Music

Max & Iggor Cavalera – ao vivo

Espinha dorsal da formação clássica do Sepultura volta a Curitiba para tocar faixas dos dois álbuns que levaram a banda ao reconhecimento mundial

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Texto por Guilherme Motta

Foto: Renata Kalkmann/Divulgação

Quantos de vocês estavam naquele show debaixo de chuva torrencial e raios do Sepultura em 1994 na Pedreira Paulo Leminski?

Bom, eu não estava, infelizmente. Mas grande parte das pessoas presentes no último 13 de junho (quinta) na Usina Cinco, na capital paranaense, com certeza estavam lá 25 anos atrás. Desde aquele dia, os curitibanos nunca mais viram o Sepultura com a formação “clássica”, que contava com Max (vocais e guitarra) e Iggor Cavalera (bateria), ao lado de Paulo Jr (Baixo) e Andreas Kisser (guitarra) – pois Max deixaria o grupo cerca de pouco tempo depois.

Passado um quarto de século, os irmãos subiram juntos ao palco em Curitiba, para tocar especialmente os dois históricos albuns de thrash metal que levaram o Sepultura ao reconhecimento mundial: Beneath The Remains (1989) e Arise (1991). Particularmente falando, eu achei que nunca na minha vida ouviria essas músicas ao vivo, muito menos sendo executadas por esses dois juntos – vale ressaltar que em 2015 Max e Iggor vieram à cidade mas com o repertório do Cavalera Conspiracy.

O show começou relativamente cedo e sem muito atraso. Por volta das 22h15 o quarteto já estava despejando riffs nos que ali se encontravam. O set list foi aberto com “Beneath the Remains” e “Inner Self”. Assim que Marc Rizzo – também integrante do Soulfly e do Cavalera Conspiracy – tocou o primeiro acorde, formou-se imediatamente um enorme circle pit em meio aos espectadores. E ssim se seguiu até o último chiado do amplificador.

Foram aproximadamente duas horas de show comandadas pela espinha dorsal do velho Sepultura. Ainda em plena química e forma, mesmo sem ter tocado muitas destas músicas por muito tempo juntos. E quem estava esperando ouvir apenas os dois albuns que intitulam a turnê se enganou. As lendas tocaram ainda uns covers: “War Pigs” (Black Sabbath), “Ace Of Spades” e “Orgasmatron (Motörhead), “Hear Nothing See Nothing Say Nothing” (Discharge) e mais a sempre surpreendente “Polícia” (esta, dos Titãs, assim como “Orgasmatron”, regravada pelo Sepultura). Tocaram também algumas faixass de outros discos, como “Refuse/Resist”, do album Chaos A.D. (1993), e a clássica “Roots Bloody Roots”, de Roots (1996). Para os fãs bem mais antigos, também “Troops of Doom” do disco de estreia do Sepultura, Morbid Visions, lançado em 1986.

Com toda a certeza, esta foi a noite mais emocionante dos últimos anos para a comunidade headbanger curitibana, os quatro integrantes estavam visivelmente muito empolgados e satisfeitos com o que viram e sentiram naquela noite. Max, Iggor, Marc e o baixista Mike Leon (também membro do Soulfly) deram aula de como fazer uma performance de metal da melhor qualidade. Claro que nós, curitibanos, como sempre, demos outro show de como apreciar um espetáculo de música extrema.

Set list: “Beneath The Remains”, “Inner Self”, “Stronger Than Hate”, “Mass Hypnosis”, “Slaves Of Pain”, “Primitive Future”, “Arise”, “Dead Embryonic Cells”, “Desperate Cry”, “Altered State/War Pigs”, “Infected Voice”, “Orgasmatron” e “Ace Of Spades”. Bis 1: “Troops Of Doom”, “Refuse/Resist” e “Polícia”. Bis 2: “Roots Bloody Roots”, “Hear Nothing See Nothing Say Nothing” e “Beneath The Remains/Arise/Dead Embryonic Cells”).

