Music

Brujeria

Letras altamente politizadas, humor negro e zoações com Trump: oito motivos para não perder o show da banda em Curitiba

Brujeria2019

Texto por Rodrigo Juste Duarte

Foto: Divulgação

A banda Brujeria está em turnê pelo Brasil e vai se apresentar em Curitiba nesta sexta-feira de feriado (15 de novembro) no Jokers Pub (mais informações sobre o concerto estão aqui). Conhecido até por quem não costuma apreciar música extrema, o Brujeria – que está celebrando trinta anos de existência – tornou-se uma das mais conhecidas formações do grindcore mundial.

Para quem ainda não conhece, aqui vão oito motivos para não perder uma apresentação da banda, em especial a desta noite na capital passagem, onde o Brujeria toca pela segunda vez.

Humor negro

Tudo começou como uma piada, reunindo músicos amigos de várias bandas conhecidas como Napalm Death, Faith No More e Fear Factory. A brincadeira unia vocais guturais em espanhol (por conta de Juan Brujo, um dos poucos membros que restaram da formação original), instrumental brutal e letras que faziam referência a cultura mexicana subversiva, narcotráfico e até satanismo – além do mistério em torno das identidades dos músicos, que usam pseudônimos. Imagine agora tudo isso potencializado em seu álbum de estreia Matando Gueros, de 1993, que teve capa censurada em vários países por ter uma foto tirada de um jornal sensacionalista com a imagem de uma cabeça decepada em um suposto ritual (até hoje há controvérsia sobre a tal notícia, mas a cabeça se tornou um personagem apelidado de Coco Loco, que é referenciado em várias artes da banda). A intenção era chocar e ela foi cumprida. A fama da banda ganhou o mundo.

Virada sócio-política

A partir de 1995, com o lançamento do segundo álbum Raza Odiada, a banda adquiriu um tom mais denunciativo, partindo para uma pegada sociopolítica, abordando a partir de então seguintes questões sobre preconceito sofrido pelos latinos. Nisso sobrou para políticos americanos dos mais estúpidos, que não tinham a menor vergonha de latir suas ideias retrógadas. Exemplos? Pete Wilson, ex-governador da Califórnia, e o hoje presidente estadunidense Donald Trump.

Trolando Gueros 

Quando aparece alguém fazendo ou falando baboseiras dignas de receber o selo “inimigo dos mexicanos”, pode esperar que, mais cedo ou mais tarde, o Brujeria vai compor algo a respeito para zoar o sujeito. E esta vai ser com um senso de humor negro peculiar da banda. O ex-governador da Califórnia Pete Wilson ganhou duas músicas (“Raza Odiada” e “California Uber Aztlan”). Donald Trump, ainda quando estava em campanha para eleição presidencial, foi homenageado em “Viva Presidente Trump”. Neste ano, já em campanha extraoficial para a reeleição, voltou a ser fonte de inspiração para a banda na letra e na capa do single “Amaricon Czar”. Em tempo: no último álbum, Pocho Aztlan (2016), uma das imagens presentes é do vergonhoso muro mexicano erguido na fronteira entre os Estados Unidos e México, onde está pichado o sobrenome do republicano que hoje ocupa a Casa Branca.

Set list de clássicos

O cartaz da turnê brasileira informa que o show contará com os clássicos dos quatro álbuns. Se repetirem o mesmo repertório que já tocaram nas primeiras cidades da turnê brasileira, o público será contemplado com diversas faixas dos álbuns Raza Odiada e Brujerismo (2000), somadas a algumas poucas do trabalho de estreia (“Matando Gueros” e “Desperado”) e do mais recente Pocho Aztlan (“Satongo” e “No Aceptan Immitaciones”), além de músicas de duas músicas novas (“Amaricon Czar” e “Lord Nazi Ruso”). Só é uma pena que não haja espaço para muitas do último disco, talvez por ele não ter sido muito marcante na carreira do grupo. Mas ainda assim lá estão suas pérolas. Se o público pedir a plenos pulmões, quem sabe eles não tocam o hino “Mexico Campeon” (feito para a última Copa do Mundo) ou a releitura “California Uber Aztlan”?

