Movies

Você Não Estava Aqui

Diretor Ken Loach escancara a uberização da sociedade e as falsas ideias trazidas aos trabalhadores pela ilusão da ideia de meritocracia

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Texto por Ana Clara Braga

Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Em 2020 é difícil encontrar alguém que não use os serviços de Uber, iFood, Amazon e outros apps de entrega baixados no celulares. A comodidade de conseguir o que deseja diante de alguns cliques tem um preço invisível aos olhos do consumidor. Você Não Estava Aqui (Sorry We Missed You, Reino Unido/Bélgica/França, 2019 – Vitrine Filmes), mais recente trabalho do diretor britânico Ken Loach, aborda a chamada uberização da sociedade e como esse movimento pode afetar pessoas que buscam sair de dívidas e melhorar de vida.

Ricky (Kris Hitchen) é um pai de família que embarca no desafio de tornar-se trabalhador informal, com a ilusão de que terá mais liberdade e facilidade em ascender. Sua esposa Abby (Debbie Honeywood) espreme seus horários como cuidadora de idosos e enfermos em uma agência que pouco se preocupa com os clientes. Enquanto isso, os filhos do casal, um adolescente problemático e uma garotinha sentimental, sentem na pele a ausência e a crise da família.

Já na cena inicial o filme mostra a que veio. O novo chefe de Ricky explica o modelo de trabalho (entregas) e romantiza a profissão dizendo que ele não estará trabalhando para a empresa e sim com a empresa e não terá contrato. O que está nas entrelinhas é que o protagonista está iniciando um emprego sem direitos trabalhistas. Para poder começar as entregas, vende o carro da família para adquirir uma van e passa a trabalhar longas horas.

O roteiro é simples e cru. Tem uma aura de documentário, como se houvesse câmeras escondidas acompanhando as dificuldades de uma família real. É fácil esquecer que se está assistindo a um produto fictício, até porque não é necessário usar a imaginação para saber que o que se passa na tela é real.

Ken Loach, em entrevista promocional desta obra, disse que uma das maneiras de frear a extrema direita é acabando com as inseguranças trabalhistas. Os subempregos relatados no filme são fontes de frustração e infelicidade para os personagens e tantos outros trabalhadores que se iludem com falsas promessas de independência.

Você Não Estava Aqui (o título em português é uma ligeira adaptação da mesma frase em inglês utilizada em um bilhete oficial quando o destinatário não é encontrado no momento da entrega da encomenda) é um soco no estômago para todos que utilizam aplicativos e serviços para facilitar a vida. O diretor é certeiro ao optar pela simplicidade do cotidiano. Isso já o suficiente para atingir o público. Nada neste longa é por acaso. Todos os elementos apresentados, mesmo que sutilmente, tem lugar na trama, sejam eles chaves, porta-retratos ou garrafas plásticas.

Se em Tempos Modernos Charlie Chaplin criticou a mecanização do trabalho proposta pelo fordismo, Loach, em Sorry We Missed You, denuncia o tratamento desumano ao qual o proletariado se submete quando enganado pela ideia de meritocracia. A uberização da sociedade é cruel. Como nas palavras do próprio diretor, “não é mais necessário que um patrão use o chicote, porque o trabalhador explora a si mesmo”.

Music

Caetano Veloso & Ivan Sacerdote

Cantor e compositor lança novo disco de surpresa, no qual revisita algumas velhas músicas suas em dueto com o clarinetista criado na Bahia

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Texto por Janaina Monteiro

Foto: Divulgação

Sem alarde nem aviso prévio, Caetano Veloso lançou seu novo disco via streaming com nove versões de composições de sua autoria num dueto com o clarinetista Ivan Sacerdote. O álbum-surpresa também conta com participações do primogênito Moreno Veloso na percussão mais o sambista Mosquito e o violonista Cezar Mendes.

Caetano Veloso & Ivan Sacerdote é fruto da casualidade e encantamento do baiano pelo som cativante de Ivan. Nascido no Rio de Janeiro mas criado na Bahia, o clarinetista tem formação universitária no instrumento, foi solista em rodas de choro e acompanhou nomes expressivos da MPB, como Rosa Passos. A parceria gerou um álbum despretensioso que realça o ápice do amadurecimento do cantor e músico de 77 anos de idade, seja no tom mais grave de sua voz ou na sutileza do dedilhado. O doce sopro da clarineta de Ivan abre o disco e acompanha o violão de Caetano, imprimindo uma vivacidade alegre e serena ao repertório com faixas lado B como “O Ciúme” (originalmente de 1987), selecionadas conforme a preferência dos envolvidos no trabalho. Ivan passeia à vontade pelas melodias do mestre tropicalista, com seus solos improvisados, como se estivesse pincelando notas num jardim recriado por Monet. É um trabalho belo, sutil, tranquilo, para se deleitar com os arranjos singelos que mesclam jazz, samba e bossa nova, e aproximam Caetano cada vez mais do gênio João Gilberto, sua fonte inspiradora no início da carreira.

A primeira faixa do álbum, de Uns (1983), foi um pedido de Ivan. Em “Peter Gast” (pseudônimo de Johann Heinrich Köselitz, amigo do filósofo Friedrich Nietzsche) Caetano filosofa “Eu sou um/ Ninguém é comum e eu sou ninguém”. Do premiado disco Livro, de 1998, surgem “Minha Voz Minha Vida” e “Manhatã”, em que o clarinetista nos proporciona a sensação de levitar.

As duas canções mais conhecidas são “Trilhos Urbanos”, de Cinema Transcendental (1979), e a belíssima “Desde Que o Samba é Samba” (com a participação de Mosquito), gravada por Caetano no álbum-marco Tropicália 2 (1993), e que abre o disco João Voz e Violão, com a refinada interpretação do mentor da bossa nova.

Como diz o primeiro verso da quinta faixa, “Você Não Gosta de Mim”, você pode não gostar de Caetano e toda a sua polêmica e imperatividade que por vezes lhe conferem um ar de errônea arrogância. Entretanto, é indiscutível o seu legado para a MPB. Ele sempre foi um contestador, seja encabeçando o movimento tropicalista ou cantando sobre os “ridículos tiranos” (na letra de “Podres Poderes”, de Velô, de 1984). A pouco de completar oito décadas de vida, Caetano se apropria da idade da serenidade e deixa de lado os discursos eloquentes para combater as trevas usando suas armas mais poderosas. Que são a sua voz e a sua arte.