente (“Sou um ruído que sempre sujou a imagem crua que você nunca mostrou”). “Edifício Joelma”, por sua vez, não é apenas uma singular descrição do lendário prédio consumido por uma tragédia incendiária em 1974. É uma crônica musicada sobre este mesmo centro de São Paulo com suas idiossincrasias.

Já “Baby”, confirma ao vivo o que já se ouviu em disco. Esta é séria candidata a faixa do ano. Flerta com o iê-iê-iê, narrando os perrengues de um jovem casal que decide morar junto na selva de pedra. Perrengues estes que são explicitados em “TRABALHO TRABALHO TRABALHO”. Carro-chefe de Alienígena e grafada integralmente em maiúsculas, a canção (que já possui um clipe) narra a rotina de um sujeito à beira de um colapso nervoso com transporte público lotado, salário baixo e falta de reconhecimento no emprego. Sua execução tão caótica quanto (no bom sentido da palavra!) contou com o trompetista Guilherme Guizado, que também participou da canção seguinte, “Vale do Anhangabaú”, mais uma das inúmeras faixas que tem o centro paulistano como cenário.

“Crocodilo”, do homônimo álbum lançado em 2016, foi um dos pontos altos da apresentação. É justamente nela que o grupo usa seu “supertrunfo” com maestria: a performance de Jonnata Araújo. Incansável no palco, o vocalista incorporou o personagem insano que tantas vezes habitou o imaginário de fãs de Iggy Pop e Lux Interior. Dando um bico nos fundilhos do convencional, desceu à plateia seminu, subiu nas mesas, beijou bocas masculinas e ofereceu seu microfone aos presentes num improvável karaokê em versão pocket. Após quase oito minutos de “insanidade”, até parecia que o vocalista sairia dali direto para a UTI mais próxima. Só que o show tinha de continuar.

Clemente Nascimento (Inocentes, Plebe Rude) deu o ar de sua graça em “Volume Morto” e “Matou a Mãe”. Esta última, um arrasa-quarteirão de dois minutos beirando o hardcore, foi a responsável por rodas de pogo na plateia. Estas mantiveram a atmosfera elevada para a derradeira “Cheira Cola”, mais uma canção de Crocodilo. Punk rock em estado bruto que chacoalhou as estruturas da choperia.

A banda não retornou para o bis e nem era preciso. O recado de Alienígena já havia sido muito bem passado. Os Solventes falam grosso e reivindicam, com razão, um lugar de destaque em festivais Brasil afora. Muito cedo para dizer que explodirão em breve? Não. Após quatro discos (um é ao vivo), o caminho está muito bem pavimentado tanto por terra quanto pelo ar. Afinal, alienígenas voam. Melhor: teletransportam-se.

Set list: “Filtra Me”, “Edifício Joelma”, “Baby”, “TRABALHO TRABALHO TRABALHO”, “Vale do Anhangabaú”,  “Derby Azul”, “Vai-Vai”, “Música de Caps”, “Pássaro Azul”, “Crocodilo”, “Volume Morto”, “Matou a Mãe” e “Cheira Cola”.

Movies

X-Men: Fênix Negra

Longa-metragem que encerra o universo cinematográfico de duas décadas da franquia traz falhas e decepção

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Texto por Leonardo Andreiko

Foto: Fox/Divulgação

Que o universo cinematográfico dos X-Men é confuso isso não é novidade para ninguém. Filme após filme, mais e mais discrepâncias temporais recheiam a narrativa do supergrupo. É conveniente ignorá-las, para melhor apreciar os filmes. Dito isso, X-Men: Fênix Negra (X-Men: Dark Phoenix, EUA, 2019 – Fox) é o último longa situado nesse universo, já que a Fox e a Marvel estão agora sob o mesmo teto, o da Disney. Como encerrar, então, uma saga, mesmo que não das melhores, de dezenove anos?