Juan Brujo

Todos os integrantes têm outras bandas. Menos o vocalista, que integra o Brujeria com exclusividade. Vários músicos são americanos de origem hispânica. Mas Juan Brujo é mexicano de fato. Ele sempre se apresenta com o rosto coberto por um lenço com a bandeira do México, mantendo sua identidade em sigilo por décadas. Boa parte do universo do Brujeria é escrito por Brujo nas letras da banda. É uma figura icônica.

Choke

A noite de 15 de novembro no Jokers não se resume apenas ao show do Brujeria em Curitiba. A produção caprichou na escalação de bandas de abertura, trazendo ao palco um verdadeiro trio de ferro da música extrema de Curitiba. Isso inclui o Choke, que conta com vocais e letras do também escritor e filósofo Ottavio Lourenço (se você já esteve na Biblioteca Pública do Paraná e foi atendido por um bibliotecário que vinha trabalhar todo dia com uma camiseta do Brujeria, pode ter certeza que era ele). A banda teve início em 1998 e de lá para cá já fez nada menos do que quinze turnês levando seu metal crossover para países da América do Sul. A discografia conta com seis álbuns lançados, além de um split.

Jailor

Há quem diga que esta é a reserva moral do thrash metal de Curitiba. Aliás, um thrash devastador, diga-se de passagem. Assim como o Choke, também iniciou atividades em 1998, chegando em 2005 ao primeiro álbum Evil Corrupts. Dez anos depois, o grupo lançou o segundo, intitulado Stats Of Tragedy. Ambos possuem produções dignas das bandas do primeiro escalão do gênero no Brasil, com um cuidado precioso tanto nas músicas quanto nas gravações. O Jailor já abriu shows de grandes nomes do metal mundial, como Destruction, Exciter, Exodus, além de tantas outras estrangeiras e nacionais.

Necrotério

Provavelmente o maior representante do metal extremo paranaense. Sua temática é splattergore. No ano passado completou 25 anos, acumulando no currículo três álbuns, um DVD e duas turnês europeias (tendo tocado na Alemanha, Bélgica, França, República Tcheca, Croácia, Eslovênia, Áustria, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Itália). Ainda nos primórdios, seu nome repercutiu pelo Brasil quando o grupo gravou um videoclipe comandado pelo diretor de filmes trash Peter Baiestorf.

Music

As Bahias e a Cozinha Mineira

Trio lança o primeiro disco por uma grande gravadora e fala em entrevista sobre amor, influências e a nova MPB LGBT

bahiascozinhamineira2019

Texto e entrevista por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Se existe uma banda com atitude, crítica social e capacidade de inspirar e transformar o cenário musical atual é o trio As Bahias e A Cozinha Mineira. Só pelo nome já é possível perceber a carga de brasilidade e presença feminina no trabalho das cantoras trans Assucena Assucena e Raquel Virgínia – a baiana e a paulistana – e do mineiro Rafael Acerbi, que se apresentam em Curitiba neste final de semana no Teatro do Paiol (mais informações sobre os dois shows você tem aqui).

Os três se conheceram na Universidade de São Paulo, onde faziam História. Mas foi a morte de Amy Winehouse, em 2011, que despertou a vontade dos amigos em formar uma banda e se profissionalizar. Desde então, foram três álbuns lançados e prêmios conquistados. O mais recente trabalho, Tarântula, tem duplo sentido no nome e faz referência a uma operação da polícia paulista de 1987, que perseguiu e prendeu centenas de travestis sob a desculpa de “combater o avanço da aids”.

O trio bebe na fonte de vários ritmos e transita entre as mais variadas influências: da cultura hip hop ao axé, da Tropicália – principalmente Gal Costa e Caetano Veloso – ao Clube da Esquina. Por e-mail, Raquel falou com o Mondo Bacana sobre o novo disco e o momento atual do grupo.

A banda se conheceu durante o curso de História da USP. Vocês acreditam que podem fazer mais “história” com a música do que lecionando?

