Music

Aurora

Oito motivos para você não perder a passagem da cantora por Curitiba em sua nova vinda ao Brasil

Aurora2019

Texto por Abonico R. Smith

Foto: Divulgação

Revelação do pop feminino dos últimos anos, Aurora está percorrendo várias cidades do país com sua banda. Ela já se apresentou em três cidades (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte) e nesta quarta, 22 de maio, passa por Curitiba (saiba mais informações sobre o show na Ópera de Arame clicando aqui). Conhecida por ter regravado a música folk tradicional “Scaborough Fair” especialmente para a faixa de abertura da novela Deus Salve o Rei, exibida no ano passado pela Rede Globo, a cantora e compositora de pele muito branca, cabelos naturalmente platinados e aquela clássica beleza nórdica não costuma incluir esta canção no repertório de suas apresentações ao vivo. Para quem ainda não a conhece além desta releitura, o Mondo Bacana apresenta oito motivos pelos quais você não pode perder de maneira nenhuma a sua passagem pela capital paranaense.

Noruega

A culpa é do A-ha. Não fosse o trio ter tomado a MTV e, de quebra, o planeta todo de assalto lá em 1985 com o megahit “Take On Me”, talvez a produção de artistas noruegueses dos segmentos pop e rock não tivesse assim lá tanta importância posteriormente. Sondre Lerche, Ida Maria, Ane Brun, Jenny Hval, Royksopp, Kings Of Convenience/Erlend Oye, Datarock, Casiokids, Todd Terje, Turbonegro… Isso sem falar em toda uma peculiar cena de black, doom, gothic e outras subvertentes afins do metal (Burzum, Dimmu Borgir, Darkthrone, Gorgoroth, Mayhem, Ragnarok, Emperor, Tristania entre tantos outros nomes) ficando famosa não apenas pela sua música como também por atos como incendiar igrejas e assassinar a sangue frio companheiros de banda. Aurora Aksnes nasceu em 15 de junho de 1996 em Stavanger, a terceira maior cidade do país, e cresceu em Os, município do sul do país, próximo ao grande centro urbano de Bergen, localidade com número de habitantes inferior apenas à capital Oslo, onde ela reside atualmente.

Extensão vocal

Aurora é soprano, mas a elasticidade de sua extensão vocal certamente arrebata corações e expressões surpresa para quem ainda não conhece seu trabalho. Vai com muita naturalidade de oitavas mais graves a notas bastante altas.

Intimidade musical

Desde cedo Aurora sempre encontrou na música um refúgio para canalizar seus sentimentos. Sem a própria família saber, começou a ter aulas de piano aos 6 anos de idade, já experimentando compor as primeiras melodias. Aos 9 estendeu os estudos e treinamentos à voz. Na adolescência, fez sua primeira apresentação em público na escola, que a levou a fazer sucesso em programas locais de TV e sites de streaming musical. Isso a levou a assinar contrato com uma grande agência nacional de gerenciamento de carreira artística e ofertas de lançamento pelas gravadoras Glassnote e Decca. Não por acaso, o primeiro álbum da carreira saiu quando ela tinha apenas 19 anos, em março de 2016, reunindo registros feitos e compostos da infância a época de então.

“Runaway”

Se você quer ter o primeiro contato com a obra de Aurora e precisa escolher uma música para fazer isso, não tenha dúvidas: vá de “Runaway”, faixa incluída em All My Demons Greeting Me As Friend (o primeiro álbum) e também no EP de estreia, Running With The Wolves (de apenas quatro faixas, lançado em 2015). O conselho é dado pela própria artista, sempre que a perguntam sobre sua principal composição até aqui. “Como esta é uma das primeiras composições que eu fiz, torna-se uma maneira muito lógica de iniciar uma jornada pelo meu mundo”, declarou a artista em uma entrevista para a Billboard americana. Os versos falam sobre a fuga do mundo real para um local onde sentimentos e abstrações se encontram envoltos em um misto de paz, sossego e pertencimento. Assim, na verdade, podem ser descritas as letras escritas por Aurora: um universo particular e sensorialmente etéreo.

“Churchyard”

Estrategicamente escalada no início dos shows da atual turnê, esta faixa já empolga desde o início, com a cantora sendo acompanhada pelos músicos de sua banda em versos do refrão entoados a capella. Sexta faixa do segundo disco da cantora, Infections Of A Different Kind, “Churchyard” fala, segundo ela, sobre alguém que, em uma posição muito superior, utiliza seu poder na atual situação de uma forma completamente errada. Muita gente pode ter ligado isso, na época de lançamento do EP, ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas a própria Aurora tratou de afirmar que este é um simbolismo mais generalizado, embora isso aconteça o tempo todo na política mundial. Explicações à parte, o fato é que não tem como não se deixar levar pelo refrão poderoso e o arranjo percussivo que permeia toda a música.

“Queendom”

Outra faixa de destaque de Infections…, “Queendom” é o libelo feminista da norueguesa. Empoderamento, alegria e igualdade são três dos sentimentos que a cantora que passar diante de um mundo que vem aprendendo, mesmo que ainda a duras penas, a ser menos machista e patriarcal. Mas não apenas as mulheres são festejadas nestes versos, segundo ela. Há também espaço para as crianças, os animais e aquela parcela masculina que se sente deslocada da representatividade usual do gênero, como as pessoas mais introvertidas e quietas. Décimo single da carreira e talvez o maior hit de Aurora, a música vem disposta no encerramento do show.