Fênix Negra não se preocupa com isso. Seus primeiros atos são extremamente similares aos de X-Men: Confronto Final (a história em quadrinhos que origina ambos os filmes é a mesma), o que torna sua narrativa um pouco cansativa. Resta ao final do segundo ato e, por consequência, ao terceiro a difícil tarefa de trazer inovação às telas. Mas, infelizmente, o sentimento de “mais do mesmo” permanece – referente ao gênero, não ao longa-metragem de 2006.

Este não é, ainda, o principal problema do roteiro. Toda fala é artificial, parte pela entrega do elenco mas principalmente por repetir jargões do cinema comercial. Além disso, diversos diálogos e monólogos poderiam ser substituídos com uma direção atenciosa e engajada – o que não parece ocorrer. Simon Kinberg parece mais cansado dos mutantes que o público, realizando uma direção que não foge do convencional. Nivelando a compreensão de seu público por baixo, o roteirista e produtor, agora elevado à categoria de diretor, insiste em repetir a estética (que falhara muitas vezes) da nova geração de filmes, transformando uma das mais aclamadas sagas de quadrinhos da Marvel em um dispensável filme da franquia, fortemente dependente de seu elenco.

Isso representa mais uma baixa significativa no filme. Jennifer Lawrence performa uma boa Raven, consistente com sua construção anterior da personagem, mas diminuída pelo roteiro. Jessica Chastain faz uma das vilãs, porém caricata e completamente unidimensional. Talvez algumas aulas com Isaac Hempstead, o Bran de Game of Thrones, possam ensiná-la uma convincente cara de pôquer. O trio inglês Michael Fassbender, Nicholas Hoult e James McAvoy (com ênfase nos dois primeiros) desenvolve novamente seus calejados personagens, mesmo que o roteiro pouco contribua para seus arcos. Já Sophie Turner, que interpreta Jean Grey, a protagonista do longa, deixa a desejar. Mal dirigida, Turner (que também atuou em Game Of Thrones) faz a maioria dos diálogos com pouca mudança em seu tom, sempre com a mesma expressão. O maior erro, no entanto, foi o desenvolvimento falho de sua personagem – algo inerente ao filme, pelo visto.

Ainda assim, com a consciência de que X-Men: Fênix Negra não se propõe a ser nada além de um costumeiro filme de herói, não se pode esperar muito de seu desenvolvimento de personagens e trama. Dos efeitos especiais, no entanto, não podemos falar a mesma coisa. Este é um incômodo grande no filme – a qualidade do CGI, sua estética e verossimilhança, oscila demais. Em algumas cenas, os efeitos são state of the art, embora algumas sequências apresentem planos dignos do início do século. Ainda pior, talvez, é a insensibilidade da direção de elenco, já que muitas “poses” dos mutantes (em especial Magneto e Jean) são absurdamente falsas. Além disso, a criação do universo beira a excelência. Uniformes, objetos de cena e locações harmonizam a referência ao passado da saga com a inovação do próprio lançamento.

Por fim, é preciso mencionar que a montagem também oscila – inclusive dentro de uma mesma cena. A mais memorável cena de ação do filme, um embate cuja trama é spoiler puro, inicia de maneira bagunçada, mas termina primorosamente. Esta característica da montagem coaduna com a edição de som, embora a trilha sonora seja completamente dispensável.

Desta forma, X-Men: Fênix Negra não mantém a decrescente estipulada por X-Men: Apocalipse, mas não subverte quaisquer possíveis expectativas baseadas em seu predecessor. Com o elenco aquém do esperado, o filme oferece um encerramento modesto para a saga. Com seu atestado de óbito assinado antes mesmo de seu lançamento, o último filme dos X-Men fora do MCU decepciona.