Não acho que dê pra fazer esse comparativo. São ofícios muito diferentes. A natureza dos dois trabalhos e o tempo de impacto social de cada função também. Acho as duas profissões fundamentais e importantes.

Liniker, Johnny Hooker, As Bahias e a Cozinha Mineira… é possível identificar um movimento na música popular brasileira que resgata a cultura popular como fizeram os tropicalistas ou o Clube da Esquina (que são suas referências) e que dá voz à comunidade LGBT, às minorias?

Acho que existe uma conjuntura que une as Bahias, Liniker, Johnny. Mas não consigo dizer que existe um conceito artístico e estético que nos una, como os tropicalistas. Não por enquanto. Estamos conectadas muito mais por questões comportamentais e sociais que artisticamente. Ainda sim, nossas artes correspondem de alguma maneira a esse momento e isso nos conecta, sem dúvida.

Vocês assinaram com a Universal, uma gravadora mainstream. Como conseguiram manter a identidade criativa da banda e as letras críticas (como em “Fuça de um Fuzil”) sem que a gravadora interferisse, por exemplo, no conteúdo? Isso é um sinal que os tempos mudaram, que existe o inverso, que o artista pode “mandar” nas gravadoras?

As Bahias não foi um projeto que nasceu dentro de uma gravadora. Nascemos e fizemos os dois primeiros álbuns de maneira independente. Quando entramos na gravadora já carregávamos uma identidade, de certa forma. A gravadora quer reforçar e tornar mais popular o que nós já somos. Potencializar. Eles não interferiram de maneira incisiva nas canções. Foi e está sendo tudo muito tranquilo.

“Sou mulher de botar pra quebrar” diz um dos versos de “Mátria”, a faixa de abertura de Tarântula. Num tempo em que falamos sobre o empoderamento feminino, como a mulher pode botar pra quebrar hoje em dia? Sendo feminista ou feminina?  

Feminista. Sendo feministas podemos ser o que quisermos, inclusive femininas.

O trio tem duas musas inspiradoras Gal e Amy Winehouse. Quem seria o muso inspirador?

Caetano Veloso tem nos influenciado muito como grupo. Individualmente, amo Stromae, cantor e compositor belga.

Vocês cantam sobre o amor e as desilusões, sentimentos comuns independentemente de sexo, cor e religião. Mas nessa sociedade do consumo, a sensação é de que os relacionamentos são fugazes e não se sustentam mais. Como vocês enxergam o amor nos dias de hoje com os aplicativos onde as pessoas são escolhidas como num cardápio?

Eu tenho um olhar muito seco pro amor. Acho que amor tem raça, gênero e classe social. As pessoas se amam mas precisam estar num padrão pra serem amadas. Como mulher trans preta e que nunca teve um relacionamento afetivo, penso que o amor precisa ser ressignificado.

E o que mudou no país desde a operação policial que batizou o novo trabalho? É possível que o tempo cure esse retrocesso político em que vivemos?

Sendo muito honesta, não sei aferir o que mudou. A nossa História é muito apagada e fragmentada. Mas essa é uma boa pesquisa.

Pra descontrair: qual o prato da culinária paulista, baiana e mineira do qual vocês mais gostam? Como sairia uma receita dos três estados juntos?

Paulista: amo um bom pão na chapa; baiana: sou apaixonada por caruru; mineira: goiabada cascão. Uma receita dos três juntos de As Bahias e a Cozinha Mineira!

Movies

Duas Rainhas

Filme exalta a força da Rainha da Escócia (e, por direito, da Inglaterra) Mary Stuart, um dos maiores ícones da realeza britânica em todos os tempos

maryqueenscots2018

Texto por iaskara (História) e Abonico Smith (resenha)

Foto: Universal Pictures/Divulgação

História

Rainha desde o berço. Mary Stuart mal nascera (8 de dezembro de 1542) e já perdera o pai, o rei James V, seis dias depois, o que a fez herdar a coroa do reino da Escócia. Uma herança sombria ser uma Stuart e herdar a coroa da Escócia, pois sempre tiveram de lutar contra inimigos de fora, inimigos do país e contra si próprios.