Music

Talk Talk

Morte de Mark Hollis revela a importância da banda que abandonou o sucesso nos anos 1980 para trilhar o caminho da arte na música pop

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Texto por Carlos Eduardo Lima (texto cedido por Célula Pop)

Foto: Divulgação

No último dia 25 de fevereiro foi noticiado o falecimento do cantor e compositor inglês Mark Hollis, líder da banda inglesa Talk Talk. Mas, sem o infame trocadilho, de quem estamos falando? Uma visão realista das paradas de sucesso e das vendas – parâmetros usuais para aferição de êxito de um artista – nos dirá que o Talk Talk praticamente não existiu. Fora o hit “It’s My Life”, que ficou no topo das paradas anglo-americanas no distante ano de 1984, Talk Talk era mais uma dessas formações obscuras dos anos 1980. Ledo engano…

Hollis, 64 anos, era o cérebro pensante da banda. Podemos dizer, inclusive, que houve dois Talk Talk. O primeiro, até 1986, era um grupo voltado para a cartilha Roxy Music/tecnopop/new romantic, com muitos teclados, sintetizadores e noção de melodia e bom senso pop. Era o que se conhecia como sophistipop. A própria “It’s My Life” não nos deixa mentir: exuberante, cheia de efeitos especiais de pássaros, clipe marcante – com Hollis em meio a paisagens animais selvagens com algo a dizer, sem conseguir – era uma promessa de competidora pela efeméride pop oitentista. Mas Mark e seus parceiros de banda – o baixista Paul Webb, o baterista Lee Harris e o tecladista Simon Brenner – largaram mão desta perseguição pela música mais convencional e entraram numa jornada em busca de uma musicalidade que tangenciava o pop e arremetia para ares muito mais auspiciosos e complexos. Esta mudança foi marcada pela chegada do terceiro álbum, The Colour Of Spring.

Saía de cena o Talk Talk acessível e chegava aos ouvidos dos poucos interessados em músicas complexas naquele ano de 1986 uma banda arrojada e cheia de sutilezas. Hollis se dizia influenciado por gente que não estava no mapa dos artistas daquele tempo. De Otis Redding a Debussy. De Burt Bacharach a John Coltrane. O sujeito era um cara fora de seu tempo. The Colour Of Spring, com oito faixas, chocou quem esperava por outra “It’s My Life”. Canções antipop, com longas passagens instrumentais, corais infantis, muitos pianos e teclados, uso de orquestra e valorização do binômio silêncio/som assumiram o protagonismo. Em comum com o passado, apenas o ótimo registro vocal de Hollis, um dos mais marcantes daquela década. Das novas faixas, apenas “Chameleon Day” tinha pouco mais de três minutos, deixando o restante com duração variando entre cinco e seis, simplesmente deixando parâmetros radiofônicos de lado. Mesmo assim, longas e com instrumental ousado, todas as canções ainda guardam algum potencial pop implícito.

O abraço ao experimentalismo veio com o disco seguinte, Spirit Of Eden, lançado em 1988, com apenas seis faixas. A canção que abre o ciclo é a impressionista (e impressionante) “The Rainbow”, com mais de nove minutos de duração. A banda simplesmente deixava de lado a maioria de seu arsenal eletrônico de synths e baterias robotizadas de antanho para embarcar numa onda acústica ousadíssima, nada parecida com o que as pessoas entendem por unplugged ou banquinho e violão. O pop, enfim, ficava para trás em favor de algo novo, tangente do jazz – no sentido experimental – mas que nunca feria os ouvidos ou irritava por alguma complexidade vazia, na base do exercício de estilo. Era uma banda em evolução e em busca de novos rumos para sua arte. E partindo nesta direção. “Eden” e “Desire” são provas desta nova estética. Lentas, cheias de sons, silêncios, quase uma new age/ambient musicadolescente e curiosa. Dizem (dizem!) que o Radiohead ouviu muito este disco para gestar seu álbum OK Computer.

Com o trabalho seguinte, Laughing Stock, a banda chegou ao fim da carreira. Em pleno 1991, frente ao grunge e ao nascente britpop, o mundo não tinha paciência para investir em novas texturas sonoras delicadas, misteriosas e que exigiam atenção total do ouvinte, bem a exemplo do disco anterior. Depois deste lançamento, o grupo se separou. Hollis ainda lançou um obscuro disco solo em 1998 e permanecia discreto, mais dedicado à família, longe dos palcos.

Sua morte precoce talvez sirva para que o Talk Talk passe por uma reavaliação crítica e receba seu reconhecimento. Merecido há tanto tempo.