Music

A Place To Bury Strangers – ao vivo

A sonoridade dos últimos momentos antes da morte devem ser assim como a banda de Oliver Ackermann e Dion Lunadon

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Texto e foto por Fábio Soares

Sempre tive curiosidade (que muitos, gratuitamente, rotulariam como “mórbida”) em saber o que se passa na mente de um indivíduo momentos antes de sua morte. Já li diversas teorias a respeito: flashback de instantes felizes ao lado da família, admiráveis feitos individuais (completar uma maratona ou ter escalado uma montanha, por exemplo), a primeira transa, a hora do “sim” numa cerimônia de casamento…

Mas por que será que ninguém se ateve a estender esta curiosidade para quais sons um morimbundo levaria para eternidade num momento final? Quando Joey Ramone morreu de câncer em 15 de Abril de 2001, noticiou-se que no exato instante de sua morte, a canção do U2 “In A Little While” (do álbum All That You Can’t Leave Behind, de 2000) foi a trilha sonora de sua passagem. Em vez da suavidade da canção de Bono e sua turma, ainda acho que os átomos de minutos pré-morte são caóticos, perturbadores e inquietantes, como toda grave mudança de plano sugere. Traçando o devido paralelo, portanto, o som da banda A Place To Bury Strangers, vem a calhar: noise rock elevado ao limite de sua extremidade, fruto dos cérebros nervosos de Oliver Ackermann e Dion Lunadon traziam a expectativa de hecatombe nuclear muito antes de sua chegada a São Paulo. Sabia-se que os shows do grupo beiravam a exaustão sonora, fato este que comprovou-se no último 8 de maio, quando após executarem uma única canção no show extra agendado para a data, a parte elétrica da Sala Adoniran Barbosa, no Centro Cultural São Paulo não aguentou o tranco e pediu água, forçando a banda a se apresentar em duas sessões no dia seguinte.

Quem assistiu a estas duas sessões na sequência deve estar, neste momento, seguindo instruções de otorrinolaringologistas após o caos sonoro presenciado. A parte visual do espetáculo restringia-se à fumaça artificial que propositalmente preenche o espaço, deixando a plateia às cegas. A partir daí, um caminhão de distorções, efeitos de guitarras, batidas marciais e inexplicáveis camadas sonoras bombardearam o público num volume altíssimo. A sensação era de se estar em meio a uma catástrofe sem nenhuma saída para escapatória. A banda também demonstrava não ter qualquer apreço a seus bens materiais. Por mais de uma vez, Ackermann e Lunadon arremessam seus instrumentos ao ar que, agonizantes, chocaram-se ao solo para novamente serem empunhados e acionados como instrumentos de uma tortura da qual ninguém reclamava. Muito pelo contrário, aliás.

Ao fim da apresentação, uma agoniante nuvem sonora de microfonias permanecia no ambiente a enlouquecer os presentes. É extremamente difícil e inexato definir o show do A Place The Burn Strangers numa única palavra. Uma ópera da agonia que retorce os sentidos e nos entrega a um mundo de possibilidades. A trilha sonora do fim. Se a morte é precedida de uma barulheira dessas, o que vem depois só pode ser a tranquilidade de uma eternidade perene.

Seguindo essa linha se raciocínio, o show do APTBS pode ser rotulado como purgatório? Sim, por que não? Topamos!

Set List primeiro show: “Alone”, “You Are The One”, “Mind Control”, “Worship”, “Fear”, “Dissolved”, “Why I Can’t Cry Anymore”, “Revenge”, “And I’m Up”, “Slide” e “Leaving Tomorrow”.

Set List segundo show: “Ego Death”, “We’ve Come So Far”, “So Far Away”, “Deadbeat”, “Drill It Up”, “There’s Only One Of Us”, “Exploding Head”, “Fill The Void”, “Machine Jam #1”, “Never Coming Back”, “Keep Slipping Away”, “I Lived My Life To Stand In The Shadow Of Your Heart” e “Ocean”.