Logo após a morte do pai, sua mão fora pedida pelo tio avô Henrique VIII, rei da Inglaterra e tio de James V, para o filho e herdeiro Eduardo. O objetivo era unir as duas coroas em uma só e governar a Grã-Bretanha com o desejo de supremacia mundial naquele momento.

Uma cláusula secreta do contrato feito por Henrique VIII dizia que, caso a criança morresse prematuramente, todos os domínios e propriedades do reino escocês passariam a ele. Logo ele, que já havia mandado cortar a cabeça de duas esposas e rompido com a Igreja Católica para fundar a sua própria igreja e mudando oficialmente a religião de seu reino para o protestantismo, inclusive se autodeclarando o líder religioso maior desta reforma. A mãe de Mary, católica fervorosa, recusou-se a enviar a filha a Londres para que fosse educada por “hereges protestantes”. Como vingança, Henrique VIII iniciou uma guerra interna, mandando tropas em busca da menina e com a ordem de destruir Edimburgo e outras cidades, saqueando e queimando tudo o que fosse encontrado pelo caminho.

Mãe e filha foram postas em segurança em um castelo e um novo acordo se estabeleceu com o rei inglês para que Mary Stuart  fosse entregue a Londres com 10 anos de idade. Porém Henrique VIII morreu quando Mary estava com apenas 5. Apesar da exigência da entrega da pequena noiva, à força, diretamente para Eduardo, os escoceses não tinham mais interesse nesse acordo, sendo esmagados novamente em uma batalha com mãos de 10 mil mortos.

Mary foi escondida no convento de Inchmahome, na pequena ilha de Meinteth, até que a França entrou no cenário para impedir a Inglaterra de submeter a Escócia ao seu jugo. Henrique II, filho de Francisco I, rei da França, enviou uma armada forte e em seu nome pediu a mão de Mary Stuart para o filho do rei, o herdeiro do trono, Francisco II. Assim, ao invés de se tornar rainha da Inglaterra, de repente Mary foi destinada a se tornar rainha da França e, ainda aos 5 anos de idade foi enviada para Paris. Junto com ela embarcaram outras quatro meninas de nomes Mary como forma de proteção.

Mary foi recebida com pompa e como rainhazinha da Escócia (“reinette”) e assim deveria ser saudada por todas as cidades e aldeias, com as mesma honrarias de um delfim. A corte francesa era uma das mais brilhantes e grandiosas do mundo, voltada tanto para cultura como para as artes e a ciência. Mary foi educada para dominar com perfeição línguas clássicas como o grego e o latim bem como o italiano, o espanhol e o francês. Deveria dominar também a poesia, a literatura, a música e as artes. Seu desenvolvimento intelectual, além de precoce, tornou-se notável. Seu casamento foi apressado quando o delfim tinha somente 14 anos, por ele ter saúde frágil e também pelo interesse da França em assegurar o direito à coroa da Escócia e da Inglaterra, por Mary ser herdeira presuntiva deste trono. O casamento se deu em 1558, quando Francisco II recebeu, então, a coroa da Escócia e Mary, com quase 16 anos de idade, tornou-se herdeira da coroa da França.

No mesmo ano morreu Mary Tudor, primogênita de Henrique VIII e então rainha da Inglaterra. Como Eduardo já havia morrido, sua meio-irmã Elizabeth subiu ao trono, sendo que sua legitimidade era questionada, já que sua mãe Ana Bolena teve seu casamento com Henrique VIII anulado um pouco antes da decapitação desta. Isto tornava Elizabeth bastarda, restando o trono, por direito, à católica Mary Stuart. Restavam duas possibilidades: aos 16 anos de idade, Mary poderia ceder e reconhecer sua prima como legalmente rainha da Inglaterra e abdicar de seu próprio direito ou declarar que Elizabeth usurpou a coroa e determinar que exércitos da França e da Escócia derrubassem-na à força. Mas seus conselheiros escolheram um terceiro caminho e o pior deles: em vez de um golpe decidido contra Elizabeth, apenas reclamam publicamente o trono mas não o defendem. O casal real francês incluiu em seu brasão a coroa real inglesa e Mary se fez chamar publicamente de Regina Franciae, Scotiae, Angliae e Hibernae. Isso virou uma provocação. Nesse momento, Mary transforma a mulher mais poderosa do mundo em sua inimiga irreconciliável. Elizabeth passou a considerá-la sua rival e maior ameaça.