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Garotos Podres

Vocalista e fundador Mao fala, em entrevista, sobre a volta às atividades da banda que é um dos ícones do punk rock brasileiro

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Entrevista por Guilherme Motta

Foto: Laura Ciampone/Divulgação

Prestes a desembarcar em Curitiba para se apresentar em um dos mais conceituados e antigos festivais de rock independente do país, o Psycho Carnival (clique aqui para mais informações sobre o evento), os Garotos Podres celebram o bom momento da banda, que acaba de retomar as atividades depois de uma cisão que provocou disputa judicial a respeito do uso do nome e a criação de uma “identidade secreta” para durar o tempo deste imbróglio todo. Em entrevista por e-mail para o Mondo Bacana, o vocalista e fundador Mao fala sobre toda essa confusão, os novos lançamentos e ainda a confusão política que nos últimos anos rachou o país entre esquerda e direita.

Junto com os fãs tenho acompanhado toda essa treta envolvendo o nome e os integrantes do Garotos Podres. Como está sendo agora pra você saber que a banda está novamente dentro do contexto que você sempre acreditou e lutou?

Sou músico há muitos anos. Só nos Garotos Podres são 37 anos. Creio que atualmente estou vivendo a minha melhor fase enquanto músico. Estou tendo a oportunidade não só de tocar ao lado e músicos de grande qualidade técnica, mas também companheiros que compartilham uma visão de mundo que une a banda através de um ativismo político-social. Essencialmente, somos favoráveis aos princípios fundamentais da dignidade humana. Lutamos pelos direitos dos trabalhadores, das minorias e de todos os oprimidos. Somos radicalmente contra o racismo e defendemos a emancipação da classe operária através da construção de uma sociedade justa, igualitária e fraterna. Em outras palavras, somos, acima de tudo, antifascistas!

Ultimamente com essa onda conservadora que vêm crescendo no país, muitas das pessoas até mesmo as que eram próximas a nós estão saindo do armário do fascismo. Muitas vezes me deparo com comentários do tipo “Não pode misturar música (seja rock, punk, hardcore ou mesmo a arte em geral) com política”.  Temos o exemplo da banda Dead Fish, que desde o seu início em 1991 tem o posicionamento político muito bem definido e também contam com uma parcela dos fãs que se dizem de direita mas “curtem” o som da banda, mesmo as letras sendo extremamente politizadas. Como você enxerga essa questão?

Durante muitas décadas a grande mídia operou no sentido de despolitizar e alienar grande parte da população brasileira. Esta “onda conservadora” nada mais é do que uma ação planejada por parte dos setores mais reacionários da classe dominante de nosso país. Foi através deste controle de “corações e mentes” que conseguiram dar um golpe de Estado em 2016, que, em nome do “combate à corrupção”, colocou os mais corruptos políticos no poder. Em 2018, eles foram ainda mais longe. Impediram a candidatura do principal candidato dos trabalhadores e, através de uma intensa campanha de fake newse mentiras nas redes sociais, colocaram no poder um governo que se empenha em destruir todos os direitos trabalhistas, previdênciários e sociais dos trabalhadores. Estas pessoas que se dizem de “direita” são donos dos bancos? Das indústrias? São patrões ou latifundiários? Não! São apenas “trabalhadores pobres”, que acreditam ser ricos (ou potencialmente ricos, no futuro) e de “direita”! Ou seja, são vítimas idiotizadas pela grande mídia e pelas redes sociais, instrumentalizados pela classe dominante como rebanho eleitoral. São pessoas que foram capazes de votar em seus próprios carrascos.

Aproveitando o assunto sobre conservadorismo… Como você reage ao fato de que existem pessoas conservadoras, com posicionamento político voltado totalmente à direita dentro do cenário punk? Como, por exemplo, o que aconteceu ao Garotos Podres, quando integrantes com posicionamento inverso à postura do grupo durante décadas estavam levando o projeto adiante com o mesmo nome?

Creio que o movimento punk, assim como a maior parte do rock em geral, tem um espírito mais progressista e de esquerda. Acho um contrassenso a postura conservadora de algumas pessoas, principalmente aquelas que tem ligação com o punk rock. No caso dos Garotos Podres houve um racha na banda em 2012. Eu e o Cacá Saffiotti fomos para um lado enquanto o ex-baterista e ex-baixista foram para outro. Esta divisão se deu por inúmeros problemas que foram se acumulando ao longo dos anos. Mas o que foi determinante foi a aproximação de dois ex-integrantes à extrema-direita. Como exemplo disso tivemos a candidatura do ex-baixista, Michel Stamatopoulos, a vereador em São Caetano do Sul em 2016, pelo PEN. Nesta época este partido era ligado a Jair Bolsonaro. Posteriormente a agremiação assumiu o nome de Patriotas e lançou a candidatura presidencial do Cabo Daciolo em 2018. Em 2013,  apoiando-se em nosso antigo empresário, estes ex-baterista e ex-baixista criaram um grupo que passou a usar indevidamente o nome Garotos Podres. Felizmente o projeto deles não foi para frente, encerrando as atividades ainda em 2014. Entretanto, ainda hoje tentam se apoderar do nome Garotos Podres pela via judicial.