Music

Ride + Wild Nothing – ao vivo

Quarteto britânico mostrou a força do shoegaze em um Balaclava Fest que também teve o coletivo de influências eighties

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Mark Gardener (Ride)

Texto por Fábio Soares

Fotos de Fábio Soares (Ride) e Fabricio Vianna/Balaclava/Divulgação (Wild Nothing)

Há quem reclame da Balaclava mas, sinceramente, não entendo o porquê. A produtora já trouxe a São Paulo nomes como Swervedriver, Slowdive, Deerhunter e o Mercury Rev com a turnê comemorativa de 20 anos do seminal Deserter’s Songs. Ainda procura, à sua maneira, manter a periodicidade de um festival por semestre desde a primeira edição, realizada em 2015 e que trouxe Mac McCaughan, líder do Superchunk. E, aparentemente, atinge seu ápice na edição do primeiro semestre de 2019. Quando anunciou o line up, em fevereiro, um verdadeiro pandemônio virtual tomou conta das redes sociais com o anúncio do Ride como atração principal. Vinte e nove anos após o lançamento de uma das bíblias do shoegaze (o para sempre clássico Nowhere) uma vinda do quarteto de Oxford sempre pareceu um sonho distante de ser alcançado por toda uma geração indie que, se já não passou dos 40 há algum tempo (meu caso), beira essa marca.

Antes da apresentação do quarteto, o palco principal recebeu o Wild Nothing, projeto norte-americano criado e liderado por Jack Tatum, um declarado fã de música oitentsta que escancarou suas influências em seu debut, o álbum Gemini (2010), e as consolidou em Indigo (2018). Tatum, porém, nunca teve pudor em manter uma banda fixa e o rodízio de integrantes quase chega a ser uma regra neste projeto que completa dez anos em 2019. Ladeado por Nathan Goodman (guitarra), Jeff Haley (baixo), Matt Kallman (teclados) e Elroy Finn (bateria), comanda uma apresentação que tem tudo para decolar mas que aqui pecou pela irregularidade. Se por um lado momentos memoráveis foram registrados (como nas execuções de “Live In Dreams”, “Shalow Water”e “Summer Holiday”), em outros o que imperou foi a sonolência como em “Paradise” e na chatíssima “Whenever I”. Resumindo, foi pouco mais de uma hora “nota 5” mas confesso que ainda gostaria de ver Jack Tatum por aqui e com um set list melhor. O Wild Nothing, afinal, é um daqueles casos que não devemos desistir por completo.

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Jack Tatum (Wild Nothing)

Mas vamos ao que interessa porque a ansiedade dos indies quarentões já estava a mil naquela noite de 27 de abril a Audio. O clima na pista era de torcida organizada à espera de seu clube do coração. Finalmente, um pouco depois das 23h, as molas motrizes Andy Bell e Mark Gardener pisaram no gramado, acompanhados pelos costumazes Laurence Colbert (bateria) e Steve Queralt (baixo). O frisson regado a êxtase estava armado e a peleja começou com os primeiros acordes de “Future Love”, single lançado menos de uma semana antes do show na capital paulista e que fará parte do novo álbum do quarteto, This Is Not a Safe Place, a ser lançado em agosto. Como era de se esperar, uma má equalização do som fez com que os simultâneos vocais de Bell e Gardener se embolassem. Já na segunda faixa, “Lannoy Point”, o quase inaudível vocal de Gardener me causou irritação. Também confesso que esta não é das minhas faixas preferidas da banda mas faltava algo. Faltava o punch. E ele veio na terceira canção.

“Seagull”, primeira faixa de Nowhere a ser executada, é daqueles arrasa-quarteirões dignos de levantar estádio. As distorções de ambas as guitarras estremeceram o teto. Um momento sublime que serviu de pano de fundo para o primero momento “olhos marejados” da noite: a marcial introdução de “Dreams Burn Down” fez o trem do túnel do tempo começar a rodar. Estava tudo ali: o clima dream pop, o solo de Bell, os sussurrados vocais de Gardener, a sobreposição de camadas. O gigante shoegaze, finalmente materializado na minha frente! ERA O RIDE, ENFIM! E a partir daí, nenhum problema técnico estragaria aquela noite.