Em 1559, o rei da França se feriu mortalmente com uma lança em um torneio em Paris. Nesse momento, aos 16 anos, Mary foi coroada rainha da França. O destino foi implacável, pois Francisco II, o novo rei, estava doente e os médicos vigiavam-no dia e noite. Em dezembro de 1560, sua saúde se agravou e um infecção no ouvido levou-o à morte. Mary não perdia somente o companheiro generoso e bondoso, mas o seu grande amigo, a sua proteção na França e também a sua posição na Europa.

Catarina de Medici, sua sogra, revelou-se bastante hostil, arrogante e traiçoeira. Mary, por sua vez, com seu orgulho indomável, não quis ficar em nenhum lugar onde fosse apenas a segunda na hierarquia. Outras coroas (Espanha, Áustria, Dinamarca, Suécia) se anteciparam e enviados pediam a mão de Mary. Mas ela decidiu voltar à Escócia. Sua despedida da França foi difícil, pois esse lugar havia se tornado sua pátria nos últimos doze anos, com parentes de laços maternos e proteção. Enquanto na Escócia a esperavam duras provações.

Desde a morte de sua mãe, que como regente administrava sua herança, os lordes protestantes, seus piores inimigos, predominavam na corte e não escondiam a resistência de chamar de volta para o país uma católica seguidora de Roma. Ainda havia Elizabeth com um acordo entre escoceses e ingleses de reconhecê-la como herdeira legítima do trono. Este documento, quando levado à França, não foi assinado nem por Francisco II e nem por Mary, que colocou seu direito em segundo plano por questões políticas mas jamais renunciou ao direito à herança de seus antepassados.

Para voltar à Escócia, Mary precisava de um salvo-conduto para atravessar a Inglaterra, que fora negado por Elizabeth. Mary decidiu voltar pelo canal sem tocar na costa inglesa. Elizabeth se apressou e assinou um documento que chegou com dois dias de atraso. Mary já havia partido rumo à Escócia, chegando em Leith no dia 19 de agosto de 1561. É quando começa o filme lançado originalmente em 2018.

Para o biógrafo Stefan Zweig, o que é claro e evidente se explica por si próprio embora o mistério aja de maneira criativa. Por mais de quatro séculos, os mistérios que envolvem o drama ou a tragédia de Mary Stuart seduziu escritores e vem ocupando muitos pesquisadores, pois tudo que está difuso anseia por clareza e tudo que está escuro deseja a luz. Mistérios são descritos e interpretados de forma tão frequente quanto contraditória, não por falta de material mas pela sua abundância. Milhares de documentos, atas, protocolos, cartas e relatórios preservados. Com descreve Zweig, contra cada sim documentado existe um não igualmente documentado e contra cada acusação, uma absolvição. Até o século passado, os autores protestantes atribuíam toda a culpa a Mary Stuart; os escritores católicos, a Elizabeth. Nas narrativas inglesas, Mary quase sempre apareceu como culpada enquanto as escocesas colocavam-na como vítima. Não se pode esquecer que a História quase sempre é narrada pelos vencedores

Resenha

Toda essa explicação serve bem para contextualizar o “cenário de guerra” entre as primas que é retratado no filme Duas Rainhas (Mary Queen Of Scots, Reino Unido/Estados Unidos, 2018 – Universal Pictures). Na verdade, a história comandada pela veterana diretora teatral britânica Josie Rourke, estreando no cinema, é centrada nas lutas diárias da recém-chegada à Escócia Mary – e por isso o estapafúrdio título dado pela distribuidora no Brasil só serve para chamar a atenção do espectador para o fato de existirem duas jovens atrizes, ambas ascendentes em Hollywood, interpretando as rivais da monarquia. Este filme vai do dia 19 de agosto de 1561, quando Mary desembarca na Escócia, até a sua morte, aos 44 anos de idade, em 8 de fevereiro de 1587.