Devido ao rompimento do Garotos, você e o Cacá formaram O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos e em 2014 lançaram o álbum Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo. Pode-se dizer que esse é um lançamento do Garotos Podres disfarçado?

Quando houve o racha dos Garotos Podres em 2012, eu e o Cacá Saffiotti pretendíamos da continuidade aos Garotos Podres, com novos integrantes. Isto nos parecia perfeitamente legítimo, uma vez que eu sou o fundador da banda, além de autor de quase 90% das letras e compositor de quase 50% das músicas. Pretendíamos preparar novas músicas, lançar um novo álbum, e reiniciar as atividades. Entretanto os ex-baterista e ex-baixista, associados ao nosso antigo empresário, tentaram se apoderar do nome da banda e iniciaram as atividades no início de 2013. Eu e o Cacá ficamos diante de um dilema: corríamos o risco que ter duas bandas com o mesmo nome. A avaliação que fazíamos era que o projeto deles não iria durar muito, por ser, ao nosso ver, musicalmente muito ruim. Neste ponto estávamos corretos, uma vez que eles acabaram encerrando as suas atividades ainda em 2014. Assim, nós decidimos criar uma “identidade secreta” para darmos continuidade aos nossos trabalhos musicais: nasceu assim O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos. Sim, a “identidade secreta” dos Garotos Podres. Lançamos nosso álbum, Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo, em outubro de 2014. Começamos a fazer nossos primeiros shows utilizando este batismo e paulatinamente fomos fazendo a “transição” para começarmos a utilizar de volta o nome Garotos Podres. No final de 2017, Michel Stamatopoulos anunciou oficialmente o encerramento das atividades do projeto musical deles. A partir de então assumimos a nossa verdadeira identidade secreta. Todos os serviços de inteligência do decadente Ocidente capitalista ficaram estupefatos diante do fato de descobrirem que o “mui exelente e temível” Mao, dos Garotos Podres, e o “mui excelente e temível” Mao, de O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, eram exatamente a mesma pessoa! Hahahahaha! Enganamos todos eles!

Vocês virão para Curitiba neste carnaval, para tocar em um festival voltado especificamente ao cenário psychobilly e rockabilly. É um público para o qual vocês já costumavam tocar anteriormente? Qual a expectativa para este show no Psycho Carnival 2019?

Conhecemos o pessoal das bandas de psychobilly e rockabilly de Curitiba e já tivemos o privilégio de tocarmos juntos algumas vezes. Estamos ansiosos de encontrar não apenas os pessoal destas bandas, mas principalmente a galera que sempre vai em nossos shows em Curitiba!

Em 2018, para comemorar o retorno dos verdadeiros Garotos Podres, vocês lançaram o compacto Canções de Resistência, que contém duas faixas: “Grândola (Vila Morena)” e “Aos Fuzilados da CSN”. Como estão os planos futuros da banda. Pretendem lançar logo um álbum inteiro inédito?

Em 25 de abril colocamos a música e o clipe de “Grandola, Vila Morena” nas redes sociais. No Primeiro de Maio, lançamos uma nova versão de “Aos Fuzilados da CSN” e também o respectivo clipe. Estas duas simbólicas músicas marcaram o retorno dos Garotos Podres, através deste compacto digital intitulado Canções de Resistência. Creio que atualmente ocorreram significativas mudanças no que diz respeito ao lançamento de novos produtos musicais. É o fim do CD enquanto mídia de divulgação musical! Entretanto, acreditamos que as plataformas digitais devam substituir em parte o CD. Neste sentido, pensamos ser mais proveitoso e agil disponibilizar gratuitamente novas músicas, a partir de novas gravações. Pretendemos começar a lançar vários singles ao invés de álbuns.

Qual a mensagem que você deixaria para o pessoal que, como você, continua lutando contra essa onda de conservadorismo fazendo arte de um modo geral?