O trem desgovernado não parou por aí e o indefectível riff de baixo nos dois iniciais segundos de “Twisterella” (o eterno clássico do álbum Going Blank Again) foi a brecha que o sistema indie da terceira idade queria. Vi uma pista inteira dançar com as mãos pro alto com semblantes emocionados. Emoção essa que prosseguiu com “Chrome Waves” (do mesmo disco) e finalmente os vocais sobrepostos da dupla Bell-Gardener fizeram-se audíveis. Os três insanos minutos de “Taste” também ficarão registrados na memória. Uma das mais assobiáveis melodias dos anos 1990 fez com que a plateia não se fizesse de rogada e cantasse em uníssimo os versos “But what’s right or wrong?/ I don’t know/ I don’t know/ The taste just slips away”. Sublime demais! Lindo demais! Corações disparados continuaram assim com a canção seguinte. A introdução de “Vapour Trail” tornou-se o bilhete de embarque para um automático teletransporte. Das madrugadas em frente à tevê assitindo ao Lado B da MTV Brasil. Dos cassetes gravados com muito esforço e gastos sem dó em walkmen surrados. Sem levantar bandeira de saudosismo mas, nesse caso, valeu.

No palco, o Ride sabe que carrega consigo a bandeira shoegaze de toda uma geração. Porém, parece relaxar diante disso. Gardener e Bell sabem que já estão beirando cinco décadas de vida e que certas rusgas devem ser postas de lado em nome de um bem comum. E foi com a fúria de “Kill Switch” que a banda encerrou a primeira parte da apresentação, que passou voando. No bis, a banda novamente revisitou Going Blank Again com os oito hipnotizantes minutos de “Leave Them All Behind”. Desta vez, olhos fixos no palco para apreciar a dinâmica do quarteto: movimentos econômicos, riffs poderosos, microfonia nas alturas. Ninguém reclamaria se contraísse alguma microlesão auditiva, até porque “Polar Bear” veio a seguir com excelente performance de Laurence Colbert à bateria, capitaneando a viagem sonora que já anunciava seu fim. “Chelsea Girl” fez todo mundo pular. Foi como se a a banda dissesse “Bem-vindos aos anos 1990 e até a próxima”. Ritmo acelerado para encerrar a noite.

Por fim, lágrimas na pista. Amigos se abraçavam e se dirigiam à saída. Permaneci no local por mais alguns minutos, na esperança de encontrar alguém quando o inacreditável se fez presente: Gardener voltou ao palco empunhando sua guitarra, seguido por Bell, Colbalt e Steve Queralt. É isso mesmo: um segundo bis seria executado e como eu estava na pista quase esvaziada, corri para a grade. “Catch You Dreaming” fez as honras para um desfecho memorável que viria com a maravilhosa “Like a Daydream”, com todas as suas pinceladas noventistas. Agora sim, estava na hora de ir para casa, ainda atordoado com o que acabara de assistir. Esta foi daquelas noites que guardaremos para sempre e com muito carinho e com um sentimento de pena para aqueles que rotulam o shoegaze como “subgênero”. Azar o deles. Seguiremos por aqui, às portas da velhice mas com ânimo ainda para melodias assobiáveis, guitarras distorcidas e microfonias à enésima potência. The taste just slips away.

Set List Wild Nothing: “Nocturne”, “Wheel Of Misfortune”, “Golden Haze”, “Flawed Translation”, “Live In Dreams”, “Partners In Motion”, “Bend”, “Summer Holiday”, “Whenever I”, “Shallow Water”, “Canyon On Fire”, “Paradise”, “Letting Go”, “Chinatown”, “A Dancing Shell” e “Shadow”.

Set List Ride: “Future Love”, “Lannoy Point”, “Seagull”, “Dreams Burn Down”, “Twisterella”, “Charm Assault”, “In A Different Place”, “Chroma Waves”, “Taste”, “Vapour Trail”, “Drive Blind” e “Kill Switch”. Bis 1: “Leave Them All Behind”, “Polar Bear” e “Chelsea Girl”. Bis 2: “Catch You Dreaming” e “Like a Daydream”.