Saoirse Ronan acerta mais uma vez em cheio em papel e atuação. A jovem norte-americana descendente de irlandeses encanta com sua Mary indolente e atrevida, que chega com suas ideias e pensamentos revolucionários de uma França mais voltada às artes, à cultura e ciências. Aos poucos, contudo, vai esbarrando em vários obstáculos, entre eles a consequente insubordinação masculina diante da nova regência de uma mulher e, talvez o mais forte empecilho, a objeção do pastor protestante John Knox, ministro escocês. Assim, Mary passa a ser alvo de uma série de intrigas, mentiras e conspirações por parte de todos os lados. Da invejosa Elizabeth (aqui bem interpretada por uma coadjuvante Margot Robbie, australiana, ajudada por uma maquiagem tão belamente degradante ao longo da projeção que rendeu ao longa uma das três indicações ao Oscar da categoria neste ano) a Knox (David Tennant), passando por pretendentes a maridos e comandados da corte. O fim da história é sabido e contar aqui não vira spoiler: Mary é presa sob a acusação de conspiração ao trono e decapitada por ordem de Elizabeth.

O que importa neste longa-metragem, porém, é como Rourke e o roteirista Beau Willimon contam essa batalha íntima de Mary contra todos a seu redor. Willimon consegue encaixar momentos de ironia (como nos casos do relacionamento íntimo de Mary com o músico gay italiano David Rizzio ou na hora em que a rainha escocesa manda seu novo marido a fazer sexo oral nela) e outros de violência – a cruel execução de Rizzio pode provocar náuseas em espectadores mais sensíveis. Já Rourke brinda os olhos com belas imagens em paisagens e castelos escoceses sem se furtar a se arriscar em movimentos de câmera que possam, de vez em quando, sair do convencional.

Sem muitas pirotecnias na narrativa ou na montagem, Duas Rainhas retrata a força feminina de quase meio milênio atrás através de sua bela e ousada protagonista. Uma mulher que não teve medo de enfrentar quem estivesse pela frente justamente para reivindicar o que era seu de direito. Uma mulher cuja maior afronta era ser ela mesma diante daquilo que não lhe representava em sentimentos e ideias. Uma mulher com alma e cérebro em pleno Século 16. E, o mais importante, uma mulher preparadíssima para exercer o comando de um dos maiores reinos do mundo se tivesse a oportunidade.

Music

Scott Walker (1943 – 2019)

Quem foi o cara que misturou tristeza e posicionamento político em suas canções e foi influência suprema de David Bowie e o britpop

scottwalker

Texto por Carlos Eduardo Lima (Célula Pop)

Foto: Reprodução

Certas notícias a gente torce para nunca escrever. A morte de Scott Walker, ocorrida no último dia 25 de março, por exemplo, é uma delas. Certamente quase um desconhecido por aqui, Scott era um desses artistas que expandiu as fronteiras da música popular no século 20. Em alguns momentos, sua carreira esteve em pé de igualdade com Beatles e Rolling Stones em termos de influência e até mesmo popularidade. Sua obra foi responsável por influenciar centenas de outras bandas e cantores e seu estilo de cantar e compor transformou para sempre o rock. Entre seus herdeiros musicais estão David Bowie, Jarvis Cocker, Marc Almond, Richard Hawley, Suede, Radiohead, Blur, Last Shadow Puppets e todo vocalista ou banda pop que resolveu subir num palco cantando as agruras da vida.