Acho que a emergência do fascismo cinde a humanidade em duas alas irreconciliáveis. De um lado está a barbárie fascista e de outro, oposto, todos aqueles defendem a humanidade. Não é necessário que você seja um radical líder revolucionário para se opor ao fascismo. Se você é contra o racismo, contra a opressão, contra os mais desfavorecidos; se coloca-se ao lado dos trabalhadores humildes; se é contra as injustiças desse mundo e se põe a favor da humanidade… Você é meu camarada!

Music

Sepultura

Em entrevista exclusiva, Andreas Kisser fala sobre o ano da banda, a gravação do novo álbum, o Rock In Rio e a paixão por motocicletas

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Texto e entrevista por Abonico R. Smith

Foto: Rafael Mendes/Divulgação

O mês de abril será intenso para o Sepultura. Serão seis datas em países que formavam parte da extinta União Soviética. Três shows iniciais na Ucrânia, mais um na Rússia (em uma cidade menor, por onde a primeira parte da turnê internacional do álbum Machine Messiah, que já esteve antes em Moscou e são Petesburgo), outro no Cazaquistão e outro no Quirguistão. Na “República de Borat”, então, será a primeira vez do quarteto brasileiro em ação. Logo depois, haverá uma pequena esticada para o Oriente Médio, com passagens por Líbano e Emirados Árabes Unidos.

Este calendário especial, entretanto, é só começo de um ano agitado para Andreas Kisser, Paulo Jr, Derrick Green e Eloy Casagrande. Para agosto estão marcadas as sessões de gravação em estúdios do novo disco da banda. Antes disso, muitos rascunhos e reuniões para as primeiras definições quanto ao repertório. Logo depois, ensaios para a noite do dia 4 de outubro, quando a banda abre os trabalhos do palco Mundo no Rock In Rio, em uma das noites mais aguardadas pelos fãs do heavy metal. Fechando, mais algumas datas que deverão ser marcadas o decorrer da temporada. E, como aquecimento para a maratona, dois shows agora em fevereiro: dia 2 no balneário de Iguape, no estado de São Paulo; e 9 em Curitiba, no Curitiba Motorcycles, evento que reunirá amantes do universo dos roncos dos motores sobre duas rodas, além de shows de grandes bandas da cidade, como Motorocker, Secret Society, Hillbilly Rawhide e Didley Duo (mais informações aqui)

Para carregar as baterias, o guitarrista Andreas Kisser partiu para Los Angeles para passar alguns dias de férias com a família e, de quebra, visitar uma feira de música realizada na Califórnia no fim de janeiro. Horas antes de embarcar, ele atendeu ao telefone para conversar rapidamente com o Mondo Bacana e antecipar um pouco do que está por vir.

Já dá para adiantar algo sobre o próximo álbum? Existe alguma direção encaminhada? Conceito, nome?

Vamos gravar em agosto. Enquanto isso temos algumas demos feitas a partir de ideias iniciais. Fizemos recentemente obras temáticas com influências de livro ou filme, mas acho que mais importante do que isso agora é ir coletando que estamos vendo pelo mundo. A cada nova turnê visitamos países que onde nunca havíamos tocado antes, como, por exemplo, o Cazaquistão agora. Destas observações saem coisas importantes que acabam sendo transformadas em música depois. Machine Messiah surgiu disso, da dependência cada vez maior que as pessoas têm da tecnologia.

Falando sobre o Brasil e sobre o binarismo zero um da tecnologia, de que forma você vê toda esta polarização que domina o país já há algum tempo. Parece que tudo se transformou em binário por aqui: ou é azul para meninos ou rosa para meninas, ou PT ou PSDB (e agora o PSL no lugar)…

Já rodamos muito pelo Brasil e te digo isso não é uma cultura nacional recente, não. Sempre foi assim, não vejo como algo diferente de uns tempos para cá. Este discurso não se tornou diferente nos últimos anos. Só que não podemos nos esquecer que tudo vem sendo muita ideologia. Precisa ser mais realista. Nosso país é algo bem maior do que qualquer divisão. Tomando como exemplo a imigração: o Brasil sempre recebeu os estrangeiros de braços abertos. Minha família, por parte de avó, veio da Eslovênia, por exemplo. Assim como também veio gente de outros países para construir uma nova vida no Brasil: japoneses, italianos, alemães. Entretanto, existem e existirão pessoas que pensam diferente da gente. E democracia é isso, é o debate de ideias.

Como é o processo de criação do Sepultura?