Novo disco

O repertório da atual turnê costuma se equilibrar as atenções de modo igual entre All My Demons…e Infections…Porém, contempla ainda novidades para os fãs, acrescentando três ou quatro faixas do próximo disco, o quarto em quatro anos de trajetória profissional. A Differet Kind Of Human está previsto para chegar às lojas físicas e virtuais no comecinho de junho (mais precisamente no dia 7) e traz um conjunto de onze faixas que servem como complemento para as oito anteriores de Infections Of A Different Kind. Três singles já foram lançados desde o início deste ano e dois deles são presença certa no set listdos atuais shows: “The Seed” e “The River”. O terceiro, “Animals”, costuma aparecer em alguns concertos, assim como a ainda inédita “In Bottles”.

Peso no palco

A sonoridade de Aurora contempla o ecletismo de suas influências e referencias musicas. Enquanto ela diz carregar muito consigo de nomes díspares como Leonard Cohen e Enya, os arranjos dos discos unem orquestrações, programações eletrônicas e a herança da folk music escandinava. Quando se transporta para o palco, contudo, a artista norueguesa se revela muito mais pesada do que nas gravações de estúdio. Sua banda conta com um baterista, dois tecladistas (sendo uma sua vocalista de apoio para dobrar vozes e realizar contracantos) e um guitarrista (que às vezes faz a função do baixo nas cordas mais graves do instrumento). Já funcionou em local aberto anteriormente por aqui (o Autódromo de Interlagos, em São Paulo, quando fez parte da programação do Lollapalooza Brasil de 2018) e em espaços menores, onde ela fica mais próxima da plateia, tem tudo para colocar ainda mais fogo do começo ao fim do repertório.

Movies

As Viúvas

Diretor Steve McQueen justapõe contornos dramáticos a empolgantes cenas de ação e perturba o espectador em seu novo filme

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Texto por Abonico R. Smith

Foto: Fox/Divulgação

História de um grupo de assaltantes iniciantes que se reúne para executar aquele roubo à mão armada que vai salvar suas vidas de pendengas financeiras não é novidade no cinema. As Viúvas (Widows, Reino Unido/EUA, 2018 – Fox) , porém, traz uma diferença a esta premissa: junta nesta quadrilha sem experiência alguma no submundo do crime mulheres entre os trinta e cinquenta anos que acabaram de perder seus maridos, criminosos “assumidos” ou ainda “no armário” para a família, e receberam de “herança” dívidas que serão cobradas em breve por um cruel contraventor de uma região mais pobre da cidade de Chicago. Enquanto elas se decidem por botar a mão na massa para salvar as suas peles, duas raposas do cenário político local passam a se digladiar nos bastidores de uma eleição que em breve poderá lhes dar mais ainda mais poder em seu próprio território.

Adaptado para o cinema pela afiada dupla Steve McQueen (também assinando a direção deste longa) e Gillian Flynn (autora de Garota Exemplar e Lugares Escuros, ambos thrillers assustadores tanto nas páginas literárias quanto na grande tela) de uma série de TV escrita pela atriz, roteirista e escritora britânica Lynda La Plante, este longa-metragem prende o espectador com seus muitos contornos dramáticos permeando as cenas de ação. Se estas são de tirar o fôlego, aquelas são de levar as pessoas do compadecimento à revolta.

Ninguém é inteiramente vítima ou vilão na história. Nem os maridos assassinados pela polícia em uma ação onde tudo deu errado, nem as viúvas que decidem também se aventurar pelo crime. Nem o candidato representante da elite branca e rica, nem o rival negro e pastor de uma igreja evangélica frequentada pelos moradores pobres da área que domina. Nem o filho mimado e seu pai corrupto, nem o capanga sangue frio e seu irmão gângster. Chantagens, balas disparadas à queima-roupa, lobbies, trapaças, mentiras, intrigas, cinismo e ameaças à integridade física convivem com ações de sororidade, desesperos de mãe, a humilhação de passar por seguidos atos de abuso, o sentimento de solidão após o luto e o sofrimento de passar anos a fio pela manipulação da própria família. Discussões sobre gênero sexual, racismo, religião e abuso de poder e autoridade acabam ganhando quase o mesmo peso conforme a trama vai se desenvolvendo, fazendo com o que o tal assalto preparado pelas viúvas venha a ser apenas mais elemento dela, não o mote principal. Claro que reviravoltas acontecem durante este tempo, o que torna o filme ainda mais delicioso.

A hábil mão do diretor McQueen – que não ganhou o Oscar de sua categoria em 2014 mas viu seu 12 Anos de Escravidão levar o prêmio principal da noite – acrescenta sutis detalhes à história de La Plante. Recorre a linguagens distintas no tratamento da perspectiva pela qual o espectador vê homens e mulheres na tela. Abusa de bela fotografia, capaz também de apostar em planos-sequência matadores, e ainda brinca com a montagem desde o início da sessão, intercalando momentos de passado e presente, reflexão e ação. E, o principal de tudo, não leva seu filme a tomar partido de qualquer lado: deixa para que quem estiver vendo faça seus próprios julgamentos baseados em suas crenças, convicções e experiências de vida.

Não bastasse tudo isso, o elenco é de primeira. Viola Davis, mais uma vez, brilha nas telas na pele da protagonista Veronica, a chefe da nova quadrilha. Aos poucos, seja como personagens coadjuvantes ou ainda participações menores mas com importância em algum ponto da trama, surgem Liam Neeson, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Carrie Coon, Cynthia Erivo, Robert DuVall, Colin Farrell, Bryan Tyree Henry e Daniel Kaluuya.

As Viúvas provoca impacto do começo ao fim, não deixa quem o vê sair levantar impassível da poltrona e, sobretudo, mostra que é possível, sim, fazer bom cinema baseado em uma sinopse que pede ação, muita ação. Chega aos cinemas já com cheirinho de várias indicações ao Oscar 2019 e outras importantes premiações da temporada.