Sim, porque Scott se tornou notório a partir de uma combinação improvável de vocais operísticos/barítonos com capacidade de evocar referências literárias/artísticas que lhe permitiam cantar sobre a questão política da Primavera de Praga em pleno 1968, fazer referências a filmes cult como O Sétimo Selo, do diretor sueco Ingmar Bergman – muito antes desta ideia atual de cultsequer existir – e, ao mesmo tempo, forjar um padrão de pop orquestral e belo, versando sobre amor não correspondido, arrependimento, tristeza, solidão. Além disso, suas canções abriam espaço para suicidas, ressentidos, drogados, vagabundos noturnos. Scott Walker tinha a capacidade de colocar pra baixo o mais esfuziante ser e escrevo isso sem tom pejorativo.

Scott era americano, nascido Noel Scott Engel em 9 de janeiro de 1943. Saiu da improvável cidadezinha de Hamilton, Ohio, para fazer fama na Inglaterra, em meados dos anos 1960. Formou com John Maus e Gary Leeds o Walker Brothers. Claro, não eram irmãos, muito menos se chamavam Walker. Fizeram sucesso arrebatador na Inglaterra, especialmente com versões de clássicos como “Make It Easy On Yourself” e “The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore”, canções belíssimas e tristíssimas. Seu registro vocal característico misturava influências operísticas e mesmo do teatro japonês – algo impensável para a época. Tal fato virou a cabeça de um iniciante David Jones, que se chamaria David Bowie em seguida, que deve sua marca vocal registra a Scott.

Com o fim dos Walker Brothers em 1968, Scott impôs-se como artista solo. Ele já vinha lançando sua série de álbuns homônimos/numerados, que culminou com Scott 4, em 1969. Deste período vêm pérolas próprias e de outros compositores, como “Montague Terrace (In Blue)”, “Jackie”, “The Girls From The Streets”, “Windows Of The World”, “It’s Raining Today”, “Copenhagen”, “The Seventh Seal” e até a inacreditável “Old Man’s Back Again (Dedicated To The Neo Stalinist Regime)”, que, como o título diz, fala sobre a política da URSS em relação ao mundo em 1969. A preferida pessoal deste que vos escreve, no entanto, é a lindíssima e cortante: “The Lights Of Cincinatti”, com os versos:

“And I can see them shining
Through the willows and the pines,
The lights of Cincinatti
Oh, so many miles behind,
I could build myself a new life
And make it on my own,
But the lights of Cincinnati
Will keep calling me back home.”

Escrever e gravar sobre estes temas, buscando expandir fronteiras musicais não são traços de um popstar, certo? Scott tornou-se um artista recluso, quase uma lenda. Seus álbuns posteriores à quadrilogia Scott são menos inspirados, ainda que tragam momentos impressionantes. Os anos 1970, no entanto, foi mais das crias estéticas de Scott do que dele mesmo. O grande acontecimento para ele foi o retorno dos Walker Brothers originais em 1978, a bordo do disco Nite Flights, que apenas marcou a reunião do trio inicial, enquanto o mundo estava ouvindo disco music e punk rock.

Scott ressurgiria por algumas vezes lançando discos. Em 1984, com Climate Of Hunter e, onze anos depois, com Tilt, trabalhos que já podem ser entendidos sob o ponto de vista “alternativo”, algo que Walker fez na maioria das vezes que lançou álbuns. Mais recentemente, viriam The Drift, em 2006; Bish Bosch, em 2012; e Soused, colaboração com o grupo americano Sunn O))), lançado em 2014. Walker permanecia oculto, nas sombras, local onde sempre pareceu sentir-se mais adequado e confortável. Seu último trabalho foi a trilha sonora do filme Vox Lux, estrelado por Natalie Portman, em cartaz no Brasil.

Não há mais espaço na música pop para gente como Scott Walker. Se um equivalente seu surgisse hoje, seria desencorajado a seguir carreira na música. Referências literárias? Desejos instrumentais e operísticos? Canções fora dos padrões? Poucas visitas em perfis de redes sociais? Scott é reflexo de um tempo em que havia possibilidade da arte menos popular impregnar outros campos – populares – gerando cultura e novas abordagens. Sem ele, a música pop seria incrivelmente mais pobre e mais óbvia. Que seu talento seja reconhecido por mais e mais pessoas.