Eu vou gravando algumas ideias iniciais e o Eloi vai preparando algo focado na parte rítmica. Depois disso o Paulo segue com algumas sugestões. Por fim, Eu e o Derrick sentamos e pensamos nas letras. Passadas estas fases nos reunimos os quatro e arranjamos as músicas todos juntos.

Nas últimas edições do Rock in Rio vocês vem sendo presença constante na programação, inclusive fazendo parcerias inusitadas com artistas como Zé Ramalho e Les Tambours du Bronx…

É, o Rock In Rio é um show único, uma oportunidade de apresentar algo novo e diferente. Como gravaremos o disco em agosto e tocaremos no festival no dia 4 de outubro, com certeza deveremos apresentar em primeira mão algo do disco novo. Pelo menos uma música inédita deverá presente no set. E esta será a noite do metal também. Iron Maiden, Scorpions, Megadeth, Slayer, Anthrax, Nervosa, Torture Squad, Claustrofobia e o vocalista do Testament também se apresentação. Muitos ídolos, mas há também novos nomes do gênero. Eu me lembro até hoje de 1991, quando o Rock In Rio abriu espaço para o Sepultura. A gente havia acabado de gravar o álbum Arise e ali tocamos “Orgasmatron” pela primeira vez. Na mesma noite testavan Guns N’Roses, Judas Priest, Queensrÿche, Lobão e o mesmo Megadeth que voltaá a tocar com a gente agora.

Este encontro de gerações também vem acontecendo dentro do próprio Sepultura desde a entrada do Eloy na bateria, em 2012. Ele nasceu em janeiro de 1991, justamente seis dias depois do show do Sepultura no Rock In Rio 2. Como é o entrosamento de veteranos dentro da banda, como você e o Paulo, com alguém que nasceu quando vocês começaram a fazer sucesso no exterior com os álbum Beneath The Remains (1989) e Arise (1991)?

O Eloy tem uma característica marcante: ele começou bem cedo, muito novinho mesmo. Com 18 anos já estava gravando disco com o André Matos. Depois passou pelo Gloria. Trilhou seu próprio caminho, passando por diferentes estilos, participando de concursos mundiais. Tem técnica, tem groove. Acho o Eloy um cara muito profissional, passional e extremamente organizado. Para mim, ele talvez seja na atualidade o melhor baterista do mundo. E não impressiona só a mim não. Já deixou de boca aberta gos bateristas do Metallica e do Slayer também.

Falando no metal como um gênero extenso, em The Mediator Between The Head And Hands Must Be The Heart (2013) vocês foram produzidos por Ross Robinson. Como é trabalhar com ele?

Já havíamos feito o Roots. Então foi muito legal reencontrá-lo em seu estúdio em Venice Beach. O curioso é que ainda estão lá muitos equipamentos que nós usamos no Rootslá em 1995. Sua metodologia de trabalho é intensa e orgânica. Sem falar que é um cara espiritual e de grande técnica de estúdio. Afinal, o cara participou de toda a história do nü metal, gravando discos com Korn, Slipknot, Machine Head, Limp Bizkit… Fez um álbum com o Cure também, o que é muito interessante.

Quem produzirá este novo trabalho?

Vamos fazer com o mesmo cara que produziu o Machine Messiah, Jens Bogren. De novo nós vamos para o estúdio dele, que fica na Suécia.

Aliás, é uma diferença climática enorme entre gravar em Venice Beach, uma praia californiana, e gravar no interior da Suécia. Se bem que quando vocês estiverem lá agora em agosto será ainda verão no Hemisfério Norte. Portanto não deve fazer tão frio quanto o habitual no inverno.

De fato! Na época da gravação com certeza o clima estará mais ameno. Eu já peguei inverno brutal na Suécia. E eu não gosto disso… (risos)

Em Curitiba, o Sepultura tocará numa festa qie promoverá um grande encontro entre apaixonados por motocicletas. Qual é sua relação pessoal com este universo?

Tinha vários pôsteres de Cb 400 na parede do meu quarto quando era moleque. Só que minha mãe nunca me deixou andar de moto, o que eu agradeço muito a ela. Sempre fui um grande apreciador tanto da estética quanto das competições esportivas mas poderia ter me quebrado muito. Falo porque só quebrei o braço uma vez e isso foi quando estava em um jet ski. Tinha aquela falsa impressão de segurança por estar sobre a água… e aconteceu isso!